Até hoje vivi a minha vida como um jovem touro
que se aborrece entre vacas prenhes no calor do meio-dia
e corre em círculos para exibir a sua força;
e desdobra o estandarte espumoso do seu jogo
a partir da baba; e sacode a cabeça - denso, o ar corta-se
entre os cornos - enquanto os seus coices espalham
erva martirizada e terra no prado espantado.
Assim vivo como o touro, mas como um touro que de súbito
pára no meio de um campo constelado de grilos
e fareja o ar. E sente que na espessura do monte
estacou uma corça, alerta, e que de repente corre com o vento
que no seu silvo arrasta o cheiro da matilha.
O touro fareja o ar mas não foge como a corça
e pensa que, chegada a hora, lutará e cairá
e na paisagem a matilha dispersará os seus ossos.
Entretanto, triste, brama lentamente no ar denso.
Assim também eu luto, assim cairei e, para exemplo
de eras distantes, a paisagem conservará os meus ossos.
(Versão minha a partir da tradução castelhana de Fayad Jamís reproduzida em Cincuenta poemas de quince poetas húngaros del siglo XX, selecção de András Simor, Izana Editores, Madrid, 2012, pp. 74-75).