sábado, 16 de outubro de 2010

Charlotte Delbo (1913-1985)

Oração aos vivos para que sejam perdoados por estarem vivos



Eu suplico-vos
fazei qualquer coisa
aprendei um passo
uma dança
alguma coisa que vos justifique
que vos dê o direito
de vestir a vossa pele o vosso pêlo
aprendei a andar e a rir
porque será completamente estúpido
no fim
que tantos tenham sido mortos
e que vós viveis
sem nada fazer da vossa vida.



(Versão minha a partir do original reproduzido em Poèmes pour voyager - anthologie des poèmes dans le métro et le bus, Le Temps des Cerises, Pantin, 2005, p. 71).

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Jean Marcenal

O cão



O cão vive de pouco

Aquilo que o dono não quer
Atira aos cães

Mas quando o cão tem demasiada fome
Devora o dono.



(Versão minha a partir do original reproduzido em Poèmes pour voyager - anthologie des poèmes dans le métro et le bus, Le temps des Cerises, Pantin, 2005, p. 164).

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Maria Teresa Andruetto

Segunda-feira



Às segundas-feiras o meu pai chegava tarde
e trazia chocolates amargos.
Na cama grande, a mamã lia-nos
A Cabana do Pai Tomás.
Nós gostávamos das segundas-feiras,
gostávamos de chorar por causa das tristezas
de romance, de sofrer pelos negros
enquanto comíamos chocolates
Suchard.



(Versão minha a partir do original e da tradução francesa reproduzidos em Voix d' Argentine / voces argentinas, selecção de Claudia Schvartz e Gerardo Manfredi, tradução para francês de Nicole e èmile Martel, Leviatán (Buenos Aires), Écrits des Forges (Trois-Rivières/Québec) e Le temps des Cerises (Pantin), 2009, p. 22).

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Oktay Rifat

O menino



Este menino cresce,
Fica parecido com o pai
E depois, em seguida, meus senhores,
Morre.



(Versão minha a partir da tradução francesa reproduzida em J' ai vu la mer - Anthologie de la poésie turque contemporaine, selecção, apresentação e tradução de Michèle Aquieu e outros, Bleu autour, Saint-Pourçain-sur-Sioule, 2010, p. 92).

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Maria Teresa Andruetto

Visita



Hoje a minha mãe veio visitar-me
e caminhamos as duas por estas ruas.
Falamos do meu irmão,
dos filhos, das raparigas do Sul,
do meu cunhado. A dado passo eu critiquei
o governo e ela afirmou a seguir
"É um país tão grande!". Não quer
que me queixe: "Este país generoso
acolheu o teu pai!", e seguimos as duas
por uma zona de tristeza, em silêncio,
até que se detém e diz: "ontem
fiz doce de pêssego" e eu digo
que falaram do meu livro
no jornal.



(Versão minha a partir do original e da tradução francesa de Nicole e Émile Martel reproduzida em Voix d' Argentine / voces argentinas, selecção de Claudia Schvartz e Gerardo Manfredi, Leviatán (Buenos Aires), Écrits des Forges (Trois-Rivières / Québec) e Le Temps des Cerises (Pantin), 2009, p. 28).

domingo, 3 de outubro de 2010

Savkar Altinel

Joseph Conrad


É a juventude: eu e os guerrilheiros de D. Carlos
A fazermos contrabando de armas em terras de Espanha,
Sobre esse mar ancestral um ou dois veleiros,
Quem sabe em que pensávamos nós.

A noite dentro de quartos de altos tectos
Enquanto os cortinados de tule vogavam na escuridão,
As minhas mãos nas espáduas de Dona Rita,
Em mim um infinito desgosto.

Depois, aprisionado por isso, parti para Sidney,
Quarto capitão em 77,
Panamá, o Congo, mal passei
Por tudo isso: infantilidades.

De agora em diante já não sou o homem que fui, graças a Deus,
Vejam - se não acreditam - as minhas fotografias.
Um inglês respeitável e burguês
Ao lado do meu amigo Henry James.

Agora tenho uma casa, livros,
Todas as manhãs leio o Times,
Aos poucos o meu sotaque vai sendo corrigido,
Falo o inglês da Rainha.

Mas há coisas que permanecem em mim,
Esses pobres hotéis, certos barcos vetustos;
Sob um clima frio comecei o meu primeiro romance,
Do coração das trevas há notícias a dar-vos.



(Versão minha a partir da tradução francesa reproduzida em J' ai vu la mer - Anthologie de poésie turque contemporaine, selecção, apresentação e tradução de Michèle Aquieu, Pierre Chuvin e Güzin Dino com Enis Batur e Elif Deniz, Bleu autour, Saint-Pourçain-sur-Sioule, 2009, pp.216-217).

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Oktay Rifat

Do pão e das estrelas



O pão sobre os joelhos
E as estrelas ao longe, muito distantes.
Como o pão olhando as estrelas.
Estou tão absorto, oh sim, de tal forma
Que por vezes me engano e em vez de pão
Como as estrelas.



(Versão minha a partir da tradução francesa reproduzida em J' ai vu la mer - Anthologie de la poésie turque contemporaine, selecção, apresentação e tradução de Michèle Aquieu e outros, Bleu autour, Saint-Pourçain-sur-Sioule, 2010, p. 92).

domingo, 26 de setembro de 2010

Oleg Grigoriev

A laranja




O Boris, sentado num tronco, comia uma laranja.
Gomo após gomo.
O Nicolas veio sentar-se ao pé dele.
- É boa?
- Muito boa!, responde o Boris.
- Ah!, suspira o Nicolas. Se eu tivesse uma laranja havia de a partilhar contigo.
- Claro, diz o Boris, engolindo o último gomo da sua laranja. É pena não teres uma laranja!

(Versão minha a partir da tradução francesa de Henri Abril reproduzida na Anthologie de la poésie russe pour enfants, tradução e selecção de H. Abril, 3ª edição, Circé, Belval, 2009, p. 173.)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Charles Baudelaire

O albatroz



Muitas vezes, por pura diversão, os marinheiros
Apanham albatrozes, enormes pássaros marítimos,
Que acompanham, de viagem indolentes companheiros,
O navio vogando sobre os amargos abismos.

A custo eles são largados sobre as pranchas,
Esses reis do azul, tímidos e desajeitados,
Humildemente deixando cair suas enormes asas brancas
Como soltos remos pelo chão arrastados.

Esse viajante alado, como anda desajeitado num limbo!
Ele, outrora tão belo, como é cómico e desleixado!
Um espicaça-lhe o bico com o seu cachimbo,
Outro, coxeando, imita o que voava, agora aleijado.

O poeta é como o príncipe das nuvens
A rir-se do arqueiro e a tempestade a afrontar;
Exilado na terra e na algazarra dos homens,
As suas asas de gigante impedem-no de andar.



(Tradução inédita de Ricardo Castro Ferreira e Gil Santos Júnior).

domingo, 19 de setembro de 2010

Peter Cherches

O meu marido obrigou-me a fazer sexo com o nosso periquito



O meu marido obrigou-me a fazer sexo com o nosso periquito
Na passada sexta-feira à noite.

Tava a ficar tarde,
Ele tinha passado a noite toda a beber cerveja,
E vira-se pra mim e diz,
"Querida, quero que fodas com o nosso periquito."

Vou eu e digo-lhe,
"Por favor, Bobby, não me obrigues a fazer isso."
E ele diz,
"Tem de ser!"

E assim foi:
Eu e o periquito,
E o Bobby ali especado a ver.

Não gostei assim muito,
E o pássaro até me 'stava a aleijar bastante,
E eu sentia-me mesmo mal,
Até que o periquito me diz:
"Querida, amo-te bué."

Tal e qual como o Bobby costuma dizer.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui.)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Bernardo Atxaga

A vida é a vida



A vida é a vida,
não as suas consequências.

Não a casa sólida
construída no topo de uma montanha,
ou as taças e as medalhas
banhadas a ouro
amontoadas nas suas prateleiras.
A vida não é isso.
A vida é a vida.

Não as viagens
até cidades longínquas
ou as crianças, homens
e mulheres nelas mal ou
esplendidamente fotografadas.
A vida não é isso.
A vida é a vida.

Não a chuva no telhado,
ou o granizo nas janelas,
ou a neve, ou a lua silenciosa,
ou a luz, tão magnífica,
dourada no Verão e prateada no Inverno.
A vida não é isso.
A vida é a vida.

Não a mulher ou o homem
que te sussurram ao ouvido,
não os nossos pais, ou filhos,
não os nossos irmãos ou irmãs ou amigos,
velhos ou novos.
A vida não é nada disso.
A vida é a vida.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Amaia Gabantxo reproduzida em Six basque poets, selecção e introdução de Mari Jose Olaziregi, Arc, Todmorden, p. 45.)

domingo, 12 de setembro de 2010

Valentin Bérestov

A sombra



Quem poderá ser-te mais fiel
Que a tua sombra? É sempre ela
Que te segue com zelo por toda a parte
Sem que lhe seja pedido -
Mais ligeira do que uma asa,
Mais doce do que uma rola.
Mas é ela justamente,
Tão doce e fiel,
Que não te pode ajudar,
Nem esconder-te ou salvar-te
Em pleno deserto, sob o sol
Mais cruel...



(Versão minha a partir da tradução francesa de Henri Abril reproduzida na Anthologie de la poésie russe pour enfants, selecção e tradução de H. Abril, Circé, Belval, 2006, 3ª edição, p. 111).

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Roman Sef

As máquinas



Eis uma máquina
Que escreve.
Eis uma máquina
Que multiplica
E pode subtrair.
E outra que
Que sabe ordenhar,
Que mói
E corta tudo.
E eis uma que, eh lá!,
Corre e galopa
A cem à hora...

Mas não há,
Não sei porquê,
Não há
Uma máquina
Que chore.



(Versão minha a partir da tradução francesa de Henri Abril reproduzida em Anthologie de la poésie russe pour enfants, selecção e tradução de H. Abril, Circé, Belval, 2006, 3ª edição, p. 139).

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Valentin Bérestov

Psicologia



"Que vida de cão!", diz o gato.
E sente-se logo melhor.



(Versão minha a partir da tradução francesa de Henri Abril reproduzida em Anthologie de la poésie russe pour enfants, selecção e tradução de H. Abril, Circé, Belval, 2006, 3ª edição, p. 105).

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Peter Meinke

Soneto na morte do homem que inventou as rosas de plástico



O homem que inventou as rosas de plástico morreu.
Reparem na sua importância:
as suas flores imperecíveis e imaculadas nunca murcham
mas resolutamente velam o seu túmulo através da escuridão.
Ele não compreendeu a beleza nem as flores,
que enredam os nossos corações em redes suaves como o céu
e nos prendem com um fio de horas efémeras:
as flores são belas porque morrem.
A beleza sem o seu lado perecível
torna-se seca e estéril, um palco abandonado
com uma floresta de enganos. Mas a realidade
dá razão à invenção deste homem; ele conhecia a sua época:
uma visão do nosso tempo impiedoso revela-nos
homens artificiais cheirando rosas de plástico.



(Tradução de Ricardo Castro Ferreira a partir de diversas fontes: aqui; aqui; aqui; aqui e aqui. Apesar da problemática fidedignidade destas fontes, decidiu-se publicar esta tradução de um poema que, palavras do tradutor, faz lembrar um certo outro "poema sobre (...) orquídeas e talvez por isso tenha chamado mais a [sua] atenção").

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Kirmen Uribe

O indizível



Não podes dizer Liberdade, não podes dizer Igualdade,
não podes dizer Fraternidade; não o podes dizer.
Não podes dizer árvore ou rio ou coração.
As leis antigas já não se aplicam.

As cheias arrastaram a ponte entre as palavras e as coisas.
Não podes dizer que a decisão de um déspota é um crime.
Não podes dizer que perdeste alguém
se uma memória mundana te perfura a alma.

A linguagem é imperfeita, os signos estão gastos
como velhas mós de moinhos que rodaram e rodaram em demasia. E, por isso,

não podes dizer Amor, não podes dizer Beleza,
não podes dizer Solidariedade; não o podes dizer.
Não podes dizer árvore ou rio ou coração.
As leis antigas já não se aplicam.

Mas, apesar disso, confesso que quando te oiço
dizer "meu amor" fico eléctrico,
seja verdade, ou mentira.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Amaia Gabantxo reproduzida em Six basque poets, selecção e introdução de Mari Jose Olaziregi, Arc, Todmorden, 2007, p. 155).

domingo, 29 de agosto de 2010

Joseba Sarrionandia

Literatura e revolução



Quando o chefe da polícia Ángel Martínez enfia o cano
do seu revólver no ânus do prisioneiro nu
e a imagem se torna nojenta, patética e cheia de sangue,
que importância tem para o jovem torturado
se o poeta é um fingidor, como disse Pessoa?
Alguma vez G. K. Chesterton visitou La Salve?
Há alguém nas celas de Intxaurrondo que conheça
Hermann Broch?
Quando está, totalmente destruído, diante do juíz,
como poderá o jovem torturado explicar
o significado de correlativo objectivo?
Como poderia Molly Bloom compreender um nascer do sol
tricotado com agulhas na prisão de Carabanchel?
Quem é Michel Foucault para o homem que passa dez meses
a definhar numa cela?
Uma visita de cinco minutos? Uma descoberta lírica?
Será que os presos estudam a Bíblia Basca de Jean Duvoisin
para terem a certeza de que as vírgulas e os agás das suas
cartas proibidas estão correctos?
Haverá, para a literatura, um valor ético inerente
na rebelião, na revolução e na coragem? Ninguém o diz.
Alguma coisa se escreveu em revistas literárias como
a Voprosi Literaturi ou a Tel Quel sobre
as longas greves de fome dos presos bascos?
Como pode preocupar-se com o compromisso o rapaz
que foge, esquivando-se às balas da polícia, o seu coração
desnudo uma bandeira revolucionária?



(Versão minha a partir da tradução do basco para o inglês de Amaia Gabantxo reproduzida em Six basque poets, selecção e introdução de Mari Jose Olaziregi, Arc, Todmorden, 2007, p. 87).

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Felipe Juaristi

Geografia



Eu nasci aqui,
no entanto não reconheço este lugar.
Falamos a mesma língua,
no entanto não entendo o meu povo.
Esta é a minha terra,
ela mata-me aos poucos,
no entanto regresso sempre ao seu estranho domínio
como um homem doente à sua dor.



(Versão minha a partir da tradução do basco para o inglês de Amaia Gabantxo reproduzida em Six basque poets, selecção e introdução de Mari Jose Olaziregi, Arc, Todmorden, 2007, p. 71).

domingo, 25 de julho de 2010

Bernardo Atxaga

A morte e as zebras



Nós éramos 157 zebras
a galopar pela planície ressequida,
eu corria atrás das zebras 24,
25 e 26,
à frente da 61 e da 62
e de súbito fomos ultrapassadas com um salto
pela 118 e a 119,
ambas a gritar rio, rio,
e a 25, muito feliz, repetiu rio, rio,
e de súbito a 130 alcançou-nos
a correr e a gritar, muito feliz, rio, rio,
e a 25 deu uma guinada à esquerda
à frente da 24 e da 26
e de súbito eu vi o sol no rio cintilante
cheio de salpicos faíscantes
e a 8 e a 9 passaram por mim
a correr na direcção contrária
com as suas bocas cheias de água
e as pernas molhadas e os peitos molhados,
muito felizes, a gritar, vamos, vamos, vamos,
e eu de súbito colidi com a 5 e a 7
que também vinham a correr na direcção contrária
mas a gritar crocodilo, crocodilo,
e então a 6 e a 30 e a 14 passaram por nós
muito assustadas, a gritar, crocodilo, crocodilo, vamos, vamos, vamos,
e eu bebi água, bebi água cintilante
cheia de salpicos faíscantes e sol,
crocodilo, crocodilo, gritou a 25, muito assustada,
crocodilo, repeti eu, voltando para trás;
e correndo muito assustada na direcção contrária
colidi de súbito com a 149
e a 150 e a 151
que vinham a correr e a gritar, muito felizes, rio, rio,
crocodilos, crocodilos, gritei-lhes eu, muito assustada
com a minha boca cheia de água
e as pernas molhadas e o peito molhado.
Continuei a galopar pela planície ressequida
atrás da 24 e da 26
à frente da 60 e da 61
e de súbito vi, de súbito vi um espaço
entre a 24 e a 26, um espaço
e continuei a galopar pela planície ressequida
e de novo vi o espaço, de novo o espaço,
entre a 24 e a 26
e de súbito saltei e preenchi o espaço.

Nós éramos 149 zebras
a galopar pela planície ressequida,
e à minha frente estavam a 12, a 13
e a 14, e atrás de mim
a 43 e a 44.



(Versão minha a partir da tradução inglesa da Amaia Gabantxo reproduzida em Six basque poets, selecção de Mari Jose Olaziregi, Arc, Todmorden, 2007, pp. 37-39).

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Gintaras Grajauskas

ando a erguer uma barricada...



ando a erguer uma barricada
à minha volta

junto o armário e a cama
e ponho o frigorífico ao seu lado

enviam-me um negociador
o rapaz das pizzas

é inútil tentar resistir, diz ele

é inútil tentar resistir, concordo

deixa-me como um vencedor
deixa uma pizza com miolo de caranguejo

chega um carteiro: ora aqui está
uma carta registada, assine nesta linha por favor

assino, sorrimos os dois
é inútil tentar resistir, diz a carta

não discuto, concordo educadamente:
não há sequer a mínima esperança

depois chega um mórmon - o senhor
conhece o plano de Deus, pergunta o mórmon

conheço, é inútil tentar resistir
digo eu, o mórmon desce as escadas murmurando

consolido a barricada: tapo brechas
com velhos jornais e pastilha elástica

eles tocam à campainha uma e outra vez

à porta estão o rapaz das pizzas
o mórmon e o carteiro

o que é agora, pergunto

tem razão, dizem eles, não faz sentido
tentar resistir, não há sequer a mínima esperança

é por isso que estamos no mesmo
lado da barricada



(Versão minha a partir da tradução inglesa de E. Alisanka e Kerry Shawn Keys reproduzida em Six lithuanian poets, Arc, Todmorden, 2008, pp. 107-109).

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Delmore Schwarts

Baudelaire



Ao adormecer, e mesmo enquanto durmo,
Oiço vozes que pronunciam, com toda a clareza,
Frases inteiras, corriqueiras e triviais,
Que nada têm a ver com os meus assuntos.

Querida Mãe, temos ainda tempo
Para sermos felizes? As minhas dívidas são imensas.
A minha conta bancária está sob a alçada do tribunal.
Nada sei. Nada posso saber.
Perdi a capacidade de realizar qualquer esforço.
Mas tu estás sempre de pedras na mão contra mim, sempre:
É verdade. Isto já vem desde a infância.

Pela primeira vez na minha longa vida
Sou quase feliz. O livro, praticamente terminado,
Quase me parece bom. Vai perdurar, um monumento
Às minhas obsessões, ao meu ódio, ao meu nojo.

As dívidas e a inquietação persistem e enfraquecem-me.
Satã aparece-me e diz-me docemente:
"Descansa por um dia! Hoje podes descansar e divertir-te.
Esta noite trabalharás." Quando a noite chega,
A minha mente, aterrorizada pelos pagamentos em atraso,
Enfastiada de tristeza, paralisada de impotência,
Promete: "Amanhã. Fá-lo-ei amanhã."
E amanhã a comédia de sempre será de novo representada
Com a mesma resolução, a mesma fraqueza.

Estou farto desta vida em quartos almofadados.
Estou farto de resfriados e enxaquecas:
Conheces a minha estranha vida. Cada dia traz
A sua dose de ira. Pouco sabes
Da vida de um poeta, querida Mãe: devo escrever poemas,
A mais desgastante das ocupações.

Estou triste esta manhã. Não me repreendas.
Escrevo-te de um café próximo da estação dos correios,
Entre os ruídos secos das bolas de bilhar, o retinir das loiças,
As batidas do meu coração. Encarregaram-me de escrever
Uma História da Caricatura. Encarregaram-me de escrever
Uma História da Escultura. Escreverei então uma história
Das caricaturas das esculturas de ti no meu coração?

Ainda que isto signifique para ti uma infindável agonia,
Ainda que não possas crer que seja necessário
E duvides que a soma seja adequada,
Peço-te, por favor, que me envies dinheiro suficiente para - pelo menos - três semanas.



(Versão minha a partir do texto original e da tradução espanhola de Roger Wolfe que podem, ambos, ser lidos algures por aqui).

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Charles Baudelaire

Alquimia da dor



Um te acende, Natura, com ardor,
Outro em ti depõe um luto banal.
Aquele que diz algo sepulcral
A outro gritará: vida e esplendor!

Hermes desconhecido, que me assistes
E que agora e p'ra sempre me intimidas,
Tu que me vais tornando igual a Midas,
O mais triste dos alquimistas tristes.

Através de ti transmudo ouro em ferro
E o paraíso ponho a fogo e ferro;
Naquelas nuvens compondo um sudário

Descubro um cadáver onde amando erro,
E num celeste espaço portuário
Edifico amplo jardim mortuário.



Tradução de Ricardo Castro Ferreira.



***


(Nota: o tradutor, que colaborou já com este blogue em diversas ocasiões, fez-me chegar esta sua tradução do poema baudelairiano acompanhada de um aparato bibliográfico que considero conveniente elencar:
a) a versão original do poema, que reproduzirei mais à frente;
b) uma citação de Henri Michaux: "L'enfer, c'est le rythme des autres./ --------------------/ On parle à dés décapités/ les décapités répondent em "ouolof"". Esta citação serve, como talvez seja útil recordar, de epígrafe a Ouolof - poemas mudados para português por Herberto Helder, Assírio & Alvim, Lisboa, 1987;
c) uma afirmação algo enigmática sobre a natureza da tradução: "A tradução é, quanto a mim, a mais sublime e simultaneamente infame forma de morte.";
d) uma tradução literal do poema, da sua autoria, que abdica das rimas;
e) a tradução de Fernando Pinto do Amaral, que pode ser lida em As flores do mal, Assírio & Alvim, Lisboa, 1992, pp. 201-203;
f) a tradução da autoria de Maria Gabriela Llansol, a qual, por se relacionar directamente com a tradução acima apresentada, também reproduzirei de seguida (cf. As flores do mal, Relógio D' Água, Lisboa, 2003, pp. 175-177);
g) e, finalmente, um texto em prosa, sem título, de natureza reflexiva, que aqui será igualmente apresentado.
Infelizmente, não consigo respeitar, por deficiência do programa de texto do blogger, a estrutura estrófica dos textos apresentados.
***
Alchimie de la douleur (texto original)
L' un t'eclaire avec son ardeur,
L'autre en toi met son deuil, Nature!
Ce qui dit à l'un: Sépulture!
Dit à l'autre: Vie et splendeur!
Hermes inconnu qui m'assistes
Et qui toujours m'intimidas
Tu me rends l'égal de Midas,
Le plus triste des alchimistes;
Par toi je change l'or en fer
Et le paradis en enfer;
Dans le suaire des nuages
Je découvre un cadavre cher,
Et sur les célestes rivages
Je bâtis de grands sarcophages.
***
Alquimia da dor (tradução de Maria Gabriela Llansol)
Meu eu acentrado ilumina-se com teu fulgor
Meu eu gestor abafa-te em cê ó dois
Paisagem entre lixeira e esplendor
Me desencontro e te desfaço
Como explicar-te
Hermes ignoto que me guias?
Eis-me um exemplo de eficiência
A mais triste das alquimias
Sei fazer ferro a partir de ouro
Como se monta um inferno juntando afectos
No sudário das nuvens
Passam cadáveres aéreos que conheço
Nas margens do edénico
Urbanizo cemitérios
***
[Pode dizer-se que...]
Pode dizer-se que Allan Poe é a figura inaugural da modernidade no negativo. Mas também se pode dizer, sem errar demasiado, que, de facto, a figura inaugural é Charles Baudelaire. Na verdade, o primeiro é, em certa medida, uma invenção do segundo. A tal ponto que Baudelaire traduziu textos de Poe como uma forma de apropriação, chegando a deixar no ar que a fronteira entre um e outro era da ordem do idiscernível. Poe terá agradecido e nós por ele. A Baudelaire o que é de Poe e a Poe o que é de Baudelaire. Será assim tão importante a questão da assinatura? A literatura pode ser (in)apropriada.
Em todo o caso, porquê traduzir? Há o original, quem quiser que o leia na sua língua. Depois podemos pensar na questão da divulgação, é verdade - uma forma estranha de (con)verter. Faz parte da política romântica da cultura ao alcance de todos e coisa e tal.
Quanto a mim, pode sempre colocar-se uma questão pertinente. Um poema, se é um bom poema, tem qualquer coisa de cobra, serpenteia por todo o lado, e o leitor anda por ali a errar. A certa altura, pode surgir o gosto, a necessidade, o impulso de fixar o original na língua de "chegada" (propósito ingénuo, se da tradução surgir também um bom poema, porque imediatamente se torna também ele um réptil difícil de agarrar).
Eu cá não gosto particularmente de traduzir. Agrada-me a ideia de errar (um dos verbos mais saborosos da língua portuguesa, com tanta ressonância, física, psíquica, moral, eu sei lá!). Todo o poema é, afinal de contas, um erro, do ponto de vista do silêncio estrutural do ser. Uma interpretação, por consequência, ou não, será um erro também. E a tradução? Outro rotundo erro. Walter Benjamin, que tem quase sempre razão, fala da tarefa do tradutor, precisamente a propósito da tradução d' As Flores do Mal. Paul de Man, na Resistência à Teoria (título bastante significativo), recorda que, em alemão, o verbo traduzir se liga ao verbo desistir, e, assim, a tarefa do tradutor seria, de certa forma, uma maneira de desistir. A errância na sua máxima passividade ou inércia total.
Mas há, afinal de contas, uma tradução. Foi despoletada pela versão libertina de Gabriela Llansol. Pensei cá com os meus botões: vamos lá responder a isto com uma versão constrangida pela forma soneto. O resultado está aí. A duplicação do "erro" é, talvez, o ponto mais fraco, mas valeu a pena pelo achado: "um cadáver onde amando erro".
Quanto ao poema original, permanece intocado, como cobra que morde a sua própria cauda. Mas se se dá o caso de apanhar alguém pelo caminho, no fundo é de si mesma que se alimenta.
***
Obrigado, Ricardo, e desculpa o arranjo gráfico desastroso).

terça-feira, 13 de julho de 2010

Kestutis Navakas

O relógio de areia

(uma memória daqueles que viveram em vão)



(não me peçam que fale sobre a areia) nós
juntávamos conchas buscando o vazio
abrimos caixas

: vindos do nada e do nada
do não-barroco não-gótico

vindos do vento e do vento (cheio de papagaios e
tristeza) tivemos de escolher
de brecha em brecha (não me peçam!)

compreendes que isto é a vida - a tua?

(vê eles levam os mortos para a casa dos Judeus
percebes como um segundo te salva? mas
para onde vais) nós

bebemos o dicionário o whisky e as ressacas
foram terríveis até
nos remeterem ao silêncio

até nos separarem um do outro

(pela memória das árvores) até ao último grão de areia
suspenso na cela de vidro



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Jonas Zdanys reproduzida em Six lithuanian poets, Arc, Todmorden, 2008, p. 49).

domingo, 11 de julho de 2010

Sigitas Parulskis

Esquilos



Os teus seios, quando sais da casa
de banho - se eu fosse um verdadeiro poeta diria
quando emerges do vale lilás - os teu seios são como
dois esquilos empoleirados num ramo,
dois pequenos narizes castanhos voltados ligeiramente para o lado
perscrutando de cima as novidades que este mundo tem para oferecer

se eu fosse poeta diria que um dilúvio de desejo
jorra até ao vale da minha pélvis quando vejo
esses esquilos a olharem-
-me como se encarassem não um deus, ou um fauno,
mas um velho e aborrecido
sátiro

poderosas correntes de desejo descem
das nuvens do meu cérebro através da folhagem dos pulmões
e das pedras dos rins, murmuram por entre os baixios do fígado
e então, emergindo da gruta mais funda do vale,
um tronco fortemente enraizado cresce
subindo até às folhas, ceptro da vida, axis mundi
isto é o que eu diria se fosse poeta
em vez disso estendo simplesmente as minhas mãos para ti, e os meigos
pequenos animais comem calmamente
das minhas palmas
e eu enteso-me só um bocadinho



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Medeine Tribinevicius reproduzida em Six lithuanian poets, selecção e organização de Eugenijus Alisanka, Arc, Todmordem, 2008, pp. 87-89).

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Juan Luis Panero

Un étranger



Provoca uma certa melancolia,

uma tristeza decadente – seguramente literária—

como certas canções de entre guerras

ou páginas soltas de Drieu La Rochelle,

ver um homem só, afastado e distante,

no balcão de um bar com uma decoração cosmopolita.

Nessa idade incerta, tão incerta como a luz ambiente,

em que já não é jovem e contudo ainda não é velho

mas traz nos seus olhos a marca da sua derrota

quando com um gesto estudado acende um cigarro.

Muitos copos e muitas camas,

uma indubitável barriga mal dissimulada pela camisa,

o tremor, não muito visível, da sua mão segurando um copo,

fazem parte do naufrágio, da ressaca da vida.

Um homem que espera sabe deus o quê

e, inspirando o fumo, olha com declarada indiferença

as garrafas à sua frente, os rostos reflectidos por um espelho,

tudo com a particular irrealidade de uma fotografia.

E causa, ainda mais triste, um fundo suspiro reprimido,

ver no fundo desse copo – mágico caleidoscópio –

que esse homem és irremediavelmente tu.

Não resta então senão um sorriso céptico e distante

– aprendido muito cedo e útil anos mais tarde –,

e acabares a bebida de um só trago,

pagares a conta enquanto chamas um táxi

e dizeres-te adeus com palavras banais.

...

(Versão inédita de Ricardo Castro Ferreira; deste poema existem, pelo menos, duas outras traduções para português: de Joaquim Manuel Magalhães - em Poemas, Relógio D' Água, 2003, p. 33 - e de António Cabrita e Teresa Noronha - em Antes que chegue a noite, Fenda, 2000, p. 35 -).

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Eugenijus Alisanka

Ensaio sobre a literatura lituana



cada vez menos sou capaz de responder à questão por que escrevo
às vezes parece: para escrever
às vezes eu vejo a luz
cada vez menos por interesse na poesia (para não falar da prosa)
às vezes parece: leio para esquecer
às vezes parece: estou por detrás deste jogo involuntário de palavras
cada vez mais forço-me a estar com os poetas lituanos
às vezes os poetas são generosos e torturados como na poesia russa
às vezes bêbedos e brutos como no rap
às vezes mal se aproximam disto como eu
mais modestamente penso na poesia lituana
às vezes recordo só alguns nomes: vytautas alfonsas sigitas
às vezes digo: a poesia pode ensinar a arte não a vida
às vezes pergunto: será que a vida se preocupa com a poesia como os celans
às vezes fico em silêncio: esta ignorância há-de trazer-me problemas



(Versão minha a partir da tradução inglesa do autor e de Kerry Shawn Keys reproduzida em Six lithuanian poets, Arc, Todmorden, 2008, p.141).

sábado, 3 de julho de 2010

Daiva Cepauskaite

Como alcançar o paraíso



Tens de ter coragem
para escrever um poema,
tens de ter coragem
para não escrever um poema,
tens de dizer olá
e adeus,
tens de tomar vitaminas,
tens de respeitar todas as pessoas
e amar apenas uma,
mesmo que ela não o mereça,
tens de sofrer silenciosamente
e de permanecer pacientemente em silêncio,
tens de estar em silêncio quando alguém fala
e de falar quando toda a gente fica em silêncio,
tens de deitar o lixo fora,
de regar as flores,
de pagar o gás e a água,
os erros e os sucessos,
tens de dar o coração
por um olho e um olho
pelos dentes,
não deves pedir nada
quando desejas tudo,
e exigir tudo
quando não desejas nada,
tens de adormecer a horas
e de acordar a horas,
de encontrar dois sapatos para o pé esquerdo
porque os outros dois são do pé direito,
não esperar que alguém regresse
ou deixe de regressar
só porque alguém está à espera,
tens de olhar para o céu
porque ele jamais olhará
para ti,
tens de morrer porque é assim,
mesmo que não o
mereças,
tens de escrever um poema
nascido do medo
entre "sim" e "não",
vindo do "por quê",
com "para quê",
para ser "agradecido",
mesmo quando
não o merece.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de E. Alisanka e Kerry Shawn Keys reproduzida em Six lithuanian poets, Arc, Todmorden, 2008. pp. 119-121).

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Aidas Marcenas

Um poema real



Esmaguei um mosquito inchado
com o meu sangue - a sua vida jorrou
de tal forma que senti pena, porque
afinal de contas, Arjuna, nunca, nunca

nunca poderia eu criar algo
mais real do que esta
marca sangrenta, este
poema, este cadáver
sugador de sangue.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Laima Vince reproduzida em Six lithuanian poets, organização de Eugenijus Alisanka, Arc, Todmorden, 2008, p. 37).

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Gintaras Grajauskas

Sinceramente



se fôssemos realmente sinceros
não estaríamos sempre a falar de sinceridade

na verdade falaríamos menos
ou ficaríamos completamente em silêncio

se fôssemos realmente sinceros
diríamos "as minhas insinceras condolências"

ou "os meus insinceros cumprimentos".
"insinceramente vosso -

Grajauskas"

em geral falaríamos muito menos

laconicamente

não estaríamos sempre a perguntar: como vai a vida, como vai isso
iríamos direitos ao assunto, como vai isso de morrer

e responderíamos sinceramente: obrigado, bem



(Versão minha - revista - a partir da tradução inglesa de E. Alisanka e Kerry Shawn Keys reproduzida em Six Lithuanian poets, organização de Eugenijus Alisanka, Arc, Todmorden, 2008, pp. 105-107).

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Primo Levi

Agave



Não sou útil nem belo,
Não tenho cores alegres nem perfumes;
As minhas raízes roem o cimento
E as minhas folhas, marginadas por espinhos,
Protegem-me, afiadas como espadas.
Sou mudo. Só falo a minha linguagem de planta,
Difícil de entender por ti, homem.
É uma linguagem insólita,
Exótica, já que venho de muito longe,
De um país cruel,
Cheio de vento, venenos e vulcões.
Esperei muitos anos antes de expressar
Esta minha flor altíssima e desesperada,
Feia, fibrosa, rígida, mas estendida para o céu.
É a nossa maneira de gritar que
Morrerei amanhã. Compreendes-me agora?


10 Setembro 1983



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Jeannette L. Clariond reproduzida em A una hora incierta, La Poesía, señor hidalgo, Barcelona, 2005, p. 133; e da tradução inglesa de Ruth Feldman e Brian Swann reproduzida em Collected poems, Faber and Faber, 2ª ed., Londres, 1992, p, 59).