sexta-feira, 3 de agosto de 2018

John Foy

Bosque



Peguei no cão e fomos dar uma volta
pelo auditório do bosque,
mas não para fugir das coisas.
É um hábito nosso, só isso,
uma coisa que fazemos nos dias de verão
- e há tanto para escutar.
Uma brisa suave corria, agitava
três ramos de um vidoeiro sobre o lago.
Um corvo esforçava-se por subir
na vida negra que é a sua,
e um réptil castanho rastejou
metodicamente sobre um tronco castanho
sem que haja registo de que tal feito
tenha sido compreendido por alguém.
Um pica-pau trabalhava a sério
- um buraco bem fundo, a julgar pelo som -
numa área de árvores mortas, lá para o alto.
E um gaio, ainda mais para cima,
lamentava-se de alguma perfídia
que podia ou não ter suportado
pois, como se sabe, eles são quase todos mentirosos.
Quanto mais nos embrenhávamos, maior
o sossego, ao ponto de só o ranger de um ramo
quebrar o silêncio que nos envolvia.
O cão ficou quieto e olhou para mim,
o bosque dominado já então pela obscuridade.
Bastante mais tarde, no alpendre, à noite,
ouvi o mocho, uma coisa inquietante.
O cão, junto a mim, ouviu-o também,
um chamamento vindo dos lugares onde estivéramos,
onde não voltaríamos a estar.



(Versão minha; original aqui).

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