Mostrar mensagens com a etiqueta Martín Espada. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Martín Espada. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Martín Espada

Quem se queima pela perfeição do papel



Aos dezasseis anos, depois das aulas,
eu trabalhei numa tipografia
que produzia blocos de impressos judiciais:
papel amarelo
amontoado em pilhas de dois metros de altura
que se desdobravam
enquanto eu colocava cartão
entre as páginas
e espalhava cola vermelha
de cima a baixo.
Sem luvas: as pontas dos dedos necessárias
à perfeição do trabalho
ajustavam exactamente o rectângulo de papel.
Amolecidas por volta das 9 da noite, as mãos
deslizavam ao longo de folhas bruscamente afiadas
e uniam fendas ocultas, mais finas
do que as gretas da pele.
Nesse momento a cola queimava,
as mãos suavam
e as palmas ardiam
até picarem o cartão do fim do turno.

Dez anos depois, na Faculdade de Direito,
eu sabia que qualquer bloco de impressos judiciais
fora colado com o lume de cortes invisíveis
e que cada livro de direito aberto
era um par de mãos a arder
virado para cima.



(versão minha; original reproduzido em The invisible ladder, organização e introdução de Liz Rosenberg, Henry Holt and Company, Nova Iorque, 1996, pp. 56-57; existe uma tradução espanhola do poema, da autoria de Diego Zaitegui e Pedro J. Miguel, publicada na antologia Soldados en el jardín, El Gaviero Ediciones, Almería, 2009, p. 33).

domingo, 25 de outubro de 2009

Martín Espada

Lição revolucionária de espanhol



Sempre que alguém
pronuncia mal o meu nome,
quero logo comprar uma pistola de brincar,
pôr óculos escuros,
inclinar a minha boina,
pentear a barba em bico,
sequestrar um autocarro cheio
de turistas Republicanos
do Wisconsin,
e obrigá-los a entoar
palavras de ordem anti-americanas
em espanhol,
e esperar
que o pelotão de intervenção especial bilingue
nos sobrevoe de helicóptero
e me suplique
que seja razoável



(versão minha, a partir da tradução para espanhol de Camilo Pérez-Bustillo, Diego Zaitegui, Pedro J. Miguel e do próprio autor, reproduzida em Soldados en el jardín: antologia 1989-2009, El Gaviero Ediciones, Almería, 2009, p. 91).

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Martín Espada

Regras para a "oficina de poesia" do Capitão Ahab em Provincetown



1. Sois livres de escrever um poema sobre qualquer assunto, desde que diga respeito à Baleia Branca.
2. Será concedido um dobrão de ouro ao primeiro que entre vós aviste num poema a Baleia Branca.
3. O Prémio Chamem-me Ismael será atribuído ao melhor poema sobre a Baleia Branca, o qual será publicado na Revista Baleia Branca.
4. O Piquenique e o Jogo de Beisebol de Homenagem a Herman Melville estarão abertos a todos aqueles que entre vós escrevam um poema sobre seguir o seu Capitão até aos fundos do inferno para matar a Baleia Branca.
5. Haverá um caixão gratuito à deriva para todo o participante na "oficina" que caia borda fora enquanto escreve um poema sobre a Baleia Branca.
6. Haverá uma perna gratuita, talhada em mandíbula de baleia, para todo o participante na oficina que seja atirado do mastro enquanto escreve um poema sobre a Baleia Branca.
7. Haverá um funeral gratuito em pleno oceano, que incluirá um coro de aguerridos lobos do mar entoando cânticos marítimos sobre a Baleia Branca, para todo o participante da "oficina" que seja decapitado enquanto escreve um poema sobre a Baleia Branca.
8. Aquele que entre vós não busque a Baleia Branca nos seus poemas será arpoado.
(versão minha a partir do original e da tradução para espanhol de Óscar D. Sarmiento, Diogo Zaitegui e Pedro J. Miguel, reproduzida em Soldados en el jardín, El Gaviero Ediciones, Almería, 2009, p. 13).

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Martín Espada

A república da poesia


Para o Chile



Na república da poesia
um comboio cheio de poetas
desliza para sul debaixo da chuva
tal como as ameixeiras balançam
e os cavalos escoiceiam o ar,
e as bandas filarmónicas
desfilam pelas ruas
com trompetes, com chapéus de coco,
seguidas pelo presidente
da república,
que aperta todas as mãos.

Na república da poesia
os monges imprimem versos sobre a noite
em caixas de chocolate conventual,
cozinhas em restaurantes
usam odes como receitas
de enguias ou alcachofras,
e os poetas comem à borla.

Na república da poesia
os poetas lêem para os babuínos
no jardim zoológico, e todos os primatas
- como poetas e babuínos - gritam de alegria.

Na república da poesia
os poetas alugam um helicóptero
para bombardearem o palácio nacional
com poemas impressos em marcadores de páginas
e toda a gente, cega pelas lágrimas,
se precipita no pátio
para apanhar um poema
que esvoaça caindo do céu.

Na república da poesia
a guarda do aeroporto
não autorizará a tua saída do país
até que lhe declames um poema
e ela diga Ah! Lindo.



(versão minha a partir do original, reproduzido aqui, e da tradução para espanhol de Óscar D. Sarmiento, Diego Zaitegui e Pedro J. Miguel incluída em Soldados en el jardín - Antologia 1989-2009, El Gaviero Ediciones, Almería, 2009, pp. 14-15).

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Martín Espada

Blasfémia



Permitam que a blasfémia seja dita: a poesia pode salvar-nos,
não da maneira como um pescador iça para dentro do barco
o nadador que se afoga, não da maneira como Jesus, entre gritos,
promete vida eterna ao ladrão crucificado ao seu lado
no monte, mas ainda assim salvação.

Algures um condenado soluça sobre um livro de poemas
trazido da biblioteca da prisão, e eu conheço o motivo
pelo qual as suas mãos têm o cuidado de não quebrar as páginas tão frágeis.



(versão minha; original reproduzido aqui).