Não lamento nada.
As minhas crueldades, as minhas traições
aos que em tempos julguei
ter amado. Todos os anos
não vividos, os poemas
não escritos, as noites desperdiçadas
a chorar e a beber.
Não, não lamento nada
porque aquilo que vivi
trouxe-me aqui, a este quarto
com as suas maravilhosas riquezas,
a sua simples abundância -
estas três cabeças brilhando
sob o candeeiro japonês, trabalhando
com lápis e papel.
Estes três que me amam
exactamente como eu sou, precisamente
até ao âmago do meu ser incompleto.
Que se levantam ansiosamente quando chego,
e caem no choro quando saio.
Cujos olhos são os meus olhos.
O cabelo, o meu cabelo.
Cujos corpos eu cubro
com beijos e mantas.
Cuja primeira refeição foi o meu corpo.
Cuja força, Deus queira, não viverei
para servir, ou partilhar.
(versão minha, dedicada a C., F. e P.; original reproduzido por Edward Hirsch, in Poet's Choice, Harcourt, Orlando, 2007, pp. 225-226)