domingo, 13 de junho de 2010

Mircea Dinescu

Vidas paralelas



Sem dor alguma
também eu estou a contar as estrelas
tal como o caraguejo
conta os glóbulos brancos do afogado.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Darie Novaceanu reproduzida em Antología de la poesía rumana contemporánea, Editorial Verbum, Madrid, 2004, p. 193).

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Primo Levi

Chegada



Feliz o homem que chega a um porto
Deixando para trás mares e tempestades,
Cujos sonhos estão mortos ou não nasceram,
E se senta e bebe na cervejaria de Bremen,
Feito o caminho, agora em paz.
Feliz o homem que é apagada chama,
Feliz o homem que é areia no estuário,
Que largou a carga e enxugou a fronte
E descansa à beira do caminho.
Não teme nem deseja nem espera,
Apenas olha fixamente o sol a pôr-se.



10 Setembro 1964


(Versão minha a partir da tradução castelhana de Jeannette L. Clariond, reproduzida em A una hora incierta, La Poesía senõr hidalgo, Barcelona, 2005, p. 67 e da tradução inglesa de Ruth Feldman e Brian Swann, reproduzida em Collected poems, Faber and Faber, Londres, 2ª ed. (?), 1992, p. 25).

terça-feira, 8 de junho de 2010

A. E. Baconsky

Auto-retrato no tempo



Fui semelhante ao bosque, ao moinho de vento,
aos calados, negros e desconhecidos cruzeiros,
às sombras dos cavalos
sobre as altas colinas da Moldávia,
fui até semelhante à silhueta dos estranhos
deuses enterrados na areia do mar.
Quanto tempo passou desde então?
Devem ter passado muitas chuvas, muitas tempestades,
devem ter caído muitas muralhas, e muitas hostes,
devem ter sido quebradas muitas correntes,
queimados e esparzidos muitos impérios
até se assemelharem a mim mesmo.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Darie Novaceanu reproduzida em Antología de la poesía rumana contemporánea, Editorial Verbum, Madrid, 2004, p. 106).

domingo, 6 de junho de 2010

Dimitrie Stelaru

Jovem velho



Quando eu era velho
amava os cavalos, as crinas
e a selvajaria,
por trás de mim gritavam as estrelas errantes.

Ri-me sobre o lombo dos fantasmas
vestidos afinal com muito pudor;
esquecido pelas carpideiras
como um sino sem voz
o meu fogo é já cinza.

Agora sou jovem como Marsyas
e os cavalos pastam na erva do meu corpo.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Darie Novaceanu reproduzida em Antología de la poesía rumana contemporánea, Editorial Verbum, 2004, p. 97).

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Primo Levi

Cantar



... Mas quando começámos a cantar
As nossas boas canções insensatas,
Então vimos que todas as coisas
Voltavam a ser o que haviam sido.

Um dia não é mais que um dia:
Sete fazem uma semana.
Matar parecia-nos uma coisa má;
Morrer, uma coisa longínqua.

E os meses passaram mais que velozes,
Mas tínhamos tantos pela frente!
De novo fomos apenas jovens:
Nem mártires, nem santos, nem infames.

Isto e outras coisas vinham à nossa mente
Enquanto continuávamos a cantar;
Mas eram coisas como as nuvens,
Difíceis de explicar.


3 Janeiro 1946


(Versão minha a partir da tradução inglesa de Ruth Feldman e Brian Swann reproduzida em Collected Poems, Faber and Faber, Londres, 2ª edição (?), 1992, p. 6, e da tradução espanhola de Jeannette L. Clariond reproduzida em A una hora incierta, La Poesía, señor hidalgo, Barcelona, 2005, p. 27).

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Tudor Arghezi

O príncipe Tzepesh



No país há paz, e fora também;
os confins estão calmos como nunca,
e hoje, nos campos seguros,
os lavradores cantam e sulcam a terra.

No início da doce primavera
o povo recorda as lendas
e as folhas tremem nos ramos celestes -
também, em segredo, tremem os boiardos.

É claro, o Príncipe pensativo
está decidido a purificar o mundo.
Enfia uma estaca até ao pescoço dos homens
para que o cu tenha uma campainha.

Não há piedade nem demoras
para quem se opõe à justiça.
Religioso, o Príncipe, a cada estaca,
prepara as velas e o pudim de trigo.

Respeitador dos bons costumes,
para os grandes - sejam conterrâneos ou turcos -
tem estacas diferentes, forquilhas soberbas
que distinguem as suas hierarquias.

Podem ver-se os vizires nas alturas,
empalados sobre majestosos álamos,
e para os santos, os padres e os bispos
tem madeira santa e perfumada.

E é aqui que as Cortes do país se reúnem
para agradecer ao Príncipe a paz.
Ele está no seu trono. Silencioso.
A alma coberta de adargas.

E enquanto amigos e cortesãos com armaduras
brindam e erguem as taças de vinho
em honra das façanhas de Sua Majestade,
o Príncipe pensa nas estacas que merecem.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Darie Novaceanu, reproduzida em Antología de la poesía rumana contemporánea, Verbum, Madrid, 2004, p. 28).

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Primo Levi

Segunda-feira



Há alguma coisa mais triste do que um combóio
Que parte à hora certa,
Que só tem uma voz,
Que só tem uma via?
Não há nada mais triste do que um combóio.

Só talvez um cavalo de tiro.
Debaixo do governo das rédeas
Nem sequer pode olhar para o lado.
A sua vida é caminhar.

E um homem? Não é triste um homem?
Se vive largo tempo na solidão,
Se pensa que chegou a sua hora,
Também um homem é uma coisa triste.


17 Janeiro 1946



(Versão minha, a partir da tradução inglesa de Ruth Feldman e Brian Swann, reproduzida em Collected poems, Faber and Faber, 2ª edição, Londres, 1992, p. 11, e da tradução espanhola de Jeannette L. Clariond, reproduzida em A una hora incierta, La poesía, señor hidalgo, Barcelona, 2005, p.37).

sábado, 29 de maio de 2010

Roger Wolfe

Artigo não sujeito à legislação em vigor



Os poemas?
Alguns funcionam,
outros não.
Se o que queres
é uma garantia,
então compra um televisor.



(Versão minha; original reproduzido em Noches de blanco papel (poesía completa: 1986 - 2001), Huacanamo, Barcelona, 2008, p. 269).

terça-feira, 25 de maio de 2010

Hal Sirowitz

Trocando dólares por cêntimos



Levei a minha navalha para a escola, disse o Pai,
e tracei um boneco na minha carteira. O reitor
disse-me que eu não concluiria o curso a não ser
que lhe desse cinco dólares para emendar o erro.
Os meus pais deram-me o dinheiro, uma soma
considerável naquele tempo. Eu fui ao banco
e troquei-o por 500 cêntimos. Coloquei-os
dentro de um saco de papel e bati à porta do reitor.
Despejei os cêntimos sobre a sua secretária
& disse-lhe que violara o meu porquinho-mealheiro.
Pensei que ele teria pena de mim & me diria
que eu guardasse o dinheiro. Mas ele disse-me que não
podia aceitar os cêntimos, que eu tinha de ir a um banco
e trazer-lhe cinco dólares. Era um tipo duro.



(Versão minha; original reproduzido em Mother said, Crown Publishers, Nova Iorque, 1996, p.124; vale a pena lembrar isto a propósito deste poema, ).

domingo, 23 de maio de 2010

Jordi Virallonga

Confessar tudo



Queria dizer-te
que nunca passeei com ela,
que nenhuma montra devolveu a nossa silhueta reunida
nem o seu peito pressionou com o seu mudo acordeão os nossos cristais,

que nunca contemplei a sua nudez em lugares inquietantes,
que nem sequer sei o seu nome,
que não sei do que me estás a falar.

Queria dizer-te que não é verdade,
que no domingo andei a passear sozinho com o cão,
que o cão nunca a quis.

Queria dizer-te que nunca viveu comigo,
que deverias saber o que eu sei,
que era feia, corcunda e reaccionária,

dizer-te que sempre te fui fiel,
que nunca existiu,
que nunca jamais a quis.




(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montálban, Bartleby, Madrid, 2003, p. 132).

quinta-feira, 20 de maio de 2010

José Agudo

A aprendizagem



Como o calor chega aos lençóis,
como chega o desejo aos lábios.

Com a premonição de uma bela recordação,
assim chega este dia,
calando até aos ossos.

Inventariarei os meus pertences
e esperarei que o sol aqueça
as minhas roupas e o meu corpo;
meditarei sobre as horas que vivi
e retirarei ensinamento dos meus fracassos.

E direi a mim mesmo que busco
aquilo que me aguarda
para saber o que espero
e a que sonhos convêm os meus esforços.

E não reclamarei mais ilusões
nem pedirei outro deus
que o deus que me compreenda
e encontre explicação para os meus pecados.

Elegerei o caminho que a idade
me mostre como bom,
conhecendo as forças que me assistem,
reconhecendo aquelas de que dependo.

E deixarei para trás quanto fui,
sem que o rancor me vença,
sem atender a mais disposições
além de estar em paz comigo.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vázquez Montálban, Bartleby, Madrid, 2003, p. 39).

terça-feira, 18 de maio de 2010

Dan Pagis

Escrito a lápis num vagão selado



Aqui neste vagão apinhado
eu Eva
e o meu filho Abel
se virem o meu filho mais velho
Caim filho de Adão
digam-lhe que eu



(Versão minha, a partir desta tradução de A. Z. Foreman e da tradução de Robert Friend reproduzida em The poetry of survival, organização, prefácio e introdução de Daniel Weissbort, Peguin, 2ª ed. (?), Londres, 1991, p. 221).

domingo, 16 de maio de 2010

Nizar Qabbani

Quando te vejo



Quando te vejo
Perco a esperança na poesia,
Como se apenas tu me pudesses criar.
És bela
E se penso na tua beleza
A minha respiração fraqueja,
A minha língua bloqueia,
As minhas palavras falham.
Salva-me de tudo isto. Sê menos bela
E permite-me reecontrar-me com a minha inspiração.
Sê uma mulher que se maquilha e perfuma,
Que engravida e dá à luz,
Sê como as outras mulheres
E reconcilia-me com a linguagem
Para que eu possa voltar a escrever.



(Versão minha a partir desta tradução de A. Z. Foreman e da tradução de Bassam K. Frangieh e Clementina R. Brown, reproduzida em Arabian love poems, A Three Continents Book, Lynne Rienner Publishers, London, 1998, p. 97).

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Federico Gallego Ripoll

Final



A vida é a oferta que agradeço
hoje. Toda a vida é hoje. Os teus olhos
e os meus olhos. O ponto em que se deram
é hoje. E até onde chegam e de onde
regressam, é hoje.

Toda a vida é hoje, e parece-me
suficiente o ter vivido tanto
se neste hoje de hoje cabe o teu lúcido
olhar sobre mim, e o futuro é
um hoje perpetuamente teu.

Concede-me agora
a felicidade de morrer, hoje que não tenho
nem passado nem medo.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - Antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montálban, Madrid, 2003, p. 48).

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Neus Aguado

As tábuas da lei



Saber que cometes adultério
para não voltares a cometê-lo
que matas para não voltar a matar
que roubas para não voltares a roubar
que cobiças para não voltares a cobiçar.
E ainda que não te apedrejem
nem te cortem a mão
nem te arranquem os olhos
saber que a alma está completamente mutilada e se arrasta peregrina
esbarrando com os anjos que um dia tu mesma mandaste sangrar.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - Antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montálban, Bartleby, Madrid, 2003, p. 114).

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Jordi Virallonga

Isso é tudo



Dá no mesmo, disseste, é só sexo,
porém esqueceste que nós vivemos dessas coisas;
só aqueles que fizeram a lei se ocupam
da virtude, da paz e da nobreza.

Essa justiça natural de que falas
fez-nos maus filhos, ateus e ladrões.
Esses homens, todavia, criaram deuses,
sacerdotes, polícias e orfanatos.

Nós comemos, bebemos e gozamos
pagando por isso o preço do salário.
Isso é tudo, somos mercenários, guardamos o Estado
e não merecemos consideração alguma.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aqui - Antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montálban, Bartleby, Madrid, 2003, p. 137. Deste poeta existe em português Quanto sei de mim, um conjunto de poemas traduzido por Carlos da Veiga Ferreira, com prefácio de Nuno Júdice, Teorema, Lisboa, 2001; este mesmo poema aparece aí traduzido na p.32).

domingo, 9 de maio de 2010

José Agudo

Talvez um dia de novo



Talvez um dia de novo,
quando os anos e o inverno
corroerem os meus móveis, as minhas recordações,
o meu corpo e o meu passado,
e a minha memória se esqueça de mim mesmo,
e nada fique de mim,
e já nada me reconheça,
me recorde de ti
- jovem pirata de barcos de papel,
pequeno sonhador -
e do reino distante da minha infância.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montálban, Madrid, 2003, p 29).

sexta-feira, 7 de maio de 2010

(Hors-série)

Excertos de dois e-mails de um leitor devidamente identificado:
"Viva (...),

(...) ando a desenvolver um "ciclo do papel higiénico" em momentos análogos ao que o nosso HH narra em "Vida e obra de um poeta". Como me deu um ataque súbito de angústia da influência, estou agora mesmo a tentar desenvolver a argumentação que te convença a incluir o primeiro "borrão" (escrito numa primeira versão em papel higiénico) no Trapézio. A questão é que, não se tratando tecnicamente de uma tradução, a verdade é que os textos deveriam ter sido escritos por uma pessoa que falasse outra língua (não me perguntes como o sei) que não só nunca existiu como, existindo, jamais os teria escrito. Estranho? Eu sei, mas acho que é precisamente essa qualidade de estranheza alcançada que faz com que não desmereça de figurar na tua antologia digital. (...) Convencido? Aqui vai o Borrão (o primeiro de uma reciclagem de mitos clássicos):

Mito reciclado de Orfeu e Eurídice

(...) no último instante, Orfeu lembrou-se do seu canto, o qual era para si bem mais valioso que mil Eurídices. Olhando para trás, fixou a beleza silenciosa da amada e decidiu imortalizá-la nos seus versos, enquanto via, serenamente, a sombra de Eurídice desaparecer (...)


Dir-me-ás, não querendo discutir a qualidade do dito, que nem sequer se trata de um poema e eu respondo-te, então, que não chega a ser sequer uma prosa. Em desespero de causa sugiro que se corte às postas respeitando a pontuação:


(...) no último instante,
Orfeu lembrou-se do seu canto,
o qual era para si bem mais valioso que mil Eurídices.
Olhando para trás,
fixou a beleza silenciosa da amada e decidiu imortalizá-la nos seus versos,
enquanto via,
serenamente,
a sombra de Eurídice desaparecer (...)


(...) podes identificar-me como autor "contrafeito", ou como alguém que de algum modo opera uma contrafacção (não é impunemente que se desfaz um mito de amor - ainda por cima tão associado ao acto poético - e o transforma num puro gesto de crueldade), como um moedeiro falso, enfim, para os devidos efeitos Ricardo Castro Ferreira serve. E, assim, as agora já vinte linhas de fama ficarão cozidas à minha biografia, até ao momento tão obscura.
(...)

abraço"


(Ricardo Castro Ferreira colaborou anteriormente neste blogue com estes dois trabalhos de tradução).

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Neus Aguado

Conselhos domésticos



Levar a alma a passear como quem leva um cão,
não permitir que te ladre nem que te lamba,
engomá-la depois de bronzeada
e procurar que não se queime, ainda que arda.
Consumir o fogo restante e, se não há mais remédio,
mandá-la de vez para a fogueira ou para a tinturaria.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montalbán, Bartleby, Madrid, 2003, p. 116).

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Federico Gallego Ripoll

Alguém parte para o exílio



Alguém parte para o exílio.

E não sei se sou eu
o homem que se vai
ou o país que fica.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montálban, Bartleby, Madrid, 2003, p. 44).

sábado, 1 de maio de 2010

José Agudo

Ne me quitte pas



Entro num bar
e ouve-se o Ne me quitte pas
de um Jacques Brel
nostálgico e distante.

Peço uma cerveja,
acendo um cigarro
e penso mais uma vez
que deveria largá-lo.

Sem saber por quê
recordo-me de sessenta e oito
e da Paris de então.
Eu era todavia muito jovem
e não estive em Paris
em maio de sessenta e oito.
Não estive em Paris.
Ne me quitte pas...

Acendo outro cigarro
e lembro-me que a minha filha
anda pelos quinze
ou tem dezasseis, não sei.

Irrita-me esta cerveja quente,
o fumo, a luz tísica das lâmpadas,
os gritos desses miúdos,
o murmurinho das conversas,
o cheiro a cozinha e a fritos.
- Barman,
que a música não se oiça!

Este lugar deprime-me
e no entanto aguento.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Mnuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montálban, Bartleby, Madrid, 2003, p. 32).

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Roger Wolfe

Poesia



Pergunta-me o que é a poesia.
A poesia, respondo-lhe,
é uma manada de vacas a atravessar uma ponte
por cima de uma auto-estrada.

Então olha-me, e sorri,
e isso é também
poesia.



(Versão minha; original reproduzido em Noches de blanco papel (poesía completa 1986-2001), Huacanamo, Barcelona, 2008, p. 49).

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Roger Wolfe

Glosa de Celaya



A poesia
é uma arma
carregada de futuro.

E o futuro
é do Banco
Santander.



(Versão minha; original reproduzido em Noches de blanco papel (poesía completa 1986 - 2001), Huacanamo, Barcelona, 2008, p. 262).

sábado, 24 de abril de 2010

José María Micó

Breve História de Espanha



"Quando é preciso descobrir um Novo Mundo
ou domar o mouro,
ou há que medir o cinturão de ouro
do Equador, ou levantar sobre o profundo
espanto do erro negro que pesa
sobre a Cristandade o pensamento
que é amor em Teresa
e é claridade em Trento,
quando há que consumar a maravilha
de alguma nova façanha,
os anjos que estão à beira do seu Trono
olham para Deus... e pensam em Espanha."
(José María Pemán)




Tenho em casa o Poema
da Besta e o Anjo,
inveja de bibliófilos:
"Saragoça, Edições Jerarquía,
abril de mil novecentos e trinta e oito,
Segundo Ano Triunfal."
Certa dedicatória
do poeta a um amigo
seguramente médico
faz mais raro o meu exemplar.
Na primeira página, o tipógrafo
das Indústrias Gráficas Uriarte
dispôs sabiamente,
sobre papel precioso,
umas letras douradas:
"Franco, Calvo Sotelo, José António,
Sanjurjo, Mola."
Ainda se torna mais belo
o brilho desses nomes.
Com o seu fulgor acende-se
a lembrança e leva-me
às mesmas paragens,
ao campo descuidado de Pina de Ebro,
abril de mil novecentos e trinta e oito:
ali um mouro domado
por algum anjo espanhol daqueles
que olhavam para Deus
ceifou com tiros de espingarda cristã,
não com uma cimitarra feroz e herege,
os dias do soldado
Francisco Gómez Cuéllar,
morto aos trinta anos
com tempo suficiente
para manter viva a minha linhagem.




(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vázquez Montálban, Bartleby, Madrid, 2003, pp. 249-250).

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Daniel Bristol

Devolucionista



Dantes eu era um oceano cheio de vida. Podia dar conta
de tudo, pois era com isso que se contava. Alargava-me
por milhas e costumava abarcar toda a terra. Costumava ser tudo
para toda a gente; terás só de acreditar na minha palavra.

Costumava ser um grande lago. Costumava ser o maior de todos.
Era o ventre de onde nascia a lua logo que o sol se punha.
Estava sempre a brilhar, chovesse ou fizesse sol, fosse dia ou noite.
Fui o lugar aonde trouxeste a tua namorada para a pedir em casamento.
Costumavas meditar sobre os teus dias à beira das minhas águas.

Depois transformei-me num pequeno lago perfeito para velejar. Os melhores
amigos passavam muito tempo a pescar e a rir até que o dia
terminava. Eu costumava ser o local de onde assistias ao fogo
de artifício do 4 de Julho. E gelei em Dezembro quando fiquei a saber que
o teu melhor amigo tinha morrido. Costumava até abraçar o chão
onde jaz agora o cão da tua família.

E depois fui um rio, correndo rapidamente, saltando o tempo. Costumava
transformar rochas aguçadas em pedras perfeitas para lançar sobre a água.
Costumava respirar de um modo constante. Costumava seguir o meu próprio
ritmo. Tu costumavas chegar-te a mim apenas para lavares os pés sujos.
Juntos observávamos as estrelas; costumávamos verter a mesma quantidade
de lágrimas. Vi-te florir e crescer; juntos partilhámos os melhores anos.

Mas agora sou um afluente debaixo de uma ponte desconhecida, algures. O tempo
encolheu-me, e aqui estou na minha solidão. Alguns dias são
melhores do que outros; a minha água flui e depois seca. Ter-me-ia
ajudado ter alguma companhia, ter junto de mim a minha amiga.
Mas na verdade não sei quando voltarei a vê-la.



(Versão minha; o original, reproduzido em Best modern voices: words for the new millennium, vol. 1, Wordclay, 2010, p. 5, pode ser lido algures por aqui).

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Katherine Hearst

Em boa companhia



E qual é o problema se tenho
o cabelo encaracolado
e as ancas largas?
Talvez não tenha os
dedos longos e elegantes que às vezes
gostaria de ter.
Posso colher margaridas na mesma.

Confesso -
não sou capaz de dizer o ano
em que Napoleão combateu em Waterloo
ou o número atómico do urânio.

É verdade que quando canto
me esqueço das palavras -
o meu chuveiro ainda não correu comigo.

Insuficiências
não me faltam.
Muitas coisas que não sou capaz de fazer,
muitas coisas que não faço
suficientemente bem.

Por outro lado, danço no ritmo certo.
Tenho o último parágrafo de O Grande Gatsby
guardado na memória
e faço um batido de fruta dos diabos.

Por cada parte minha que é insatisfatória
há uma parte
inteiramente satisfatória -
talvez até encantadora
ou, nos meus melhores dias,
maravilhosa.

Eu sou a minha única e fiável companhia nesta vida,
os amigos são arrastados pela corrente, a família desaparece e
os amantes vão para onde vão os amantes por muito
que queiramos que eles fiquem.

Tudo bem.
Eu gosto de mim.

E sou uma companhia muito boa.



(Versão minha; original reproduzido em Best modern voices: words for the millenium, vol. 1, Wordclay, 2010, pp. 70-71).

sexta-feira, 16 de abril de 2010

John Giorno

Um maquinista desempregado



Um maquinista
desempregado
Um maquinista desempregado
que chegou
aqui
que chegou aqui
vindo da Geórgia
vindo da Geórgia há 10 dias
há 10 dias
e não conseguiu arranjar
trabalho
e não conseguiu arranjar trabalho
dirigiu-se
ontem
a uma esquadra de polícia
dirigiu-se ontem a uma esquadra de polícia
e
disse
e disse:

"Estou cansado
de ter medo
Estou cansado de ter medo."



(Versão minha; original reprooduzido aqui).

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Hal Sirowitz

O meu peixinho dourado morto



Eu queria ter um jacaré como animal de estimação,
mas os meus pais arranjaram-me um peixinho dourado.
Quando ele morreu a minha mãe atirou-o pela sanita abaixo.
Disse-me que se o enterrássemos no jardim
um gato poderia desenterrá-lo & comê-lo.
Fiquei danado foi com o meu pai por usar a casa-de-banho
dez minutos depois do funeral.
Ele não tinha respeito nenhum pelos mortos.



(Versão minha; original reproduzido em Mother said, Crown Publishers, Nova Iorque, 1996, p. 26).

domingo, 11 de abril de 2010

Hal Sirowitz

Braço cortado



Não ponhas o teu braço fora da janela,
disse a Mãe. Um carro pode aparecer de repente
por trás de nós, e cortá-lo. Então o teu pai
terá que parar, colocar a parte separada
na bagageira, e levar-te ao hospital.
E isto não é como as peças do teu telescópio,
que se voltam a encaixar. Um médico terá que te coser.
Deixarás de poder usar camisolas de manga curta.
Não vais querer que se vejam os pontos.



(Versão minha; original reproduzido em Mother said, Crown Publishers, Nova Iorque, 1996, p. 14. Mais poemas do autor em português aqui e aqui).

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Roger Wolfe

Sabedoria



Uma mulher
que passa de bicicleta
às duas da manhã,
maravilhosas pernas morenas
dando aos pedais
enquanto a brisa lhe levanta o vestido
e revela
um perfeito milagre
de carne feminina em movimento.

Os nossos olhos
cruzam-se por um momento
e já se foi.

São coisas como esta
que te fazem dar conta
do pouco que realmente sabes
de nada.



(Versão minha; original aqui).