Uma só Anne Frank comove-nos mais que as inumeráveis pessoas que sofreram o mesmo que ela. E assim talvez tenha que ser: se tivéssemos que e pudéssemos partilhar os sofrimentos de todas as pessoas, não poderíamos continuar a viver.
Primo Levi
Este parágrafo pode ter dois comentários que interessam
de um ponto de vista semiótico.
Não importa tanto, para comover, para convulsionar, para
reclamar a acção, o sofrimento como o signo do sofrimento.
Através do seu diário, a jovem Anne converteu-se
nisso, em signo da maldade, não já sofrida, antes exercida sobre
o ser humano. À ética não diz respeito a maldade pelo sofrimento,
antes pelo acto.
No entanto, para se converter em símbolo, Anne Frank precisou
da escrita. Sem esta não teria havido Anne, e sem Anne careceria
de expressão a dor sofrida e a injustiça cometida.
Logo, terrivelmente (e digo bem "terrivelmente"), só a
escrita importa. No fim, só a escrita é.
(versão minha; original reproduzido em Metalingüísticos y sentimentales, introdução, notas, selecção de poemas e organização de Marta Sanz Pastor, Biblioteca Nueva, Madrid, 2007, pp. 268-270).