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terça-feira, 27 de agosto de 2019

Joseba Sarrionandia

O escravo ferreiro

                              Imitando os poetas latinos



Subjugado nas selvas do ocidente,
               acorrentado trouxeram-te para Roma, escravo.
Ensinaram-te o ofício de ferreiro
               e fazes correntes obedientemente.
O ferro em brasa que retiras do forno
               poderias moldá-lo como quisesses.
Poderias fabricar enxadas, ou espadas,
               para se poder quebrar as correntes.
Mas tu, escravo, fazes correntes,
               mais correntes.



(Versão minha a partir da tradução do autor; poema incluído em La poesía está muerta?; edição bilingue basco/espanhol; selecção de Eva Linazasoro, Pamiela, Arre, 2016, p. 83).

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Joseba Sarrionandia

Quarenta nomes para fazer um soneto



William Faulkner. Alice Liddell. Buster Keaton.
James Joyce. Marilyn Monroe. Stephen Crane.
Ambroise Bierce. Marcel Duchamp. Júlio Verne.
Franz Kafka. Herman Melville. André Breton.

Humphrey Bogart. Paul Klee. François Villon.
Jacques Brel. Ezra Pound. Louis Ferdinand Céline.
Nicholas Ray. Dante Alighieri. John Wayne.
Samuel Beckett. Jonathan Swift. John Huston.

Nazim Hikmet. Juliette Greco. Boris Vian.
Edgar Allan Poe. Vladímir Nabokov.
Hieronimus Bosch. Bram Stocker. Paul Celan.

Johan Huizinga. Jean Genet. Marcel Schwob.
Edgar Spencer Dogson. Vladímir Holan.
Edward Lear. Joseph Conrad. Vincent Van Gogh.



(Versão minha a partir do original e da tradução castelhana reproduzida em El otro medio siglo - Antología incompleta de poesía iberoamericana; organização de Antonio Domínguez Rey e outros, Espiral Maior, A Coruña, 2009, p.p. 539-540. Nota: na versão que aqui utilizo (e única que conheço) como fonte da transposição para português dos nomes citados pelo poeta alguns destes surgem grafados erradamente - por exemplo, "Marcel Sohwob" ou "Vincent Vang Gogh". Presumo que se trate de um conjunto de gralhas, alheias à vontade do autor; optei, assim, por corrigir esses "erros". De resto, o próprio nome do poeta aparece escrito, nesta obra, de forma ligeiramente diferente daquela que já conhecia: "Sarrionaindia" em vez de "Sarrionandia"; mantenho esta última).

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Joseba Sarrionandia

A mente do prisioneiro



A mente do ex-prisioneiro
volta sempre à cela.
Ele vê juízes, procuradores
e advogados nas ruas, por toda a parte,
e mesmo que não o consigam identificar
os polícias olham-no
durante mais tempo do que a qualquer outro
porque a sua maneira de caminhar parece tensa
ou talvez demasiado descontraída.
No seu coração
ele carrega para sempre um homem condenado.



(Versão minha; original reproduzido em Six basque poets, tradução do basco para o inglês de Amaia Gabantxo, selecção e introdução de Mari Jose Olaziregi, Arc, Todmordem, 2007, p. 85).

domingo, 29 de agosto de 2010

Joseba Sarrionandia

Literatura e revolução



Quando o chefe da polícia Ángel Martínez enfia o cano
do seu revólver no ânus do prisioneiro nu
e a imagem se torna nojenta, patética e cheia de sangue,
que importância tem para o jovem torturado
se o poeta é um fingidor, como disse Pessoa?
Alguma vez G. K. Chesterton visitou La Salve?
Há alguém nas celas de Intxaurrondo que conheça
Hermann Broch?
Quando está, totalmente destruído, diante do juíz,
como poderá o jovem torturado explicar
o significado de correlativo objectivo?
Como poderia Molly Bloom compreender um nascer do sol
tricotado com agulhas na prisão de Carabanchel?
Quem é Michel Foucault para o homem que passa dez meses
a definhar numa cela?
Uma visita de cinco minutos? Uma descoberta lírica?
Será que os presos estudam a Bíblia Basca de Jean Duvoisin
para terem a certeza de que as vírgulas e os agás das suas
cartas proibidas estão correctos?
Haverá, para a literatura, um valor ético inerente
na rebelião, na revolução e na coragem? Ninguém o diz.
Alguma coisa se escreveu em revistas literárias como
a Voprosi Literaturi ou a Tel Quel sobre
as longas greves de fome dos presos bascos?
Como pode preocupar-se com o compromisso o rapaz
que foge, esquivando-se às balas da polícia, o seu coração
desnudo uma bandeira revolucionária?



(Versão minha a partir da tradução do basco para o inglês de Amaia Gabantxo reproduzida em Six basque poets, selecção e introdução de Mari Jose Olaziregi, Arc, Todmorden, 2007, p. 87).