quarta-feira, 22 de abril de 2009

Roger McGough

O Livro da Poesia Inglesa do Século Vinte da Oxford
(Recenseado por Georges Perec)



St psado volum rvla-s incontornávl para as pssoas qu gostam d posia.
Poma após poma, num glorioso fstim d posia.
Mmorávis comparaçõs, mtáforas, stão por toda a part
nquanto blas rimas, tanto como imagns, atravssam cada página.

Grands pomas de noms como Louis MacNic,
John Btjman, Hilair Blloc, T.S. Liot ou Td Hughs,
já para não falar do pota favorito de Larkin, Hardy, qu surg
com vint st pomas ao lado de apnas nov de W.B. Yats.

Sta antologia, apsar d duramnt criticada plos potas
nla não incluídos, acabará por afirmar-s como uma obra fundamntal
por muitos anos. A minha única qustão respita aos potas
d língua francsa qu foram xcluídos por razõs só conhcidas plo ditor.




Romancista francês, na fase da sua obra, Georges Perec publicou um romance com 50000 palavras, La Disparition, eliminando sistematicamente a letra "e".



(versão minha; original reproduzido em Collected poems, Peguin, 2ª edição, Londres, 2004, p. 303).

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Naomi Shihab Nye

Ombros



Um homem atravessa a rua à chuva,
caminhando suavemente, olhando duas vezes para norte
e para sul:
porque o seu filho dorme no seu ombro.

Nenhum carro deve salpicá-lo.
Nenhum carro pode aproximar-se demasiado da sua sombra.

Esta homem carrega a carga mais sensível do mundo
mas não há nenhuma marca disso.
Em nenhum lugar do seu blusão se diz FRÁGIL,
TRANSPORTAR COM CUIDADO.

O seu ouvido fica cheio com a respiração.
Ele ouve o murmúrio dos sonhos de um rapaz
bem dentro de si.

Não estaremos preparados
para viver neste mundo
se não tivermos o desejo de fazer a outro
o que este homem está a fazer.

A estrada será apenas imensa.
E a chuva não cessará nunca de cair.




(versão minha; original reproduzido em Tender spot - selected poems, Bloodaxe, Northumberland, 2008, p. 64).

sábado, 18 de abril de 2009

Naomi Shihab Nye

Aquele que vai rolando



Um rapaz disse-me que
se rolasse suficientemente depressa nos seus patins
a sua solidão não conseguiria apanhá-lo,

a melhor das razões que conheci até hoje
para querer ser um campeão.

O que eu procurei saber esta noite
pedalando com toda a força pela rua King William abaixo
é se isto tem tradução para bicicletas.

Que vitória! Deixares a tua ofegante
solidão para trás numa esquina qualquer
enquanto flutuas livremente dentro de uma nuvem
de inesperadas azáleas,
pétalas cor-de-rosa que nunca se sentiram sós,
não importando a lentidão com que cairam.




(versão minha; original reproduzido em Tender spot - selected poems, Bloodaxe, Northumberland, 2008, p. 85).

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Wendell Berry

A cobra



No fim de Outubro
encontrei no chão do bosque
uma pequena cobra cujo dorso
estava camuflado na negrura
das folhas mortas entre as quais se estendia.
O seu corpo engrossara com um rato
ou um pequeno pássaro. Estava fria,
tão entorpecida com a sua barriga cheia
e o ar outonal que nem se
dava ao trabalho de revoltear a língua.
Segurei-a durante muito tempo, pensando
na perfeição dos desenhos
negros no seu dorso, na morte
que a inchava, no seu frio bem vivo.
Agora esse frio permanece
na minha mão, e eu penso nela
deitada debaixo do gelo,
enorme com a morte a nutri-la
durante um longo sono.



(versão minha; original reproduzido em The generation of 2000 - contemporary american poets, prefácio e organização de William Heyer, Ontario Rewiew Press, Nova Iorque, 1984, p 16).

terça-feira, 14 de abril de 2009

Vorea Ujko

Três donzelas



Três donzelas puras,
Três donzelas, três irmãs,
Três vestidos de noiva bordados.
A mais nova disse
O amor há-de chegar,
Há-de chegar com a manhã.
De súbito chegou a morte
E levou-a.
Duas donzelas puras,
Duas donzelas, duas irmãs,
Dois vestidos de noiva bordados.
A segunda disse
Talvez a morte chegue
E só tu restarás.
Em breve chegou o amor
E levou-a.
E agora eu espero sozinha.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Robert Elsie, reproduzida em An Elusive Eagle Soars - anthology of modern albanian poetry, organizaçõa, tradução e introdução de R. Elsie, Forest/Book, Londdres, 1993, p. 61).

sábado, 11 de abril de 2009

Nan Cohen

Uma menina recém-nascida na Páscoa Judaica



Considera um alperce numa cesta cheia deles.
É muito parecido com todos os outros alperces -
um exemplar único, feito de pele e semente.

Agora pensa neste dia. Um que provavelmente esquecerás.
O teu próximo fôlego, um longo trago de ar.
Dia sagrado ou não, não importa.

Uma criança nasceu e não sabe que dia é hoje.
Nem pode imaginar a alegria particular do meu coração.
O sabor dos alperces permanece na loja à sua espera.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Martin Camaj

A um poeta moderno



O teu caminho é bom:
As Parcas têm os rostos mais repugnantes
Dos mitos clássicos. Não escreves sobre eles,
Mas sobre lajes e testas humanas
Cobertas de vincos, sobre o amor.

Os teus versos não são para serem lidos em silêncio
Nem ao microfone
Como os de outros poetas,

O coração
Ainda que debaixo de sete camadas de pele
É gelo,

Gelo
Ainda que debaixo de sete camadas de pele.



(versão minha, a partir da tradução para inglês de Robert Elsie, reproduzida em An Elusive Eagle Soars - anthology of modern albanian poetry, organização, tradução e introdução de R. Elsie, Forest Book/Unesco, Londres, 1993, p. 33).

terça-feira, 7 de abril de 2009

Paul Muldoon

Conhecer os britânicos



Conhecemos os britânicos no fim do inverno.
O céu era cor de alfazema

e a neve alfazema-azul.
Eu podia ouvir, muito lá em baixo,

o ruído de duas correntes unindo-se
(ambas outrora geladas)

e, não menos estranho,
ouvir-me a gritar em francês

para lá da clareira
da floresta. Nem o general Jeffrey Amherst

nem o coronel Henry Bouquet
tinham estômago para o nosso tabaco de salgueiro.

Quanto ao desacostumado
perfume quando o coronel sacudiu o seu lenço

de bolso: C'est la lavande,
une fleur mauve comme le ciel.

Deram-nos seis anzóis
e duas mantas bordadas com varíola.



(versão minha, a partir do original e da tradução para espanhol de Dámaso Lopez Garcia, reproduzidos em Indecisiones, introdução, tradução e notas de D. López Garcia, Visor, Madrid, 2004, pp. 50-51).

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Anna Swir

Vamos atirar directamente ao coração



Nós vamos matar o nosso amor.

Vamos estrangulá-lo
como se estrangula um bebé.
Vamos pontapeá-lo
como se pontapeia um cão fiel.

Vamos arrancar
as suas asas vivas
como se faz
com um pássaro.

Vamos disparar sobre o seu coração
como disparamos
sobre nós.



(versão minha, a partir da tradução do polaco para o inglês de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 1993, pp. 69-70).

sábado, 4 de abril de 2009

Anna Swir

Uma conversa nocturna muito triste



"Devias ter muitos amantes."
"Eu sei, querido."
"Eu tive muitas mulheres."
"Eu tive homens, querido."
"Estou acabado."
"Sim, querido."
"Não confies em mim."
"Não confio, querido."
"Tenho medo da morte."
"Eu também, querido."
"Não me vais deixar."
"Não, querido."
"Estou só."
"Também eu, querido."
"Abraça-me."
"Boa noite, querido."



(versão minha, a partir da tradução do polaco para o inglês de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª edição, 1993, p. 69).

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Gerald Fleming

Longo casamento



Estás preocupado, por isso acorda-la
e falas para o escuro:
Pensas que tenho um cancro, dizes,
ou Havia vermes
naquela carne, ou Achas
que o nosso filho está bem, e é
realmente maravilhoso - quase
sagrado o modo como sentes
a carga da tua preocupação passar
miraculosamente de ti para ela -
Ui, o som da chuva é tão belo,
dizes - Vou voltar a adormecer.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Tadeusz Ròzewicz

Até ao coração



Eu vi
um especialista um talhante
enfiar a mão na boca
empurrá-la para baixo
através da goela do cordeiro
tocar o coração latejante
fechá-lo dentro do seu punho
e arrancá-lo só com
um puxão
sim senhor
era
um especialista



(versão minha, a partir da tradução do polaco para o inglês de Victor Contoski, reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª edição, 1993, p. 267).

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Theodore Roethke

O morcego



De dia o morcego é primo do rato.
Gosta do sótão de uma velha casa.

Os seus dedos fazem de chapéu sobre a cabeça.
O pulso bate tão suavemente que o julgamos morto.

A meio da noite volteia em movimentos loucos
Entre as árvores que encaram a luz cortada.

Mas quando ele se revela contra o guarda-vento
Temos medo do que os nossos olhos viram:

Porque alguma coisa está errada, ou fora do lugar,
Quando ratos com asas podem exibir um rosto humano.



(versão minha, sem rimas; o original pode ser lido aqui).

segunda-feira, 30 de março de 2009

Daiva Cepauskaite

Poesia



Eu sou uma vaca chamada Poesia,
dou algum leite,
normalmente com 2,5% de gordura,
às vezes consigo mesmo
espremer cá para fora 3%,
sinto-me orgulhosa por tudo ser processado
com a mais avançada tecnologia
e por ver as embalagens tetrapack
chegarem aos consumidores pouco exigentes,
estou doente com todas as doenças
não conhecidas das coisas vivas
e exposta com cuidadosa minúcia
nos compêndios veterinários,
pasto em boa companhia
(o colectivo é amigável,
não há barreiras de línguas),
tenho medo dos moscardos e dos especialistas em zoologia,
e posso ser útil também de outras maneiras -
quando chega o frio, quando defeco,
se escalares o meu monte
vais sentir o calor
a subir desde os pés
até cima até à parte de trás da tua cabeça.



(versão minha, a partir da tradução do lituano para o inglês de Jonas Zdanys, reproduzida em A Fine Line - new poetry from Eastern & Central Europe, organização e selecção de Jean Boase-Beier, Alexandra Büchler & Fiona Sampson, Arc Publications, Todmorden /Lancs, 2004, p. 75).

sexta-feira, 27 de março de 2009

Roger McGough

Seja este outro poema



Eles não te fodem a vida, a mamã e o papá
(Apesar do que Larkin diz)
Isso é com outros, adultos ou rapazes
Que, cada um à sua maneira,

Morrem. E a sua morte espalha uma sombra
Que marca todos os nossos dias,
E nós tentamos escapar à loucura
De múltiplas maneiras.

E, graças a Deus, a maior parte de nós consegue,
Por isso se para cunhar uma expressão
Te sentes fodido não culpes a mamã e o papá
(Apesar do que Larkin diz).



(versão minha; original reproduzido em Collected poems, Peguin, Londres, 2004, 2ª ed. (?), p. 291).

quinta-feira, 26 de março de 2009

Miroslav Holub

Napoleão



Crianças, quando nasceu
Napoleão Bonaparte?
pergunta o professor.

Há mil anos, dizem as crianças.
Há cem anos, dizem as crianças.
Ninguém sabe.

Crianças, o que fez
Napoleão Bonaparte?
pergunta o professor.

Venceu uma guerra, dizem as crianças.
Perdeu uma guerra, dizem as crianças.
Ninguém sabe.

O homem do talho tinha um cão,
diz o Francisco,
e o seu nome era Napoleão,
e o homem do talho costumava bater-lhe,
e o cão morreu
de fome
há um ano.

E agora todas as crianças sentem pena
de Napoleão.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de K. Polácková, reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 1991, p. 170).

quarta-feira, 25 de março de 2009

Leona Gom

Estes poemas



Estes poemas têm saudades da sua terra.
Continuam a emergir
da minha caneta
e a fugir
para norte.
Nunca serão domesticados.
Nunca terão bom aspecto.
Deixam a página numa confusão
com as suas imagens persistentes
de uma quinta,
ruminam entre as suas cordas
de metáforas urbanas
e esgueiram-se logo que podem.
E quando não têm saída
enroscam-se rancorosamente
debaixo dos seus títulos
e deixam-se morrer à fome.



(versão minha; original reproduzido em In the clear - a contemporary canadian poetry anthology, selecção e organização de Allan Forrie, Patrick O'Rourke, Glen Sorestad, Thistledown Press Ltd, 2ª impressão, Saskatoon, 2006, p. 76).

terça-feira, 24 de março de 2009

Tess Gallagher

Deixo de escrever o poema



para dobrar a roupa. Não importa quem viva
ou morra, continuo a ser uma mulher.
Terei sempre muito que fazer.
Dobro as mangas da sua
camisa. Nada pode interomper
a nossa ternura. Voltarei
ao poema. Voltarei a ser
uma mulher. Mas por agora
há uma camisa, uma camisa gigantesca
nas minhas mãos e, algures, uma pequena rapariga
ao lado da sua mãe
observando-a para ver como se faz.



(versão minha, a partir do original e da tradução espanhola de Eduardo Moga, reproduzidos em El puente que cruza la luna, Bartleby Editores, Madrid, 2006, p. 88).

segunda-feira, 23 de março de 2009

Vorea Ujko

És muito bela



És muito bela, rapariga,
Mas o amor entre nós
É impossível
Porque, aqui entre nós,
Em tempos amei a tua mãe
Que, tal como tu, foi muito bela.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Robert Elsie, reproduzida em An Elusive Eagle Soars - anthology of modern albanian poetry, organização, tradução e introdução de Robert Elsie, Forest Book/Unesco, Londres, 1993, p. 60).

sábado, 21 de março de 2009

Raymond Carver

O teu cão morre



é apanhado por uma carrinha.
encontra-lo na berma da estrada
e enterra-lo.
sentes-te mal.
sentes-te mal por ti,
mas sentes-te pior pela tua filha
porque era o seu animal de estimação
e adorava-o.
costumava cantarolar para ele
e deixava-o dormir na sua cama.
escreves um poema sobre isso.
chamas-lhe um poema para a tua filha,
fala sobre o cão atropelado pela carrinha,
sobre o modo como te ocupaste dele,
como o levaste para o bosque
e o enterraste fundo, bem fundo,
e o poema sai-te tão bem
que quase te alegras com o atropelamento
do pobre cão, ou não terias
escrito um poema tão bom.
então sentas-te a escrever
um poema sobre a escrita de um poema
sobre a morte desse cão,
porém enquanto escreves
ouves uma mulher a gritar
o teu nome, o teu primeiro nome,
ambas as sílabas,
e o teu coração pára.
passa um instante e voltas a escrever.
ela grita de novo.
perguntas até onde isto pode ir.



(versão minha, a partir do original e da tradução espanhola de Jaime Priede, reproduzidos em Todos nosostros, tradução e prólogo de Jaime Priede, Bartleby Editores, Madrid, 4ª edição, 2007, pp. 32-33).

quarta-feira, 18 de março de 2009

Richard Jones

Toalhas brancas


Estive a estudar a diferença
entre a solidão e o estar só,
estive a contar a história da minha vida
às toalhas brancas e limpas, ainda quentes da máquina de secar.
Agora carrego-as pela casa
como se fossem minhas filhas
adormecidas nos meus braços.




(versão minha; original reproduzido em Poetry 180, a turning back to poetry, organização e introdução de Billy Collins, Random House, Nova Iorque, 2003, p. 42).

domingo, 15 de março de 2009

Bardhyl Londo

Crónica de um caso amoroso



Na segunda conhecemo-nos. Dissemos os nossos nomes
um ao outro.
Na terça tornámo-nos amigos. Sorrimos.
Na quarta fizemos amor. Perdemo-nos.
Na quinta tivemos uma discussão. Ficámos tristes.
Na sexta revimos os nossos últimos dias como se fossem um filme.
No sábado procurámos maneiras de nos reencontrarmos.
No domingo redescobrimos o nosso amor, como Colombo.

E depois era segunda outra vez.




(versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie, reproduzida em An Elusive Eagle Soars - anthology of modern albanian poetry, organização, tradução e introdução de Robert Elsie, Forest Book/Unesco, 1993, p. 169).

sexta-feira, 13 de março de 2009

Naomi Shihab Nye

Chuva



Uma professora perguntou ao Paulo
de que se lembrava ele
do terceiro ano; ele esteve sentado
durante muito tempo antes de escrever
"nesse ano álguei tucõ me
no ombru"
e dobrou a folha de papel.
Mais tarde ela mostrou-ma
como um exemplo da sua vida desperdiçada.
As palavras que ele escreveu eram grandes
como casas numa paisagem.
Ele quis entrar nelas
e viver lá, podia preencher
as janelas dos "o" e do "b"
e ficar seguro enquanto lá fora
os pássaros fariam os seus ninhos nos algerozes
sem nada saberem sobre a chegada da chuva.



(versão minha; original reproduzido em Poetry 180, a turning back to poetry, organização e introdução de Billy Collins, Random House, Nova Iorque, 2003, p. 68).

terça-feira, 10 de março de 2009

Paul Muldoon

Por que se foi Brownlee



Por que se foi Brownlee e para onde
É, ainda hoje, um mistério.
Se havia homem que deveria estar satisfeito,
Seria ele; quase um hectare de cevada,
Meio de batatas, quatro novilhos,
Uma vaca leiteira, uma casa de xisto.
A última vez que foi visto ia lavrar,
Numa clara madrugada de Março.

Ao meio-dia Brownlee era famoso:
Tinham encontrado tudo abandonado,
O último sulco por abrir, a parelha de cavalos
Pretos, como marido e mulher,
Alternando o peso ora numa pata ora
Noutra, olhando fixamente o futuro.



(versão minha, a partir do original e da tradução para espanhol de Dámaso López Garcia, reproduzidos em Indecisiones, Visor Libros, Madrid, 2004, pp. 50-51).

sábado, 7 de março de 2009

Ted Kooser

Escolhendo uma leitora



Em primeiro lugar, gostaria que fosse bonita,
e chegasse à minha poesia de forma cuidadosa,
no momento mais solitário de uma tarde,
o cabelo ainda húmido junto ao pescoço
por o ter lavado. Deveria trazer vestida
uma velha gabardina, e suja
por não ter dinheiro para a mandar limpar.
Então tirará os óculos e, já
na livraria, manuseará
os meus poemas, depois recolocará o livro
na prateleira. Dirá a si mesma,
"Por esta quantia, vou mas é mandar
limpar a gabardina." E vai.



(versão minha; original reproduzido em Poetry 180, a turning back to poetry, organização e introdução de Billy Collins, Random House, Nova Iorque, 2003, p. 4; e aqui).

quinta-feira, 5 de março de 2009

Ted Kooser

Um aniversário feliz



Ao entardecer sentei-me junto de um janela
aberta e li até que a luz se foi e o livro
já não era mais do que uma parte da escuridão.
Eu podia ter acendido facilmente um candeeiro,
mas quis conduzir este dia bem para dentro da noite,
sentar-me sozinho e sossegar a página ilegível
com o fantasma pálido e cinzento da minha mão.



(versão minha; o original pode ser lido aqui e relido aqui).

terça-feira, 3 de março de 2009

Azem Shkreli

Montão



Deixem a minha erva crescer sobre a minha cabeça
Sobre a minha cabeça deixem a minha erva crescer
A minha erva sobre a minha cabeça deixem-na crescer

Deixem-na crescer
Deixem crescer a minha erva sobre a minha cabeça



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Robert Elsie, reproduzida em An Elusive Eagle Soars - anthology of modern albanian poetry, tradução e organização de Robert Elsie, Forest Book/Unesco, Londres, 1993, p. 99).

domingo, 1 de março de 2009

Mary Cornish

Números



Gosto da generosidade dos números.
Do modo como, por exemplo,
desejam contar
alguma coisa ou alguém:
dois legumes em vinagre, uma porta para o quarto,
oito bailarinas vestidas de cisnes.

Gosto da domesticidade da adição -
adicione dois copos de leite e agite -
do sentido da abundância: seis ameixas
no chão, mais três
a cair da árvore.

E das multiplicações escolares
de peixes vezes peixes,
os seus corpos prateados aumentando
sob a sombra
de um barco.

Mesmo a subtracção nunca significa perda,
apenas soma em qualquer outro lugar:
de cinco pardais tiram-se dois,
os dois que estão agora
no jardim de alguém.

Há uma amplitude imensa na divisão,
dentro de uma caixa chinesa
abre-se uma caixa de papel,
dentro de cada biscoito dobrado
uma nova fortuna.

E nunca deixa de me surpreender
a dádiva de um excedente que resta,
liberto no fim de tudo:
quarenta e sete divididos por onze dá quatro,
e sobram três.

Três rapazes para além do chamamento das suas mães,
dois italianos livres do mar,
uma meia que nunca está onde a procuras.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Mark Strand

Os restos

Para Bill e Sandy Bailey


Esvazio-me dos nomes dos outros. Esvazio os meus bolsos.
Esvazio os meus sapatos e largo-os à beira do caminho.
À noite faço retroceder os relógios;
Abro o álbum de família e vejo como era em rapaz.

O que ganho com isto? As horas fizeram o seu trabalho.
Digo: o meu próprio nome. Digo: adeus.
As palavras seguem-se umas às outras seguindo o vento.
Amo a minha mulher mas mando-a embora.

Os meus pais deslocam-se dos seus tronos
para dentro dos quartos leitosos das nuvens. Como posso cantar?
O tempo diz-me o que sou. Mudo e sou o mesmo.
Esvazio-me da minha vida e a minha vida é o que me resta.



(versão minha; poema incluído em New selected poems, Knof, Nova Iorque, 2007, p. 45).

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Javier Salvago

Tesouro divino



A juventude passou.
Bem está o que acabou.
Não voltaria a ser jovem
nem que mo pagassem.

Pôr-me a andar de novo
pelo caminho trilhado
dos sonhos ilusórios
e das vagas verdades?

Começar outra vez
as velhas batalhas
e as suas velhas feridas?
Voltar às caminhadas

pela noite, pelo inferno,
ao gosto pela má
vida? Fazer de tudo,
que é comédia, um drama?

Voltar a alimentar-me
de mitos e falácias,
de modas e frenesim,
de palavras gastas?

Carregar aos ombros
a fastidiosa carga
de ser interessante,
original?... Que disparate!

Confiar, como ontem,
na vã esperança
de que tudo será
melhor amanhã?

Ter toda a vida
pela frente - tão longa -,
e o que já passou
não ser nem metade?

A juventude foi-se.
Fica bem o que acaba.
Não voltarei a ser jovem,
graças a Deus.



(Outubro, 1996)



(versão minha; poema do livro Variaciones y reincidencias, de 1997, que pode ser lido algures aqui).