domingo, 18 de outubro de 2009

Anna Swir

Ele teve sorte


Para o Prof. Wladyslaw Tatarkiewicz



O homem velho
deixa a sua casa, traz os seus livros.
Um soldado alemão agarra os livros
atira-os para a lama.

O homem velho apanha-os,
o soldado bate-lhe na cara.
O homem velho cai,
o soldado pontapeia-o e vai-se embora.

O homem velho
fica estendido na lama, a sangrar.
Sente debaixo de si
os livros.



(versão minha a partir da tradução inglesa do polaco de Magnus J. Krynski e Robert A. Maguire reproduzida em The poetry of survival, organização e introdução de Daniel Weissbort, Peguin Books, Londres, 2ª (?) edição, 1993, pp. 67-68).

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Roger McGough

Um poema sério



Este é um poema sério
Com uma aparência séria
Não desperdiça uma só palavra
Conhece bem o seu lugar.

Perfeitamente equilibrado
Nem longo nem curto
Olha solenemente os céus
Como um verdadeiro poema deve fazer.
`
Conhecedor dos clássicos
Dispõe nomes à vontade.
Aqui vem Platão com Lycidas
E, reparem, eis Demóstenes!

Um poema sério há-de findar muitas vezes
Com dois versos que rimam.
Mas nem sempre.



(versão minha; original reproduzido em Collected poems, Peguin Books, 2ª edição, Londres, 2004, p. 297).

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Rolf Jacobsen

Torres melancólicas



Os escravos tinham mãos imensas e construíram torres melancólicas.
Tinham coração de chumbo, costas como montanhas e construíram torres melancólicas
Tinham mãos como martelos de pedra e construíram montanhas
de silêncio
Estão na Borgonha e Balbek e em Jerez de la Frontera.
Muros de um cinzento envelhecido sobre os bosques, frentes de pedra
e olhos melancólicos,
em muitos lugares da terra
de onde as andorinhas saem em grandes cachos pelo ar
como chicotadas silenciosas.




(versão minha, a partir da tradução espanhola de Francisco J. Uriz, reproduzida em Tres poetas noruegos, tradução e selecção de F.J. Uriz, Libros del Innombrable, 2002, p. 23).

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Danila Stoyanova

O rapaz matou um pato...



O rapaz matou um pato
com uma pedra
mas não se apercebeu.
O pato não deu conta de nada
porque ficou morto.
Os outros patos nadaram
debaixo de água
os pecoços esticados para baixo.

Isto aconteceu mesmo?
Ninguém sabe
porque ninguém viu.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Belin Tonchev, reproduzida em Young poets of a new Bulgaria - an anthology, selecção e tradução de Belin Tonchev, introdução de Sebastian Barker, Forest Books, Londres, 1990, p. 135).

sábado, 10 de outubro de 2009

Nikki Giovanni

O mundo não é um lugar agradável para se estar



o mundo não é um lugar agradável
para se estar sem
alguém para defendermos ou que nos defenda

um rio só deterá
o seu fluir se
uma corrente lá estiver
para o receber

um oceano nunca escarnecerá
se as nuvens não estiverem lá
para lhe beijarem as lágrimas

o mundo não é
um lugar agradável para se estar sem
alguém


[17 fev 72]



(versão minha; original reproduzido em The invisible ladder, selecção e organização de Liz Rosenberg, Henry Holt and Company, Nova Iorque, p. 72).

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Jack Agüeros

Salmo pela distribuição



Senhor,
na Rua nº 8
entre a 6ª Avenida e a Broadway
em Greenwich Village
há tantas sapatarias
com tantos sapatos
que me pergunto
por que há tanta gente descalça
na terra.

Senhor,
tens que despedir o Anjo
que tem a tarefa da distribuição.



(versão minha; original reproduzido algures por aqui).

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Nicolai Kolev-Bosiya

Posição



Estou a pintar
uma pequena cruz preta
na testa
para que
o inimigo
possa apontar melhor.
Não torno pública
a minha falta de medo.
Sei
que o assassino
não compreenderia.
Ele desenharia
apenas um ponto
no centro do alvo
e o seu indicador
premiria o gatilho.
Um buraco abrir-se-ia
na testa despedaçada,
no meio dessa
nobre Cruz da Bíblia.
Então eu extrairia
da polpa espessa
alguns pensamentos e sangue,
miolos e um grito
e com isso pintaria
a terrível tela da vida,
com isso escreveria
o meu mais terno poema.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Belin Tonchev reproduzida em Young poets of a new Bulgaria, selecção e tradução de B. Tonchev, introdução de Sebastian Barker, Forest Books, Londres, 1990, p. 38).

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Jack Agüeros

Salmo pelo bacalhau



Senhor,
agradecemos-te pelo bacalhau,
agradecemos-te pelo bacalhau salgado
e agradecemos-te pelo bacalhau sem espinhas
e agradecemos-te pelo bacalhau
que é tão dócil que
nada em molho de tomate tão ditosamente
como nada em azeite.

Senhor,
agradecemos-te especialmente porque o bacalhau
não nada perto das costas
de Porto Rico.
Agradecemos-te por ele ir tão bem
com banana verde
rodelas de cebola e ovos mexidos.

E, Senhor,
porque é um peixe
agradecemos-te por o deixares vir a voar
até Porto Rico, agradecemos-te
por o deixares vir de barco
até aos nossos portos, agradecemos-te
por o deixares vir a nado até às nossas bocas tão felizes.



(versão minha; original reproduzido em El coro - a chorus of latino and latina poetry, selecção e organização de Martín Espada, 1997, University of Massachusets Press, Amherst, p. 8).

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Martín Espada

Regras para a "oficina de poesia" do Capitão Ahab em Provincetown



1. Sois livres de escrever um poema sobre qualquer assunto, desde que diga respeito à Baleia Branca.
2. Será concedido um dobrão de ouro ao primeiro que entre vós aviste num poema a Baleia Branca.
3. O Prémio Chamem-me Ismael será atribuído ao melhor poema sobre a Baleia Branca, o qual será publicado na Revista Baleia Branca.
4. O Piquenique e o Jogo de Beisebol de Homenagem a Herman Melville estarão abertos a todos aqueles que entre vós escrevam um poema sobre seguir o seu Capitão até aos fundos do inferno para matar a Baleia Branca.
5. Haverá um caixão gratuito à deriva para todo o participante na "oficina" que caia borda fora enquanto escreve um poema sobre a Baleia Branca.
6. Haverá uma perna gratuita, talhada em mandíbula de baleia, para todo o participante na oficina que seja atirado do mastro enquanto escreve um poema sobre a Baleia Branca.
7. Haverá um funeral gratuito em pleno oceano, que incluirá um coro de aguerridos lobos do mar entoando cânticos marítimos sobre a Baleia Branca, para todo o participante da "oficina" que seja decapitado enquanto escreve um poema sobre a Baleia Branca.
8. Aquele que entre vós não busque a Baleia Branca nos seus poemas será arpoado.
(versão minha a partir do original e da tradução para espanhol de Óscar D. Sarmiento, Diogo Zaitegui e Pedro J. Miguel, reproduzida em Soldados en el jardín, El Gaviero Ediciones, Almería, 2009, p. 13).

domingo, 27 de setembro de 2009

Ivan Krustev

A história apócrifa da porcelana



A paixão pela porcelana, Europa do século XIX.
Serviços, elefantes e copos.
O mundo é vasto e bom,
Distinto, frágil, aristocrático.
E há algo para além disto,
O horizonte ergue-se transparente.
A América é só uma costa.
E a China um gato preto.
Montesquieu continua a redigir
As suas cartas sobre filósofos.
Os eruditos usam perucas
E as senhoras - flores.
Os soberanos não são dementes
E, no entanto, não são grandes inteligências.
Nenhum fantasma persegue a Europa
E o amor é fantasmagórico.
Infelizmente os poetas são de salão,
Felizmente os seus poemas não.
E a liberdade, como um jarro,
Está no centro do pensamento.
A nova história começa
Com fragmentos de porcelana.
Enterrada em pequenos elefantes brancos
Deixamos a idade da Razão para trás.



(versão minha a partir da tradução inglesa de Belin Tonchev, reproduzida em Young poets of a new Bulgaria- an anthology, selecção e tradução de Belin Tonchev, introdução de Sebastian Barker, Forest Books, Londres, 1990, p. 42).

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Martín Espada

A república da poesia


Para o Chile



Na república da poesia
um comboio cheio de poetas
desliza para sul debaixo da chuva
tal como as ameixeiras balançam
e os cavalos escoiceiam o ar,
e as bandas filarmónicas
desfilam pelas ruas
com trompetes, com chapéus de coco,
seguidas pelo presidente
da república,
que aperta todas as mãos.

Na república da poesia
os monges imprimem versos sobre a noite
em caixas de chocolate conventual,
cozinhas em restaurantes
usam odes como receitas
de enguias ou alcachofras,
e os poetas comem à borla.

Na república da poesia
os poetas lêem para os babuínos
no jardim zoológico, e todos os primatas
- como poetas e babuínos - gritam de alegria.

Na república da poesia
os poetas alugam um helicóptero
para bombardearem o palácio nacional
com poemas impressos em marcadores de páginas
e toda a gente, cega pelas lágrimas,
se precipita no pátio
para apanhar um poema
que esvoaça caindo do céu.

Na república da poesia
a guarda do aeroporto
não autorizará a tua saída do país
até que lhe declames um poema
e ela diga Ah! Lindo.



(versão minha a partir do original, reproduzido aqui, e da tradução para espanhol de Óscar D. Sarmiento, Diego Zaitegui e Pedro J. Miguel incluída em Soldados en el jardín - Antologia 1989-2009, El Gaviero Ediciones, Almería, 2009, pp. 14-15).

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Jan Polkowski

Não escrevas nada...



Não escrevas nada. Deixa os outros falarem,
e mesmo que eles nunca usem palavras como:
revolução, liberdade, dignidade, humilhação,
mesmo que as suas línguas sejam apenas carne
e não cítaras, ou frescos, ou espadas, permite-lhes
que falem. Deixa o sangue correr
e o fogo propagar-se, deixa o tronco da limeira engrossar,
deixa a água e o fruto extraviarem-se.
Não retenhas o teu coração,
deixa-o beber e escutar.



(versão minha a partir da tradução de Donald Pirie reproduzida em Young poets of a new Poland, introdução e traduções de D. Pirie, Forest Books, Londres, 1993, p. 82.)

domingo, 20 de setembro de 2009

Margaret Atwood

Eles jantam fora



Nos restaurantes discutimos
qual de nós pagará o teu funeral

ainda que a verdadeira pergunta seja
se farei ou não de ti um ser imortal.

Neste momento só eu
posso fazê-lo e assim

levanto o garfo mágico
sobre o prato de carne e arroz frito

e cravo-o no teu coração.
Há um pequeno estalido, um zumbido

e da tua própria cabeça fendida
emerges incandescente;

o céu abre-se
uma voz canta O Amor É Uma

Coisa Esplendorosa
circulas suspenso por cima da cidade

com um fato azul e uma capa vermelha,
os teus olhos brilhando em uníssono.

Os outros comensais olham-te
alguns com temor, outros só com aborrecimento:

não conseguem decidir se és uma nova arma
ou apenas outro anúncio.

Quanto a mim, continuo a comer;
gostava mais de ti como eras,
mas tu sempre foste ambicioso.



(versão minha, a partir do original e da tradução para espanhol de Pilar Somacarrera Íñigo, reproduzidos em Juegos de poder, tradução, introdução e notas de P. S. Íñigo, Hiperión, Madrid, 2000, p. 33).

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Martín Espada

Blasfémia



Permitam que a blasfémia seja dita: a poesia pode salvar-nos,
não da maneira como um pescador iça para dentro do barco
o nadador que se afoga, não da maneira como Jesus, entre gritos,
promete vida eterna ao ladrão crucificado ao seu lado
no monte, mas ainda assim salvação.

Algures um condenado soluça sobre um livro de poemas
trazido da biblioteca da prisão, e eu conheço o motivo
pelo qual as suas mãos têm o cuidado de não quebrar as páginas tão frágeis.



(versão minha; original reproduzido aqui).

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Óscar Hahn

Numa estação de Metro



Desventurados os que avistaram
uma rapariga no Metro

e se apaixonaram de repente
e a seguiram enlouquecidos

e a perderam para sempre entre a multidão

Porque serão condenados
a vaguear sem rumo pelas estações

e a chorar com as canções de amor
que os músicos ambulantes cantam nos túneis

E se calhar o amor não é mais do que isso:

uma mulher ou um homem que sai de uma carruagem
numa qualquer estação de Metro

e resplandece por uns segundos
e desaparece na noite sem nome



(versão minha; original reproduzido em Poemas de la era nuclear, Bartleby Editores, prólogo de Alexandra Domínguez, Madrid, 2008, p. 95).

sábado, 12 de setembro de 2009

Marcin Swietlicki

A palavra ética (24 de Março de 1988)



Varro as escadas que conduzem ao
Palácio das Artes. Isto não é uma metáfora:
é a realidade. Algum dinheiro extra.
A poesia precisa de sobreviver de alguma maneira. A poesia
tem que comer.
É primavera. O inverno deixou-nos a sua sujidade -
esta mistela branca tão facilmente transformada em lama
húmida, negra e pegajosa. Um monte
de beatas, papéis, caganitas de pássaros, fezes de cão e
um bocado que é provavelmente um excremento humano.
Isto também não é uma metáfora: é a realidade.
O meu uso das palavras trouxe-me
até aqui. O céu ficou limpo.
A chuva não lavará tudo isto.



(versão minha a partir da tradução inglesa de Donald Pirie, reproduzida em Young poets of a new Poland, Forest Books, Londres, 1993, p. 169).

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Bronislaw Maj

Nunca escreverei um poema...



Nunca escreverei um poema longo: tudo
o que encontrei aqui impede-me
de dizer mentiras: isto existe entre
duas golfadas de ar, apenas num
relance, num só aprisionamento do coração. E agora
estou só, e o que está aqui comigo
chega apenas para uma dúzia (mais ou menos)
de pequenos versos, um poema tão breve como o instante de vida
de uma borboleta das couves, ou o fulgor de luz
na crista de uma onda,
de um ser humano, ou de uma catedral. Uma dúzia (mais
ou menos) de versos depois,
e o que existe entre eles: a perpétua
fulgurância da luz, a eternidade da vida de uma borboleta
e a humanidade que transcende
a morte.




(versão minha, a partir da tradução inglesa de Donald Pirie, reproduzida em Young poets of a new Poland, Forest Books, Londres, 1993, p. 61).

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Marie Howe

Depressa



Paramos na lavandaria e na mercearia
e na estação de serviço e no mercado da fruta e
Despacha-te querida, digo eu, depressa,
enquanto ela vai correndo dois ou três passos atrás de mim
com o casaco azul aberto e as meias descaídas.

Para onde quero eu que ela se apresse? Para a sua sepultura?
Para a minha? Para que se descubra um dia finalmente adulta?
Hoje, cumpridas todas as tarefas, digo-lhe,
Desculpa-me querida estou sempre a dizer-te que te despaches -
Vai tu à frente. Faz tu de mãe.

Então, Despacha-te, diz ela, muito segura, olhando
para trás, para mim, rindo-se. Despacha-te queridinha, diz ela,
despacha-te, depressa, tirando-me as chaves de casa das mãos.



(versão minha; original reproduzido aqui).

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Óscar Hahn

Retrato de família iraquiana



O pai de turbante
e denso bigode negro
com os braços cruzados
À esquerda a sua esposa
com a túnica bordada
e o véu branco
Ahmad e Zainab
os dois filhos pequenos
de mãos dadas
Os avós sentados
em cadeirões de verga
Todos a sorrir
numa fotografia meio chamuscada
encontrada entre os escombros
da sua casa
depois do bombardeamento



(versão minha; original reproduzido em Poemas de la era nuclear, Bartleby Editores, prólogo de Alexandra Domínguez, Madrid, 2008, p. 46).

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Vladimíra Cerepková

Para Eva O.



Não me fales como a um morto
não me fales como se eu fosse um defunto
fala-me
como se eu ainda não tivesse nascido
fala-me como se eu fosse árvore



(versão minha, a partir da tradução francesa de Petr Král reproduzida em Anthologie de la poésie tchèque contemporaine: 1945-2000, Gallimard, Paris, 2002, p. 266).

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Óscar Hahn

Nunca se sabe



Num bairro qualquer
no trabalho
na universidade
há um indivíduo que parece
perfeitamente normal
um bom cidadão
um estudante entre outros
um chefe de família
que cumpre os seus deveres
e dorme tranquilo
Ele não sabe
que noutras condições
noutro tempo
noutras circunstâncias
poderia ser
um informador
da polícia secreta
um censor de livros
um torturador
No entanto está aí
mesmo ao pé de ti
ou talvez sejas tu próprio
aquele que lê este poema
ou aquele que o escreve



(versão minha; original reproduzido em Poemas de la era nuclear, Bartleby Editores, Prólogo de Alexandra Domínguez, Madrid, 2008, p. 43).

sábado, 29 de agosto de 2009

Marvin Bell

Para Dorothy



Não és exactamente bela.
És inexactamente bela.
Deixas a erva daninha crescer junto à amoreira
E a amoreira cresce junto à casa.
Tão perto, no particular silêncio
De uma noite ventosa, que raspa a parede
E varre o dia até que adormecemos.

Uma criança disse-o, e pareceu verdadeiro.
"As coisas que se perderam são todas iguais."
Mas não é verdade. Se te perdesse
O ar não se moveria, nem a árvore cresceria.
Alguém arrancaria a erva daninha, minha flor.
O silêncio deixaria de te pertencer. Se te perdesse
Teria que pedir à erva que me deixasse adormecer.



(versão minha; original reproduzido em The invisible ladder, seleccção e organização de Liz Rosenberg, Henry Holt and Company, Nova Iorque, 1996, p. 7).

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Pablo Garcia Casado

Bloomberg



... TPI 3,86 +5,75. União FENOSA, 12, 42 +2,48. Valleformoso 9,15 + 1,10%. Zeltia 6,52 +2,19%. O euro tem estado a subir na última hora depois de ter sido fortemente desvalorizado devido aos avanços das tropas da coligação anglo-americana. Tony Blair opõe-se a que a Síria seja o próximo país a ser alvo de bombardeamentos na guerra. O Iraque assegura que derrubou dois caças bombardeiros americanos, um A-10 e um F-15, em Bagdade, segundo um porta-voz da televisão oficial iraquiana. George Bush chega à Irlanda do Norte para se reunir com Blair e conversar sobre a reconstrução do Iraque. Um dos responsáveis do Pentágono, Paul Wolfowitz, afirma que serão necessários pelo menos seis meses até que se possa organizar no Iraque um governo depois da queda de Saddam. A GUERRA NO IRAQUE. O jornalista espanhol Julio Anguita Parrado foi morto durante um ataque iraniano contra um centro de comunicações dos Estados Unidos nos arredores de Bagdade. O meu filho mais velho, de 32 anos, acaba de morrer no cumprimento das suas obrigações de correspondente de guerra. Há 20 dias esteve comigo e disse-me que queria estar na linha da frente, declarou o seu pai, Julio Anguita. A Cruz Vermelha adverte que as condições dos hospitais em Bagdade são terríveis. Peritos americanos em armamento químico e biológico acreditam ter encontrado um armazém iraquiano de mísseis com substâncias que poderão ser gás mostarda e gás sarin. O quartel general americano afirma que o governo do Iraque ainda possui alguma capacidade militar. Colin Powell declara que Washington enviará para o Iraque uma equipa preparada para colaborar na formação de um governo provisório no país. O número de prisioneiros iraquianos eleva-se a mais de 7.000, segundo o general Richard Myers. Geof Hoon disse desconhecer o paradeiro de Saddam e dos seus filhos. O IBEX 35 está a valorizar-se em 2,06%, pelo que se situa nos 6.45,20 pontos. Acerinox 35,00 +1,39%. Amadeus 4,59 +3,85...



(versão minha; original reproduzido em Poesía Pasión - doce jóvenes poetas españoles, selecção, introdução e notas de Eduardo Moga, Libros del Innombrable, Saragoça, 2004, pp. 147-148.)

terça-feira, 28 de julho de 2009

Jan Erik Vold

O mistério básico do capitalismo



O mistério básico
do capitalismo: como uma coroa, permanecendo imóvel

durante um certo período de tempo, faz nascer dez cêntimos
ao seu lado - por exemplo: Tu pões

como diz o anúncio
20.000 coroas numa conta de alta rentabilidade

num dos nossos grandes bancos. Passados seis anos
podes ir a esse banco e receber

35.532 coroas. Agora a questão é: A quem
tiraram as 15.532 coroas?



(versão minha, a partir da tradução para castelhano de Francisco J. Uriz reproduzida em El poema nos recuerda el mundo, prólogo, selecção e tradução de Francisco J. Uriz, Libros del Innombrable, Saragoça, 2000, p. 104).

domingo, 26 de julho de 2009

Aaron Zeitlin

As crianças estão sempre a morrer



As crianças desaparecem.
Os adultos - espectros
de crianças mortas.

As crianças - sempre a morrer -
mesmo aquelas que continuam a brincar
no pátio da escola, na varanda
nas traseiras do armazém, atrás do sofá,
no canto do quarto.
As suas brincadeiras são breves -
acabam num instante.
Os adultos avisam-nas,
"Não se sujem."
"Despachem-se, vamos embora."

As crianças - criadoras. Travessas.
Agora aqui mesmo, desaparecidas logo a seguir.

As crianças desaparecem.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Richard J. Fein, reproduzida em With everything we've got - a personal anthologt of yiddish poetry, selecção e tradução de Richard J. Fein, Host, Austin, 2009, p. 128).

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Aaron Zeitlin

Texto



Todos nós -
pedras, pessoas, estilhaços de vidro ao sol,
embalagens de compota, gatos e árvores -
somos ilustrações de um texto.

Algures, ninguém precisa de nós.
Aí, só o texto é lido -
as imagens desfazem-se como folhas secas.

Quando o vento da morte sacode a erva alta
e todas as imagens criadas pelas nuvens
a ocidente são varridas para longe -
a noite chega e interpreta as estrelas.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Richard J. Fein, reproduzida em With everything we've got - a personal anthology of yiddish poetry, selecção e tradução de Richard J. Fein, Host, Austin, 2009, p. 126).

terça-feira, 21 de julho de 2009

Jean Nordhaus

Eu estava sempre de partida



Eu estava sempre de partida, sempre
prestes a levantar-me e a seguir, sempre
a caminho, sem saber para onde.
Para outro sítio. Aqui é que não.
Aqui nunca nada me bastava.

Teria de ser melhor lá, para onde
me dirigia. Sem saber como, nem porquê.
A cúpula debaixo da qual me encolhia
seria erguida, e eu haveria de ser lançado
para dentro da minha verdadeira vida. Nela

encontraria os que estava destinado a encontrar.
Receber-me-iam em festa,
com flautas e castanholas,
e seria levantado no ar. Que isto
pudessse ser uma espécie de morte

não me ocorreu. Só sei que
alguma coisa me reteve,
uma dúvida, uma dívida, um rosto que não pude
abandonar. Quando a porta
se abriu, não entrei.



(versão minha; original reproduzido aqui).

domingo, 19 de julho de 2009

Yehuda Amichai

Em memória de Dicky


Em memória de Dicky



Chove sobre a cara dos meus amigos;
sobre a cara dos meus amigos vivos
que tapam a cabeça com a manta
e sobre a cara dos meus amigos mortos
que já não se tapam.



(versão minha, a partir da tradução para espanhol de Teresa Martínez reproduzida em Poesía hebrea contemporânea, tradução e introdução de Teresa Martínez, Hiperión, 2 ª edição, Madrid, 2001, p. 59).

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Amir Gilboa

Sentai-vos, amigos...



Sentai-vos, amigos, senta-te também tu
pai eu sou
aqui o mais alto o mais velho
de vós.

Sentai-vos comigo amigos meus
também eu aqui
me calarei convosco.



(versão minha, a partir da tradução do espanhol de Teresa Martínez reproduzida em Poesía hebrea contemporânea, tradução e introdução de Teresa MArtínez, Hipérión, 2ª edição, Madrid, 2001, p. 37).

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Mada Alderete

Nunca poderia ser Bukowski



nunca bebi um whisky inteiro
pelo que não poderia ser como ele
não sei o que se sente na pele de um sedutor
bêbedo, cansado e sujo,
eu teria cortado o cabelo
cheiraria a tangerina
e a minha casa seria branca
repara só no tempo que demorei com um pano
enquanto ele escrevia sem parar
não sou partidária da violação
não me entusiasma
importam-me as mulheres
não só como buraco e latrina
claro que não tenho nada pendurado entre as pernas
ansiando por uma estreita caverna diferente a toda a hora
isso conta bastante
bebo sumos nos bares
às vezes chá
e ao terceiro chá mudo para água mineral
porque me excita em demasia
poderia acontecer alguma coisa e eu não posso arriscar
bem vês
sou medrosa
assustar-me-ia ser como ele
tenho medo dos cães e das noites na rua
não sei vaguear sozinha à procura de sexo
nem sei onde se vendem drogas
nem quanto custam
se por acaso as pudesse pagar
às vezes vejo suspeitos cochichando em grupo
e não me aproximo
como de certeza ele faria
corro na outra direcção
aquela onde estão os bebés
que embalo encantada
conto-lhes histórias inocentes
nada bukowskianas
nunca amanheci cheia de litros de cerveja
e com cuecas com cheiros desconhecidos junto à cara
sempre fodi com um homem de cada vez
sem contar com os fantasmas
sofri mas mão me dava para sujar tudo e escrever
antes para chorar
e agora mudo de passeio se vejo que um danado me olha
porque sou cobarde
e porque não me porto mal
jamais existirão os meus melhores textos
posso sim
convidar-vos amanhã para abraços e pão-de-ló



(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - poesía alternativa espanõla, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile de Sol, 2ª edição, Tenerife, pp. 269-270).