terça-feira, 14 de julho de 2009

Thomas Lux

Kalashnikov



(uma metralhadora AK-47, provavelmente a arma ligeira mais produzida da história)



Criada por Mikhail Kalashnikov que, se fosse vivo,
hoje teria setenta e três anos,
mas tão
conhecido na sua terra Russa
como Marina Tsvetayeva, Anna Akhamatova,
ou Ossip Mandelstam? Os Russos amam
os seus poetas. Eu não sei

o que eles sentem por Kalashnikov,
mas ele é ou foi mais próspero do
que alguma vez foram os poetas acima mencionados
e espalhou milhões de homónimos
por todo o lado: lê um livro
onde se fale de pessoas a matar pessoas - revolucionários,
sejam sérios e sinceros,

ou meros bandidos: Kalashnikoves - todos têm uma.
Há sempre um movimento de guerrilha
algures: uma Kalashnikov. Assassinos,
peões de senhores da guerra, contrabandistas, piratas,
ladrões: Kalashnikoves, calibre
7.62 x 39, 600 tiros
por minuto, um potencial de 10 cadáveres

por segundo.
Kalashnikov - não é uma dança,
ou uma trupe de prestigitadores divertidos,
ou uma marca de vodka,
e se responderes que é uma pequena cidade (49.000 habitantes)
no sul da Crimeia,
então estás mortalmente enganado.



(versão minha; original reproduzido em New & selected poems, 1975 - 1995, Mariner Books, Boston / Nova Iorque, 1997, p. 154).

sábado, 11 de julho de 2009

Jan Heller Levi

Nada mau, papá, nada mau



Penso que és mais tu próprio quando nadas;
cortas a água a cada braçada,
a maneira curiosa como respiras, a tua boca aberta
como se estivesses a bocejar.

Não és nem fantástico nem um desastre
no percurso daqui para ali.
Não ganharás medalhas, papá,
mas também não irás ao fundo.

Penso em como tudo poderia ter sido diferente
caso tivesse avaliado o teu amor
como avalio o teu estilo livre, a tua mariposa,
o teu estilo de bruços.

Mas eu sempre pensei que me estava a afundar
naquele oceano gelado entre nós,
sempre pensei que te movias demasido devagar para me salvares
quando afinal o fazias o mais depressa que podias.





(versão minha; original reproduzido em Poetry 180, a turning back to poetry, organização e introdução de Billy Collins, Random House, Nova Iorque, 2003, p. 5).

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Joseph Stroud

A noite no dia



A noite nunca quer acabar e entregar-se
à luz. Por isso emaranha-se em certas coisas: obsidiana, corvos.
Até no solstício do Verão, o dia do grande triunfo
da luz, quando os campos de girassóis se empanturram ao sol -
abrimos a melancia e cuspimos as sementes
negras, partículas da noite cintilando na erva.



(versão minha; original aqui).

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Marina Boroditskaya

Pobre compositor



Pobre compositor,
dispensável sem um piano,
pobre prosador,
desesperado sem uma secretária.
E pobre artista,
que precisa de cavalete, pincéis
e pequenos tubos de tinta.
Eu não seria capaz de lidar com isso.

Pobre, pobre escultor.
Pobre realizador.
Neste mundo só
o poeta é um ser afortunado.
Ele caminha pelo parque
com uma estrofe na cabeça.
(Isto desde que não lhe dês
- como a Pushkin - um tiro nas tripas).



(versão minha a partir da tradução inglesa de Ruth Fainlight, reproduzida em An anthology of contemporary russian women poets, organização e selecção de Valentina Polukhina e Daniel Weissbort, University of Iowa Press, Iowa City, 2005, p.21).

sábado, 4 de julho de 2009

Yusef Komunyakaa

Terra do Nunca



Quem me dera que esta noite
não fosses um dos Jackson Five
e apenas permanecesses

dentro de ti próprio,
intocado pelo vampiro
do luar. Tão ansioso

por representar O Outro,
terás esquecido que Drácula
foi escolhido pelo

seu cabelo negro, pela sua pele
cor-de-azeitona? Depois de
te teres tornado a tua própria capa

os títulos dos tablóides
enxertaram o teu nome
num rapazinho louro.

A tua vida íntima escorreu como sangue
pelo papel de jornal,
cruzou o teu rosto. Victor

Frankenstein sabia que é nosso dever
amarmos o que criamos. Talvez
agora a pele comece a rejuvenescer

sobre as mentiras & subtraia
tudo o que mina
nariz & ossos malares.

Tu podias dizer-nos se
é a solidão que faz
o pardal cantar.

Michael, não ligues
ao que a maquilhadora
diz, tu sabes

que o teu esperma nunca
reproduzirá esse rosto
no espelho oval.




(versão minha; original reproduzido em Real things - an anthology of popular culture in american poetry, selecção e organização de Jim Elledge e Susan Swartwout, Indiana University Press, Bloomington, 1999, pp. 150-151).

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Thomas Lux

Um homem leva a filha de 5 anos a uma execução pública pela guilhotina, Paris, 1857




É um homem mau. Diz ele em francês
à sua filha, na mesma cidade,
no mesmo ano em que Charles Baudelaire
publicou As Flores do Mal.
O pai da criança acredita
na utilização democrática desta máquina
indolor, rápida, humanitária: "Uma doce donzela
cujo abraço impulsionará a alma - seja de quem for -
para o céu". "Se te portares mal...", diz ele,
que soube pela leitura que Goethe comprou para o filho
uma guilhotina de brincar -
mas esta criança pode ver.
Senta-a nos seus ombros.
Não consigo ver os fantoches, diz ela.
É um homem mau, diz-lhe o pai.
A multidão já viu tudo isto outras vezes.
Alguns trazem vinho, comida.
A lâmina cintila - passarão ainda quinze anos
até que, manchada de preto,
o seu brilho seja obscurecido,
e mais alguns para que amortecedores de borracha sejam acrescentados
de forma a reduzir o duplo (o ressalto) impacto
da lâmina.
Papá, continuo sem conseguir ver os fantoches.



(versão minha; original reproduzido em New & selected poems - 1975 - 1995, Mariner Books, Boston / Nova Iorque, 1997, p. 11).

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Kenneth Rexroth

A madalena de Proust



Alguém ofereceu à minha
Filha uma caixa de
Velhas fichas para jogar póquer.
Hoje ela mostrou-me uma enquanto
Eu estava sentado, morto de
Cansaço, à secretária. É vermelha.
No verso e no reverso a imagem da
Cabeça de um alce e as letras
B.P.O.E. - uma ficha do Alce
Clube de uma qualquer pequena cidade. Atiro-a
Negligentemente ao ar e
Agarro-a para fazer um truque
Que divirta a minha filha.
De súbito tudo resvala para outro lado.
Vejo o meu pai
A fazer exactamente a mesma coisa,
Assobiando "Beautiful Dreamer",
O seu hálito cheirando fortemente
A whisky e tabaco. Posso
Escutá-lo a chegar a casa bêbedo
Vindo do Alce Clube de Elkhart,
Indiana, embatendo
Contra as cadeiras no escuro. Posso vê-lo
A morrer por causa de uma cirrose
No fígado, de úlceras
No estômago e pneumonia,
Ou, como ele disse no seu leito de morte,
Por causa de cartas manhosas, whisky genuíno,
Cavalos vagarosos e mulheres velozes.



(versão minha, a partir do original e da tradução castelhana de Armando Roa Vial, reproduzidos em This be the verse - 26 poetas de lengua inglesa del siglo XX, selecção, prólogos e traduções de Diana Dunkelberguer, Marcelo Rioseco e Armando Roa Vial, Be-uve-draís Editores, Santiago de Chile, 2003, pp. 86-87).

sábado, 27 de junho de 2009

Nina Cassian

Nós dois



Meu Deus, que sonho tive:
nós dois, mais apaixonados do que nunca,
a fazer amor como se fôssemos o primeiro casal na terra...
- e parecíamos tão belos, nus e selvagens,
nós dois, mortos.



(versão minha a partir da tradução do romeno para o inglês da responsabilidade da autora, reproduzida em The poetry of survival, organização e prefácio de Daniel Weissbort, Peguin, 2ª edição (?), Londres, 1993, p. 107).

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Belén Reyes

Sou poeta



Sou poeta
E nunca levo escolta.



(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - poesía alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, p.249).

terça-feira, 23 de junho de 2009

Nina Cassian

Exercícios matinais



Acordo e digo: estou inteira.
É o meu primeiro pensamento ao amanhecer.
Que bela maneira de começar o dia
com um pensamento tão bárbaro.

Meu Deus, tem piedade de mim
- é o segundo pensamento, e depois
levanto-me da cama
e faço-me à vida como se
nada tivesse sido dito.



(versão minha a partir da tradução inglesa do original romeno feita pela autora e reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª (?) edição, 1993, p. 107).

domingo, 21 de junho de 2009

José Manuel Arango

Os que têm por ofício lavar as ruas



Os que têm por ofício lavar as ruas
(madrugam, Deus ajuda-os)
encontram nas pedras, um dia após outro, rastos de sangue

E também os lavam: é o seu ofício
E depressa
não se dê o caso de os primeiros transeuntes os espezinharem



(versão minha; original reproduzido em La poesia del siglo XX em Colombia, edição de Ramón Cote Baraibar, Visor, Madrid, 2006, p. 276).

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Miroslav Holub

Cemitério judeu em Olsany, túmulo de Kafka, Abril, tempo solarengo



Ocultas sob os carvalhos
algumas pedras abandonadas
como palavras dispersas.
A solidão é tão compacta
que tem de ser feita de pedra.

O homem velho ao portão,
um Gregor Samsa
que não sofreu nenhuma metamorfose,
olha de esguelha
sob a nudez da luz,
respondendo a todas as perguntas:

Desculpe, mas não sei.
Não sou de Praga.



(versão minha, a partir da tradução do checo para o inglês de David Young e Dana Hábová reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª edição (?), p. 184)

terça-feira, 16 de junho de 2009

Leopold Staff

Fala



Não é necessário compreender o canto do rouxinol
Para o admirar.
Não é necessário compreender o coaxar das rãs
Para o considerar inebriante.
Eu compreendo a fala humana
Com todas as suas duplicidades e mentiras.
Se não a compreendesse
Seria o maior dos poetas.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Adam Czerniawski reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª (?) edição, 1993, p. 62).

domingo, 14 de junho de 2009

Brenda Ascoz

se sentes que não existes



se sentes que não existes,
que se extingue a tua voz quando é escutada,
que o teu corpo se apaga se ninguém o toca

se tu não existes,
a tua solidão muito menos.



(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - Poesía alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, 2009, p. 131).

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Roxana Popelka

Acerca da verdade, acerca da felicidade



Agora que
não estou contigo,
que não estarei
contigo nunca
mais,
é bom que
te diga várias coisas:

enganei-te
um montão de vezes
com alguns homens
muito mais jovens
do que tu
porque sabia que
isso era o que mais
te doía
e voltaria a fazê-lo
acredita
- asseguro-to -

que foram
os momentos
mais felizes da
minha vida.

Quando esses homens
me abriam a
porta e me
faziam entrar
nas suas casas.
E nos despíamos
com impaciência.

Então tirava
a camisola preta,
aquela, sim!
e o sutiã.

Alguns diziam-me:
"espera, fica um
instante com as cuecas
vestidas."

E beijávamo-nos
com paixão,
era autêntica a
paixão.

Lá fora
no pátio da
casa
ouvia-se uma mulher
a mexer os ovos perto do
televisor.

E voltávamos a beijar-nos
com ardor
esmagando
o que restava
dos nossos corpos
Alguns corpos
ossudos, outros
debilitados,
ou barbeados
tanto se me dava.

E entretanto
eu pensava tanto em como te
sentirias se tivesses
sabido
tudo isto.

Mas sempre
tive bons
álibis,
ainda te lembras?

Nunca suspeitaste
que tudo
aquilo era
mentira,
que o que fazia
verdadeiramente
era enganar-te com
homens muito
mais jovens
do que tu.

E essa
- asseguro-te -
foi a época
mais feliz da
minha vida.





(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - Poesía alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, 2009, pp. 210-213).

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Carol Ann Duffy

Namorada



Não uma rosa vermelha ou um coração de cetim.

Ofereço-te uma cebola.
É uma lua embrulhada em papel castanho.
Promete luz
tal como o cuidadoso desnudamento do amor.

Aqui.
Vai cegar-te com lágrimas
tal como um amante.
Vai fazer do teu reflexo
uma fotografia tremida de dor.

Tento ser verdadeira.

Não uma carta engraçada ou uma quantidade de beijos.

Ofereço-te uma cebola.
Os seus beijos violentos permanecerão nos teus lábios,
possessivos e fiéis
como nós somos,
enquanto continuarmos a ser.

Aceita-a.
Se o desejares
os seus anéis de platina servem de alianças.

Letais.
O seu cheiro vai agarrar-se aos teus dedos,
agarrar-se à tua faca.



(versão minha; original reproduzido em Selected poems, Peguin, Londres, 2006, p. 11).

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Almudena Vidorreta Torres

Outro lugar



Noutro lugar deixou-se ficar nua
e deu o seu corpo ao lobo mais faminto da cidade.

Noutro lugar abriu a casa ao inimigo
e disse-lhe toma tudo quanto queiras.

Noutro lugar dançou com tanta água
que se lhe humedeceram as entranhas
e apodreceu por dentro.

Noutro lugar veio tanta gente vê-la
que o aplauso se transformou em tempestade de Verão
e a cabeça estalou-lhe de tanta névoa e tantos caracóis
e tanto Agosto e tanto fogo.

Noutro lugar rendeu-se
deixou-se levar pelo instinto noutro lugar
e deitou-se para sobreviver aos seus pés
e lamber as feridas do caminho...
e viveu noutro lugar a vida de rastos.

Noutro lugar,
não neste.



(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - Poesía alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, 2009, p. 21.)

sábado, 6 de junho de 2009

Kevin Griffith

Girando



Seguro o meu filho de dois anos
por debaixo dos braços e faço-o girar.
Os seus pés afastam-se de mim
e o dia desfaz-se numa mancha.
Tudo o que possuo voa pelos ares:
brinquedos de quintal, balde de areia, pá e ancinho,
garagem, casa,
e, por fim, os anos da minha vida.

Quando paramos, o meu filho é um adulto
e eu envelheci. Voltamos
a vacilar nos braços um do outro
uma última vez, dois amigos extraviados
cambaleando por causa da bebida,
recordando os bons velhos tempos.



(versão minha; original reproduzido aqui).

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Wendy Cope

Poema composto em Santa Bárbara



Os poetas falam. Falam muito.
Falam de T.S. Eliot.
Um é contra. Outro a favor.
Que pensamentos profundos, os seus! Quanta sabedoria!
São felizes. Uma cigarra canta.
Nós, mulheres, falamos de outras coisas.



(versão minha; original reproduzido aqui).

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Kevin Griffith

Dobrando os quarenta



De tempos a tempos parece que há um pequeno planeta
dentro de mim. E neste planeta
há uma imensidade de pequenas guerras, porém nenhuma
suficientemente grande para fazer uma verdadeira diferença.
As maiores potências - o espírito e o coração - declararam
tréguas por agora. Se houve um líder neste planeta
ninguém se lembra dele. Todas
as decisões são tomadas em conjunto.
No entanto há algumas imagens do velho ditador -
como parecia cheio de juventude no seu grande cavalo,
como brilhavam os seus olhos.
Estava preparado para conquistar o mundo.



(versão minha; original reproduzido aqui).

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Carmen Ruiz Fleta

A mulher mais feia do mundo



A mulher mais feia do mundo
falava-me dos tratamentos faciais gratuitos
enquanto punha na minha mão um folheto
com a mulher mais bela do mundo.
Foi às 10 horas da manhã.
A mulher mais feia do mundo
deve entregar 500 folhetos diários
da mulher mais bela do mundo
para ganhar 587 euros por mês.
Ninguém olha a cara da mulher mais feia do mundo.
Ninguém se atreve.



(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - poesía alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, 2009, p. 87).

sábado, 30 de maio de 2009

Sofía Castañón

Chamo-me Sofía



Chamo-me Sofía
e desde pequena
tenho ouvido que é nome
de rainha.

Chamo-me Sofía
como os passos obscuros da minha avó
antes que um comboio me deixasse só
um nome
e um vazio
na memória.

Chamo-me Sofía
igual a conhecimento,
recordam-no aqueles que sabem três
palavras de grego e têm
muito pouco que contar.

Chamo-me Sofía
e nunca me dizem
como Coppola, como Marceau,
como a de Kill Bill
aquela a quem cortaram os dois braços.

E desculpo-me
por não ter um Jostein Gäarder
no meu mundo, por não
querer estar na ribalta, por não
ter da Bulgária mais do que um postal
que não era para mim.

Chamo-me Sofía
e desde pequena tenho ouvido
que é nome
de rainha e também
que por aqui chove muito
e que antes se lia mais
e que as crianças já não sabem brincar
e tantas outras
conversas de café. Por isso
para evitarmos
tanto tópico
e tanto discurso monárquico
queria chamar-me
de vez em quando
Dolores, Virgínia, Marguerite
e falar também
de revolução.



(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - poesia alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, 2009, pp. 37-38).

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Déborah Vukušić

chamo-me déborah vukušić



chamo-me déborah vukušić
sou duas metades
metade galega e metade croata
tenho 26 anos
23 de maio de 1979
saio para a luz

déborah em hebraico
'abelha'
vukušić em croata
uši: 'orelhas'
vuk: 'lobo'

abelha com orelhas de lobo




(versão minha, a partir do original em galego (?) e da sua versão castelhana (?), reproduzidos em 23 Pandoras - poesia alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, 2009, p. 71; mais informação aqui e aqui).

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Kenneth Rexroth

O lobo



Não acredites em tudo o que ouves.
Os lobos não são tão maus como os cordeiros.
Eu tenho sido um lobo toda a minha vida,
E tenho duas filhas adoráveis
Para o comprovar; em contrapartida poderia
Contar-te histórias repugnantes
De cordeiros que tiveram o que mereceram.


1956
(versão minha, a partir do original e da tradução para castelhano de Armando Roa Vial, reproduzidos em This be the verse - 26 poetas de lengua inglesa del siglo XX, selecção, prólogos e traduções de Diana Dunkelberguer, Marcelo Rioseco e Armando Roa Vial, Be-uve-dráis Editores, Santiago de Chile, 2003, pp. 88-89)

sábado, 23 de maio de 2009

Kenneth Rexroth

O leão



O leão é conhecido como o rei
Das bestas. Hoje em dia há
Quase tantos leões
Dentro como fora das jaulas.
Se te oferecerem uma coroa, recusa-a.


1955

(versão minha, a partir do original e da tradução para castelhano de Armando Roa Vial, reproduzidos em This be the verse - 26 poetas de lengua inglesa del siglo XX, selecção,prólogos e traduções de Diana Dunkelberguer, Marcelo Rioseco e Armando Roa Vial, Be-uve-dráis Editores, Santiago de Chile, 2003, pp. 86-87).

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Steve Kowit

A lição de gramática



Um nome é uma coisa. Um verbo é a coisa que se faz.
Um adjectivo é o que descreve o nome.
Em "A vasilha de beterrabas está cheia com cotão carmesim"

de e com são preposições. A é
um artigo, uma vasilha é um nome,
um nome é uma coisa. Um verbo é a coisa que se faz.

Uma vasilha pode ressoar - ou não. O que não é foi
ou pode ser, pode significando o ainda não conhecido.
"A nossa vasilha de beterrabas está cheia com cotão carmesim"

é o presente do indicativo. Enquanto palavras como nossa e nós
são pronomes - isto é, isto é bolorento e eles são castanhos e repelentes.
Um nome é uma coisa; um verbo é a coisa que se faz.

Está é um verbo auxiliar. Auxilia porque
cheia não é uma forma verbal completa. A vasilha é o que é nosso
em "A nossa vasilha de beterrabas está cheia com cotão carmesim".

Entendem? Não há muito mais a saber. É
só memorizar estas regras... ou escrevê-las no caderno!
Um nome é uma coisa, um verbo é a coisa que se faz.
A vasilha de beterrabas está cheia com cotão carmesim.



(versão minha; original reproduzido aqui).

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Blaga Dimitrova





A árvore perdoa ao vento
que lhe saqueia as folhas
e abraça-o com os ramos.
A ave perdoa à nuvem
que engole o sol
e saúda-a com as asas.
A onda perdoa à pedra
que lhe impede o salto
e envolve-a em carícias.
Só o homem não perdoa
ao ar, à água, à pedra,
a nenhuma criatura terrestre.
Persegue tudo com crueldade.

E está só no universo.




1994



(versão minha, a partir da tradução para castelhano de Zhivka Baltadzhieva, reproduzida em Espacios, tradução e prólogo de Z. Baltadzhieva, La Poesia, señor hidalgo, Barcelona, 2006, p. 113).

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Vladimír Holan

Mãe



Alguma vez observaste a tua velha mãe
a compor a cama para ti,
a maneira como ela estica, endireita, aconchega e alisa os lençóis
para que não sintas um só vinco?
A sua respiração, o movimento das palmas das mãos
são tão ternos
que no passado apagam esse incêndio em Persepolis
e agora acalmam uma futura tempestade
nas costas da China ou em mares desconhecidos.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Ian e Jasmila Milner, reproduzida em The poetry of survival, organização e introdução de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª edição (?), 1993, p. 37).

sábado, 16 de maio de 2009

Maggie Anderson

Cuspindo para as folhas



Em Spanishburg há rapazes com calças de ganga justas,
lama nas botas de vaqueiros, que usam grandes chapéus
com penas, penas de doninha dizem-me eles.
Não querem estar na escola, mas estão.
Alguns professores preocuparam-se o suficiente para os agarrar. Ao contrário
dos seus primos magros e desgrenhados, esses rapazes na Rua
Principal de Matoaka em Outubro, que se recostam nos parquímetros
e cospem para as folhas. Por causa deles, alguém
irá pensar que precisamos de uma guerra, que a melhor solução
para eles será pegar nos seus chapéus e penas,
nas suas belas maneiras de rústicos, e arrastá-los para longe,
para o Vietname, ou El Salvador. E eles irão.
Irão da Virgínia ocidental, das colinas e das estradas interiores
que ziguezagueiam como políticos por entre as árvores, e irão combater,
não porque saibam porquê mas porque o que sabem
é combater. O que sabem resume-se às suas penas,
aos seus braços fortes e descarnados, ao modo
como cospem para as folhas.



(versão minha; original reproduzido em American poetry now, organização de Ed Ochester, University of Pittsburgh Press, Pittsburgh, 2007, p. 2).

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Carol Ann Duffy

Educação para o ócio



Hoje vou matar alguma coisa. Qualquer coisa.
Estou farto de ser ignorado e hoje vou
representar o papel de Deus. É um dia vulgar,
uma mistura de cinzento e tédio arrebatador pelas ruas.

Esmago uma mosca contra a janela com o polegar.
Fizémo-lo na escola. Shakespeare. Foi noutra
língua e agora a mosca mudou-se para outra língua.
Expiro talento no vidro para escrever o meu nome.

Sou um génio. Poderia ser o que quisesse, com metade
da sorte. Mas hoje vou mudar o mundo.
O mundo de qualquer coisa. O gato evita-me. O gato
sabe que eu sou um génio, e escondeu-se.

Deito pela sanita os peixes dourados. Puxo o autoclismo.
Vejo como isto é bom. O periquito está aterrorizado.
De quinze em quinze dias, faço três quilómetros até à cidade
por causa de uma assinatura. Eles não gostam do meu autógrafo.

Não há nada para matar. Telefono para a rádio
e digo ao homem que está a falar com uma super-estrela.
Ele desliga. Pego na nossa faca do pão e saio.
O piso resplandece de súbito. Toco no teu braço.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).