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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Jane Kenyon

Agasalhos



Vi-o a sair do hospital
com um casaco de senhora no braço.
Claramente ela não iria precisar de tal coisa.
Os óculos de sol que ele usava não conseguiam
esconder-lhe o rosto molhado, o seu desnorte.

E como uma piada de mau gosto o dia estava limpo
e o ar demasiado suave para dezembro. Mesmo assim
ele correu o fecho do blusão e atou
o capuz debaixo do queixo, preparando-se
para um frio irremediável.



(Versão minha a partir do original e da tradução espanhola de Hilario Barrero reproduzidos em De otra manera, Pre-Textos, Valência, 2007, pp. 106-107).

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Jane Kenyon

A camisa



A camisa toca o seu pescoço
e alisa-se ao longo das suas costas;
desliza-lhe pelos flancos
e desce mesmo para além do seu cinto -
para dentro das suas calças.
Afortunada camisa.



(Versão minha a partir do original e da tradução espanhola de Hilario Barrero reproduzidos em De otra manera, Pre-Textos, Valencia, 2007, pp. 46-47).

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Jane Kenyon

Biscoito



O cão limpou a tigela
e a sua recompensa é um biscoito,
que ponho na sua boca
como um padre oferece a hóstia.

Não consigo suportar esta expressão confiante!
Ele pede pão, espera
pão e eu, com o meu poder,
poderia ter-lhe dado uma pedra.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Jane Kenyon

De outro modo



Usei a força das minhas duas pernas
para me levantar da cama.
Poderia ter sido
de outro modo. Comi
cereais - com leite
e doce - e um pêssego
perfeito e maduro. Poderia
ter sido de outro modo.
Subi a encosta com o cão
até ao bosque dos vidoeiros.
Durante toda a manhã
fiz o trabalho que adoro.

Ao meio-dia deitei-me
com o meu companheiro. Poderia
ter sido de outro modo.
Jantámos juntos
numa mesa com castiçais
de prata. Poderia
ter sido de outro modo.
Dormi numa cama
num quarto com quadros
nas paredes, e
planeei um novo dia
igual ao de hoje.
Mas um dia, eu sei,
será de outro modo.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Jane Kenyon

A tigela azul



Como primitivos enterrámos o gato
com a sua tigela. De mãos nuas
amontoámos areia e cascalho
sobre a cova.
Com um silvo
e um baque caiu tudo sobre os seus flancos,
sobre a sua extensa pele vermelha, a plumagem
branca entre os seus dedos e o seu
longo, para não dizer aquilino, nariz.

Parámos e sacudimos o pó um ao outro.
Há desgostos mais fundos do que este.

Silenciosos o resto do dia trabalhámos,
comemos, olhámo-nos fixamente, dormimos. Toda a noite
houve temporal; agora o dia clareia, e um pintarroxo
gorjeia num arbusto gotejante
como o vizinho que nos quer bem
mas diz sempre a coisa errada.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).