domingo, 14 de dezembro de 2008

John Ash

Preocupação



Tal como a minha mãe e o meu pai antes de mim,
sou bom nisto. O truque é preocupares-te
quando tudo vai bem contigo:

tens saúde e estás apaixonado e o teu palacete
está rodeado por amplos jardins solenes,
e de súbito sabes que isto é demasiado bom para ser verdadeiro:

"Talvez, sem o meu conhecimento,
o meu corpo abrigue já uma doença fatal,
ou o meu amor me odeie secretamente, e agora mesmo
esteja a preparar a minha queda."

Nada é assim tão óbvio,
mas por amor de Deus usa a imaginação!
Pensa no que pode apanhar-te de surpresa
como uma bola de neve atirada às costas.

Se és um afortunado deverias estar preocupado.
Édipo, como podes recordar, teve um problema com isto.



(versão minha; poema do livro The Parthian Stations, Carcanet, Manchester, 2007, p. 28).

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

John Ash

Deixando Nova Iorque I



Não me mudei de uma
para outra cidade.
Mudei-me de uma para outra
versão da mesma cidade.

O que perdi ou ganhei? Amigos,
um apartamento com um tecto maravilhoso,

visões azuis do mar,
os gritos das gaivotas ao nascer do sol.
Todas as ruas são a mesma
se vives nela.



(versão minha; poema do livro The Parthian Stations, Carcanet, Manchester, 2007, p. 12).

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Juan Gelman

O cão



O poema não pede de comer. Come
os pobres pratos que
gente sem vergonha ou pudor
lhe serve a meio da noite.
A palavra divina já não existe. Que pode
fazer o poema senão
contentar-se com o que lhe dão?
Depois uivará por aí
sem resposta, será
outro cão perdido
na cidade impiedosa.



(versão minha; poema do livro Valer la pena, Visor Libros, Madrid, 2008, 2ª edição, p. 132).

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

jpb


(Uma "interpretação literal", palavras do fotógrafo, dos poemas "A chave do gás" e "Nota de rodapé de "A chave do gás"" de Juan Gelman, passados a português e publicados aqui e aqui).

domingo, 7 de dezembro de 2008

Juan Gelman

Nota de rodapé de "A chave do gás"



A mulher do poeta irritou-se
com o poema "A chave do gás".
Não vê por que razão a metáfora da palavra,
ou a ambiguidade da palavra,
ou as feridas que a palavra produz
podem impedir alguém
de saber onde está a chave do gás e
como ela fecha e abre. Tem razão.
O poeta labora num erro porque
a chave da palavra, digamos, nem fecha
nem abre, e pode até dizer-se que não existe,
e menos ainda a sua metapalavra,
a sua ambiguidade cortante ou vazio.
A realidade da cozinha tranquiliza,
há chaves que fecham, que abrem, funcionam
cumprindo a função de demonstrar
que há coisas que se fecham e abrem
e sonham desde ontem na minha cabeça
e que não consigo fechar.




(versão minha; poema do livro Valer la pena, Visor Libros, Madrid, 2008, 2ª edição, p. 131)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Juan Gelman

A chave do gás




A mulher do poeta está
condenada a ler ou a escutar os
versos do poeta que fumegam
recém-arrancados da alma. E mais:
a mulher do poeta
está condenada ao poeta, a esse
que nunca sabe onde
está a chave do gás e finge
que pergunta para o saber
quando só lhe interessa perguntar
o que não tem resposta.



(versão minha; poema do livro Valer la pena, Visor Libros, Madrid, 2008, 2ª edição, p. 130).

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Leona Gom

Sobrevivência



Nunca houve qualquer espécie de delicadeza.
Nada dessas tretas românticas
sobre crescermos numa quinta.
Tudo o que recordo
resume-se a dor e morte.
Quando os porcos eram castrados,
os seus guinchos toda a tarde
e o meu pai a entrar
ensopado pelo sangue da culpa.
Quando serravam os cornos dos bezerros,
os seus berros desesperados
e a minha mãe só dizia,
"isto não lhes dói nada".
Quando vi os gatos recém-nascidos esmagados
contra as paredes do celeiro,
e os cães mortos a tiro
por serem demasiado velhos
para guardarem o gado,
e as galinhas
com as cabeças cortadas
a sacudirem-se no solo ensanguentado,
e os cavalos vendidos
quando o meu pai comprou um tractor,
e eu pude ir de autocarro para a escola.
Aprendi muito sobre a necessidade,
- ou são funcionais, as coisas, ou morrem;
e não fiquei assim tão mal preparada
como cheguei a pensar no início
para viver nas cidades.




(versão minha; original reproduzido em In the clear - a contemporary canadian poetry anthology, organização e introdução de Allan Forrie, Patrick O'Rourke e Glen Sorestad, Thistledown Press ltd., 2006, 2ª impressão, Saskatoon, pp. 72-73).

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

América 2008 (5)

(Chicago, Illinois, Nov. 2008: foto - jpb)

sábado, 29 de novembro de 2008

Fernando López de Artieta

As quatro estações



O outono e as suas ruas
douradas pelas folhas dos livros.

O inverno de neve
igual a um longo e triste hendecassílabo.

Depois a primavera enamorada
lendo algum poema de Vírgílio.

Logo chega o verão e, como sempre,
mandamos para o caralho os versinhos.



(versão minha; poema do livro Jugar en serio, Visor Libros, Madrid, 2004, p. 63).

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Fernando López de Artieta

Ode ao telefone



Todos nós compramos este aparelho
com a ilusão de que nos ligue um dia
uma loira que deseje ser nossa amiga
ou nos anunciem um prémio literário.

Esta loquaz pomba mensageira
devia ensinar ao carteiro
que as notícias não requerem selos,
nem caixa de correio, nem farda, nem uma Vespa.

Assalta-nos de súbito, a voz estridente,
com notícias triviais e prosaicas,
temas domésticos de andar por casa,
sem importância, porém com sentido.

A nossa vida esconde-se nestas coisas
que fazemos quase sem saber que fazemos,
e assim tagarelar com alguém ao telefone
representa-nos de não sei que forma.

Nenhum amigo me contou tantos
segredos ao ouvido como este,
e jamais me falaram as mulheres
acercando-se tanto dos meus lábios.

E não quero louvar no meu poema
o artefacto, antes o grande mistério
desses números mágicos que deixam
que apareça uma voz no meu silêncio.



(versão minha; poema do livro Jugar en serio, Visor Libros, Madrid, 2004, p. 19).

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

América 2008 (4)


(Train by the road - foto: jpb)

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Ernest Hemingway

O tempo exigiu



O tempo exigiu que cantássemos
E arrancou-nos a língua.

O tempo exigiu que fluíssemos
E cravou-nos uma rolha.

O tempo exigiu que dançássemos
E vestiu-nos uma calças de ferro.

E no fim o tempo recebeu em troca
Toda a quantidade de merda que exigiu.



(versão minha; original reproduzido em Illinois Voices, organização e selecção de Kevin Stein e G.E. Murray, University of Illinois Press, Urbana and Chicago, 2001, p. 26).

domingo, 23 de novembro de 2008

América 2008 (3)

(Near Route 66, Illinois - foto: jpb)

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Elaine Equi

Coisas a fazer segundo a Bíblia



Embebedar-se.
Caminhar sobre as águas.
Coleccionar circuncisões.
Arrancar um olho.

Construir uma arca.
Interpretar sonhos.
Matar um irmão.
Não olhar para trás.

Juntar-se a uma tribo.
Ouvir as nuvens.
Viver numa tenda.
Deixar o trabalho.

Falar com as montanhas.
Apresentar-se perante um rei.
Ressuscitar os mortos.
Procurar o espírito.

Colher o que se semeou.
Somar bem-aventuranças.
Ranger os dentes.
Pescar para os homens.

Deixar crescer a barba.
Usar o hábito.
Montar um burro.
Transportar uma tocha.

Sentar-se junto a uma nascente.
Viver para chegar a velho.
Permanecer virgem
e falar em línguas.

Estas são as palavras do Senhor.



(versão minha; original em Illinois Voices, organização e selecção de Kevin Stein e G.E. Murray, University of Illinois Press, Urbana and Chicago, 2001, pp. 272-273).

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

América 2008 (2)


(Paris, Texas - foto: jpb)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Harriet Monroe

O encontro



A parelha de bois e o automóvel
Ficaram frente a frente na extensa estrada incandescente.
A extensa estrada incandescente estreitava
Na curva da colina,
E lá em baixo estava o rio dançante e solar
Espumando sobre as rochas.

Os animais brandos e pacíficos deixaram-se ficar calmamente, ruminando o seu alimento.
O homem hirsuto e barbudo das montanhas,
Mais enferrujado que a sua carroça,
Não tirou os olhos do motorista orgulhoso.
A pequena rapariga esfarrapada
De cabelo corado pelo sol,
Sentada numa mochila dura, amarela e empoeirada
Olhou para os elegantes chapéus de viagem das senhoras,
E para os seus lenços de chifon
Que a leve brisa dedilhava.
O motorista orgulhoso encheu de ar a buzina,
Mas nada se moveu -
Excepto o espumante rio dançante e solar lá em baixo.

Então ele meneou a cabeça,
E virou o volante.
E lentamente, cuidadosamente,
O automóvel fez marcha-atrás na extensa estrada incandescente.

E os animais brandos e pacíficos levantaram os cascos,
E o homem hirsuto e barbudo agitou as suas rédeas,
E a esfarrapada pequena rapariga lançou o olhar para além da colina.
E a parelha de bois arrastou-se e balanceou-se pela extensa estrada incandescente.



(versão minha; original reproduzido em Illinois Voices - an anthology of twentieth-century poetry, organização e selecção de Kevin Stein e G. E. Murray, University of Illinois Press, Urbana and Chicago, 2001, p. 1).

sábado, 15 de novembro de 2008

América 2008 (1)

(Illinois - foto: jpb)

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Günter Eich

Irmãos Grimm



Bosque de urtigas.
As crianças calcinadas
esperam por detrás das janelas da cave.
Os pais sairam
dizendo que voltariam em breve.

Primeiro chegou o lobo
conduzindo um cilindro,
a hiena quis pedir emprestada uma forquilha,
o escorpião veio pelo guia da TV.

Sem chamas
o bosque de urtigas arde por fora.
Os pais
sairam há muito tempo.



(versão minha a partir da tradução do alemão para o inglês de Michael Hofmann, reproduzida em The Faber Book of 20th-Century German Poems, selecção e introdução de Michael Hofmann, Faber and Faber, London, 2005, pp. 89-90).

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Dick Allen

O acompanhante



Sempre me preocupei contigo - o homem ou a mulher
sentados ao piano,
noite após noite recebendo apenas alguns aplausos
consentidos pelo cantor: uma salva de palmas, por favor,
para o meu acompanhante. Nos concertos,
enquanto vejo os teus dedos sobre as teclas,
e com que rapidez, com que excelência
mudas as páginas da pauta,
segues as notas do cantor, cobres as fífias do cantor,
preocupo-me com todas as vidas,
a maior parte das vidas
vividas na sombra de alguma celebridade impositiva;
mas depois a voz do cantor morre
e passam a existir apenas as tuas últimas notas ao piano,
de modo nenhum ressentidas,
encaminhando-nos para o fim, para essa sincera alegria
que brota em pequenas quantidades de uma audiência comovida
como súbitas flores silvestres oscilando sob uma chuva
de fortes aplausos. E eu ergo-me também,
aplaudindo o cantor, é certo, mas
julgo que aclamando-te também a ti
meio virado para nós, em equilíbrio no teu banco preto,
modesto, perfeitamente ensaiado,
continuando a tocar a parte que tornaste tua.



(versão minha; original aqui).

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Rainer Brambach

Manhã



Todos os dias o homem do leite vem às seis
Um pouco depois das sete a senhora do jornal surge coxeando
Às oito começo eu a andar em torno
Da mesa onde ainda estão a garrafa de vinho
da última noite e o copo, vazios.
E também aí permanecem as cartas
todas elas sinceramente minhas -
Levanta-te, dá umas voltas, lê
o Eclesiastes, onze
a luz é verdadeiramente doce
e uma coisa agradável para os olhos é contemplar o sol...



(versão minha da tradução do alemão para o inglês de Michael Hofmann reproduzida em The Faber Book of 20th-Century German Poems, selecção e introdução de Michael Hofmann, Faber and Faber, London, 2005, p. 98).

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Rainer Brambach

Homens solteiros



Um colecciona pedras.
Outro adquire selos.
Um terceiro joga xadrez pelo correio
e outro aguarda e fica noites à espreita no parque.
Um estuda russo.
Outro lê Shakespeare.
Um escreve uma carta a seguir a outra,
e outro bebe vinho à noite,
doutro modo não haveria nada a referir.
Bebem, lêem, espreitam, adquirem,
estes homens sós nas suas noites.
Escrevem, estudam, jogam, coleccionam,
cada um por si depois de um dia de trabalho.
Um frequenta a opereta.
Outro ouve Bach.
Um guarda um segredo.
Como um cão preso a uma corrente,
corre pelas avenidas abaixo, noite após noite.



(versão minha a partir da tradução do alemão para o inglês de Michael Hofmann, reproduzida em The Faber Book of 20th-Century German Poems, selecção e introdução de Michael Hofmann, Faber and Faber, London, 2005, pp. 98-99)

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Friederike Mayröcker

Ostia receber-te-á



Eu estarei em Ostia
Estarei à tua espera
Estarei lá para te abraçar
Hei-de dar-te mãos em Ostia
Estarei lá
em Ostia
na foz do Tibre
esse rio ancestral

Eu não estarei em Ostia
Não estarei lá à tua espera
Não estarei lá para te abraçar
Não te darei as mãos em Ostia
Não estarei lá
em Ostia
na foz desse rio ancestral
o Tibre



(versão minha a partir da tradução inglesa de Reinhold Grimm reproduzida em The Faber Book of 20-th Century German Poems, organização e introdução de Michael Hofmann, Faber and Faber, London, 2005, p.109).

domingo, 2 de novembro de 2008

Robert Walser

O meu quinquagésimo aniversário



Nasci em Abril numa pequena cidade
Cujos arredores são encantadores, e onde
Frequentei a escola; o vigário e o mestre-escola
Ficaram em parte satisfeitos comigo. Na devida altura
Fui simpaticamente integrado num banco a fim de aprender
O ofício devido ao qual depois visitei cidades como Basileia,
Estugarda e Zurique. Aí tomei conhecimento
Com a mais generosa e amável das mulheres
Que ora vivia na cidade, ora no campo,
Segundo o que lhe era mais conveniente,
E que conduziu a minha atenção para
Heinrich Heine, alguém que apenas pude
Apreciar completamente muito mais tarde.
O nome desta mulher somente por mim
Pode ser divulgado: mas por que deveria fazê-lo
Quando a discrição me faz feliz? Cargos importantes
Nos negócios desempenhei uma quantidade deles.
Com alacridade, por causa de um impulso
Só meu, abandonei um de modo a poder ter
E satisfazer outro; entretanto,
No sector industrial, escrevi poemas que apareceram
Mais tarde, talvez de maneira demasiadamente pródiga,
Na casa editora de Bruno Cassirer.
Por um período de mais ou menos sete anos vivi depois
Em Berlim, escrevendo prosa arduamente.
Mas quando, de forma cavalheiresca, os editores deixaram
De ter vontade de me conceder um adiantamento, regressei
À Suiça, que muitos amam
Pelas suas belas montanhas, para aqui
Persistir, sem mágoa, nas minhas tentativas poéticas.
E agora, a julgar por uns quantos cabelos grisalhos,
Cheguei à idade de cinquenta anos.




(versão minha a partir da tradução do alemão para o inglês de Michael Hamburguer, reproduzida em German Poetry: 1910-1975, antologia organizada e traduzida por Michael Hamburguer, Carcanet, Manchester, 1977, p. 27).

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Harold Pinter

Células cancerígenas


"Células cancerígenas são aquelas que se esqueceram de como morrer", enfermeira do Hospital Royal Marsden



Esqueceram-se de como morrer
E assim alastram sua vida assassina.

Eu e o meu tumor amavelmente lutamos.
Esperemos evitar uma morte dupla.

Preciso de ver morto o meu tumor
Um tumor que se esquece de morrer
Planeando ao invés o meu estertor.

Mas eu lembro-me de como morrer
Apesar de mortas minhas testemunhas.
Mas eu lembro-me do que disseram
De tumores capazes de as tornar
Tão cegas e tontas quanto tinham sido
Antes do nascer dessa doença
Que trouxe o tumor até à cena.

As negras células hão-de secar e morrer
Ou cantar alegremente e seguir o seu mister.
Noite e dia tão suave é o seu crescer,
Nunca se sabe, não o vão elas dizer.



(tradução inédita, datada de 8 de Maio de 2002, de Ricardo Castro Ferreira e Gil Santos Júnior, que assim colaboram com este blogue de poesia passada para português).

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Günter Eich

Inventário



Isto é o meu gorro,
isto é o meu casaco,
eis o meu estojo de barbear
numa bolsa de linho.

Uma caneca de estanho:
o meu prato, o meu copo,
no metal
tracei o meu nome.

Tracei-o com este
precioso prego
que escondo
dos olhos gananciosos.

Na minha mochila há
um par de meias de lã
e outras coisas que
não revelo a ninguém,

isto serve-me de almofada
à noite sob a cabeça.
O cartão aqui está
entre mim e a terra.

O lápis de carvão é
o que mais amo:
de dia escreve por mim os versos
que pensei durante a noite.

Isto é o meu bloco de notas,
isto é a minha tela,
isto é a minha toalha,
isto é o meu fio.



(versão minha a partir da tradução inglesa de Charlotte Melin, reproduzida em The Faber Book of 20th-Century German Poems, organização e introdução de Michael Hofmann, Faber and Faber, London, 2005, p. 88).

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Sapardi Djoko Damonno

Quem és tu



Eu sou Adão
o que comeu a maçã;
Adão subitamente consciente de si mesmo,
assustado e envergonhado,
eu sou Adão, o que descobre
o bem e o mal, passando
de um pecado a outro;
Adão ininterruptamente desconfiado
de si mesmo,
escondendo o rosto.
Eu sou Adão espojando-me
na armadilha do espaço e do tempo
sem qualquer ajuda da realidade:
o paraíso perdido
por causa da minha suspeição
em relação à Presença.
Eu sou Adão
o que ouviu Deus dizer
adeus, Adão.



(versão minha a partir da tradução do indonésio para o inglês reproduzida em The poetry of our world, organização de Jeffery Payne, Perennial, New York, 2001, pp. 422-423).

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Chairil Anwar

Por mim



Quando a minha hora chegar
Ninguém vai chorar por mim,
E tu também não

Malditas sejam todas essas lágrimas!

Eu sou uma fera furiosa
Expulsa do rebanho

As balas podem furar-me a pele
Mas eu continuarei sem parar,

Arrastando para a frente as minhas chagas e a minha dor,
Atacando
Atacando
Até o sofrimento desaparecer

E não me vai custar nada

Eu quero viver mais mil anos



(versão minha, a partir da tradução do indonésio para o inglês de Burton Raffel reproduzida em The poetry of our world, organização de Jeffery Payne, Perennial, New York, 2001, p. 427).

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

James P. Lenfestey

Filha



Uma filha não é uma nuvem passageira, antes permanente,
ligando a terra e o céu com a sua sombra.
Ela adormeceu lá em cima como um enigma numa história,
espalhando folhas pelas escadas, depois ar frio, quente depois.
Nós que aos sessenta deveríamos saber tudo, nada sabemos.
Nós que ficamos taciturnos e desorientados pela incerteza do tempo.
Nós ajoelhamo-nos, as palmas das mãos unidas, diante deste altar a florescer.



(versão minha; original reproduzido aqui; pode reler-se, em regime de complemento e contraste, este outro poema sobre outros pais e outra filha.)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Eavan Boland

Neste momento



Um lugar algures.
Ao anoitecer.

Coisas estão à beira
de acontecer
longe dos olhares.

Estrelas e borboletas nocturnas.
E cascas enrolando-se em volta dos frutos.

Mas não ainda.

Uma árvore é negra.
Uma janela é amarela como manteiga.

Uma mulher baixa-se para receber uma criança
que correu para os seus braços
neste momento.

As estrelas irrompem.
As borboletas volteiam.
As maçãs amadurecem no escuro.



(versão minha; original reproduzido aqui).

sábado, 18 de outubro de 2008

Reiner Kunze

Com o som em baixo



Então vieram
doze anos
em que não estive autorizado a publicar
diz o homem na rádio

Eu penso em X
e começo a contar



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Ewald Osers reproduzida em The Faber Book of 20th-Century German Poems, selecção e introdução de Michael Hofmann, Faber and Faber, London, 2005, p. 162).