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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Blaga Dimitrova

Futuro radiante



- Pássaro? - perguntaram as crianças. - Mas o que é isso?
- Algo polícromo, com penas, alado.
Muito belo, etéreo.
Que voa até às nuvens.
E canta como uma campainha cristalina.
- Voa? - exclamaram as crianças. - Sem pilhas,
por si só?
O seu canto enfeitiça?
Todo penas de cores deslumbrantes?
E não nos ataca, não mata?
Não! Fantasias!
Não houve, nem haverá alguma vez
um ser assim, de conto de fadas!


1997



(versão minha a partir da tradução espanhola de Zhivka Baltadzhieva reproduzida em Espacios, organização e prólogo da tradutora, La Poesia, señor hidalgo, Barcelona, 2006, p. 41. Com este poema assinalam-se os dois anos de existência deste blogue).

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Blaga Dimitrova





A árvore perdoa ao vento
que lhe saqueia as folhas
e abraça-o com os ramos.
A ave perdoa à nuvem
que engole o sol
e saúda-a com as asas.
A onda perdoa à pedra
que lhe impede o salto
e envolve-a em carícias.
Só o homem não perdoa
ao ar, à água, à pedra,
a nenhuma criatura terrestre.
Persegue tudo com crueldade.

E está só no universo.




1994



(versão minha, a partir da tradução para castelhano de Zhivka Baltadzhieva, reproduzida em Espacios, tradução e prólogo de Z. Baltadzhieva, La Poesia, señor hidalgo, Barcelona, 2006, p. 113).

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Blaga Dimitrova

A linguagem das aves


A linguagem das aves é o canto.
E o canto não sabe mentir.
Revela a dor mais oculta,
os arrebatamentos mais obscuros do amor.
Ao longe o canto sublinha já
a identidade exacta da ave:
rouxinol, papa-figos, merlo, tentilhão.
Quanto pode ser dito
à velocidade de trezentos sons por segundo?
Não há uma linguagem mais intensa,
mais livre, mais natural,
mais íntima, até à desolação,
que a gorjeada linguagem das aves.
Escutam-se umas às outras sem nunca se interromperem.
Não conhecem o mal-entendido,
e se o houver será migratório.
Não praticam a ambiguidade, a insinuação,
nem entendem erroneamente a súplica,
não silenciam a confissão.
Tudo emana claridade.
É por isso que o teu verso busca
aliterações, acordes de cordas, quiasmos,
pausas, ecos internos, refrães, síncopes?
Mas como se alcança a música
da reciprocidade consonante das aves?


(1987)


(versão minha a partir da tradução do búlgaro para o espanhol de Zhivka Baltadzieva, reproduzida em Espacios, edição bilingue, tradução e prólogo de Z. Baltadzieva, La Poesía, senõr hidalgo, Barcelona, 2006, p. 231).
(Este blogue comemora hoje um ano de existência com a passagem para português de um poema de Blaga Dimitrova, autora do primeiro poema aqui vertido).

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Blaga Dimitrova

Ars Poetica

Escreve cada um dos teus poemas
como se fosse o último.
Nesta era, atomicamente saturada,
carregada com terrorismo,
voando com velocidade supersónica,
a morte chega com uma brusquidão aterrorizadora.
Envia cada uma das tuas palavras
como se fosse a última carta antes da execução,
um apelo gravado no muro de uma prisão.
Não tens o direito de mentir,
nem o de brincar às escondidas.
Não terás simplesmente tempo
para corrigir os teus erros.
Escreve cada um dos teus poemas,
concisamente, impiedosamente,
com sangue - como se fosse o último.



(versão minha a partir da tradução inglesa do original em búlgaro de Ludmilla G. Popova-Wightman, in Poets's Choice, de Edward Hirsch, Harcourt, Orlando, 2006, pp. 29-30.)