domingo, 28 de setembro de 2014

Marco Antonio Campos

Os poetas modernos



E o que ficou das experimentações,
da "grande estreia da modernidade",
do "confronto com a página em branco",
da pirueta rítmica e do
contra-ângulo da palavra,
de ultraístas e pássaros concretos,
de surrealizantes com sonhos de
náufrago em vez de terra firme,
quantos versos te revelaram um mundo,
quantos versos ficaram no teu coração,
diz-me, quantos versos ficaram no teu coração.



(Versão minha; original incluído em Juegos de Manos - Antología de la poesía hispanoamericana de mitad del siglo XX; organização de Ángel Esteban e Ana GAllego Cuiñas, Visor, Madrid, 2008, p. 888).

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Jacobo Rauskin

A pastagem



Há poucas árvores,
a floresta foi vendida para o Brasil,
os macacos foram para Marselha
e os papagaios para Nápoles.
Resta-nos a pastagem
à direita e à esquerda
da utopia rodoviária sem valetas.
E resta-nos a chuva.
Ela, desde Noé, é nossa.



(Versão minha; original incluído em La poesía del siglo XX en Paraguay; organização de Mar Langa, Visor, Madrid, 2014, p. 428).

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

José Emilio Pacheco

Crítica da poesia



Eis aqui a chuva igual e as suas ervas daninhas
O sal, o mar desfeito...
Apaga-se o anterior e logo se escreve:
Este mar convexo, os seus enraízados
e migratórios costumes,
já serviu algumas vezes para se fazer mil poemas.
(A cadela infecta, a sarnosa poesia,
variedade risível da neurose,
preço que alguns homens pagam
por não saber viver.
A doce, eterna, luminosa poesia.)

Talvez não seja agora o momento:
a nossa época
deixou-nos a falar sozinhos.



(Versão minha; original reproduzido em Juegos de manos - Antología de la poesía hispanoamericana de mitad del siglo XX: organização de Ángel Esteban e Ana Gallego Cuiñas, Visor, Madrid, 2008, p. 838).

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Wislawa Szymborska

Correntes



Um dia sufocante, a casota de um cão e o cão acorrentado.
Uns passos mais à frente um pequeno bebedouro cheio de água.
Porém a corrente é demasiado curta e o cão não chega lá.
Acrescentemos à imagem mais um detalhe:
as nossas muito mais compridas
e menos visíveis correntes
graças às quais podemos passar tranquilamente ao largo.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Abel A. Murcia Soriano e Gerardo Beltrán reproduzida em Hasta aquí, Bartleby Editores, Madrid, 2014, p. 21).

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Julia Hartwig

O manuscrito



Na casa onde nasceu Beethoven
pode ver-se, exposto numa vitrine, um texto do compositor escrito à mão
cheio de rasuras e correções.
É a carta em que pede a um poderoso príncipe que aceite
a sinfonia que acaba de concluir.
Nenhuma composição deste génio
mostra no papel marcas de um esforço idêntico ao que transparece nesta carta,
dirigida ao soberano de um pequeno Estado de que hoje já ninguém se lembra.


(Bona, junho de 2000)



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Antonio Benítez Burraco e Anna Sobieska, reproduzida em Dualidad - Antología poética, Vaso Roto Ediciones, Madrid, 2013, p. 65).

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Heberto Padilla

Poética



Diz a verdade.
Diz, ao menos, a tua verdade.
E depois
deixa que aconteça qualquer coisa:
que te rasguem a página amada,
que te derrubem a porta à pedrada,
que as gentes
se amontoem diante do teu corpo
como se fosses
um prodígio ou um morto.



(Versão minha; poema incluído em Juegos de Manos - Antología de la poesía hispanoamericana de mitad del siglo XX; organização de Ángel Esteban e Ana Gallego Cuiñas, Visor, Madrid, 2008, p. 720).