quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Mary Oliver

Tolice? Não, não é



Às vezes passo um dia inteiro a tentar contar as folhas de uma única árvore. Para o fazer tenho de trepar ramo após ramo e de tomar nota dos números num pequeno caderno. Pelo que, do ponto de vista deles, suponho que seja razoável que os meus amigos digam: que tolice! Lá está ela de novo com a cabeça nas nuvens.

Mas não é assim. Claro que há um momento em que tenho de desistir, mas nessa altura já eu estou meio enlouquecida com tal milagre - a abundância das folhas, a quietude dos ramos, o fracasso dos meus intentos. É quando dou por mim a rugir às gargalhadas, cheia de glória terrestre, neste lugar importante e delicioso.



(Versão minha; original reproduzido em A thousand mornings, Peguin, Nova Iorque, 2013, p. 5).

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Mary Oliver

O jornal da manhã



Dedica-te à leitura de um jornal diário (a edição da manhã
          é a melhor
porque à noite ficas pelo menos com a certeza
          de que viveste mais um dia)
e deixa que os desastres, as inacreditáveis
          e no entanto aprovadas decisões,
se infiltrem.

Não preciso de nomear os países,
          o nosso entre eles.

O que nos impede de tombar, os nossos rostos
          por terra; cheios de vergonha, de vergonha?



(Versão minha; original reproduzido em A thousand mornings, Peguin, Nova Iorque, 2013, p. 63).

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Mary Oliver

O homem que tem muitas respostas



O homem que tem muitas respostas
é muitas vezes encontrado
nos teatros da informação
a oferecer, amavelmente,
as suas muito profundas descobertas.

Enquanto que o homem que só tem perguntas,
para se confortar a si mesmo, faz música.




(Versão minha; original reproduzido em A thousand mornings, Peguin, Nova Iorque, 2013, p. 69)

Mary Oliver

Tomei a decisão



Tomei a decisão de arranjar uma casa para me instalar algures nas montanhas, lá em cima, onde se pode aprender a viver em paz no meio do frio e do silêncio. Diz-se que num sítio desses certas revelações podem acontecer. Que aquilo que o espírito procura pode eventualmente ser sentido, se não exactamente compreendido. Sem pressas, sem dúvida. E não falo de lazer.
 
Claro que ao mesmo tempo tenciono ficar exactamente onde estou.
 
Estão a ver aonde quero chegar?
 
 
 
(Versão minha; original reproduzido em A thousand mornings, Peguin, Nova Iorque, 2013, p. 45).
  

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Antón García

O nada e tu

(Pavese no Hotel Roma,
26 de agosto de 1950)

A Pablo Antón Marín Estrada
 
 
Quando por ti vier a morte
chegará pela tua mão, cega
virá, conduzindo os seus passos
uma dor antiga e ténue.
Será como vestir em festa
um traje novo de domingo
que jamais poderás tirar.
Verás um rosto ao espelho,
a sombra obscura da morte,
e não saberás quem é.
Anuncia-te um tempo de derrota.
Para que perguntas, não chames,
que ninguém haverá que te responda.
Sairás de manhã tão cedo
que não escutarás a voz da alba
que grita, que te chama e suplica,
que chora por ti e te quer para si.
 
Nada haverá entre o nada e tu.
 
 
 
(Versão minha a partir do original asturiano e da tradução castelhana do próprio autor reproduzidas em La mirada aliella / La mirada atenta - Antología 1983-2006; edição bilingue; introdução de Araceli Iravedra; Ediciones Trea, Gijón, 2011, pp. 104-105).


domingo, 13 de outubro de 2013

Stanley Kunitz

Reflexos, reflexões



Há uns anos cheguei à compreensão de que a força mais pungente de todas as tensões líricas resiste à consciência de que enquanto vivemos já estamos a morrer. Aceitarmos este tipo de conhecimento e, apesar dele, sermos capazes de nos mantermos íntegros e dotados de compaixão - esta é a razão última do trabalho em arte.
 
 
No âmago da existência de cada um de nós existe um fundo de energia que nada tem a ver com a identidade pessoal, mas que deriva do ser e funde-se com a natureza e o universo. O homem desempenha apenas um pequeno papel em todo o maravilhoso espectáculo da criação.
 
 
Os poemas seriam fáceis se as nossas mentes não estivessem tão atafulhadas com o ruído dos dias. A tarefa é conseguir chegar à outra margem, onde podemos escutar os ritmos profundos que nos ligam às estrelas e às correntes.
 
 
Eu insisto nas minhas tentativas de dominar a linguagem, de modo a não ter de mentir. E continuo a ler os mestres, porque eles contaminam-me com as possibilidades do humano.
 
 
Os poemas que escrevemos nunca nos satisfazem, uma vez que, mesmo nos casos mais felizes, não passam de um eco enfraquecido de uma canção que talvez tenha sido ouvida uma ou duas vezes no tempo de uma vida e que continuamente tentamos relembrar.
 
 
Eu gosto de pensar que é o amor do poeta pelo particular, pelas coisas deste mundo, que o conduz ao universal.
 
 
Uma coisa mal feita desmorona-se. Uma obra de arte defeituosa não demora mais do que uns anos a perder a maior parte da sua energia. Para o dizer de maneira simples, a conservação da energia é a função da forma.
 
 
Fomos todos expulsos do Jardim, mas os que mais sofrem no exílio são aqueles a quem ainda é permitido sonhar com a perfeição.
 
 
Por vezes sinto-me envergonhado por ter escrito tão poucos poemas sobre temas políticos, sobre as causas que me interessam. Mas então lembro a mim próprio que decidir viver como poeta no contexto do moderno super-estado é em si mesma uma acção política.
 
 
Há sempre uma canção que subjaz sob a superfície dos meus poemas. A luta entre o encantamento e o sentido. O encantamento quer dominar. Ele não precisa realmente de uma língua: tudo o que precisa é de sons. O sentido tem de lutar para se afirmar a si mesmo, para se engastar no ritmo e tornar-se inseparável dele.
 
 
Aos oitenta e sete anos Miró disse a um entrevistador que se sentia mais próximo dos "jovens - de todas as novas gerações". Da infância à maturidade, meditou ele, "sempre vivi uma vida muito intensa, quase como um monge, uma vida austera. Foram-se soltando as pequenas folhas, flutuaram, dispersaram-se a si mesmas. Mas o tronco da árvore e os ramos mantiveram-se sólidos."
 
 
Sim, admitiu ele, o seu estilo mudou - mudou várias vezes, de facto, ao longo da sua vida. Mas estas mudanças não implicaram uma rejeição do que fizera antes.
 
 
Na minha idade, depois de ultrapassares - ou de deploravelmente julgares que ultrapassaste - as ansiedades e complicações impertinentes da juventude, com que te deves confrontar se não com as questões simples e essenciais? Eu nunca me canso do canto dos pássaros e do céu e das estações. Quero escrever poemas que sejam verdadeiros, luminosos, profundos, sóbrios. Sonho com uma arte tão transparente que possas olhar através dela e ver o mundo.



(Versão minha; original reproduzido em The collected poems; W.W. Norton & Company, Nova Iorque/Londres, 2002, pp. 13-14).

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Matija Beckovic

Ninguém voltará a escrever poesia



Ninguém voltará a escrever poesia nunca mais,
Os temas imortais abandonarão os poemas
Descontentes com a forma como foram entendidos e versificados.
Tudo o que alguma vez foi assunto da poesia
Rebelar-se-á contra ela e a sua cobardia.
Os objectos dirão eles mesmos aquilo que os poetas não tiveram a coragem de dizer.
O mar - esse  tópico antigo dos poetas - abandonará para sempre a poesia
E regressará à sua sepultura onde poderá crescer de novo.
O sol - tornado ridículo,
O céu estrelado - tranformado num lugar-comum,
Renunciarão à poesia.
As rosas insistirão na sua cor
E não aceitarão a volubilidade dos poetas.
A palavra liberdade fugirá e recuperará o seu significado.
Os poetas não terão uma língua com a qual possam cantar.
Não haverá nenhuma relação entre a poesia e os poetas,
E por isso os poemas atacarão os poetas
Exigindo-lhes que cumpram as promessas que fizeram.
Os poetas negarão o que antes afirmaram,
Mas tudo o que imaginaram e profetizaram acabará por aprisioná-los.
A poesia exigirá as suas vidas
Para que as metáforas que criaram sejam verdadeiras e irrefutáveis.
Nas futuras gerações
Ninguém, seja a que preço for, quererá ser poeta.
Os poetas do porvir encontrarão maneiras melhores de passar o tempo.
Os homens livres não consentirão que se escrevam poemas para que se seja poeta -
E no entanto não existe outro modo de ser poeta.
Uma árvore - outrora símbolo poético -
Lamentará na praça o seu passado tenebroso
E ninguém alguma vez poderá igualar o seu lamento
Pois ela conhece-se melhor do que ninguém.
Os verdadeiros poetas lutarão contra a poesia
E por todo o lado defenderão a mesma ideia:
Em nome do respeito por si próprios enquanto verdadeiros poetas
Nenhum deles voltará a escrever poesia munca mais.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Charles Simic reproduzida em The horse has six legs - An anthology of serbian poetry; organização e tradução de Charles Simic, Graywolf Press, Saint Paul, 1992, p 177.)