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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Cecilia Woloch

Crianças vagarosas em jogo



Todas as crianças ligeiras foram para dentro, chamadas
pelas mães - despachem-se - lavem - as - mãos - queridos
o - jantar - está - a - arrefecer, ai - quando - o - vosso - pai - chegar - a - casa -
e só as crianças vagarosas ficam nos relvados, abrindo
caminhos por entre os pirilampos, produzindo sons doces e breves com as suas bocas, óóós
que brilham e se apagam e brilham. E as suas mães vagarosas e tremeluzentes,
pálidas na penumbra, observam-nas a rodopiar no ar suave,
observam-nas
a ziguezaguear, os braços bem abertos, pensando, Estes são os meus filhos, pensando,
Onde está o jantar deles? Para onde foi o pai deles?




(Versão minha; original reproduzido em Good poems for hard times, selecção e introdução de Garrison Keilor, Viking, Nova Iorque, 2005, p. 252).

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Cecilia Woloch

A picareta



Eu vi-o girar a picareta ao sol
transformando os degraus de cimento em grandes bocados de pedra,
e as pedras em poeira,
e a poeira em terra outra vez.
Devo ter estado muito tempo sentada no intervalo da vedação do comboio
só a observá-lo.
O corpo do meu pai brilhando com o suor,
os seus braços levantando voo como asas negras sobre a cabeça.
Ele estava a converter o quintal numa espécie de terraço
partindo o pequeno declive em duas superfícies planas.
Eu tomei como segura a sua força
apesar de a achar também assustadora.
Vi como ele impelia a picareta de encontro ao ar
e como a atirava com toda a força para baixo,
e assim mudava a forma do mundo,
e mudava de novo a forma do mundo.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).