quarta-feira, 8 de maio de 2019

James Schuyler

Quinta-feira



Uma madrugada estival irrompe pela cidade.
Irrompe? Não, é mais como se a noite
- a "escuridão", dizemos nós - escorresse
pelos canos e deixasse surgir a transparência.
Podes ver: edifícios, cães, pessoas,
cimento, etc. A cidade de verão onde,
suponho, alguém será feliz. Alguém.

Noutra tarde cheia de luz indo de táxi
pela Quinta Avenida, passando o parque vi
todas as folhas de todas as árvores
e contei-as: não uma a uma, mas
aos montes. Não me lembro exactamente de quantas
eram: sei que eram bastantes. Oh sim, mais
do que as que se podem contar. Mas não eu.
Eu contei-as, monte por monte.

Como já disse, é verão: não
é a minha estação preferida. Gosto mais da primavera,
quando as folhas brotam e se desfraldam,
ou do outono, quando mudam de cor
e caem. Ou do inverno quando
os carregadores das folhas se descobrem nus,
flectindo os bíceps como culturalistas
a exibir os seus encantos.

Depois há uma quinta estação,
chamada - bem, esse é o meu segredo.
Sim, o meu segredo, e vou
guardá-lo para mim. Sim, o meu segredo.



(Versão minha a partir do original reproduzido em Collected poems, Farrar Straus Giroux, Nova Iorque, 1993, pp. 311-312).

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