segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Marie Howe
Paramos na lavandaria e na mercearia
e na estação de serviço e no mercado da fruta e
Despacha-te querida, digo eu, depressa,
enquanto ela vai correndo dois ou três passos atrás de mim
com o casaco azul aberto e as meias descaídas.
Para onde quero eu que ela se apresse? Para a sua sepultura?
Para a minha? Para que se descubra um dia finalmente adulta?
Hoje, cumpridas todas as tarefas, digo-lhe,
Desculpa-me querida estou sempre a dizer-te que te despaches -
Vai tu à frente. Faz tu de mãe.
Então, Despacha-te, diz ela, muito segura, olhando
para trás, para mim, rindo-se. Despacha-te queridinha, diz ela,
despacha-te, depressa, tirando-me as chaves de casa das mãos.
(versão minha; original reproduzido aqui).
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Óscar Hahn
O pai de turbante
e denso bigode negro
com os braços cruzados
À esquerda a sua esposa
com a túnica bordada
e o véu branco
Ahmad e Zainab
os dois filhos pequenos
de mãos dadas
Os avós sentados
em cadeirões de verga
Todos a sorrir
numa fotografia meio chamuscada
encontrada entre os escombros
da sua casa
depois do bombardeamento
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Vladimíra Cerepková
Não me fales como a um morto
não me fales como se eu fosse um defunto
fala-me
como se eu ainda não tivesse nascido
fala-me como se eu fosse árvore
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Óscar Hahn
Num bairro qualquer
no trabalho
na universidade
há um indivíduo que parece
perfeitamente normal
um bom cidadão
um estudante entre outros
um chefe de família
que cumpre os seus deveres
e dorme tranquilo
Ele não sabe
que noutras condições
noutro tempo
noutras circunstâncias
poderia ser
um informador
da polícia secreta
um censor de livros
um torturador
No entanto está aí
mesmo ao pé de ti
ou talvez sejas tu próprio
aquele que lê este poema
ou aquele que o escreve
sábado, 29 de agosto de 2009
Marvin Bell
Não és exactamente bela.
És inexactamente bela.
Deixas a erva daninha crescer junto à amoreira
E a amoreira cresce junto à casa.
Tão perto, no particular silêncio
De uma noite ventosa, que raspa a parede
E varre o dia até que adormecemos.
Uma criança disse-o, e pareceu verdadeiro.
"As coisas que se perderam são todas iguais."
Mas não é verdade. Se te perdesse
O ar não se moveria, nem a árvore cresceria.
Alguém arrancaria a erva daninha, minha flor.
O silêncio deixaria de te pertencer. Se te perdesse
Teria que pedir à erva que me deixasse adormecer.
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Pablo Garcia Casado
terça-feira, 28 de julho de 2009
Jan Erik Vold
O mistério básico
do capitalismo: como uma coroa, permanecendo imóvel
durante um certo período de tempo, faz nascer dez cêntimos
ao seu lado - por exemplo: Tu pões
como diz o anúncio
20.000 coroas numa conta de alta rentabilidade
num dos nossos grandes bancos. Passados seis anos
podes ir a esse banco e receber
35.532 coroas. Agora a questão é: A quem
tiraram as 15.532 coroas?
domingo, 26 de julho de 2009
Aaron Zeitlin
As crianças desaparecem.
Os adultos - espectros
de crianças mortas.
As crianças - sempre a morrer -
mesmo aquelas que continuam a brincar
no pátio da escola, na varanda
nas traseiras do armazém, atrás do sofá,
no canto do quarto.
As suas brincadeiras são breves -
acabam num instante.
Os adultos avisam-nas,
"Não se sujem."
"Despachem-se, vamos embora."
As crianças - criadoras. Travessas.
Agora aqui mesmo, desaparecidas logo a seguir.
As crianças desaparecem.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Aaron Zeitlin
Todos nós -
pedras, pessoas, estilhaços de vidro ao sol,
embalagens de compota, gatos e árvores -
somos ilustrações de um texto.
Algures, ninguém precisa de nós.
Aí, só o texto é lido -
as imagens desfazem-se como folhas secas.
Quando o vento da morte sacode a erva alta
e todas as imagens criadas pelas nuvens
a ocidente são varridas para longe -
a noite chega e interpreta as estrelas.
terça-feira, 21 de julho de 2009
Jean Nordhaus
Eu estava sempre de partida, sempre
prestes a levantar-me e a seguir, sempre
a caminho, sem saber para onde.
Para outro sítio. Aqui é que não.
Aqui nunca nada me bastava.
Teria de ser melhor lá, para onde
me dirigia. Sem saber como, nem porquê.
A cúpula debaixo da qual me encolhia
seria erguida, e eu haveria de ser lançado
para dentro da minha verdadeira vida. Nela
encontraria os que estava destinado a encontrar.
Receber-me-iam em festa,
com flautas e castanholas,
e seria levantado no ar. Que isto
pudessse ser uma espécie de morte
não me ocorreu. Só sei que
alguma coisa me reteve,
uma dúvida, uma dívida, um rosto que não pude
abandonar. Quando a porta
se abriu, não entrei.
(versão minha; original reproduzido aqui).
domingo, 19 de julho de 2009
Yehuda Amichai
Chove sobre a cara dos meus amigos;
sobre a cara dos meus amigos vivos
que tapam a cabeça com a manta
e sobre a cara dos meus amigos mortos
que já não se tapam.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Amir Gilboa
Sentai-vos, amigos, senta-te também tu
pai eu sou
aqui o mais alto o mais velho
de vós.
Sentai-vos comigo amigos meus
também eu aqui
me calarei convosco.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Mada Alderete
terça-feira, 14 de julho de 2009
Thomas Lux
(uma metralhadora AK-47, provavelmente a arma ligeira mais produzida da história)
Criada por Mikhail Kalashnikov que, se fosse vivo,
hoje teria setenta e três anos,
mas tão
conhecido na sua terra Russa
como Marina Tsvetayeva, Anna Akhamatova,
ou Ossip Mandelstam? Os Russos amam
os seus poetas. Eu não sei
o que eles sentem por Kalashnikov,
mas ele é ou foi mais próspero do
que alguma vez foram os poetas acima mencionados
e espalhou milhões de homónimos
por todo o lado: lê um livro
onde se fale de pessoas a matar pessoas - revolucionários,
sejam sérios e sinceros,
ou meros bandidos: Kalashnikoves - todos têm uma.
Há sempre um movimento de guerrilha
algures: uma Kalashnikov. Assassinos,
peões de senhores da guerra, contrabandistas, piratas,
ladrões: Kalashnikoves, calibre
7.62 x 39, 600 tiros
por minuto, um potencial de 10 cadáveres
por segundo.
Kalashnikov - não é uma dança,
ou uma trupe de prestigitadores divertidos,
ou uma marca de vodka,
e se responderes que é uma pequena cidade (49.000 habitantes)
no sul da Crimeia,
então estás mortalmente enganado.
sábado, 11 de julho de 2009
Jan Heller Levi
Penso que és mais tu próprio quando nadas;
cortas a água a cada braçada,
a maneira curiosa como respiras, a tua boca aberta
como se estivesses a bocejar.
Não és nem fantástico nem um desastre
no percurso daqui para ali.
Não ganharás medalhas, papá,
mas também não irás ao fundo.
Penso em como tudo poderia ter sido diferente
caso tivesse avaliado o teu amor
como avalio o teu estilo livre, a tua mariposa,
o teu estilo de bruços.
Mas eu sempre pensei que me estava a afundar
naquele oceano gelado entre nós,
sempre pensei que te movias demasido devagar para me salvares
quando afinal o fazias o mais depressa que podias.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Joseph Stroud
A noite nunca quer acabar e entregar-se
à luz. Por isso emaranha-se em certas coisas: obsidiana, corvos.
Até no solstício do Verão, o dia do grande triunfo
da luz, quando os campos de girassóis se empanturram ao sol -
abrimos a melancia e cuspimos as sementes
negras, partículas da noite cintilando na erva.
(versão minha; original aqui).
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Marina Boroditskaya
Pobre compositor,
dispensável sem um piano,
pobre prosador,
desesperado sem uma secretária.
E pobre artista,
que precisa de cavalete, pincéis
e pequenos tubos de tinta.
Eu não seria capaz de lidar com isso.
Pobre, pobre escultor.
Pobre realizador.
Neste mundo só
o poeta é um ser afortunado.
Ele caminha pelo parque
com uma estrofe na cabeça.
(Isto desde que não lhe dês
- como a Pushkin - um tiro nas tripas).
sábado, 4 de julho de 2009
Yusef Komunyakaa
Quem me dera que esta noite
não fosses um dos Jackson Five
e apenas permanecesses
dentro de ti próprio,
intocado pelo vampiro
do luar. Tão ansioso
por representar O Outro,
terás esquecido que Drácula
foi escolhido pelo
seu cabelo negro, pela sua pele
cor-de-azeitona? Depois de
te teres tornado a tua própria capa
os títulos dos tablóides
enxertaram o teu nome
num rapazinho louro.
A tua vida íntima escorreu como sangue
pelo papel de jornal,
cruzou o teu rosto. Victor
Frankenstein sabia que é nosso dever
amarmos o que criamos. Talvez
agora a pele comece a rejuvenescer
sobre as mentiras & subtraia
tudo o que mina
nariz & ossos malares.
Tu podias dizer-nos se
é a solidão que faz
o pardal cantar.
Michael, não ligues
ao que a maquilhadora
diz, tu sabes
que o teu esperma nunca
reproduzirá esse rosto
no espelho oval.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
Thomas Lux
É um homem mau. Diz ele em francês
à sua filha, na mesma cidade,
no mesmo ano em que Charles Baudelaire
publicou As Flores do Mal.
O pai da criança acredita
na utilização democrática desta máquina
indolor, rápida, humanitária: "Uma doce donzela
cujo abraço impulsionará a alma - seja de quem for -
para o céu". "Se te portares mal...", diz ele,
que soube pela leitura que Goethe comprou para o filho
uma guilhotina de brincar -
mas esta criança pode ver.
Senta-a nos seus ombros.
Não consigo ver os fantoches, diz ela.
É um homem mau, diz-lhe o pai.
A multidão já viu tudo isto outras vezes.
Alguns trazem vinho, comida.
A lâmina cintila - passarão ainda quinze anos
até que, manchada de preto,
o seu brilho seja obscurecido,
e mais alguns para que amortecedores de borracha sejam acrescentados
de forma a reduzir o duplo (o ressalto) impacto
da lâmina.
Papá, continuo sem conseguir ver os fantoches.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Kenneth Rexroth
Alguém ofereceu à minha
Filha uma caixa de
Velhas fichas para jogar póquer.
Hoje ela mostrou-me uma enquanto
Eu estava sentado, morto de
Cansaço, à secretária. É vermelha.
No verso e no reverso a imagem da
Cabeça de um alce e as letras
B.P.O.E. - uma ficha do Alce
Clube de uma qualquer pequena cidade. Atiro-a
Negligentemente ao ar e
Agarro-a para fazer um truque
Que divirta a minha filha.
De súbito tudo resvala para outro lado.
Vejo o meu pai
A fazer exactamente a mesma coisa,
Assobiando "Beautiful Dreamer",
O seu hálito cheirando fortemente
A whisky e tabaco. Posso
Escutá-lo a chegar a casa bêbedo
Vindo do Alce Clube de Elkhart,
Indiana, embatendo
Contra as cadeiras no escuro. Posso vê-lo
A morrer por causa de uma cirrose
No fígado, de úlceras
No estômago e pneumonia,
Ou, como ele disse no seu leito de morte,
Por causa de cartas manhosas, whisky genuíno,
Cavalos vagarosos e mulheres velozes.
sábado, 27 de junho de 2009
Nina Cassian
Meu Deus, que sonho tive:
nós dois, mais apaixonados do que nunca,
a fazer amor como se fôssemos o primeiro casal na terra...
- e parecíamos tão belos, nus e selvagens,
nós dois, mortos.
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Belén Reyes
Sou poeta
E nunca levo escolta.
terça-feira, 23 de junho de 2009
Nina Cassian
Acordo e digo: estou inteira.
É o meu primeiro pensamento ao amanhecer.
Que bela maneira de começar o dia
com um pensamento tão bárbaro.
Meu Deus, tem piedade de mim
- é o segundo pensamento, e depois
levanto-me da cama
e faço-me à vida como se
nada tivesse sido dito.
domingo, 21 de junho de 2009
José Manuel Arango
Os que têm por ofício lavar as ruas
(madrugam, Deus ajuda-os)
encontram nas pedras, um dia após outro, rastos de sangue
E também os lavam: é o seu ofício
E depressa
não se dê o caso de os primeiros transeuntes os espezinharem
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Miroslav Holub
Ocultas sob os carvalhos
algumas pedras abandonadas
como palavras dispersas.
A solidão é tão compacta
que tem de ser feita de pedra.
O homem velho ao portão,
um Gregor Samsa
que não sofreu nenhuma metamorfose,
olha de esguelha
sob a nudez da luz,
respondendo a todas as perguntas:
Desculpe, mas não sei.
Não sou de Praga.
terça-feira, 16 de junho de 2009
Leopold Staff
Não é necessário compreender o canto do rouxinol
Para o admirar.
Não é necessário compreender o coaxar das rãs
Para o considerar inebriante.
Eu compreendo a fala humana
Com todas as suas duplicidades e mentiras.
Se não a compreendesse
Seria o maior dos poetas.
domingo, 14 de junho de 2009
Brenda Ascoz
se sentes que não existes,
que se extingue a tua voz quando é escutada,
que o teu corpo se apaga se ninguém o toca
se tu não existes,
a tua solidão muito menos.
sexta-feira, 12 de junho de 2009
Roxana Popelka
Agora que
não estou contigo,
que não estarei
contigo nunca
mais,
é bom que
te diga várias coisas:
enganei-te
um montão de vezes
com alguns homens
muito mais jovens
do que tu
porque sabia que
isso era o que mais
te doía
e voltaria a fazê-lo
acredita
- asseguro-to -
que foram
os momentos
mais felizes da
minha vida.
Quando esses homens
me abriam a
porta e me
faziam entrar
nas suas casas.
E nos despíamos
com impaciência.
Então tirava
a camisola preta,
aquela, sim!
e o sutiã.
Alguns diziam-me:
"espera, fica um
instante com as cuecas
vestidas."
E beijávamo-nos
com paixão,
era autêntica a
paixão.
Lá fora
no pátio da
casa
ouvia-se uma mulher
a mexer os ovos perto do
televisor.
E voltávamos a beijar-nos
com ardor
esmagando
o que restava
dos nossos corpos
Alguns corpos
ossudos, outros
debilitados,
ou barbeados
tanto se me dava.
E entretanto
eu pensava tanto em como te
sentirias se tivesses
sabido
tudo isto.
Mas sempre
tive bons
álibis,
ainda te lembras?
Nunca suspeitaste
que tudo
aquilo era
mentira,
que o que fazia
verdadeiramente
era enganar-te com
homens muito
mais jovens
do que tu.
E essa
- asseguro-te -
foi a época
mais feliz da
minha vida.
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Carol Ann Duffy
Não uma rosa vermelha ou um coração de cetim.
Ofereço-te uma cebola.
É uma lua embrulhada em papel castanho.
Promete luz
tal como o cuidadoso desnudamento do amor.
Aqui.
Vai cegar-te com lágrimas
tal como um amante.
Vai fazer do teu reflexo
uma fotografia tremida de dor.
Tento ser verdadeira.
Não uma carta engraçada ou uma quantidade de beijos.
Ofereço-te uma cebola.
Os seus beijos violentos permanecerão nos teus lábios,
possessivos e fiéis
como nós somos,
enquanto continuarmos a ser.
Aceita-a.
Se o desejares
os seus anéis de platina servem de alianças.
Letais.
O seu cheiro vai agarrar-se aos teus dedos,
agarrar-se à tua faca.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Almudena Vidorreta Torres
Noutro lugar deixou-se ficar nua
e deu o seu corpo ao lobo mais faminto da cidade.
Noutro lugar abriu a casa ao inimigo
e disse-lhe toma tudo quanto queiras.
Noutro lugar dançou com tanta água
que se lhe humedeceram as entranhas
e apodreceu por dentro.
Noutro lugar veio tanta gente vê-la
que o aplauso se transformou em tempestade de Verão
e a cabeça estalou-lhe de tanta névoa e tantos caracóis
e tanto Agosto e tanto fogo.
Noutro lugar rendeu-se
deixou-se levar pelo instinto noutro lugar
e deitou-se para sobreviver aos seus pés
e lamber as feridas do caminho...
e viveu noutro lugar a vida de rastos.
Noutro lugar,
não neste.