sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Ricardo Castro Ferreira























(O regresso da forma, 2013)

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Miodrag Pavlovic

Questionário da insónia



Quem esgaravata no buraco da fechadura?
Quem constrói campanários debaixo da minha janela?
Quem chora o destino fatal do herói?
Quem deixa as ovelhas fora do redil?
Quem conduz os anões às terras de pasto?
Quem atirou as bonecas do Rei para dentro do caixão?
Quem ofereceu o despertador ao morcego?
Responde!
Uma noite breve celebra a grande noite.
Inverno. Na pensão toda a gente tem pressa.
O mensageiro dentro da armadura tropeçou e caiu.
Quem me indicará o caminho amanhã?
Quem me fará o almoço e entregará uma carta?
Quem espanta-espíritos por cima da minha cama
e chama o médico?
Ou será que convoca os peregrinos como testemunhas?
Quem lança fogo à grande cerca de lenha?
A madrugada serpenteia já sob a minha cabeceira.
Quem enviou o convite urgente para o sofrimento?
E esse convite foi-me endereçado a mim porquê?



(Versão minha, revista por Ricardo Castro Ferreira, a partir da tradução inglesa de Charles Simic reproduzida em The horse has six legs - An anthology of serbian poetry; organização e tradução de Charles Simic, Graywolf Press, Saint Paul, 1992, p. 79.)

sábado, 14 de setembro de 2013

Stanley Kunitz

Três pequenas parábolas para os meus amigos poetas



1
Certas espécies de sáurios, especialmente os lagartos, são capazes de largar as suas caudas como forma de auto-defesa quando se sentem ameaçadas. O apêndice separado, assumindo uma vida própria e remexendo-se furiosamente, desvia a atenção para si. Tão depressa como o gato-bravo lança as garras sobre a cauda que se agita, prendendo-a na areia para a abocanhar e esmagar, assim o lagarto livre escapa apressadamente. E uma nova cauda começa a crescer no lugar daquela que foi sacrificada.
 
 
2
A larva do escaravelho-tartaruga tem o excelente hábito de recolher os seus excrementos e restos de pele dentro de uma bolsa que carrega às costas quando avança em campo aberto. Se não fosse esse escudo fecal apareceria nu diante dos seus inimigos.
 
 
3
Entre os Beduínos, os poetas-pedintes do deserto são vistos com desprezo por causa da ganância, da habilidade para roubar e da sua venalidade. Nos diversos acampamentos toda a gente sabe que os poemas de louvor podem ser comprados, mesmo pelos piores canalhas, com comida ou dinheiro. Além disso, estes bardos vagabundos são conhecidos por roubarem ideias, versos e mesmo canções completas a outros. Muitas vezes a sua recitação é interrompida pelos gritos dos homens agachados em volta das fogueiras: "Farsantes. Roubastes isso deste e daquele!" Quando o poeta tenta defender-se, recorrendo a testemunhas que comprovem a sua honradez ou, em casos extremos, apelando a Alá, os seus ouvintes apupam-no, gritando, "Kassad, kaddad! Um poeta é um mentiroso."
 
 
 
(Versão minha; original reproduzido em The collected poems, W.W. Norton & Company, Nova Iorque/Londres, 2002, pp. 234-235).

domingo, 8 de setembro de 2013

Mark Strand

Manual da nova poesia

Para Greg Orr e Greg Simon
 
 
1    Se um homem compreende um poema
                    terá problemas.
 
2    Se um homem vive com um poema
                    morrerá sozinho.
 
3    Se um homem vive com dois poemas
                    será infiel a alguém.
 
4     Se um homem concebe um poema
                    terá menos um filho.
 
5    Se um homem concebe dois poemas
                    terá dois filhos a menos.
 
6    Se um homem tem uma coroa na cabeça quando escreve
                    será descoberto.
 
7    Se um homem não usar uma coroa na cabeça enquanto escreve
                    não enganará ninguém a não ser ele mesmo.
 
8    Se um homem fica furioso num poema
                    será desprezado pelos homens.
 
9    Se um homem continuar furioso num poema
                    será desprezado pelas mulheres.
 
10   Se um homem denunciar publicamente a poesia
                    os seus sapatos ficarão cheios de urina.
 
11   Se um homem desiste da poesia a favor do poder
                    terá muito poder.
 
12   Se um homem se envaidecer por causa dos seus poemas
                    será amado pelos tolos.
 
13   Se um homem se envaidecer por causa dos seus poemas e amar os tolos
                    não escreverá mais.
 
14   Se um homem pede atenção por causa dos seus poemas
                    será como um burro ao luar.
 
15   Se um homem escreve um poema e elogia o poema de um companheiro
                   terá uma amante esplendorosa.
 
16   Se um homem escreve um poema e elogia exageradamente um poema
                  de um companheiro
                  afugentará a sua amante.
 
17   Se um homem reivindica o poema de outro
                  o seu coração ficará com o dobro do tamanho.
 
18   Se um homem deixar os seus poemas ficarem nus
                 terá medo da morte.
 
19   Se um homem tem medo da morte
                 será salvo pelos seus poemas.
 
20   Se um homem não tem medo da morte
                poderá, ou não, ser salvo pelos seus poemas.
 
21   Se um homem termina um poema
                banhar-se-á na esteira vazia da sua paixão
                e será beijado pela página em branco.
 
 
 
(Versão minha a partir do original - reproduzido em New selected poems,Alfred A. Knopf, Nova Iorque, 2009, pp. 43-44 - e da tradução castelhana de Eduardo Chirinos reproduzida em Sólo uma canción, Pre-Textos, Valência, pp. 27-31).