segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Karmelo C. Iribarren

Os dias normais



Chegam
e vão-se
sem deixar rasto,

                    e tu ficas a vê-los
a afastarem-se sobre os telhados
- e com eles, os anos -
e apenas sentes nada
ou sentes algo, vago,
que não sabes
decifrar.

                  São os dias
normais, os de sempre,
os que parece que passam
à distância,

os assassinos
do amor.



(Versão minha; original reproduzido em La piel de la vida, Baile del Sol, 2013, p. 27).

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Heberto Padilla

Às vezes é necessário


Às vezes é necessário e obrigatório
que um homem morra por um povo,
mas jamais há-de morrer todo um povo
por um só homem.

Isto não o escreveu Heberto Padilla, cubano,
mas sim Salvador Espriu, catalão.
O que acontece é que Padilla sabe-o de cor,
gosta de repeti-lo,
juntou-lhe música
e agora cantam-no em coro os seus amigos.
E cantam-no a toda a hora,
tal como Malcolm Lowry toca ukelele.



(Versão minha; original reproduzido em Juegos de Manos - Antología de la poesía hispanoamericana de mitad del siglo XX; organização de Ángel Esteban e Ana Gallego Cuiñas, Madrid, 2008, p. 721).

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

James Crews

Partículas de Deus



Hoje quase consegui ouvir as suas suaves colisões
em pleno ar frio, mas quando vim para dentro,

sem as camadas de roupa e sozinho frente à lareira,
senti-as a flutuar direitas a mim como sementes

vindas da sua fonte longínqua, tendo atravessado
milhas de oceanos e campos desconhecidos de quase todos

apenas para manter o meu corpo estabilizado no seu lugar
na terra. Chamem-lhes Deus se quiserem,

a estes mensageiros que trazem sólidas provas
daquilo que em tempos fui e onde estive -

preenchendo-me com pequenas porções de poeira estelar
e pele de baleia e penas do enchimento da almofada na qual

Einstein dormiu uma vez, aconchegado na sua vivenda
de New Jersey, sonhando com coisas que, sei, eu nunca verei.



(Versão minha; original aqui)