terça-feira, 13 de julho de 2010

Kestutis Navakas

O relógio de areia

(uma memória daqueles que viveram em vão)



(não me peçam que fale sobre a areia) nós
juntávamos conchas buscando o vazio
abrimos caixas

: vindos do nada e do nada
do não-barroco não-gótico

vindos do vento e do vento (cheio de papagaios e
tristeza) tivemos de escolher
de brecha em brecha (não me peçam!)

compreendes que isto é a vida - a tua?

(vê eles levam os mortos para a casa dos Judeus
percebes como um segundo te salva? mas
para onde vais) nós

bebemos o dicionário o whisky e as ressacas
foram terríveis até
nos remeterem ao silêncio

até nos separarem um do outro

(pela memória das árvores) até ao último grão de areia
suspenso na cela de vidro



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Jonas Zdanys reproduzida em Six lithuanian poets, Arc, Todmorden, 2008, p. 49).

domingo, 11 de julho de 2010

Sigitas Parulskis

Esquilos



Os teus seios, quando sais da casa
de banho - se eu fosse um verdadeiro poeta diria
quando emerges do vale lilás - os teu seios são como
dois esquilos empoleirados num ramo,
dois pequenos narizes castanhos voltados ligeiramente para o lado
perscrutando de cima as novidades que este mundo tem para oferecer

se eu fosse poeta diria que um dilúvio de desejo
jorra até ao vale da minha pélvis quando vejo
esses esquilos a olharem-
-me como se encarassem não um deus, ou um fauno,
mas um velho e aborrecido
sátiro

poderosas correntes de desejo descem
das nuvens do meu cérebro através da folhagem dos pulmões
e das pedras dos rins, murmuram por entre os baixios do fígado
e então, emergindo da gruta mais funda do vale,
um tronco fortemente enraizado cresce
subindo até às folhas, ceptro da vida, axis mundi
isto é o que eu diria se fosse poeta
em vez disso estendo simplesmente as minhas mãos para ti, e os meigos
pequenos animais comem calmamente
das minhas palmas
e eu enteso-me só um bocadinho



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Medeine Tribinevicius reproduzida em Six lithuanian poets, selecção e organização de Eugenijus Alisanka, Arc, Todmordem, 2008, pp. 87-89).

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Juan Luis Panero

Un étranger



Provoca uma certa melancolia,

uma tristeza decadente – seguramente literária—

como certas canções de entre guerras

ou páginas soltas de Drieu La Rochelle,

ver um homem só, afastado e distante,

no balcão de um bar com uma decoração cosmopolita.

Nessa idade incerta, tão incerta como a luz ambiente,

em que já não é jovem e contudo ainda não é velho

mas traz nos seus olhos a marca da sua derrota

quando com um gesto estudado acende um cigarro.

Muitos copos e muitas camas,

uma indubitável barriga mal dissimulada pela camisa,

o tremor, não muito visível, da sua mão segurando um copo,

fazem parte do naufrágio, da ressaca da vida.

Um homem que espera sabe deus o quê

e, inspirando o fumo, olha com declarada indiferença

as garrafas à sua frente, os rostos reflectidos por um espelho,

tudo com a particular irrealidade de uma fotografia.

E causa, ainda mais triste, um fundo suspiro reprimido,

ver no fundo desse copo – mágico caleidoscópio –

que esse homem és irremediavelmente tu.

Não resta então senão um sorriso céptico e distante

– aprendido muito cedo e útil anos mais tarde –,

e acabares a bebida de um só trago,

pagares a conta enquanto chamas um táxi

e dizeres-te adeus com palavras banais.

...

(Versão inédita de Ricardo Castro Ferreira; deste poema existem, pelo menos, duas outras traduções para português: de Joaquim Manuel Magalhães - em Poemas, Relógio D' Água, 2003, p. 33 - e de António Cabrita e Teresa Noronha - em Antes que chegue a noite, Fenda, 2000, p. 35 -).

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Eugenijus Alisanka

Ensaio sobre a literatura lituana



cada vez menos sou capaz de responder à questão por que escrevo
às vezes parece: para escrever
às vezes eu vejo a luz
cada vez menos por interesse na poesia (para não falar da prosa)
às vezes parece: leio para esquecer
às vezes parece: estou por detrás deste jogo involuntário de palavras
cada vez mais forço-me a estar com os poetas lituanos
às vezes os poetas são generosos e torturados como na poesia russa
às vezes bêbedos e brutos como no rap
às vezes mal se aproximam disto como eu
mais modestamente penso na poesia lituana
às vezes recordo só alguns nomes: vytautas alfonsas sigitas
às vezes digo: a poesia pode ensinar a arte não a vida
às vezes pergunto: será que a vida se preocupa com a poesia como os celans
às vezes fico em silêncio: esta ignorância há-de trazer-me problemas



(Versão minha a partir da tradução inglesa do autor e de Kerry Shawn Keys reproduzida em Six lithuanian poets, Arc, Todmorden, 2008, p.141).

sábado, 3 de julho de 2010

Daiva Cepauskaite

Como alcançar o paraíso



Tens de ter coragem
para escrever um poema,
tens de ter coragem
para não escrever um poema,
tens de dizer olá
e adeus,
tens de tomar vitaminas,
tens de respeitar todas as pessoas
e amar apenas uma,
mesmo que ela não o mereça,
tens de sofrer silenciosamente
e de permanecer pacientemente em silêncio,
tens de estar em silêncio quando alguém fala
e de falar quando toda a gente fica em silêncio,
tens de deitar o lixo fora,
de regar as flores,
de pagar o gás e a água,
os erros e os sucessos,
tens de dar o coração
por um olho e um olho
pelos dentes,
não deves pedir nada
quando desejas tudo,
e exigir tudo
quando não desejas nada,
tens de adormecer a horas
e de acordar a horas,
de encontrar dois sapatos para o pé esquerdo
porque os outros dois são do pé direito,
não esperar que alguém regresse
ou deixe de regressar
só porque alguém está à espera,
tens de olhar para o céu
porque ele jamais olhará
para ti,
tens de morrer porque é assim,
mesmo que não o
mereças,
tens de escrever um poema
nascido do medo
entre "sim" e "não",
vindo do "por quê",
com "para quê",
para ser "agradecido",
mesmo quando
não o merece.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de E. Alisanka e Kerry Shawn Keys reproduzida em Six lithuanian poets, Arc, Todmorden, 2008. pp. 119-121).

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Aidas Marcenas

Um poema real



Esmaguei um mosquito inchado
com o meu sangue - a sua vida jorrou
de tal forma que senti pena, porque
afinal de contas, Arjuna, nunca, nunca

nunca poderia eu criar algo
mais real do que esta
marca sangrenta, este
poema, este cadáver
sugador de sangue.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Laima Vince reproduzida em Six lithuanian poets, organização de Eugenijus Alisanka, Arc, Todmorden, 2008, p. 37).

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Gintaras Grajauskas

Sinceramente



se fôssemos realmente sinceros
não estaríamos sempre a falar de sinceridade

na verdade falaríamos menos
ou ficaríamos completamente em silêncio

se fôssemos realmente sinceros
diríamos "as minhas insinceras condolências"

ou "os meus insinceros cumprimentos".
"insinceramente vosso -

Grajauskas"

em geral falaríamos muito menos

laconicamente

não estaríamos sempre a perguntar: como vai a vida, como vai isso
iríamos direitos ao assunto, como vai isso de morrer

e responderíamos sinceramente: obrigado, bem



(Versão minha - revista - a partir da tradução inglesa de E. Alisanka e Kerry Shawn Keys reproduzida em Six Lithuanian poets, organização de Eugenijus Alisanka, Arc, Todmorden, 2008, pp. 105-107).

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Primo Levi

Agave



Não sou útil nem belo,
Não tenho cores alegres nem perfumes;
As minhas raízes roem o cimento
E as minhas folhas, marginadas por espinhos,
Protegem-me, afiadas como espadas.
Sou mudo. Só falo a minha linguagem de planta,
Difícil de entender por ti, homem.
É uma linguagem insólita,
Exótica, já que venho de muito longe,
De um país cruel,
Cheio de vento, venenos e vulcões.
Esperei muitos anos antes de expressar
Esta minha flor altíssima e desesperada,
Feia, fibrosa, rígida, mas estendida para o céu.
É a nossa maneira de gritar que
Morrerei amanhã. Compreendes-me agora?


10 Setembro 1983



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Jeannette L. Clariond reproduzida em A una hora incierta, La Poesía, señor hidalgo, Barcelona, 2005, p. 133; e da tradução inglesa de Ruth Feldman e Brian Swann reproduzida em Collected poems, Faber and Faber, 2ª ed., Londres, 1992, p, 59).

terça-feira, 22 de junho de 2010

Zaharia Stancu

A árvore vermelha



À beira das águas,
à beira das planícies,
à beira dos céus -
erguem-se árvores vermelhas.

Conheci os seus frutos: vermelhos.
A suas folhas conheci: vermelhas.
As suas sementes conheci: vermelhas.
O coração, o coração, a primeira árvore vermelha.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Darie Novaceanu reproduzida em Antología de la poesía rumana contemporánea, Editorialo Verbum, Madrid, 2004, p. 69).

sábado, 19 de junho de 2010

Hal Sirowitz

A arte do casamento



Viver com alguém é uma arte,
disse o pai, e uma vez que a tua mãe
é que é criativa, eu deixo-lhe
essa parte. Fico de lado
e digo, "Ainda não acabaste
de aperfeiçoar o nosso casamento?"
"Só posso alcançar essa perfeição",
diz ela, "arranjando um novo marido."
É assim que sei que ela continua amar-me.
Se assim não fosse, isto não seria uma piada.



(Versão minha; original reproduzido em Father said, Softskull Press, Brooklyn / Nova Iorque, 2004, p. 127).

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Zbynek Hejda

Depois da morte do meu pai...



Depois da morte do meu pai, tive um sonho:
estou em casa, sozinho, a campainha toca,
eu vou abrir a porta.
O meu pai está ali,
com o seu sobretudo, de chapéu,
sorrindo suavemente como sempre, prestes a entrar.
Mas depois pergunta-me se a mãe está em casa.
Esta pergunta é como um nó
que me aperta a garganta,
um precipício...
O meu pai ficou assim muito triste,
ele sabia a resposta,
eu não consigo descrever a minha angústia.
A mãe não estava em casa.
Ela que sempre aqui esteve -
mas, desta vez, saíra só por um instante
e estaría de volta dali a nada...
A sua ausência fatal significava porém
que o meu pai nunca mais
haveria de regressar.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Bernard O'Donoghue, Simon Danícek e Alexandra Büchler reproduzida em Six czech poets, Arc Publications, Todmordem, 2007, pp. 30-31).

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Ana Blandiana

Humildade



Nada posso fazer para que o dia
não tenha vinte e quatro horas.
Apenas posso dizer:
perdoa-me pela duração do dia.
Também não posso impedir
o voo das borboletas a partir das larvas.
Apenas posso implorar o teu perdão,
pelo voo das borboletas, pelas larvas,
perdoa-me pelas flores que se transformam em frutos
e os frutos em sementes e as sementes em árvores.
Perdoa-me pelos mananciais
que se convertem em rios e os rios
em mares e os mares em oceanos.
Perdoa-me pelos amores
que se transformam em recém-nascidos
e os recém-nascidos em solidões
e as solidões em amores...
Nada posso impedir.
Tudo segue o seu destino e nunca me pergunta nada.
Nem o último grão de areia, nem sequer o meu sangue.
Apenas posso dizer: perdoa-me.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Darie Novaceanu reproduzida em Antología de la poesía rumana contenporánea, Editorial Verbum, Madrid, 2004, p. 166).

domingo, 13 de junho de 2010

Mircea Dinescu

Vidas paralelas



Sem dor alguma
também eu estou a contar as estrelas
tal como o caraguejo
conta os glóbulos brancos do afogado.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Darie Novaceanu reproduzida em Antología de la poesía rumana contemporánea, Editorial Verbum, Madrid, 2004, p. 193).

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Primo Levi

Chegada



Feliz o homem que chega a um porto
Deixando para trás mares e tempestades,
Cujos sonhos estão mortos ou não nasceram,
E se senta e bebe na cervejaria de Bremen,
Feito o caminho, agora em paz.
Feliz o homem que é apagada chama,
Feliz o homem que é areia no estuário,
Que largou a carga e enxugou a fronte
E descansa à beira do caminho.
Não teme nem deseja nem espera,
Apenas olha fixamente o sol a pôr-se.



10 Setembro 1964


(Versão minha a partir da tradução castelhana de Jeannette L. Clariond, reproduzida em A una hora incierta, La Poesía senõr hidalgo, Barcelona, 2005, p. 67 e da tradução inglesa de Ruth Feldman e Brian Swann, reproduzida em Collected poems, Faber and Faber, Londres, 2ª ed. (?), 1992, p. 25).

terça-feira, 8 de junho de 2010

A. E. Baconsky

Auto-retrato no tempo



Fui semelhante ao bosque, ao moinho de vento,
aos calados, negros e desconhecidos cruzeiros,
às sombras dos cavalos
sobre as altas colinas da Moldávia,
fui até semelhante à silhueta dos estranhos
deuses enterrados na areia do mar.
Quanto tempo passou desde então?
Devem ter passado muitas chuvas, muitas tempestades,
devem ter caído muitas muralhas, e muitas hostes,
devem ter sido quebradas muitas correntes,
queimados e esparzidos muitos impérios
até se assemelharem a mim mesmo.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Darie Novaceanu reproduzida em Antología de la poesía rumana contemporánea, Editorial Verbum, Madrid, 2004, p. 106).

domingo, 6 de junho de 2010

Dimitrie Stelaru

Jovem velho



Quando eu era velho
amava os cavalos, as crinas
e a selvajaria,
por trás de mim gritavam as estrelas errantes.

Ri-me sobre o lombo dos fantasmas
vestidos afinal com muito pudor;
esquecido pelas carpideiras
como um sino sem voz
o meu fogo é já cinza.

Agora sou jovem como Marsyas
e os cavalos pastam na erva do meu corpo.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Darie Novaceanu reproduzida em Antología de la poesía rumana contemporánea, Editorial Verbum, 2004, p. 97).

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Primo Levi

Cantar



... Mas quando começámos a cantar
As nossas boas canções insensatas,
Então vimos que todas as coisas
Voltavam a ser o que haviam sido.

Um dia não é mais que um dia:
Sete fazem uma semana.
Matar parecia-nos uma coisa má;
Morrer, uma coisa longínqua.

E os meses passaram mais que velozes,
Mas tínhamos tantos pela frente!
De novo fomos apenas jovens:
Nem mártires, nem santos, nem infames.

Isto e outras coisas vinham à nossa mente
Enquanto continuávamos a cantar;
Mas eram coisas como as nuvens,
Difíceis de explicar.


3 Janeiro 1946


(Versão minha a partir da tradução inglesa de Ruth Feldman e Brian Swann reproduzida em Collected Poems, Faber and Faber, Londres, 2ª edição (?), 1992, p. 6, e da tradução espanhola de Jeannette L. Clariond reproduzida em A una hora incierta, La Poesía, señor hidalgo, Barcelona, 2005, p. 27).

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Tudor Arghezi

O príncipe Tzepesh



No país há paz, e fora também;
os confins estão calmos como nunca,
e hoje, nos campos seguros,
os lavradores cantam e sulcam a terra.

No início da doce primavera
o povo recorda as lendas
e as folhas tremem nos ramos celestes -
também, em segredo, tremem os boiardos.

É claro, o Príncipe pensativo
está decidido a purificar o mundo.
Enfia uma estaca até ao pescoço dos homens
para que o cu tenha uma campainha.

Não há piedade nem demoras
para quem se opõe à justiça.
Religioso, o Príncipe, a cada estaca,
prepara as velas e o pudim de trigo.

Respeitador dos bons costumes,
para os grandes - sejam conterrâneos ou turcos -
tem estacas diferentes, forquilhas soberbas
que distinguem as suas hierarquias.

Podem ver-se os vizires nas alturas,
empalados sobre majestosos álamos,
e para os santos, os padres e os bispos
tem madeira santa e perfumada.

E é aqui que as Cortes do país se reúnem
para agradecer ao Príncipe a paz.
Ele está no seu trono. Silencioso.
A alma coberta de adargas.

E enquanto amigos e cortesãos com armaduras
brindam e erguem as taças de vinho
em honra das façanhas de Sua Majestade,
o Príncipe pensa nas estacas que merecem.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Darie Novaceanu, reproduzida em Antología de la poesía rumana contemporánea, Verbum, Madrid, 2004, p. 28).

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Primo Levi

Segunda-feira



Há alguma coisa mais triste do que um combóio
Que parte à hora certa,
Que só tem uma voz,
Que só tem uma via?
Não há nada mais triste do que um combóio.

Só talvez um cavalo de tiro.
Debaixo do governo das rédeas
Nem sequer pode olhar para o lado.
A sua vida é caminhar.

E um homem? Não é triste um homem?
Se vive largo tempo na solidão,
Se pensa que chegou a sua hora,
Também um homem é uma coisa triste.


17 Janeiro 1946



(Versão minha, a partir da tradução inglesa de Ruth Feldman e Brian Swann, reproduzida em Collected poems, Faber and Faber, 2ª edição, Londres, 1992, p. 11, e da tradução espanhola de Jeannette L. Clariond, reproduzida em A una hora incierta, La poesía, señor hidalgo, Barcelona, 2005, p.37).

sábado, 29 de maio de 2010

Roger Wolfe

Artigo não sujeito à legislação em vigor



Os poemas?
Alguns funcionam,
outros não.
Se o que queres
é uma garantia,
então compra um televisor.



(Versão minha; original reproduzido em Noches de blanco papel (poesía completa: 1986 - 2001), Huacanamo, Barcelona, 2008, p. 269).

terça-feira, 25 de maio de 2010

Hal Sirowitz

Trocando dólares por cêntimos



Levei a minha navalha para a escola, disse o Pai,
e tracei um boneco na minha carteira. O reitor
disse-me que eu não concluiria o curso a não ser
que lhe desse cinco dólares para emendar o erro.
Os meus pais deram-me o dinheiro, uma soma
considerável naquele tempo. Eu fui ao banco
e troquei-o por 500 cêntimos. Coloquei-os
dentro de um saco de papel e bati à porta do reitor.
Despejei os cêntimos sobre a sua secretária
& disse-lhe que violara o meu porquinho-mealheiro.
Pensei que ele teria pena de mim & me diria
que eu guardasse o dinheiro. Mas ele disse-me que não
podia aceitar os cêntimos, que eu tinha de ir a um banco
e trazer-lhe cinco dólares. Era um tipo duro.



(Versão minha; original reproduzido em Mother said, Crown Publishers, Nova Iorque, 1996, p.124; vale a pena lembrar isto a propósito deste poema, ).

domingo, 23 de maio de 2010

Jordi Virallonga

Confessar tudo



Queria dizer-te
que nunca passeei com ela,
que nenhuma montra devolveu a nossa silhueta reunida
nem o seu peito pressionou com o seu mudo acordeão os nossos cristais,

que nunca contemplei a sua nudez em lugares inquietantes,
que nem sequer sei o seu nome,
que não sei do que me estás a falar.

Queria dizer-te que não é verdade,
que no domingo andei a passear sozinho com o cão,
que o cão nunca a quis.

Queria dizer-te que nunca viveu comigo,
que deverias saber o que eu sei,
que era feia, corcunda e reaccionária,

dizer-te que sempre te fui fiel,
que nunca existiu,
que nunca jamais a quis.




(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montálban, Bartleby, Madrid, 2003, p. 132).

quinta-feira, 20 de maio de 2010

José Agudo

A aprendizagem



Como o calor chega aos lençóis,
como chega o desejo aos lábios.

Com a premonição de uma bela recordação,
assim chega este dia,
calando até aos ossos.

Inventariarei os meus pertences
e esperarei que o sol aqueça
as minhas roupas e o meu corpo;
meditarei sobre as horas que vivi
e retirarei ensinamento dos meus fracassos.

E direi a mim mesmo que busco
aquilo que me aguarda
para saber o que espero
e a que sonhos convêm os meus esforços.

E não reclamarei mais ilusões
nem pedirei outro deus
que o deus que me compreenda
e encontre explicação para os meus pecados.

Elegerei o caminho que a idade
me mostre como bom,
conhecendo as forças que me assistem,
reconhecendo aquelas de que dependo.

E deixarei para trás quanto fui,
sem que o rancor me vença,
sem atender a mais disposições
além de estar em paz comigo.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vázquez Montálban, Bartleby, Madrid, 2003, p. 39).

terça-feira, 18 de maio de 2010

Dan Pagis

Escrito a lápis num vagão selado



Aqui neste vagão apinhado
eu Eva
e o meu filho Abel
se virem o meu filho mais velho
Caim filho de Adão
digam-lhe que eu



(Versão minha, a partir desta tradução de A. Z. Foreman e da tradução de Robert Friend reproduzida em The poetry of survival, organização, prefácio e introdução de Daniel Weissbort, Peguin, 2ª ed. (?), Londres, 1991, p. 221).

domingo, 16 de maio de 2010

Nizar Qabbani

Quando te vejo



Quando te vejo
Perco a esperança na poesia,
Como se apenas tu me pudesses criar.
És bela
E se penso na tua beleza
A minha respiração fraqueja,
A minha língua bloqueia,
As minhas palavras falham.
Salva-me de tudo isto. Sê menos bela
E permite-me reecontrar-me com a minha inspiração.
Sê uma mulher que se maquilha e perfuma,
Que engravida e dá à luz,
Sê como as outras mulheres
E reconcilia-me com a linguagem
Para que eu possa voltar a escrever.



(Versão minha a partir desta tradução de A. Z. Foreman e da tradução de Bassam K. Frangieh e Clementina R. Brown, reproduzida em Arabian love poems, A Three Continents Book, Lynne Rienner Publishers, London, 1998, p. 97).

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Federico Gallego Ripoll

Final



A vida é a oferta que agradeço
hoje. Toda a vida é hoje. Os teus olhos
e os meus olhos. O ponto em que se deram
é hoje. E até onde chegam e de onde
regressam, é hoje.

Toda a vida é hoje, e parece-me
suficiente o ter vivido tanto
se neste hoje de hoje cabe o teu lúcido
olhar sobre mim, e o futuro é
um hoje perpetuamente teu.

Concede-me agora
a felicidade de morrer, hoje que não tenho
nem passado nem medo.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - Antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montálban, Madrid, 2003, p. 48).

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Neus Aguado

As tábuas da lei



Saber que cometes adultério
para não voltares a cometê-lo
que matas para não voltar a matar
que roubas para não voltares a roubar
que cobiças para não voltares a cobiçar.
E ainda que não te apedrejem
nem te cortem a mão
nem te arranquem os olhos
saber que a alma está completamente mutilada e se arrasta peregrina
esbarrando com os anjos que um dia tu mesma mandaste sangrar.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - Antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montálban, Bartleby, Madrid, 2003, p. 114).

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Jordi Virallonga

Isso é tudo



Dá no mesmo, disseste, é só sexo,
porém esqueceste que nós vivemos dessas coisas;
só aqueles que fizeram a lei se ocupam
da virtude, da paz e da nobreza.

Essa justiça natural de que falas
fez-nos maus filhos, ateus e ladrões.
Esses homens, todavia, criaram deuses,
sacerdotes, polícias e orfanatos.

Nós comemos, bebemos e gozamos
pagando por isso o preço do salário.
Isso é tudo, somos mercenários, guardamos o Estado
e não merecemos consideração alguma.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aqui - Antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montálban, Bartleby, Madrid, 2003, p. 137. Deste poeta existe em português Quanto sei de mim, um conjunto de poemas traduzido por Carlos da Veiga Ferreira, com prefácio de Nuno Júdice, Teorema, Lisboa, 2001; este mesmo poema aparece aí traduzido na p.32).

domingo, 9 de maio de 2010

José Agudo

Talvez um dia de novo



Talvez um dia de novo,
quando os anos e o inverno
corroerem os meus móveis, as minhas recordações,
o meu corpo e o meu passado,
e a minha memória se esqueça de mim mesmo,
e nada fique de mim,
e já nada me reconheça,
me recorde de ti
- jovem pirata de barcos de papel,
pequeno sonhador -
e do reino distante da minha infância.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montálban, Madrid, 2003, p 29).

sexta-feira, 7 de maio de 2010

(Hors-série)

Excertos de dois e-mails de um leitor devidamente identificado:
"Viva (...),

(...) ando a desenvolver um "ciclo do papel higiénico" em momentos análogos ao que o nosso HH narra em "Vida e obra de um poeta". Como me deu um ataque súbito de angústia da influência, estou agora mesmo a tentar desenvolver a argumentação que te convença a incluir o primeiro "borrão" (escrito numa primeira versão em papel higiénico) no Trapézio. A questão é que, não se tratando tecnicamente de uma tradução, a verdade é que os textos deveriam ter sido escritos por uma pessoa que falasse outra língua (não me perguntes como o sei) que não só nunca existiu como, existindo, jamais os teria escrito. Estranho? Eu sei, mas acho que é precisamente essa qualidade de estranheza alcançada que faz com que não desmereça de figurar na tua antologia digital. (...) Convencido? Aqui vai o Borrão (o primeiro de uma reciclagem de mitos clássicos):

Mito reciclado de Orfeu e Eurídice

(...) no último instante, Orfeu lembrou-se do seu canto, o qual era para si bem mais valioso que mil Eurídices. Olhando para trás, fixou a beleza silenciosa da amada e decidiu imortalizá-la nos seus versos, enquanto via, serenamente, a sombra de Eurídice desaparecer (...)


Dir-me-ás, não querendo discutir a qualidade do dito, que nem sequer se trata de um poema e eu respondo-te, então, que não chega a ser sequer uma prosa. Em desespero de causa sugiro que se corte às postas respeitando a pontuação:


(...) no último instante,
Orfeu lembrou-se do seu canto,
o qual era para si bem mais valioso que mil Eurídices.
Olhando para trás,
fixou a beleza silenciosa da amada e decidiu imortalizá-la nos seus versos,
enquanto via,
serenamente,
a sombra de Eurídice desaparecer (...)


(...) podes identificar-me como autor "contrafeito", ou como alguém que de algum modo opera uma contrafacção (não é impunemente que se desfaz um mito de amor - ainda por cima tão associado ao acto poético - e o transforma num puro gesto de crueldade), como um moedeiro falso, enfim, para os devidos efeitos Ricardo Castro Ferreira serve. E, assim, as agora já vinte linhas de fama ficarão cozidas à minha biografia, até ao momento tão obscura.
(...)

abraço"


(Ricardo Castro Ferreira colaborou anteriormente neste blogue com estes dois trabalhos de tradução).