"É uma guerra..."
É uma guerra onde não se combate,
caem bombas, e chega,
apanham-te na rua, na frutaria,
nos cinemas, nos supermercados, nos lugares de trabalho,
também em casa: entram pela janela
e explodem-te na cara.
Mesmo se construísses um bunker
cem metros debaixo da terra,
com paredes de aço, com portas de diamante,
mesmo assim as bombas haviam de te alcançar ali.
E as pessoas não vão para os os refúgios,
nem ficam em casa, nem procuram esconder-se,
na verdade fazem todas as coisas com se tudo fosse normal,
saem do trabalho vão ao bar divertem-se
como se tudo fosse normal,
como se tudo fosse como era dantes.
(versão minha a partir do original e da tradução castelhana apresentada em La Poesía del Siglo XX en Italia, seleção de Emilo Coco, Visor, Madrid, 2017, p. 669).
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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018
sábado, 30 de dezembro de 2017
Claudio Damiani
César
César chega pela tarde e senta-se na rua.
Caminha mal porque coxeia,
tem uma pata entorpecida
porque levou uma paulada do seu dono.
Agora não tem dono,
vagueia por aqui e por ali no bairro,
creio que lhe dão de comer
porque não pede nada, senta-se ali
e fica sossegado,
tem uns olhos tão tristes
que, se os olhas, tens vontade de chorar.
Talvez tenha carraças, e assim não lhe tocamos,
mas queríamos acariciá-lo
e apertá-lo contra nós
de tão belo e bom que é,
e queríamos dizer-lhe: César,
não és o único a ter sido abandonado,
também nós o fomos, embora não pareça,
estamos assim todos nós,
e vagueamos por aqui e por ali no bairro,
e sentamo-nos no meio da rua
e quando passa um carro
levantamo-nos lentamente e afastamo-nos,
arrastando a nossa pata entorpecida,
sem protestar, sem dizer nada.
César chega pela tarde e senta-se na rua.
Caminha mal porque coxeia,
tem uma pata entorpecida
porque levou uma paulada do seu dono.
Agora não tem dono,
vagueia por aqui e por ali no bairro,
creio que lhe dão de comer
porque não pede nada, senta-se ali
e fica sossegado,
tem uns olhos tão tristes
que, se os olhas, tens vontade de chorar.
Talvez tenha carraças, e assim não lhe tocamos,
mas queríamos acariciá-lo
e apertá-lo contra nós
de tão belo e bom que é,
e queríamos dizer-lhe: César,
não és o único a ter sido abandonado,
também nós o fomos, embora não pareça,
estamos assim todos nós,
e vagueamos por aqui e por ali no bairro,
e sentamo-nos no meio da rua
e quando passa um carro
levantamo-nos lentamente e afastamo-nos,
arrastando a nossa pata entorpecida,
sem protestar, sem dizer nada.
(versão minha a partir do original e da tradução castelhana apresentada em La Poesía del Siglo XX en Italia, seleção de Emilio Coco, Visor, Madrid, 2017, pp. 670-671).
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