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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Charles Simic

Charles Simic



Charles Simic é uma frase.
Uma frase tem um princípio e um fim.

Ele é uma frase simples ou composta?
Isso depende das condições do tempo,
Depende das estrelas que estão por cima.

Qual é o assunto da frase?
O assunto é o vosso querido Charles Simic.

Quantos verbos há na frase?
Comer, dormir e foder são alguns dos seus verbos.

Qual é o sentido(1) da frase?
O sentido, meus lindos,
Não se vê ainda qual seja.

E quem está a escrever esta frase desajeitada?
Um chantagista, uma rapariga apaixonada
E um candidato a um emprego.

Terminarão com um ponto final ou um ponto de interrogação?
Terminarão com um ponto de exclamação e um borrão de tinta.



(Versão minha; original reproduzido algures por aqui; (1) Traduzo "object" por sentido, visto que a palavra inglesa pode significar "objecto", ou seja, "coisa", "matéria", mas também "objectivo", "fim", "intenção", bem como, num contexto gramatical (que é explicitamente o do poema), "complemento" (por exemplo, "direct object" será "complemento directo").

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Charles Simic

Guerra



O dedo trémulo de uma mulher
Corre a lista das baixas
Na noite do primeiro nevão.

A casa é fria e a lista é longa.

Todos os nossos nomes estão incluídos.



(Versão minha; original reproduzido algures por aqui).

segunda-feira, 28 de março de 2011

Charles Simic

Um livro cheio de imagens



O meu pai estudava teologia por correspondência
E era a época de exames.
A minha mãe fazia renda. Eu sentava-me sossegado com um livro
Cheio de imagens. Caiu a noite.
As minhas mãos ficaram frias de tocar as caras
De reis e rainhas mortos.

Havia uma gabardine negra
[no quarto de cima
A balouçar no tecto,
Mas o que faria ali?
As grandes agulhas da mãe cruzavam-se velozmente.
Eram negras
Como o interior da minha cabeça nessa altura.

As páginas que virava faziam um som de asas.
"A alma é um pássaro", disse ele uma vez.
No meu livro cheio de imagens
Uma batalha fervilhava: lanças e espadas
Pareciam uma floresta no inverno
Com o meu coração cravado e sangrando nos ramos.



(Versão inédita de António Ladeira; o original pode ser lido aqui).

segunda-feira, 7 de março de 2011

Charles Simic

O quarto branco



O óbvio é difícil
De provar. Muitos preferem
O que se esconde. Eu preferi-o, também.
Escutei as árvores.

Tinham um segredo
Que se preparavam
Para me revelar -
E não o fizeram.

Veio o verão. Cada árvore
Na minha rua tinha a sua própria
Scherezade. As minhas noites
Eram parte das suas loucas

Histórias. Entrávamos
Em casas escuras,
Sempre em mais casas escuras,
Caladas e abandonadas.

Havia alguém de olhos fechados
Nos andares de cima.
O medo disso, e a maravilha,
Tiravam-me o sono.

A verdade é nua e fria,
Disse a mulher
Que vestia sempre de branco.
Não saía do seu quarto.

O sol indicou uma ou duas
Coisas que tinham sobrevivido
Intactas, à longa noite.
As coisas mais simples,

Díficeis na sua evidência.
Não faziam ruído.
Era o género de dia
A que as pessoas chamavam 'perfeito'.

Deuses disfarçando-se
De ganchos negros de cabelo, um espelho pequeno,
Um pente a que faltava um dente?
Não! Não era isso.

Apenas as coisas tais como eram,
Sem pestanejarem, ali deitadas, mudas
Naquela luz branca -
E as árvores à espera da noite.



(Versão inédita de António Ladeira; o original pode ser lido aqui; há, ainda, um pequeno filme de Noush Anand sobre a primeira estrofe do poema, que se pode ver aqui).

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Charles Simic

Feira


Para Hayden Carruth



Se não viste o cão de seis patas,
Não tem importância.
Nós vimos, e ele praticamente só ficava deitado a um canto.
Quanto às pernas extra

As pessoas habituavam-se rapidamente àquilo
E pensavam noutras coisas.
Como, que noite fria e escura
Para se andar na feira.

Depois o dono atirou um pau
E o cão foi apanhá-lo
Nas quatro patas, as outras duas a abanar atrás,
O que fez uma rapariga dar um guincho de riso.

Estava bêbeda tal como o homem
Que teimava em beijar-lhe o pescoço.
O cão apanhou o pau e olhou para nós.
E o espectáculo era aquilo.



(Versão inédita de António Ladeira; o original pode ser lido aqui. Este poema surge na página 53 de Previsão de tempo para utopia e arredores, antologia de Charles Simic, com selecção e tradução da responsabilidade de José Alberto Oliveira, publicada pela Assírio & Alvim em 2002. Mais poemas de Simic em português podem ser lidos aqui e aqui).

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Charles Simic

Hotel Insónia



Gostava do meu buraquinho,
com a janela virada para a parede de tijolo.
Na porta ao lado havia um piano.
Algumas tardes por mês
um velho aleijado vinha tocar
"My Blue Heaven."

Mas havia, normalmente, sossego.
Cada quarto com a sua aranha no seu pesado sobretudo
A apanhar a sua mosca com uma teia
De fumo de cigarro e devaneios.
Tão escuro,
que não podia ver a minha cara no espelho da barba.

Às 5 da manhã o som de pés descalços lá em cima.
O Cigano que lia a sina,
Cujo estabelecimento ficava à esquina,
A urinar depois de uma noite de amor.
Uma vez, também, o som de uma criança a chorar.
Tão próximo estava, pensei
Por um momento, que era eu quem chorava.



(Versão inédita de António Ladeira; o original pode ser lido aqui)

domingo, 24 de janeiro de 2010

Poema popular sérvio (Charles Simic)

Irmãs sem irmão



Duas irmãs sem irmão
Fizeram um de seda para o partilharem -
De seda branca e vermelha.
Para a cintura usaram videira de framboesa,
Os olhos negros, duas pedras preciosas.
Para as sobrancelhas sanguessugas.
Os dentes pequeninos um fio de pérolas.
Alimentaram-no com mel e açúcar
E disseram-lhe: primeiro comemos, depois falamos.



(versão minha da tradução inglesa de Charles Simic deste poema popular sérvio de autoria anónima; esta tradução surge em The Horse Has Six Legs - an anthology of serbian poetry, organização, tradução e introdução de Charles Simic, Graywolf Press, Saint Paul, 1992, p. 11)