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sábado, 28 de abril de 2018

Eduardo Chirinos

8



Uma formiga carrega com esforço
uma folha.
                  A folha é enorme
e multiplica o seu tamanho. Trata-se
de um dever inevitável, de uma
obediência atávica.
                               Atrás dela
formigas idênticas carregam folhas
idênticas. Amanhã repetirão o ritual,
a sua razão de ser que ignoro.

Em breve cumprirei cinquenta anos.
Penso na formiga.
Na sua dança cega até à morte.



(Versão minha; original reproduzido em Antología - La poesia del siglo XX en Perú; seleção de José Miguel Oviedo; Visor, Madrid, 2008, p. 678.)

segunda-feira, 24 de março de 2008

Eduardo Chirinos

Poema com cães


Conheci-o em Istambul.
Da sua boca pendia um cigarro turco
tinha os olhos pequenos
e uma vaga expressão de príncipe arruinado.
Nunca mais voltei a vê-lo, mas comprei o seu retrato
num leilão nos arredores de Londres.
Os meus filhos inventam subterfúgios para não o olharem,
as visitas desculpam-se, inventam mil histórias,
preferem não vir.
A minha mulher acaricia o lombo dos cães.
Não os teme. Diz que são amigos do homem.


(versão minha)