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terça-feira, 17 de maio de 2011

David Ignatow

Ao que chegam as coisas



Não sei qual devo lamentar. Ambos morreram para mim, a minha mulher e
o meu carro. Sinto-me muito em baixo por causa do meu carro, mas também
estou bastante afectado por causa da minha mulher. Sem o meu carro, não
posso sair de casa para evitar a solidão. A minha mulher deu-me dois
filhos, os quais, é claro,
já não viviam connosco, tal como se previa, tal como nós na nossa juventude
deixámos para trás os nossos pais. Com o meu carro, eu podia visitar os meus filhos
quando não estivessem demasiadamente ocupados.

Antes de morrer a minha mulher encorajou-me a encontrar outra mulher. É um conselho
que gostaria de seguir, mas não sem um carro. Sem um carro, não consigo
encontrar-me com outra mulher. É ao que chegam as coisas.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems for hard times, selecção e introdução de Garrison Keilor, Viking, Nova Iorque, 2005, p. 244)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

David Ignatow

Para a minha filha em resposta a uma pergunta



Não vamos morrer,
havemos de encontrar uma solução.
Respiraremos fundo
e teremos cuidado com a comida.
A nossa mente estará concentrada em vivermos.
Nenhum dos dois desaparecerá.
Seremos os primeiros,
nunca nos riremos de nós mesmos
e os teu filhos serão os meus netos.
Nunca nada mudará
a não ser por adição.
Não haverá nunca ninguém como tu
e ninguém nunca como eu.
Nunca ninguém te confundirá
ou me confundirá com outro.
Não seremos nunca esquecidos e ultrapassados
e enterrados sob os nascimentos e as mortes por vir.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems for hard times, selecção e introdução de Garrison Keillor, Viking, Nova Iorque, 2005, p. 13).