Terramoto
Quando te digo que desperdicei a minha infância
no mar deves ter bem presente
que eu posso ser uma narradora pouco fiável.
Quando afirmo que passei um ano
na academia militar, disfarçada de rapaz,
não acredites - ainda que seja verdade.
Todas as manhãs puxávamos o brilho às botas
- até ficarem esplendorosamente lustrosas - e corríamos pelos bosques
de abetos carregando espingardas vazias. Quando te digo
que adoro vinho branco é a mais pura das verdades.
Tal como o facto da minha mãe
ter sido pintora e o meu pai violoncelista -
ou físico. Confundo os dois.
E também fico confusa com o peso
relativo da minha solidão: parece tão pesada,
mas onde está ela? Sabes que sobrevivi
a um naufrágio? Que fiquei só
e vivi muito tempo numa ilha? Isto
explica certamente esta cicatriz em forma de anzol,
meu amor de sal. Não pedi ajuda
para suportar tais fardos. O terramoto agitou,
abalou os alicerces do edifício
e as varas da cama balançaram como
mastros. Largámos amarras. Todas as minhas mentiras
são tal e qual: viajam para tão longe
que vão além do horizonte e depois, por fim,
regressam: meu ente querido, enjoado do mar, há muito perdido.
(Versão minha; o original pode ser lido aqui).
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domingo, 24 de julho de 2011
sábado, 2 de julho de 2011
Karin Gottshall
Mais mentiras
Às vezes digo que me vou encontrar com a minha irmã no café -
mesmo não tendo qualquer irmã - só porque é uma coisa
linda de se dizer. Tenho pensado nisto desde que
li um romance no qual duas irmãs estavam sempre a encontrar-se
em cafés. Hoje, por exemplo, caminhei sozinha
pelo passeio, com as minhas botas para a chuva, esperando
que alguém me perguntasse para onde me dirigia. Comprei
um bloco de notas e uma pilha para o relógio, as montras da loja
estavam embaciadas. Chuva em Abril é uma espécie de promessa, e
gratuita. Levei um saco com livros para o café e pedi
chá. Gosto de sítios iluminados por lâmpadas. Gosto de sítios
onde se pode ouvir as pessoas a falarem de coisas sem imporância,
como a diferença entre o azul-celeste e o azul-cerúleo,
ou o preço das tulipas. Que está a descer. Reparei
em alguém que podia ser minha irmã a entrar, e a sacudir a chuva
dos cabelos. Pensei, mesmo agora as floristas estão a encher
as estantes frigoríficas com tulipas, a cinco dólares o molho. Por toda
a cidade há irmãs.Qualquer uma delas poderia ser a minha.
(Versão minha; o original pode ser lido aqui).
Às vezes digo que me vou encontrar com a minha irmã no café -
mesmo não tendo qualquer irmã - só porque é uma coisa
linda de se dizer. Tenho pensado nisto desde que
li um romance no qual duas irmãs estavam sempre a encontrar-se
em cafés. Hoje, por exemplo, caminhei sozinha
pelo passeio, com as minhas botas para a chuva, esperando
que alguém me perguntasse para onde me dirigia. Comprei
um bloco de notas e uma pilha para o relógio, as montras da loja
estavam embaciadas. Chuva em Abril é uma espécie de promessa, e
gratuita. Levei um saco com livros para o café e pedi
chá. Gosto de sítios iluminados por lâmpadas. Gosto de sítios
onde se pode ouvir as pessoas a falarem de coisas sem imporância,
como a diferença entre o azul-celeste e o azul-cerúleo,
ou o preço das tulipas. Que está a descer. Reparei
em alguém que podia ser minha irmã a entrar, e a sacudir a chuva
dos cabelos. Pensei, mesmo agora as floristas estão a encher
as estantes frigoríficas com tulipas, a cinco dólares o molho. Por toda
a cidade há irmãs.Qualquer uma delas poderia ser a minha.
(Versão minha; o original pode ser lido aqui).
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