quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Blaga Dimitrova

Futuro radiante



- Pássaro? - perguntaram as crianças. - Mas o que é isso?
- Algo polícromo, com penas, alado.
Muito belo, etéreo.
Que voa até às nuvens.
E canta como uma campainha cristalina.
- Voa? - exclamaram as crianças. - Sem pilhas,
por si só?
O seu canto enfeitiça?
Todo penas de cores deslumbrantes?
E não nos ataca, não mata?
Não! Fantasias!
Não houve, nem haverá alguma vez
um ser assim, de conto de fadas!


1997



(versão minha a partir da tradução espanhola de Zhivka Baltadzhieva reproduzida em Espacios, organização e prólogo da tradutora, La Poesia, señor hidalgo, Barcelona, 2006, p. 41. Com este poema assinalam-se os dois anos de existência deste blogue).

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Jarkko Laine

A vida é um quarto...



A vida é um quarto de aluguer,
a única propriedade: os livros na estante;
fogem-me os pensamentos que eu quereria ver de volta
e quando regressam exibem rugas dolorosas.
Um sonho no qual só se desperta de outro sonho.



(versão minha a partir da tradução espanhola de Juana Ruiz e Jarkko Sirén, reproduzida em Poesía Finlandesa Actual, Icaria Editorial, Barcelona, 1993, p. 112).

domingo, 31 de janeiro de 2010

Elaine Equi

Adoecer juntos



No mundo pós-moderno
a sequela é sempre superior

ao original
e assim é até possível

que alguém como Tony Perkins
conheça uma miúda simpática no Psico 3

uma ex-freira suicida
também ela atormentada

por fantasias sexuais
de modo que ele pode ensinar-lhe alguma coisa

tão fora de moda como dançar
o fox-trot

e ela pode oferecer-lhe
uma bebida no seu quarto.

No Bates Motel
a água jorra do mesmo chuveiro

no qual a famosa cena do duche começa
mas agora parece agradavelmente referescante.



(versão minha; original reproduzido em Illinois Voices - an anthology of twentieth-century poetry, organização de Kevin Stein e G.E. Murray, University of Illinois Press, Urbana e Chicago, 2001, pp. 273-274).

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Halfdan Rasmussen

Sobre a perfeição



Cada vez que vou escrever o poema perfeito,
coisa que tento uma e outra vez,
a mão põe-se a tremer e ataca-me o reumatismo
e a esferográfica produz borrões.

E quando estou tranquilo e se aplacou o reumatismo
e a minha esferográfica escreve persistentemente,
é a minha mulher que entra de dois em dois minutos
a peguntar se terminei o supracitado poema.

E quando por fim logro redimi-lo
mediante dores e aflições
faltam esse tremor, esse reumatismo, esses borrões
que o perfeito tem, se é que existe.



(versão minha a partir da tradução espanhola de Francisco J. Uriz, reproduzida em Afinidades afectivas - antologia de la poesía nórdica, prólogo e selecção do tradutor, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 122).

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Peter Sandelin

Nunca...



Nunca
podemos repousar apoiados no ar

- Mas isso é culpa do ar?



(versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz reproduzida em Afinidades afectivas - antologia de poesía nórdica, prólogo e selecção do tradutor, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 108).

domingo, 24 de janeiro de 2010

Poema popular sérvio (Charles Simic)

Irmãs sem irmão



Duas irmãs sem irmão
Fizeram um de seda para o partilharem -
De seda branca e vermelha.
Para a cintura usaram videira de framboesa,
Os olhos negros, duas pedras preciosas.
Para as sobrancelhas sanguessugas.
Os dentes pequeninos um fio de pérolas.
Alimentaram-no com mel e açúcar
E disseram-lhe: primeiro comemos, depois falamos.



(versão minha da tradução inglesa de Charles Simic deste poema popular sérvio de autoria anónima; esta tradução surge em The Horse Has Six Legs - an anthology of serbian poetry, organização, tradução e introdução de Charles Simic, Graywolf Press, Saint Paul, 1992, p. 11)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Göran Palm

Quando a tormenta...



Quando a tormenta derrubou as árvores
altas e, ao que parece, sãs,
a erva voltou a erguer-se do chão

como se nada tivesse acontecido.



(versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz reproduzida em Afinidades afectivas - antologia de la poesia nórdica, prólogo e selecção do tradutor, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 14).

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Ernst Orvil

Relatividade



Quando os canhões retumbam
lá em Rakke
muda-se a borboleta
para outra flor.

Ou visto a partir da perspectiva
da borboleta: Quando se muda
a borboleta para outra flor
retumbam os canhões em Rakke.



(versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz reproduzida em Afinidades afectivas - antologia de la poesia nórdica, prólogo do tradutor, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 93).

sábado, 16 de janeiro de 2010

Doug Anderson

Encontro na cidade



Eles estavam a defecar em público, disse ele,
e outro disse,
e a copular também,
e eu pensei, quantos, mil?
Todos os sem-abrigo estavam a copular em público? Que espectáculo.
Então alguém disse,
não eram todos os sem-abrigo,
e nós pudemos respirar melhor,
só uns quinze, se tantos, e eu pensei
que mesmo assim eram uns quantos para fazerem aquilo em público,
mas quando já estávamos no fim
parecia
que só tinha sido uma de cada:
uma cópula, uma defecação,
e então alguém acabou por dizer,
não é preciso ser um sem-abrigo para se fazer isso.



(versão minha; original reproduzido em Poetry like Bread: Poets of the political imagination, selecção de Martín Espada, Curbstone Press, 4ª edição, 2007, p. 42).

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Martín Espada

Quem se queima pela perfeição do papel



Aos dezasseis anos, depois das aulas,
eu trabalhei numa tipografia
que produzia blocos de impressos judiciais:
papel amarelo
amontoado em pilhas de dois metros de altura
que se desdobravam
enquanto eu colocava cartão
entre as páginas
e espalhava cola vermelha
de cima a baixo.
Sem luvas: as pontas dos dedos necessárias
à perfeição do trabalho
ajustavam exactamente o rectângulo de papel.
Amolecidas por volta das 9 da noite, as mãos
deslizavam ao longo de folhas bruscamente afiadas
e uniam fendas ocultas, mais finas
do que as gretas da pele.
Nesse momento a cola queimava,
as mãos suavam
e as palmas ardiam
até picarem o cartão do fim do turno.

Dez anos depois, na Faculdade de Direito,
eu sabia que qualquer bloco de impressos judiciais
fora colado com o lume de cortes invisíveis
e que cada livro de direito aberto
era um par de mãos a arder
virado para cima.



(versão minha; original reproduzido em The invisible ladder, organização e introdução de Liz Rosenberg, Henry Holt and Company, Nova Iorque, 1996, pp. 56-57; existe uma tradução espanhola do poema, da autoria de Diego Zaitegui e Pedro J. Miguel, publicada na antologia Soldados en el jardín, El Gaviero Ediciones, Almería, 2009, p. 33).

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Bertolt Brecht

Fala a operários-actores dinamarqueses sobre a arte da observação
(3 excertos)


(...)

Não importa
A forma como olhas.
Mas aquilo que viste
E aquilo que revelas, isso importa.
Vale a pena saberes aquilo que sabes.
Observar-te-ão
Para ver quão bem observaste.
Mas aquele que apenas se observa a si mesmo
Nada ganha do conhecimento dos homens.
Demasiadamente de si esconde a si mesmo.
E nenhum homem é mais sábio do que ele próprio.
Logo, a tua aprendizagem deve começar no meio
Das vidas das outras pessoas. Transforma na tua primeira escola
O teu local de trabalho, a tua casa,
O lugar a que pertences,
A loja, a rua, o comboio.
Observa todos quantos o teu olhar alcance.
Observa os desconhecidos como se te fossem familiares
E aqueles que conheces como se te fossem estranhos.

(...)

Para observares deves aprender a comparar.
Para poderes comparar
Deves já ter observado.
Da observação nasce o conhecimento.
Mas é necessário conhecimento para observar.
Aquele que não sabe
O que fazer da sua observação
Observará erradamente.
O cultivador olhará para a macieira
Com um olhar mais apurado do que o transeunte errante.
Mas só quem sabe qual é o destino do homem
Pode com exactidão ver o homem.

(...)

Observa tudo isto atentamente.
Depois, a partir de todos os trabalhos suportados
Cria, então, no centro do teu espírito imagens
Desabrochando e crescendo como movimentos na história.



(tradução inédita de Ricardo Castro Ferreira a partir de uma versão inglesa reproduzida aqui e aqui; existe uma versão portuguesa integral do poema de Brecht, da autoria de Paulo Quintela, em Bertolt Brecht, Poemas, organização e prefácio de António Souza Ribeiro, Asa, Porto, 2007, pp. 281-285; é desta versão portuguesa que se retira o título desta nova tradução).

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Ko Un

Canguru



Quando os britânicos chegaram à Austrália
perguntaram a um aborígene
o que era aquilo que andava aos saltos
O nativo respondeu:
Canguru, eu não vos entendo

E o nome foi adoptado

Ah, não saber é melhor do que saber



(versão minha, a partir da tradução para espanhol de Joung Kwon Tae e Jorge Oredáin reproduzida em Cinco poetas contemporáneos de Corea, selecção dos tradutores, Editorial Aldus, Colonia Nápoles - México, 2006, p. 18).

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Pentti Saarikoski

O menino estava a brincar...


O menino estava a brincar na neve
Passei por ali com uma lâmina de gelo
na mão
escrevendo poemas no ar
O que estás a fazer? perguntou-me o menino
que brincava na neve
Escrevo poemas no ar
não vês?
Sim, vejo
mas isso vai gelar-te a mão
disse-me o menino que estava a brincar na neve



(versão minha a partir da tradução espanhola de Fernando J. Uriz, reproduzida em Afinidades afectivas - antologia de la poesia nórdica, prólogo, selecção e tradução de Francisco J. Uriz, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 91).

domingo, 3 de janeiro de 2010

Claribel Alegria

Ars poetica



Eu,
poeta de ofício,
condenada tantas vezes
a ser corvo,
nunca trocaria de lugar
com a Vénus de Milo:
enquanto ela reina no Louvre
e morre de tédio
e acumula pó
eu descubro o sol
todos os dias
e entre vales
vulcões
e despojos de guerra
avisto a terra prometida.



(versão minha; original reproduzido em Poetry like Bread: Poets of the political imagination, selecção de Martín Espada, Curbstone Press, 4ª edição, 2007, p. 16).

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Javier Salvago

Ano Novo



Como as coisas não podiam
piorar - escreveu Kafka,
no seu Diário -, melhoraram.

Como gostaria, diante deste negro
e inóspito horizonte que se abre
diante de mim - como um ano mais,
ou como um ano menos -,
de poder dizer o mesmo.
Sinto porém
que não toquei o fundo,
que há mais miséria, mais dor, mais tédio
mais à frente, que as coisas
podem piorar.
Que o pior, como alguém disse,
ainda está para chegar.


31, dezembro, 1996



(versão minha; o original pode ser lido algures por aqui).

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Inger Hagerup

A formiga



Pequena?
Eu?
Nem pensar.
Tenho o tamanho perfeito.
Encho-me completamente a mim mesma
ao comprido e em largura,
de cima a baixo.
Por acaso és tu maior
do que tu mesmo?



(versão minha, a partir da tradução espanhola de Francisco J. Uriz, reproduzida em Afinidades afectivas - antologia de la poesía nórdica, prólogo, selecção e tradução de Francisco J. Uriz, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 93).

domingo, 27 de dezembro de 2009

Gagan Gill

Formigas



As formigas não encontram o seu caminho para casa.

Caminham, traçando linhas entre o nosso sono e os nossos corpos.
A sua farinha invisível continua espalhada na sua memória,
espalhada noutro espaço e tempo. Elas continuam a ir de um fim
da terra a outro em busca dela. Afundam os seus dentes
em todas as coisas vivas e mortas. As tristezas da terra crescem
de modo tão leve com a sua demanda que as direcções
começam a rodopiar em grande confusão. Os
pólos começam a mudar de lugar. Mas ninguém
conhece a tristeza das formigas.

Há muito tempo atrás talvez tenham sido mulheres.




(versão minha a partir da tradução inglesa de Jane Duran e Lucy Rosenstein que pode ser lida aqui).

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Marie Sheppard Williams

Toda a gente



Eu estava numa paragem de autocarro
numa destas tardes, esperando
pelo "2". Um tipo
mais velho esperava também.
Olhei-o com atenção. Ele
captou o meu olhar e arreganhou um sorriso
onde faltavam alguns dentes. Queres
assinar o meu casaco? disse ele.
Estendeu-me logo uma caneta. Trazia
vestido um casaco de lona imundo que
exibia assinaturas por todo
o lado, centenas delas, talvez
milhares.
Estou a ver
se apanho toda a gente,
disse ele.
Assinei. Na pequena
superfície de um dos bolsos.
Por vezes lembro-me:
sou uma parte de um todo.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).

Jack Agüeros

Salmo pela paciência



Senhor,
Despacha-te e dá-me paciência!



(versão minha; original reproduzido em Lord, is this a psalm, Hanging Loose Press, Brooklyn Nova Iorque, 2002, p. 43).

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Olav H. Hange

Tu eras o vento



Sou um barco
sem vento.
Tu eras o vento.
Era esse o rumo que eu devia seguir?
A quem importa o rumo
com um vento assim!



(versão minha a partir da tradução espanhola de Francisco J. Uriz, reproduzida em Tres poetas noruegos, tradução e selecção de Francisco J. Uriz, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 86).

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Petko Daveski

As chaves da saída



As chaves da porta secreta da única saída
e as da solução do enigma crucial
que cada esfinge recém-nascida conhece
talvez não estejam no mesmo chaveiro
que as chaves das masmorras da nossa vida,
da obscuridade e da luz da terra.
As chaves da nossa ignorância real são
de facto as chaves perdidas e as chaves que não podem
encontrar de novo os seus cadeados e as suas fechaduras.
Não diria que o mesmo artesão as fez,
parece que pisamos o caminho da dúvida
que cada chave sente junto à porta,
uma caixa de Pandora de posse inalienável:
existe uma gazua que ao mesmo tempo pode abrir
as fechaduras do bem e o cadeado do mal.
A dedicação é infinita, talvez desesperada,
uma busca no interior do bolso à procura de chaves não marcadas;
se não chamas, prepara-te para esperar
que o fechado se abra a seu tempo.
E se não o abres tu mesmo, vais chamar já depois de aberto.
Do que fica dito não deveria deduzir-se:
que se as chaves não existissem não necessitaríamos de portas
nem se poria o problema da saída.



(versão minha a partir da tradução castelhana de Maria Krstevska, reproduzida em 4 poetas macedonios, Norteysur, Benalmádena, 2006, p. 70).

domingo, 13 de dezembro de 2009

Zoran Anchevski

A última ceia



Tomo assento junto à
imagem fracturada do meu dia.
O meu segredo permanece intacto
preparados os meus planos para o crime
digo umas palavras de cortesia sem sentido
porque o silêncio é um abismo espantoso
entre os dois latidos da pulsação
onde nos enredamos na nossa própria armadilha.
Quão difícil é suportar o seu olhar
sobre a minha consciência.
Disperso-me em milhares de sílabas
tartamudeio essas cortesias sem sentido
que se multiplicam em nada
desaparecem...

Ofereço a minha mão.



(versão minha a partir da tradução castelhana de Maria Krstevska reproduzida em 4 poetas macedonios, Norteysur, Benalmádena, 2006, p. 132).

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Petko Daveski

Frutos verdes



Sinto, vejo e escuto
o esforço da fruta verde recolhida,
maçã golden e tomate verde
a amadurecer dentro de si mesmos,
pousados na prateleira.
Sem a ligação, o cordão umbilical
que os alimentou,
sem a luz do dia e do sol
para se vestirem com o cetim do Outono,
com o vermelho de um fogo puro,
com a incadescência das pétalas das flores
e os lábios dos gerânios e a rosa que arde.
Sinto, sem os virar,
sem lhes aplicar qualquer unguento,
como tratam, sozinhos,
só com a ajuda de Alguém,
invisivelmente presente desde o germen da semente,
como tratam de cicatrizar as feridas,
elas mesmas, de outra pessoa
invisível para nós, presente debaixo do céu,
que nos deu uma lição, prova obscura.



(versão minha a partir da tradução castelhana de Maria Krstevska reproduzida em 4 poetas macedonios, Norteysur, Benalmádena, 2006, p. 78).

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Petko Daveski

A sobrevivência das coisas



Entre as coisas
que sobreviveram aos criadores
encontram-se
uma faca e um machado de pedra
e um maço perfurado no cabo.
Objectos criados pelos artesãos
para sobreviverem ao inverno,
usados também para sobreviverem
às vozes ameaçadoras da fome,
ao inóspito e aos adversários.
Objectos que sobreviveram
ao seu uso real,
sem a alma vendida desde o passado
ao seu valor de uso.
Cavando assim profundamente na terra,
cavando cada vez mais fundo também no tempo
até ao manancial da origem turvado
pela gota escarlate de Abel.



(versão minha a partir da tradução para castelhano de Maria Krstevska reproduzida em 4 poetas macedonios, Norteysur, Benalmádena, 2006, p. 68).

sábado, 5 de dezembro de 2009

Petko Daveski

Distâncias



Não só o fervor exagerado
pelas coisas secundárias,
também a própria indiferença, sem exagero,
faz-nos pecaminosos: não respondemos
às nossas verdadeiras obrigações.
E por aqui, entre
o fervor mal dirigido
e o sentimento de vocação verdadeira
dedico-me às MEDIDAS
das distâncias entre as coisas.
Não é apropriado esconder mais:
dói-me que a distância
de homem a homem
seja maior
que a distância do homem ao macaco.



(versão minha, a partir da tradução para castelhano de Maria Krstevska reproduzida em 4 poetas macedónios, Norteysur, Benalmádena, 2006, p. 84).

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Ernst Orvil

O sentido da vida



O sentido da vida, digo inquieto,
por que nos é desconhecido?

Porque uma vida com sentido
parece-nos intolerável.

Sentido da manhã à
noite, da noite à manhã.

Assim uma vida sem sentido,
diz ela, não é uma vida sem sentido.



(versão minha a partir da tradução de Francisco J. Uriz reproduzida em Tres poetas noruegos, tradução e selecção de Francisco J. Uriz, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 164).

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Olav H. Hange

Na hora da verdade



Ano após ano estiveste debruçado sobre os livros,
acumulaste em ti mais conhecimentos
do que os que necessitarias para nove dias.
Na hora da verdade
é preciso muito pouco, e esse muito pouco
conhece-o o coração desde sempre.
No Egipto o deus da sabedoria
tinha cabeça de macaco.



(versão minha, a partir da tradução de Francisco J. Uriz reproduzida em Tres poetas noruegos, tradução e selecção de Francisco J. Uriz, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 125).

domingo, 29 de novembro de 2009

Partaw Naderi

Desolação



Nas linhas das palmas das tuas mãos
foi escrito o destino do sol

Nasce,
ergue a tua mão -

a longa noite está a sufocar-me.



Cabul,
Junho 1994



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Sarah Maguire e de Yama Yari que pode ser lida aqui).

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Sam Hamill

O poema de Nova Iorque



Sento-me na escuridão, não exactamente
para meditar, nem para esperar pelo amanhecer
que está mesmo a surgir, às seis e vinte e um,
por detrás das árvores na luz cinzenta de Outubro.
Sento-me, respirando, a mente às voltas no seu turbilhão.

Hayden escreve, "Para que serve a poesia
em tempos como estes?" E eu julgo
entendê-lo quando diz, "Um poeta
não pode simplesmente retirar
qualquer sentido de tamanha carnificina."

Porém, no esmagamento do horror,
eu retorno à poesia, não à prosa,
para que me ajude a chegar a um entendimento -
tanto quanto possível - com as mentiras, os assassínios
e as hipocrisisas sufocantes

desses que hão-de liderar uma nação
ou uma igreja. "Para que serve a poesia?"
No dia doze de Setembro
de dois mil e um da Nossa Era
eu sentei-me e li Rumi e beijei o chão.

E agora que milhões morrem à fome
em nome da guerra santa? Qualquer guerra
é santa. Eis a perpétua e patética história
da qual derivamos
em "bíblicas proporções".

Oiço as passadas de Pilatos vibrando
nas lajes, a voz de Joe McCarthy
a praguejar no senado, a "Fat Boy" explodindo
enquanto o céu inteiro estremece.
Na cidade de Nova Iorque os estrondos

e os colapsos subsequentes
originaram ondas sísmicas. Para começar a falar
dos mortos, dos moribundos... como
pode um poeta falar de "proporção" uma vez mais
que seja? No entanto, como disseram os antigos gregos,

"Caminhamos sobre as faces dos mortos."
O escuro céu outonal torna-se azul.
Sozinhos entre cinzas e ossos e ruínas
Tu Fu e Basho escrevem o poema.
O último traço de raiva cega desvanece-se

e uma tristeza muda instala-se,
como pó, para o longo, muito longo caminho. Mas se
eu não me levantar e cantar,
se não me levantar e dançar de novo,
os bárbaros vencerão.

Beijarei, se necessário, a espada que me rouba a vida.




(versão minha; original reproduzido em The Wisdom Anthology of North American Buddhist Poetry, organização de Andrew Schelling, Wisdom Publications, Boston, 2005, pp. 90-91).

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Cecilia Woloch

A picareta



Eu vi-o girar a picareta ao sol
transformando os degraus de cimento em grandes bocados de pedra,
e as pedras em poeira,
e a poeira em terra outra vez.
Devo ter estado muito tempo sentada no intervalo da vedação do comboio
só a observá-lo.
O corpo do meu pai brilhando com o suor,
os seus braços levantando voo como asas negras sobre a cabeça.
Ele estava a converter o quintal numa espécie de terraço
partindo o pequeno declive em duas superfícies planas.
Eu tomei como segura a sua força
apesar de a achar também assustadora.
Vi como ele impelia a picareta de encontro ao ar
e como a atirava com toda a força para baixo,
e assim mudava a forma do mundo,
e mudava de novo a forma do mundo.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).