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domingo, 12 de junho de 2011

Juan Bonilla

Última imagem da destruição

William Carlos Williams



Estava muito frio
no dia em que enterrámos a gata

apanhámos o caixote onde dormia
e pegámos-lhe fogo
no pátio traseiro da casa

fugindo das chamas algumas pulgas
atiraram-se ao chão
morreram congeladas



(Versão minha; poema incluído em Defensa personal - Antología poética (1992-2006), Prólogo de Miguel Albero, Renacimiento, Sevillha, 2009, p. 143).

domingo, 29 de maio de 2011

Juan Bonilla

uma imagem de cummings



uma imagem de cummings
não me deixa dormir

a vida é um velho que caminha
com a cabeça cheia de flores

a quem leva flores esse velho?

talvez a quem não foi capaz de ser
o primeiro da turma
ou o soldado heróico
ou o homem que jogou uma partida com o campeão do mundo de xadrez
o activista político
ou aquele que se apaixonou por Gabriela Sabatini

cruza-se com os túmulos
onde estão incritos os nomes do que não existe
deposita as flores frescas de luz e sangue
que leva à cabeça

escuta os latidos do futuro
que ficou já para trás

e segue até ao seu túmulo, o real

todo o passado sempre à sua frente



(Versão minha; poema do livro Cháchara, Renacimiento, 2010, pp. 55-56; talvez seja interessante confrontar este poema com o de cummings que explicitamente o desencadeia).

terça-feira, 24 de maio de 2011

Juan Bonilla

O viajante



Ali de onde venho ninguém me retinha.
Sei que ninguém me espera aí para onde vou.

Pela janela desfilam imóveis as paisagens.
Seria maravilhoso não chegar a sítio nenhum.

Permanecer assim:
viajando de um lugar que já não existe
para outro que nunca existirá.



(Versão minha; poema incluído em Defensa personal (Antología poética 1992-2006), prólogo de Miguel Albero, Ranacimiento, Sevilha, 2009, p. 155).

domingo, 1 de maio de 2011

Juan Bonilla

Uivo



Eu vi os melhores da minha geração
destruídos pela ânsia de ganhar muito dinheiro.
Poetas conformando-se com letras de canção,
pintores desenhando sapatos para o estrangeiro.

O nosso Truman Capote aprendeu a lição
e emprega o seu talento de ávido comentador
num programa estúpido de televisão.
Mas tem um chalé, dez noivas, cem admiradores.

Quem estava destinado a fazer grande arte
ganha milhões com sloganes baratos.
O vanguardista exímio escreve em toda a parte.*

E o artista rebelde que viveu numa gruta
decidiu atraiçoar-se, farto de maus tratos.
Dedica-se ao mesmo que os outros: é puta.



(Versão minha; original incluído em Defensa personal (Antología poética 1992-2006), prólogo de Miguel Albero, Ranacimiento, Sevilha, 2009, p. 68)

*Variante: "Quem estava destinado a fazer a grande novela / ganha milhões com sloganes baratos. / O vanguardista exímio escreveu uma sequela."

quarta-feira, 16 de março de 2011

Juan Bonilla

Epitáfio do apaixonado



Se alguém quiser escrever a minha biografia
não há nada mais simples.
À sua disposição tem apenas duas datas:
a do dia em que te conheci
e a daquele em que te foste.
Entre uma e outra decorreu a minha vida.
O que sucedeu antes, esqueci-o.
O que acontece agora, carece já de importância.



(Versão minha; poema incluído em Efectos secundarios - antologia poética, Anaya, Madrid, 2ª edição, 2008, p. 12).