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terça-feira, 21 de agosto de 2012

Fernando López de Artieta

Piscina pública



Risos
        gritos
                rumor
de conversas sobre a relva
                jogadores de cartas
leitoras obstinadas
beijos
         ainda inocentes
de frescos adolescentes
bandos de garotos à beira da piscina
meninas
            flexíveis
                        como
juncos
jovens imigrantes
                          exibindo
                                        saltinhos acrobáticos
jovenzitas
mostrando a sua nudez explícita
(ninguém lhes explicou - coitadas -
que tapadas excitariam muito mais)
vaporizadores de bronzeado
que surgem
                 aqui
e ali
      como géiseres simpáticos

e o deus Sol que cruza lentamente o dia
dourando por igual
miúdos
gordas carecas
mamalhudas saloios
estrangeiros donas de casa condutores de domingo
mirones engatatões anoréticas culturistas
que
no final da tarde recolhem as suas coisas

                cansados
                                      esgotados
                                                              desfeitos
sorrindo

enquanto a sombra negra dos prédios
avança inexorável sobre a água...



(Grosso modo; La Isla de Siltolá, Sevilha, 2011, pp. 67-69).

sábado, 29 de novembro de 2008

Fernando López de Artieta

As quatro estações



O outono e as suas ruas
douradas pelas folhas dos livros.

O inverno de neve
igual a um longo e triste hendecassílabo.

Depois a primavera enamorada
lendo algum poema de Vírgílio.

Logo chega o verão e, como sempre,
mandamos para o caralho os versinhos.



(versão minha; poema do livro Jugar en serio, Visor Libros, Madrid, 2004, p. 63).

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Fernando López de Artieta

Ode ao telefone



Todos nós compramos este aparelho
com a ilusão de que nos ligue um dia
uma loira que deseje ser nossa amiga
ou nos anunciem um prémio literário.

Esta loquaz pomba mensageira
devia ensinar ao carteiro
que as notícias não requerem selos,
nem caixa de correio, nem farda, nem uma Vespa.

Assalta-nos de súbito, a voz estridente,
com notícias triviais e prosaicas,
temas domésticos de andar por casa,
sem importância, porém com sentido.

A nossa vida esconde-se nestas coisas
que fazemos quase sem saber que fazemos,
e assim tagarelar com alguém ao telefone
representa-nos de não sei que forma.

Nenhum amigo me contou tantos
segredos ao ouvido como este,
e jamais me falaram as mulheres
acercando-se tanto dos meus lábios.

E não quero louvar no meu poema
o artefacto, antes o grande mistério
desses números mágicos que deixam
que apareça uma voz no meu silêncio.



(versão minha; poema do livro Jugar en serio, Visor Libros, Madrid, 2004, p. 19).