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sexta-feira, 20 de maio de 2011

Hafid Gafaïti (5)

Última fonte



longe
à sombra dos camelos
para beber
o último nómada
recolhe as lágrimas das estrelas



(Versão inédita de António Ladeira; poema incluído no livro La tentation du désert / The temptation of the desert, L ' Harmattan, Paris, 2008, p. 98)

sábado, 14 de maio de 2011

Hafid Gafaïti (4)

A sul do sul



no deserto
o tempo é um luxo
só espinhos e cactos
rompendo a cada raio

dormi na casa da estrangeira
a que se vestia de âmbar e almíscar
recusa a luz da sua vela
o perfume da sua pele

desde a morte da cidade existe uma regra
a que até os rebeldes obedecem
não mentir à mulher
que aprisiona areia em sua casa



(Versão inédita de António Ladeira; poema do livro La tentation du désert / The temptation of the desert, L' Harmattan, Paris, 2008, p. 64).

terça-feira, 3 de maio de 2011

Hafid Gafaïti (3)

Areia e neve



de madrugada
enxame de pássaros
polvilhado de estrelas

à tarde
homem do sul
em terras brancas

ambos
gratos
de luz e júbilo



(Versão inédita de António Ladeira; poema do livro La tentation du désert / The temptation of the desert, L'Harmattan, Paris, 2008, p. 106)

terça-feira, 26 de abril de 2011

Hafid Gafaïti (2)

Nova partida



de manhã depois de pão e chá
não são necessárias palavras
armados de paciência e dúvida
desposamos a costa de novo

passamos Tamanrasset
marcha fatigada
olhares na distância
nunca termina o grito

perseguimos ecos
tendas nómadas rios secos
até turbilhões e sementes
nos perderem para sempre



(Versão inédita de António Ladeira; poema do livro La tentation du désert / The temptation of the desert, L' Harmattan, Paris, 2008, p. 66).

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Hafid Gafaïti (1)

Da necessidade de continuar argelino



Nasci em berbere
Sinto em árabe
Penso em francês
Trabalho em inglês
Canto em espanhol
Recordo em latim
Transmito em grego
Partilho em hebraico
Questiono em sânscrito
Espero em americano
Sento-me em zen
Comunico em não-dito

Falo todas as línguas
Rio-me com todas as vozes
Sangro em silêncio
Amo em cada palavra

concebida Múltipla
Vivo em argelino
Morro em humano



(Versão inédita de António Ladeira; poema do livro La gorge tranchée du soleil / The slit throat of the sun, L' Harmattan, Paris, 2006, p. 82.
Hafid Gafaïti nasceu na Argélia, onde, durante a guerra civil (anos 90), foi membro do movimento democrático de oposição quer ao regime militar, quer ao partido islamita. Foi membro fundador da secção argelina da Aministia Internacional, tal como membro activo do movimento feminista. Como intelectual e crítico que colaborava sobretudo com dissidentes políticos, escritores e poetas (todos na "lista da morte" das forças anti-democráticas), Hafid foi considerado um inimigo tanto do governo como da insurreição islâmica.
Estudou e leccionou em múltiplas universidades na Argélia, Inglaterra e Estados Unidos. Hafid Gaifaïti é actualmente professor de literaturas francófonas na Texas Tech University. Publicou numerosos livros de ensaios e de crítica literária e, desde 2006, editou três livros de poesia. O poema aqui apresentado é o primeiro de um conjunto que será publicado neste blogue. Segundo sabemos, é o primeiro poema do autor passado para português. Ao poeta, por ter autorizado a publicação do poema, e a António Ladeira pela tradução - e por tudo mais - o nosso agradecimento).