quarta-feira, 22 de outubro de 2014

May Swenson

A verdade impõe-se



Incapaz de ser honesta como pessoa
quero ser honesta na poesia.
Ao falar contigo, olhos nos olhos, minto
porque não suporto a ideia
de expor a verdade.
Dizer - tudo - seria
como tirar a roupa.
Perderia os meus bens mais preciosos:
distância, segredo, intimidade.
Ficaria exposta. E tu acabarias
por possuir-me. Seria uma rendição
total (a ti, olhos nos olhos).
Irias observar-me demasiadamente de perto.
Dar-me-ias a tua mão.
Todos os teus olhos andariam à minha volta.
Depois disso andaria vestida
com as tuas abelhas cheias, irritantes, insaciáveis.
Que sejas um ou dois ou muitos
é igual. Na verdade, sinto-me como
se um par de olhos fosse um enxame inteiro.
Por isso minto (olhos nos olhos)
deixando sem voz o coração das coisas
ou oferecendo um espantalho
no meu lugar.

Temos de ser honestos em algum sítio. Eu quero
ser honesta na poesia.
Com a palavra escrita.
Onde possa dizer e riscar
e dizer de novo e dizer em torno de
e dizer por cima de e dizer entrelinhas
e dizer com símbolos, em enigmas,
com duplo sentido, debaixo das máscaras
de qualquer rosto, na pele
de todas as criaturas.
E na minha própria pele, nua.
Sinto-me feliz e desejo ficar de facto nua
ternamente na poesia,
impor a verdade
no poema
que, quando é escrito, se for real
e não um espantalho, diz-me
e depois diz-te (tudo ou nada, olhos nos olhos)
o meu ser inteiro,
a verdade.



(Versão minha a partir do original e da tradução castelhana de Jeannette L. Clariond incluída em La escuela de Wallace Stevens - Un perfil de la poesía estadounidense contemporánea; organização de Harold Bloom, Vaso Roto, Madrid, 2011, pp. 154-157).

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