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domingo, 8 de setembro de 2013

Mark Strand

Manual da nova poesia

Para Greg Orr e Greg Simon
 
 
1    Se um homem compreende um poema
                    terá problemas.
 
2    Se um homem vive com um poema
                    morrerá sozinho.
 
3    Se um homem vive com dois poemas
                    será infiel a alguém.
 
4     Se um homem concebe um poema
                    terá menos um filho.
 
5    Se um homem concebe dois poemas
                    terá dois filhos a menos.
 
6    Se um homem tem uma coroa na cabeça quando escreve
                    será descoberto.
 
7    Se um homem não usar uma coroa na cabeça enquanto escreve
                    não enganará ninguém a não ser ele mesmo.
 
8    Se um homem fica furioso num poema
                    será desprezado pelos homens.
 
9    Se um homem continuar furioso num poema
                    será desprezado pelas mulheres.
 
10   Se um homem denunciar publicamente a poesia
                    os seus sapatos ficarão cheios de urina.
 
11   Se um homem desiste da poesia a favor do poder
                    terá muito poder.
 
12   Se um homem se envaidecer por causa dos seus poemas
                    será amado pelos tolos.
 
13   Se um homem se envaidecer por causa dos seus poemas e amar os tolos
                    não escreverá mais.
 
14   Se um homem pede atenção por causa dos seus poemas
                    será como um burro ao luar.
 
15   Se um homem escreve um poema e elogia o poema de um companheiro
                   terá uma amante esplendorosa.
 
16   Se um homem escreve um poema e elogia exageradamente um poema
                  de um companheiro
                  afugentará a sua amante.
 
17   Se um homem reivindica o poema de outro
                  o seu coração ficará com o dobro do tamanho.
 
18   Se um homem deixar os seus poemas ficarem nus
                 terá medo da morte.
 
19   Se um homem tem medo da morte
                 será salvo pelos seus poemas.
 
20   Se um homem não tem medo da morte
                poderá, ou não, ser salvo pelos seus poemas.
 
21   Se um homem termina um poema
                banhar-se-á na esteira vazia da sua paixão
                e será beijado pela página em branco.
 
 
 
(Versão minha a partir do original - reproduzido em New selected poems,Alfred A. Knopf, Nova Iorque, 2009, pp. 43-44 - e da tradução castelhana de Eduardo Chirinos reproduzida em Sólo uma canción, Pre-Textos, Valência, pp. 27-31).


terça-feira, 5 de julho de 2011

Mark Strand

Dois cavalos



Numa noite quente de junho
fui ao lago, pus-me de quatro,
e bebi como um animal. Dois cavalos
aproximaram-se e, ao meu lado, beberam também.
Isto é incrível, pensei, mas quem irá acreditar?
Os cavalos olhavam-me de quando em quando, resfolgando
e saudando com a cabeça. Senti necessidade de responder, por isso também
[eu resfolguei,
mas titubeando, como se não quisesse ser verdadeiramente ouvido.
Os cavalos devem ter sentido que eu me retraía.
Afastaram-se um pouco. Então pensei que talvez me tivessem conhecido
numa outra vida - aquela em que fui poeta.
Podem inclusivamente ter lido os meus poemas, pois, então,
naquele tempo sombrio em que a nossa avidez não conhecia limites,
mudávamos de estilo quase tantas vezes como há dias no ano.



(Versão minha a partir do original e da tradução de Dámaso López García reproduzidos em Hombre y camello - poemas, Visor, Madrid, 2010, pp. 28-29).

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Mark Strand

Mãe e filho



O filho entra no quarto da mãe
e fica junto à cama onde ela está deitada.
O filho acredita que ela quer dizer-lhe
o que ele anseia ouvir - que ele é o seu menino,
será sempre o seu menino. O filho inclina-se
para beijar os lábios da mãe, mas os lábios estão frios.
Começou o enterro dos sentimentos. O filho
toca as mãos da mãe pela última vez,
depois vira-se e vê a lua cheia.
Uma luz de cinza cruza o chão.
Se a lua pudesse falar, o que diria?
Se a lua pudesse falar, não diria nada.



(Versão minha a partir do original e da tradução castelhana de Dámaso López García reproduzidos em  Hombre y camello, Visor, Madrid, 2010, pp. 58-59).

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Mark Strand

Fogueira


Às vezes havia uma fogueira e eu entrava nela
e dela saía ileso e seguia o meu caminho,
e para mim era apenas outra coisa que tinha feito.
Quanto a apagar a fogueira, isso deixava para outros
que se apressavam sobre o fumo revolto com vassouras
e mantas para sufocar as chamas. Quando terminavam,
juntavam-se confusamente para falar do que tinham visto -
da sorte que tinham por terem testemunhado o fulgor do calor,
o efeito silenciador das cinzas e, ainda mais, o terem conhecido a fragrância
do papel queimado, o som das palavras a exalar o último suspiro.



(Versão minha a partir do original e da tradução castelhana de Dámaso López García reproduzidos em Hombre y camello - poemas, Visor Libros, Madrid, 2010, pp. 36-37).

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Mark Strand

Fui um explorador polar



Na minha juventude fui um explorador polar
e passei noites e dias incontáveis gelando
de lugar vazio em lugar vazio. Por fim,
deixei de viajar e fiquei em casa,
aí cresceu em mim um repentino excesso de desejo,
como se me tivesse atravessado um resplandecente
feixe de luz daqueles que se vêem no interior de um diamante.
Enchi páginas e páginas com as visões que havia testemunhado -
os rugidos do gelo no mar, glaciares gigantes, o branco dos icebergues
chicoteado pelo vento. Então, sem nada mais para dizer, parei
e dirigi a minha atenção para o que me estava próximo. Quase ao mesmo
[tempo,
um homem de casaco negro e chapéu de aba larga
apareceu entre as árvores em frente à minha casa.
A forma como olhou a direito e ficou quieto,
sem se mover minimamente, os braços estendidos
ao longo do corpo, fizeram-me pensar que o conhecia.
Mas quando levantei a mão para o cumprimentar,
ele deu um passo atrás, voltou-se, e começou a desaparecer
como uma ânsia desaparece até que nada sobre dela.



(Versão minha a partir do original e da tradução castelhana de Dámaso López Garcia, reproduzidos em Hombre y camello - poemas, Visor Libros, Madrid, 2010, pp. 26-27)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Mark Strand

Os restos

Para Bill e Sandy Bailey


Esvazio-me dos nomes dos outros. Esvazio os meus bolsos.
Esvazio os meus sapatos e largo-os à beira do caminho.
À noite faço retroceder os relógios;
Abro o álbum de família e vejo como era em rapaz.

O que ganho com isto? As horas fizeram o seu trabalho.
Digo: o meu próprio nome. Digo: adeus.
As palavras seguem-se umas às outras seguindo o vento.
Amo a minha mulher mas mando-a embora.

Os meus pais deslocam-se dos seus tronos
para dentro dos quartos leitosos das nuvens. Como posso cantar?
O tempo diz-me o que sou. Mudo e sou o mesmo.
Esvazio-me da minha vida e a minha vida é o que me resta.



(versão minha; poema incluído em New selected poems, Knof, Nova Iorque, 2007, p. 45).

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Mark Strand

Manter as coisas intactas



Num campo
eu sou a ausência
de campo.
Este é
sempre o caso.
Onde quer que esteja
sou aquilo que falta.

Quando caminho
separo o ar
e o ar move-se
para ocupar os espaços
onde o meu corpo esteve.

Todos temos razões
para nos movermos.
Eu movo-me
para manter as coisas intactas.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Mark Strand

Comendo poesia



A tinta escorre pelos cantos da minha boca.
Não há felicidade igual à minha.
Estive a comer poesia.

A bibliotecária não acredita no que vê.
Os seus olhos são tristes
e ela caminha com as mãos no vestido.

Os poemas desapareceram.
A luz é baça.
Os cães estão nas escadas da cave e sobem.

Os seus globos oculares reviram-se,
as suas pernas ruças ardem como lenha.
A pobre bibliotecária começa a bater os pés e a verter lágrimas.

Ela não compreende.
Quando me ajoelho e lhe lambo a mão
põe-se aos gritos.

Sou um homem novo.
Rosno-lhe e ladro.
E brinco alegremente no meio da escuridão livresca.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).