segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Marie Howe

Depressa



Paramos na lavandaria e na mercearia
e na estação de serviço e no mercado da fruta e
Despacha-te querida, digo eu, depressa,
enquanto ela vai correndo dois ou três passos atrás de mim
com o casaco azul aberto e as meias descaídas.

Para onde quero eu que ela se apresse? Para a sua sepultura?
Para a minha? Para que se descubra um dia finalmente adulta?
Hoje, cumpridas todas as tarefas, digo-lhe,
Desculpa-me querida estou sempre a dizer-te que te despaches -
Vai tu à frente. Faz tu de mãe.

Então, Despacha-te, diz ela, muito segura, olhando
para trás, para mim, rindo-se. Despacha-te queridinha, diz ela,
despacha-te, depressa, tirando-me as chaves de casa das mãos.



(versão minha; original reproduzido aqui).

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Óscar Hahn

Retrato de família iraquiana



O pai de turbante
e denso bigode negro
com os braços cruzados
À esquerda a sua esposa
com a túnica bordada
e o véu branco
Ahmad e Zainab
os dois filhos pequenos
de mãos dadas
Os avós sentados
em cadeirões de verga
Todos a sorrir
numa fotografia meio chamuscada
encontrada entre os escombros
da sua casa
depois do bombardeamento



(versão minha; original reproduzido em Poemas de la era nuclear, Bartleby Editores, prólogo de Alexandra Domínguez, Madrid, 2008, p. 46).

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Vladimíra Cerepková

Para Eva O.



Não me fales como a um morto
não me fales como se eu fosse um defunto
fala-me
como se eu ainda não tivesse nascido
fala-me como se eu fosse árvore



(versão minha, a partir da tradução francesa de Petr Král reproduzida em Anthologie de la poésie tchèque contemporaine: 1945-2000, Gallimard, Paris, 2002, p. 266).

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Óscar Hahn

Nunca se sabe



Num bairro qualquer
no trabalho
na universidade
há um indivíduo que parece
perfeitamente normal
um bom cidadão
um estudante entre outros
um chefe de família
que cumpre os seus deveres
e dorme tranquilo
Ele não sabe
que noutras condições
noutro tempo
noutras circunstâncias
poderia ser
um informador
da polícia secreta
um censor de livros
um torturador
No entanto está aí
mesmo ao pé de ti
ou talvez sejas tu próprio
aquele que lê este poema
ou aquele que o escreve



(versão minha; original reproduzido em Poemas de la era nuclear, Bartleby Editores, Prólogo de Alexandra Domínguez, Madrid, 2008, p. 43).

sábado, 29 de agosto de 2009

Marvin Bell

Para Dorothy



Não és exactamente bela.
És inexactamente bela.
Deixas a erva daninha crescer junto à amoreira
E a amoreira cresce junto à casa.
Tão perto, no particular silêncio
De uma noite ventosa, que raspa a parede
E varre o dia até que adormecemos.

Uma criança disse-o, e pareceu verdadeiro.
"As coisas que se perderam são todas iguais."
Mas não é verdade. Se te perdesse
O ar não se moveria, nem a árvore cresceria.
Alguém arrancaria a erva daninha, minha flor.
O silêncio deixaria de te pertencer. Se te perdesse
Teria que pedir à erva que me deixasse adormecer.



(versão minha; original reproduzido em The invisible ladder, seleccção e organização de Liz Rosenberg, Henry Holt and Company, Nova Iorque, 1996, p. 7).

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Pablo Garcia Casado

Bloomberg



... TPI 3,86 +5,75. União FENOSA, 12, 42 +2,48. Valleformoso 9,15 + 1,10%. Zeltia 6,52 +2,19%. O euro tem estado a subir na última hora depois de ter sido fortemente desvalorizado devido aos avanços das tropas da coligação anglo-americana. Tony Blair opõe-se a que a Síria seja o próximo país a ser alvo de bombardeamentos na guerra. O Iraque assegura que derrubou dois caças bombardeiros americanos, um A-10 e um F-15, em Bagdade, segundo um porta-voz da televisão oficial iraquiana. George Bush chega à Irlanda do Norte para se reunir com Blair e conversar sobre a reconstrução do Iraque. Um dos responsáveis do Pentágono, Paul Wolfowitz, afirma que serão necessários pelo menos seis meses até que se possa organizar no Iraque um governo depois da queda de Saddam. A GUERRA NO IRAQUE. O jornalista espanhol Julio Anguita Parrado foi morto durante um ataque iraniano contra um centro de comunicações dos Estados Unidos nos arredores de Bagdade. O meu filho mais velho, de 32 anos, acaba de morrer no cumprimento das suas obrigações de correspondente de guerra. Há 20 dias esteve comigo e disse-me que queria estar na linha da frente, declarou o seu pai, Julio Anguita. A Cruz Vermelha adverte que as condições dos hospitais em Bagdade são terríveis. Peritos americanos em armamento químico e biológico acreditam ter encontrado um armazém iraquiano de mísseis com substâncias que poderão ser gás mostarda e gás sarin. O quartel general americano afirma que o governo do Iraque ainda possui alguma capacidade militar. Colin Powell declara que Washington enviará para o Iraque uma equipa preparada para colaborar na formação de um governo provisório no país. O número de prisioneiros iraquianos eleva-se a mais de 7.000, segundo o general Richard Myers. Geof Hoon disse desconhecer o paradeiro de Saddam e dos seus filhos. O IBEX 35 está a valorizar-se em 2,06%, pelo que se situa nos 6.45,20 pontos. Acerinox 35,00 +1,39%. Amadeus 4,59 +3,85...



(versão minha; original reproduzido em Poesía Pasión - doce jóvenes poetas españoles, selecção, introdução e notas de Eduardo Moga, Libros del Innombrable, Saragoça, 2004, pp. 147-148.)

terça-feira, 28 de julho de 2009

Jan Erik Vold

O mistério básico do capitalismo



O mistério básico
do capitalismo: como uma coroa, permanecendo imóvel

durante um certo período de tempo, faz nascer dez cêntimos
ao seu lado - por exemplo: Tu pões

como diz o anúncio
20.000 coroas numa conta de alta rentabilidade

num dos nossos grandes bancos. Passados seis anos
podes ir a esse banco e receber

35.532 coroas. Agora a questão é: A quem
tiraram as 15.532 coroas?



(versão minha, a partir da tradução para castelhano de Francisco J. Uriz reproduzida em El poema nos recuerda el mundo, prólogo, selecção e tradução de Francisco J. Uriz, Libros del Innombrable, Saragoça, 2000, p. 104).

domingo, 26 de julho de 2009

Aaron Zeitlin

As crianças estão sempre a morrer



As crianças desaparecem.
Os adultos - espectros
de crianças mortas.

As crianças - sempre a morrer -
mesmo aquelas que continuam a brincar
no pátio da escola, na varanda
nas traseiras do armazém, atrás do sofá,
no canto do quarto.
As suas brincadeiras são breves -
acabam num instante.
Os adultos avisam-nas,
"Não se sujem."
"Despachem-se, vamos embora."

As crianças - criadoras. Travessas.
Agora aqui mesmo, desaparecidas logo a seguir.

As crianças desaparecem.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Richard J. Fein, reproduzida em With everything we've got - a personal anthologt of yiddish poetry, selecção e tradução de Richard J. Fein, Host, Austin, 2009, p. 128).

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Aaron Zeitlin

Texto



Todos nós -
pedras, pessoas, estilhaços de vidro ao sol,
embalagens de compota, gatos e árvores -
somos ilustrações de um texto.

Algures, ninguém precisa de nós.
Aí, só o texto é lido -
as imagens desfazem-se como folhas secas.

Quando o vento da morte sacode a erva alta
e todas as imagens criadas pelas nuvens
a ocidente são varridas para longe -
a noite chega e interpreta as estrelas.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Richard J. Fein, reproduzida em With everything we've got - a personal anthology of yiddish poetry, selecção e tradução de Richard J. Fein, Host, Austin, 2009, p. 126).

terça-feira, 21 de julho de 2009

Jean Nordhaus

Eu estava sempre de partida



Eu estava sempre de partida, sempre
prestes a levantar-me e a seguir, sempre
a caminho, sem saber para onde.
Para outro sítio. Aqui é que não.
Aqui nunca nada me bastava.

Teria de ser melhor lá, para onde
me dirigia. Sem saber como, nem porquê.
A cúpula debaixo da qual me encolhia
seria erguida, e eu haveria de ser lançado
para dentro da minha verdadeira vida. Nela

encontraria os que estava destinado a encontrar.
Receber-me-iam em festa,
com flautas e castanholas,
e seria levantado no ar. Que isto
pudessse ser uma espécie de morte

não me ocorreu. Só sei que
alguma coisa me reteve,
uma dúvida, uma dívida, um rosto que não pude
abandonar. Quando a porta
se abriu, não entrei.



(versão minha; original reproduzido aqui).

domingo, 19 de julho de 2009

Yehuda Amichai

Em memória de Dicky


Em memória de Dicky



Chove sobre a cara dos meus amigos;
sobre a cara dos meus amigos vivos
que tapam a cabeça com a manta
e sobre a cara dos meus amigos mortos
que já não se tapam.



(versão minha, a partir da tradução para espanhol de Teresa Martínez reproduzida em Poesía hebrea contemporânea, tradução e introdução de Teresa Martínez, Hiperión, 2 ª edição, Madrid, 2001, p. 59).

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Amir Gilboa

Sentai-vos, amigos...



Sentai-vos, amigos, senta-te também tu
pai eu sou
aqui o mais alto o mais velho
de vós.

Sentai-vos comigo amigos meus
também eu aqui
me calarei convosco.



(versão minha, a partir da tradução do espanhol de Teresa Martínez reproduzida em Poesía hebrea contemporânea, tradução e introdução de Teresa MArtínez, Hipérión, 2ª edição, Madrid, 2001, p. 37).

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Mada Alderete

Nunca poderia ser Bukowski



nunca bebi um whisky inteiro
pelo que não poderia ser como ele
não sei o que se sente na pele de um sedutor
bêbedo, cansado e sujo,
eu teria cortado o cabelo
cheiraria a tangerina
e a minha casa seria branca
repara só no tempo que demorei com um pano
enquanto ele escrevia sem parar
não sou partidária da violação
não me entusiasma
importam-me as mulheres
não só como buraco e latrina
claro que não tenho nada pendurado entre as pernas
ansiando por uma estreita caverna diferente a toda a hora
isso conta bastante
bebo sumos nos bares
às vezes chá
e ao terceiro chá mudo para água mineral
porque me excita em demasia
poderia acontecer alguma coisa e eu não posso arriscar
bem vês
sou medrosa
assustar-me-ia ser como ele
tenho medo dos cães e das noites na rua
não sei vaguear sozinha à procura de sexo
nem sei onde se vendem drogas
nem quanto custam
se por acaso as pudesse pagar
às vezes vejo suspeitos cochichando em grupo
e não me aproximo
como de certeza ele faria
corro na outra direcção
aquela onde estão os bebés
que embalo encantada
conto-lhes histórias inocentes
nada bukowskianas
nunca amanheci cheia de litros de cerveja
e com cuecas com cheiros desconhecidos junto à cara
sempre fodi com um homem de cada vez
sem contar com os fantasmas
sofri mas mão me dava para sujar tudo e escrever
antes para chorar
e agora mudo de passeio se vejo que um danado me olha
porque sou cobarde
e porque não me porto mal
jamais existirão os meus melhores textos
posso sim
convidar-vos amanhã para abraços e pão-de-ló



(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - poesía alternativa espanõla, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile de Sol, 2ª edição, Tenerife, pp. 269-270).

terça-feira, 14 de julho de 2009

Thomas Lux

Kalashnikov



(uma metralhadora AK-47, provavelmente a arma ligeira mais produzida da história)



Criada por Mikhail Kalashnikov que, se fosse vivo,
hoje teria setenta e três anos,
mas tão
conhecido na sua terra Russa
como Marina Tsvetayeva, Anna Akhamatova,
ou Ossip Mandelstam? Os Russos amam
os seus poetas. Eu não sei

o que eles sentem por Kalashnikov,
mas ele é ou foi mais próspero do
que alguma vez foram os poetas acima mencionados
e espalhou milhões de homónimos
por todo o lado: lê um livro
onde se fale de pessoas a matar pessoas - revolucionários,
sejam sérios e sinceros,

ou meros bandidos: Kalashnikoves - todos têm uma.
Há sempre um movimento de guerrilha
algures: uma Kalashnikov. Assassinos,
peões de senhores da guerra, contrabandistas, piratas,
ladrões: Kalashnikoves, calibre
7.62 x 39, 600 tiros
por minuto, um potencial de 10 cadáveres

por segundo.
Kalashnikov - não é uma dança,
ou uma trupe de prestigitadores divertidos,
ou uma marca de vodka,
e se responderes que é uma pequena cidade (49.000 habitantes)
no sul da Crimeia,
então estás mortalmente enganado.



(versão minha; original reproduzido em New & selected poems, 1975 - 1995, Mariner Books, Boston / Nova Iorque, 1997, p. 154).

sábado, 11 de julho de 2009

Jan Heller Levi

Nada mau, papá, nada mau



Penso que és mais tu próprio quando nadas;
cortas a água a cada braçada,
a maneira curiosa como respiras, a tua boca aberta
como se estivesses a bocejar.

Não és nem fantástico nem um desastre
no percurso daqui para ali.
Não ganharás medalhas, papá,
mas também não irás ao fundo.

Penso em como tudo poderia ter sido diferente
caso tivesse avaliado o teu amor
como avalio o teu estilo livre, a tua mariposa,
o teu estilo de bruços.

Mas eu sempre pensei que me estava a afundar
naquele oceano gelado entre nós,
sempre pensei que te movias demasido devagar para me salvares
quando afinal o fazias o mais depressa que podias.





(versão minha; original reproduzido em Poetry 180, a turning back to poetry, organização e introdução de Billy Collins, Random House, Nova Iorque, 2003, p. 5).

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Joseph Stroud

A noite no dia



A noite nunca quer acabar e entregar-se
à luz. Por isso emaranha-se em certas coisas: obsidiana, corvos.
Até no solstício do Verão, o dia do grande triunfo
da luz, quando os campos de girassóis se empanturram ao sol -
abrimos a melancia e cuspimos as sementes
negras, partículas da noite cintilando na erva.



(versão minha; original aqui).

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Marina Boroditskaya

Pobre compositor



Pobre compositor,
dispensável sem um piano,
pobre prosador,
desesperado sem uma secretária.
E pobre artista,
que precisa de cavalete, pincéis
e pequenos tubos de tinta.
Eu não seria capaz de lidar com isso.

Pobre, pobre escultor.
Pobre realizador.
Neste mundo só
o poeta é um ser afortunado.
Ele caminha pelo parque
com uma estrofe na cabeça.
(Isto desde que não lhe dês
- como a Pushkin - um tiro nas tripas).



(versão minha a partir da tradução inglesa de Ruth Fainlight, reproduzida em An anthology of contemporary russian women poets, organização e selecção de Valentina Polukhina e Daniel Weissbort, University of Iowa Press, Iowa City, 2005, p.21).

sábado, 4 de julho de 2009

Yusef Komunyakaa

Terra do Nunca



Quem me dera que esta noite
não fosses um dos Jackson Five
e apenas permanecesses

dentro de ti próprio,
intocado pelo vampiro
do luar. Tão ansioso

por representar O Outro,
terás esquecido que Drácula
foi escolhido pelo

seu cabelo negro, pela sua pele
cor-de-azeitona? Depois de
te teres tornado a tua própria capa

os títulos dos tablóides
enxertaram o teu nome
num rapazinho louro.

A tua vida íntima escorreu como sangue
pelo papel de jornal,
cruzou o teu rosto. Victor

Frankenstein sabia que é nosso dever
amarmos o que criamos. Talvez
agora a pele comece a rejuvenescer

sobre as mentiras & subtraia
tudo o que mina
nariz & ossos malares.

Tu podias dizer-nos se
é a solidão que faz
o pardal cantar.

Michael, não ligues
ao que a maquilhadora
diz, tu sabes

que o teu esperma nunca
reproduzirá esse rosto
no espelho oval.




(versão minha; original reproduzido em Real things - an anthology of popular culture in american poetry, selecção e organização de Jim Elledge e Susan Swartwout, Indiana University Press, Bloomington, 1999, pp. 150-151).

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Thomas Lux

Um homem leva a filha de 5 anos a uma execução pública pela guilhotina, Paris, 1857




É um homem mau. Diz ele em francês
à sua filha, na mesma cidade,
no mesmo ano em que Charles Baudelaire
publicou As Flores do Mal.
O pai da criança acredita
na utilização democrática desta máquina
indolor, rápida, humanitária: "Uma doce donzela
cujo abraço impulsionará a alma - seja de quem for -
para o céu". "Se te portares mal...", diz ele,
que soube pela leitura que Goethe comprou para o filho
uma guilhotina de brincar -
mas esta criança pode ver.
Senta-a nos seus ombros.
Não consigo ver os fantoches, diz ela.
É um homem mau, diz-lhe o pai.
A multidão já viu tudo isto outras vezes.
Alguns trazem vinho, comida.
A lâmina cintila - passarão ainda quinze anos
até que, manchada de preto,
o seu brilho seja obscurecido,
e mais alguns para que amortecedores de borracha sejam acrescentados
de forma a reduzir o duplo (o ressalto) impacto
da lâmina.
Papá, continuo sem conseguir ver os fantoches.



(versão minha; original reproduzido em New & selected poems - 1975 - 1995, Mariner Books, Boston / Nova Iorque, 1997, p. 11).

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Kenneth Rexroth

A madalena de Proust



Alguém ofereceu à minha
Filha uma caixa de
Velhas fichas para jogar póquer.
Hoje ela mostrou-me uma enquanto
Eu estava sentado, morto de
Cansaço, à secretária. É vermelha.
No verso e no reverso a imagem da
Cabeça de um alce e as letras
B.P.O.E. - uma ficha do Alce
Clube de uma qualquer pequena cidade. Atiro-a
Negligentemente ao ar e
Agarro-a para fazer um truque
Que divirta a minha filha.
De súbito tudo resvala para outro lado.
Vejo o meu pai
A fazer exactamente a mesma coisa,
Assobiando "Beautiful Dreamer",
O seu hálito cheirando fortemente
A whisky e tabaco. Posso
Escutá-lo a chegar a casa bêbedo
Vindo do Alce Clube de Elkhart,
Indiana, embatendo
Contra as cadeiras no escuro. Posso vê-lo
A morrer por causa de uma cirrose
No fígado, de úlceras
No estômago e pneumonia,
Ou, como ele disse no seu leito de morte,
Por causa de cartas manhosas, whisky genuíno,
Cavalos vagarosos e mulheres velozes.



(versão minha, a partir do original e da tradução castelhana de Armando Roa Vial, reproduzidos em This be the verse - 26 poetas de lengua inglesa del siglo XX, selecção, prólogos e traduções de Diana Dunkelberguer, Marcelo Rioseco e Armando Roa Vial, Be-uve-draís Editores, Santiago de Chile, 2003, pp. 86-87).

sábado, 27 de junho de 2009

Nina Cassian

Nós dois



Meu Deus, que sonho tive:
nós dois, mais apaixonados do que nunca,
a fazer amor como se fôssemos o primeiro casal na terra...
- e parecíamos tão belos, nus e selvagens,
nós dois, mortos.



(versão minha a partir da tradução do romeno para o inglês da responsabilidade da autora, reproduzida em The poetry of survival, organização e prefácio de Daniel Weissbort, Peguin, 2ª edição (?), Londres, 1993, p. 107).

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Belén Reyes

Sou poeta



Sou poeta
E nunca levo escolta.



(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - poesía alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, p.249).

terça-feira, 23 de junho de 2009

Nina Cassian

Exercícios matinais



Acordo e digo: estou inteira.
É o meu primeiro pensamento ao amanhecer.
Que bela maneira de começar o dia
com um pensamento tão bárbaro.

Meu Deus, tem piedade de mim
- é o segundo pensamento, e depois
levanto-me da cama
e faço-me à vida como se
nada tivesse sido dito.



(versão minha a partir da tradução inglesa do original romeno feita pela autora e reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª (?) edição, 1993, p. 107).

domingo, 21 de junho de 2009

José Manuel Arango

Os que têm por ofício lavar as ruas



Os que têm por ofício lavar as ruas
(madrugam, Deus ajuda-os)
encontram nas pedras, um dia após outro, rastos de sangue

E também os lavam: é o seu ofício
E depressa
não se dê o caso de os primeiros transeuntes os espezinharem



(versão minha; original reproduzido em La poesia del siglo XX em Colombia, edição de Ramón Cote Baraibar, Visor, Madrid, 2006, p. 276).

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Miroslav Holub

Cemitério judeu em Olsany, túmulo de Kafka, Abril, tempo solarengo



Ocultas sob os carvalhos
algumas pedras abandonadas
como palavras dispersas.
A solidão é tão compacta
que tem de ser feita de pedra.

O homem velho ao portão,
um Gregor Samsa
que não sofreu nenhuma metamorfose,
olha de esguelha
sob a nudez da luz,
respondendo a todas as perguntas:

Desculpe, mas não sei.
Não sou de Praga.



(versão minha, a partir da tradução do checo para o inglês de David Young e Dana Hábová reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª edição (?), p. 184)

terça-feira, 16 de junho de 2009

Leopold Staff

Fala



Não é necessário compreender o canto do rouxinol
Para o admirar.
Não é necessário compreender o coaxar das rãs
Para o considerar inebriante.
Eu compreendo a fala humana
Com todas as suas duplicidades e mentiras.
Se não a compreendesse
Seria o maior dos poetas.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Adam Czerniawski reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª (?) edição, 1993, p. 62).

domingo, 14 de junho de 2009

Brenda Ascoz

se sentes que não existes



se sentes que não existes,
que se extingue a tua voz quando é escutada,
que o teu corpo se apaga se ninguém o toca

se tu não existes,
a tua solidão muito menos.



(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - Poesía alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, 2009, p. 131).

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Roxana Popelka

Acerca da verdade, acerca da felicidade



Agora que
não estou contigo,
que não estarei
contigo nunca
mais,
é bom que
te diga várias coisas:

enganei-te
um montão de vezes
com alguns homens
muito mais jovens
do que tu
porque sabia que
isso era o que mais
te doía
e voltaria a fazê-lo
acredita
- asseguro-to -

que foram
os momentos
mais felizes da
minha vida.

Quando esses homens
me abriam a
porta e me
faziam entrar
nas suas casas.
E nos despíamos
com impaciência.

Então tirava
a camisola preta,
aquela, sim!
e o sutiã.

Alguns diziam-me:
"espera, fica um
instante com as cuecas
vestidas."

E beijávamo-nos
com paixão,
era autêntica a
paixão.

Lá fora
no pátio da
casa
ouvia-se uma mulher
a mexer os ovos perto do
televisor.

E voltávamos a beijar-nos
com ardor
esmagando
o que restava
dos nossos corpos
Alguns corpos
ossudos, outros
debilitados,
ou barbeados
tanto se me dava.

E entretanto
eu pensava tanto em como te
sentirias se tivesses
sabido
tudo isto.

Mas sempre
tive bons
álibis,
ainda te lembras?

Nunca suspeitaste
que tudo
aquilo era
mentira,
que o que fazia
verdadeiramente
era enganar-te com
homens muito
mais jovens
do que tu.

E essa
- asseguro-te -
foi a época
mais feliz da
minha vida.





(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - Poesía alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, 2009, pp. 210-213).

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Carol Ann Duffy

Namorada



Não uma rosa vermelha ou um coração de cetim.

Ofereço-te uma cebola.
É uma lua embrulhada em papel castanho.
Promete luz
tal como o cuidadoso desnudamento do amor.

Aqui.
Vai cegar-te com lágrimas
tal como um amante.
Vai fazer do teu reflexo
uma fotografia tremida de dor.

Tento ser verdadeira.

Não uma carta engraçada ou uma quantidade de beijos.

Ofereço-te uma cebola.
Os seus beijos violentos permanecerão nos teus lábios,
possessivos e fiéis
como nós somos,
enquanto continuarmos a ser.

Aceita-a.
Se o desejares
os seus anéis de platina servem de alianças.

Letais.
O seu cheiro vai agarrar-se aos teus dedos,
agarrar-se à tua faca.



(versão minha; original reproduzido em Selected poems, Peguin, Londres, 2006, p. 11).

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Almudena Vidorreta Torres

Outro lugar



Noutro lugar deixou-se ficar nua
e deu o seu corpo ao lobo mais faminto da cidade.

Noutro lugar abriu a casa ao inimigo
e disse-lhe toma tudo quanto queiras.

Noutro lugar dançou com tanta água
que se lhe humedeceram as entranhas
e apodreceu por dentro.

Noutro lugar veio tanta gente vê-la
que o aplauso se transformou em tempestade de Verão
e a cabeça estalou-lhe de tanta névoa e tantos caracóis
e tanto Agosto e tanto fogo.

Noutro lugar rendeu-se
deixou-se levar pelo instinto noutro lugar
e deitou-se para sobreviver aos seus pés
e lamber as feridas do caminho...
e viveu noutro lugar a vida de rastos.

Noutro lugar,
não neste.



(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - Poesía alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, 2009, p. 21.)