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quarta-feira, 16 de maio de 2012

Dritëro Agolli

Coisas simples mas úteis



Um bordão, seja macio, torto ou nodoso,
Terá sempre alguma utilidade para um cego,
É bom para o coxo, exausto pela caminhada,
E benéfico para qualquer um quando atacado pelas hordas.

Um bordão, seja macio, torto ou nodoso,
É valioso para se usar tanto fora como em casa,
Em casa para te defenderes de vizinhos coléricos,
Fora para te precaveres dos cães raivosos e vadios que erram pelos caminhos.

Um bordão pode parecer belo ou feio,
De qualquer modo será útil ainda para outras coisas,
Precisas dele para sacudires o pó das tuas malas,
Para bateres às portas quando não há campainha.

Um bordão é um recurso necessário a um polícia,
É apreciado pelo director de uma prisão cheia de humidade,
Um bordão foi usado pelo apóstolo São Pedro
E uma vez pelo cego Homero privado de uma candeia.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 182).

domingo, 29 de abril de 2012

Dritëro Agolli

Sobre o apelo da poesia



Dizes que escrevi de mais sobre vacas,
E que estraguei demasiados versos com os cereais dos campos.
E então? Tu tens manteiga e leite pela manhã,
Ao jantar há sempre esse pãozinho branco
No teu prato e, além disso, o teu clamor por carne.

Sustentas que perdemos alguma emoção poética
Quando, nos nossos versos, falamos de vacas a toda a hora,
A intensidade de um poema, dizes, não vem das pastagens,
Nasce antes sob a nossa pele - quando uma linha explode
Em palavras, insistes, vindas de alguma reserva sublime.

Escuta, no entanto: no que diz respeito a vacas, eu nunca alcancei
Tudo o que queria, sim, elas merecem muito mais,
Por isso não posso separá-las da minha caneta e das minhas folhas,
As vacas são a minha inspiração, a minha primavera, o meu outono,
E, se pudesse, ensiná-las-ia a escrever poemas.

Tenho a certeza de que fariam melhor do que a maioria dos nossos bardos!



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 181).

terça-feira, 24 de abril de 2012

Dritëro Agolli

A vaca



A vaca rumina o seu alimento no estábulo cheio de forragem,
Eu encosto a cara ao seu flanco enorme
E sinto, vindo do interior das suas profundezas, o calor,
O calor do feno colhido nos campos.
Sobre os seus cornos escuros está suspensa uma lâmpada eléctrica
Que traz luz até ao balde do leite.
Não posso abandonar a vaca.
Com a cara encostada ao seu flanco, cheiro o leite coberto de espuma.
A leiteira retira o balde com cuidado
E pára por um instante, com as mãos a pingar.
Diz:
     "Você é veterinário?"
Descolo a cara da vaca:
     "Não, poeta."
Ela ri-se e estuda-me com os olhos azuis,
Simpática, sábia, serena.
Reflecte um pouco e compreende
Que eu não consigo escrever uma linha sem uma vaca...



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestwern University Press, Evanston - Illinois, 208, p. 180).

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Dritëro Agolli

Trabalho



Debaixo das suas unhas a sujidade era azul escura,
Sujidade vinda dos campos e dos prados,
Azul como as linhas no globo,
Como as cordas de um violino.
No banho não se pôde lavar
Com água e sabão.
Sujidade que penetrou nos sulcos dessas mãos silenciosamente
Como um arado rasgando a terra.
Eu conheço estes dedos tépidos,
Estes dedos bons.
As unhas do meu pai estavam azuis desta sujidade
Mesmo quando ele repousava no seu caixão.
Parecia não estar verdadeiramente morto,
Mas simplesmente a dormitar antes de ir para os campos
Por onde andaria até amanhecer,
Deitando-se de costas com a cabeça entre as palmas das suas mãos.




(versão minha, a partir da tradução inglesa de Robert Elsie, reproduzida em An Elusive Eagle Soars - anthology of modern albanian poetry, organização, tradução e introdução de Robert Elsie, Forest Book/Unesco, Londres, 1993, p. 56).

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Dritëro Agolli

A pequena burguesia



Para quê tanta gritaria?
podemos sentar-nos na cozinha;
A comida cheira bem, não teremos fome;
Se tivermos sede,
podemos beber;
Se as nossas unhas crescerem demasiado,
podemos cortá-las!




(versão minha, a partir da tradução inglesa de Robert Elsie, reproduzida em An Elusive Eagle Soars - anthology of modern albanian poetry, organização, tradução e introdução de Robert Elsie, Forest Book/Unesco, Londres, 1993, p. 47).