sábado, 16 de outubro de 2010
Charlotte Delbo (1913-1985)
Eu suplico-vos
fazei qualquer coisa
aprendei um passo
uma dança
alguma coisa que vos justifique
que vos dê o direito
de vestir a vossa pele o vosso pêlo
aprendei a andar e a rir
porque será completamente estúpido
no fim
que tantos tenham sido mortos
e que vós viveis
sem nada fazer da vossa vida.
(Versão minha a partir do original reproduzido em Poèmes pour voyager - anthologie des poèmes dans le métro et le bus, Le Temps des Cerises, Pantin, 2005, p. 71).
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Jean Marcenal
O cão vive de pouco
Aquilo que o dono não quer
Atira aos cães
Mas quando o cão tem demasiada fome
Devora o dono.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Maria Teresa Andruetto
Às segundas-feiras o meu pai chegava tarde
e trazia chocolates amargos.
Na cama grande, a mamã lia-nos
A Cabana do Pai Tomás.
Nós gostávamos das segundas-feiras,
gostávamos de chorar por causa das tristezas
de romance, de sofrer pelos negros
enquanto comíamos chocolates
Suchard.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Oktay Rifat
Este menino cresce,
Fica parecido com o pai
E depois, em seguida, meus senhores,
Morre.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Maria Teresa Andruetto
Hoje a minha mãe veio visitar-me
e caminhamos as duas por estas ruas.
Falamos do meu irmão,
dos filhos, das raparigas do Sul,
do meu cunhado. A dado passo eu critiquei
o governo e ela afirmou a seguir
"É um país tão grande!". Não quer
que me queixe: "Este país generoso
acolheu o teu pai!", e seguimos as duas
por uma zona de tristeza, em silêncio,
até que se detém e diz: "ontem
fiz doce de pêssego" e eu digo
que falaram do meu livro
no jornal.
domingo, 3 de outubro de 2010
Savkar Altinel
É a juventude: eu e os guerrilheiros de D. Carlos
A fazermos contrabando de armas em terras de Espanha,
Sobre esse mar ancestral um ou dois veleiros,
Quem sabe em que pensávamos nós.
A noite dentro de quartos de altos tectos
Enquanto os cortinados de tule vogavam na escuridão,
As minhas mãos nas espáduas de Dona Rita,
Em mim um infinito desgosto.
Depois, aprisionado por isso, parti para Sidney,
Quarto capitão em 77,
Panamá, o Congo, mal passei
Por tudo isso: infantilidades.
De agora em diante já não sou o homem que fui, graças a Deus,
Vejam - se não acreditam - as minhas fotografias.
Um inglês respeitável e burguês
Ao lado do meu amigo Henry James.
Agora tenho uma casa, livros,
Todas as manhãs leio o Times,
Aos poucos o meu sotaque vai sendo corrigido,
Falo o inglês da Rainha.
Mas há coisas que permanecem em mim,
Esses pobres hotéis, certos barcos vetustos;
Sob um clima frio comecei o meu primeiro romance,
Do coração das trevas há notícias a dar-vos.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Oktay Rifat
O pão sobre os joelhos
E as estrelas ao longe, muito distantes.
Como o pão olhando as estrelas.
Estou tão absorto, oh sim, de tal forma
Que por vezes me engano e em vez de pão
Como as estrelas.
domingo, 26 de setembro de 2010
Oleg Grigoriev
(Versão minha a partir da tradução francesa de Henri Abril reproduzida na Anthologie de la poésie russe pour enfants, tradução e selecção de H. Abril, 3ª edição, Circé, Belval, 2009, p. 173.)
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Charles Baudelaire
Muitas vezes, por pura diversão, os marinheiros
Apanham albatrozes, enormes pássaros marítimos,
Que acompanham, de viagem indolentes companheiros,
O navio vogando sobre os amargos abismos.
A custo eles são largados sobre as pranchas,
Esses reis do azul, tímidos e desajeitados,
Humildemente deixando cair suas enormes asas brancas
Como soltos remos pelo chão arrastados.
Esse viajante alado, como anda desajeitado num limbo!
Ele, outrora tão belo, como é cómico e desleixado!
Um espicaça-lhe o bico com o seu cachimbo,
Outro, coxeando, imita o que voava, agora aleijado.
O poeta é como o príncipe das nuvens
A rir-se do arqueiro e a tempestade a afrontar;
Exilado na terra e na algazarra dos homens,
As suas asas de gigante impedem-no de andar.
domingo, 19 de setembro de 2010
Peter Cherches
O meu marido obrigou-me a fazer sexo com o nosso periquito
Na passada sexta-feira à noite.
Tava a ficar tarde,
Ele tinha passado a noite toda a beber cerveja,
E vira-se pra mim e diz,
"Querida, quero que fodas com o nosso periquito."
Vou eu e digo-lhe,
"Por favor, Bobby, não me obrigues a fazer isso."
E ele diz,
"Tem de ser!"
E assim foi:
Eu e o periquito,
E o Bobby ali especado a ver.
Não gostei assim muito,
E o pássaro até me 'stava a aleijar bastante,
E eu sentia-me mesmo mal,
Até que o periquito me diz:
"Querida, amo-te bué."
Tal e qual como o Bobby costuma dizer.
(Versão minha; o original pode ser lido aqui.)
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Bernardo Atxaga
A vida é a vida,
não as suas consequências.
Não a casa sólida
construída no topo de uma montanha,
ou as taças e as medalhas
banhadas a ouro
amontoadas nas suas prateleiras.
A vida não é isso.
A vida é a vida.
Não as viagens
até cidades longínquas
ou as crianças, homens
e mulheres nelas mal ou
esplendidamente fotografadas.
A vida não é isso.
A vida é a vida.
Não a chuva no telhado,
ou o granizo nas janelas,
ou a neve, ou a lua silenciosa,
ou a luz, tão magnífica,
dourada no Verão e prateada no Inverno.
A vida não é isso.
A vida é a vida.
Não a mulher ou o homem
que te sussurram ao ouvido,
não os nossos pais, ou filhos,
não os nossos irmãos ou irmãs ou amigos,
velhos ou novos.
A vida não é nada disso.
A vida é a vida.
domingo, 12 de setembro de 2010
Valentin Bérestov
Quem poderá ser-te mais fiel
Que a tua sombra? É sempre ela
Que te segue com zelo por toda a parte
Sem que lhe seja pedido -
Mais ligeira do que uma asa,
Mais doce do que uma rola.
Mas é ela justamente,
Tão doce e fiel,
Que não te pode ajudar,
Nem esconder-te ou salvar-te
Em pleno deserto, sob o sol
Mais cruel...
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Roman Sef
Eis uma máquina
Que escreve.
Eis uma máquina
Que multiplica
E pode subtrair.
E outra que
Que sabe ordenhar,
Que mói
E corta tudo.
E eis uma que, eh lá!,
Corre e galopa
A cem à hora...
Mas não há,
Não sei porquê,
Não há
Uma máquina
Que chore.
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Valentin Bérestov
"Que vida de cão!", diz o gato.
E sente-se logo melhor.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Peter Meinke
O homem que inventou as rosas de plástico morreu.
Reparem na sua importância:
as suas flores imperecíveis e imaculadas nunca murcham
mas resolutamente velam o seu túmulo através da escuridão.
Ele não compreendeu a beleza nem as flores,
que enredam os nossos corações em redes suaves como o céu
e nos prendem com um fio de horas efémeras:
as flores são belas porque morrem.
A beleza sem o seu lado perecível
torna-se seca e estéril, um palco abandonado
com uma floresta de enganos. Mas a realidade
dá razão à invenção deste homem; ele conhecia a sua época:
uma visão do nosso tempo impiedoso revela-nos
homens artificiais cheirando rosas de plástico.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Kirmen Uribe
Não podes dizer Liberdade, não podes dizer Igualdade,
não podes dizer Fraternidade; não o podes dizer.
Não podes dizer árvore ou rio ou coração.
As leis antigas já não se aplicam.
As cheias arrastaram a ponte entre as palavras e as coisas.
Não podes dizer que a decisão de um déspota é um crime.
Não podes dizer que perdeste alguém
se uma memória mundana te perfura a alma.
A linguagem é imperfeita, os signos estão gastos
como velhas mós de moinhos que rodaram e rodaram em demasia. E, por isso,
não podes dizer Amor, não podes dizer Beleza,
não podes dizer Solidariedade; não o podes dizer.
Não podes dizer árvore ou rio ou coração.
As leis antigas já não se aplicam.
Mas, apesar disso, confesso que quando te oiço
dizer "meu amor" fico eléctrico,
seja verdade, ou mentira.
domingo, 29 de agosto de 2010
Joseba Sarrionandia
Quando o chefe da polícia Ángel Martínez enfia o cano
do seu revólver no ânus do prisioneiro nu
e a imagem se torna nojenta, patética e cheia de sangue,
que importância tem para o jovem torturado
se o poeta é um fingidor, como disse Pessoa?
Alguma vez G. K. Chesterton visitou La Salve?
Há alguém nas celas de Intxaurrondo que conheça
Hermann Broch?
Quando está, totalmente destruído, diante do juíz,
como poderá o jovem torturado explicar
o significado de correlativo objectivo?
Como poderia Molly Bloom compreender um nascer do sol
tricotado com agulhas na prisão de Carabanchel?
Quem é Michel Foucault para o homem que passa dez meses
a definhar numa cela?
Uma visita de cinco minutos? Uma descoberta lírica?
Será que os presos estudam a Bíblia Basca de Jean Duvoisin
para terem a certeza de que as vírgulas e os agás das suas
cartas proibidas estão correctos?
Haverá, para a literatura, um valor ético inerente
na rebelião, na revolução e na coragem? Ninguém o diz.
Alguma coisa se escreveu em revistas literárias como
a Voprosi Literaturi ou a Tel Quel sobre
as longas greves de fome dos presos bascos?
Como pode preocupar-se com o compromisso o rapaz
que foge, esquivando-se às balas da polícia, o seu coração
desnudo uma bandeira revolucionária?
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Felipe Juaristi
Eu nasci aqui,
no entanto não reconheço este lugar.
Falamos a mesma língua,
no entanto não entendo o meu povo.
Esta é a minha terra,
ela mata-me aos poucos,
no entanto regresso sempre ao seu estranho domínio
como um homem doente à sua dor.
domingo, 25 de julho de 2010
Bernardo Atxaga
Nós éramos 157 zebras
a galopar pela planície ressequida,
eu corria atrás das zebras 24,
25 e 26,
à frente da 61 e da 62
e de súbito fomos ultrapassadas com um salto
pela 118 e a 119,
ambas a gritar rio, rio,
e a 25, muito feliz, repetiu rio, rio,
e de súbito a 130 alcançou-nos
a correr e a gritar, muito feliz, rio, rio,
e a 25 deu uma guinada à esquerda
à frente da 24 e da 26
e de súbito eu vi o sol no rio cintilante
cheio de salpicos faíscantes
e a 8 e a 9 passaram por mim
a correr na direcção contrária
com as suas bocas cheias de água
e as pernas molhadas e os peitos molhados,
muito felizes, a gritar, vamos, vamos, vamos,
e eu de súbito colidi com a 5 e a 7
que também vinham a correr na direcção contrária
mas a gritar crocodilo, crocodilo,
e então a 6 e a 30 e a 14 passaram por nós
muito assustadas, a gritar, crocodilo, crocodilo, vamos, vamos, vamos,
e eu bebi água, bebi água cintilante
cheia de salpicos faíscantes e sol,
crocodilo, crocodilo, gritou a 25, muito assustada,
crocodilo, repeti eu, voltando para trás;
e correndo muito assustada na direcção contrária
colidi de súbito com a 149
e a 150 e a 151
que vinham a correr e a gritar, muito felizes, rio, rio,
crocodilos, crocodilos, gritei-lhes eu, muito assustada
com a minha boca cheia de água
e as pernas molhadas e o peito molhado.
Continuei a galopar pela planície ressequida
atrás da 24 e da 26
à frente da 60 e da 61
e de súbito vi, de súbito vi um espaço
entre a 24 e a 26, um espaço
e continuei a galopar pela planície ressequida
e de novo vi o espaço, de novo o espaço,
entre a 24 e a 26
e de súbito saltei e preenchi o espaço.
Nós éramos 149 zebras
a galopar pela planície ressequida,
e à minha frente estavam a 12, a 13
e a 14, e atrás de mim
a 43 e a 44.
(Versão minha a partir da tradução inglesa da Amaia Gabantxo reproduzida em Six basque poets, selecção de Mari Jose Olaziregi, Arc, Todmorden, 2007, pp. 37-39).
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Gintaras Grajauskas
ando a erguer uma barricada
à minha volta
junto o armário e a cama
e ponho o frigorífico ao seu lado
enviam-me um negociador
o rapaz das pizzas
é inútil tentar resistir, diz ele
é inútil tentar resistir, concordo
deixa-me como um vencedor
deixa uma pizza com miolo de caranguejo
chega um carteiro: ora aqui está
uma carta registada, assine nesta linha por favor
assino, sorrimos os dois
é inútil tentar resistir, diz a carta
não discuto, concordo educadamente:
não há sequer a mínima esperança
depois chega um mórmon - o senhor
conhece o plano de Deus, pergunta o mórmon
conheço, é inútil tentar resistir
digo eu, o mórmon desce as escadas murmurando
consolido a barricada: tapo brechas
com velhos jornais e pastilha elástica
eles tocam à campainha uma e outra vez
à porta estão o rapaz das pizzas
o mórmon e o carteiro
o que é agora, pergunto
tem razão, dizem eles, não faz sentido
tentar resistir, não há sequer a mínima esperança
é por isso que estamos no mesmo
lado da barricada
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Delmore Schwarts
Ao adormecer, e mesmo enquanto durmo,
Oiço vozes que pronunciam, com toda a clareza,
Frases inteiras, corriqueiras e triviais,
Que nada têm a ver com os meus assuntos.
Querida Mãe, temos ainda tempo
Para sermos felizes? As minhas dívidas são imensas.
A minha conta bancária está sob a alçada do tribunal.
Nada sei. Nada posso saber.
Perdi a capacidade de realizar qualquer esforço.
Mas tu estás sempre de pedras na mão contra mim, sempre:
É verdade. Isto já vem desde a infância.
Pela primeira vez na minha longa vida
Sou quase feliz. O livro, praticamente terminado,
Quase me parece bom. Vai perdurar, um monumento
Às minhas obsessões, ao meu ódio, ao meu nojo.
As dívidas e a inquietação persistem e enfraquecem-me.
Satã aparece-me e diz-me docemente:
"Descansa por um dia! Hoje podes descansar e divertir-te.
Esta noite trabalharás." Quando a noite chega,
A minha mente, aterrorizada pelos pagamentos em atraso,
Enfastiada de tristeza, paralisada de impotência,
Promete: "Amanhã. Fá-lo-ei amanhã."
E amanhã a comédia de sempre será de novo representada
Com a mesma resolução, a mesma fraqueza.
Estou farto desta vida em quartos almofadados.
Estou farto de resfriados e enxaquecas:
Conheces a minha estranha vida. Cada dia traz
A sua dose de ira. Pouco sabes
Da vida de um poeta, querida Mãe: devo escrever poemas,
A mais desgastante das ocupações.
Estou triste esta manhã. Não me repreendas.
Escrevo-te de um café próximo da estação dos correios,
Entre os ruídos secos das bolas de bilhar, o retinir das loiças,
As batidas do meu coração. Encarregaram-me de escrever
Uma História da Caricatura. Encarregaram-me de escrever
Uma História da Escultura. Escreverei então uma história
Das caricaturas das esculturas de ti no meu coração?
Ainda que isto signifique para ti uma infindável agonia,
Ainda que não possas crer que seja necessário
E duvides que a soma seja adequada,
Peço-te, por favor, que me envies dinheiro suficiente para - pelo menos - três semanas.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Charles Baudelaire
Um te acende, Natura, com ardor,
Outro em ti depõe um luto banal.
Aquele que diz algo sepulcral
A outro gritará: vida e esplendor!
Hermes desconhecido, que me assistes
E que agora e p'ra sempre me intimidas,
Tu que me vais tornando igual a Midas,
O mais triste dos alquimistas tristes.
Através de ti transmudo ouro em ferro
E o paraíso ponho a fogo e ferro;
Naquelas nuvens compondo um sudário
Descubro um cadáver onde amando erro,
E num celeste espaço portuário
Edifico amplo jardim mortuário.
Tradução de Ricardo Castro Ferreira.
***
terça-feira, 13 de julho de 2010
Kestutis Navakas
(uma memória daqueles que viveram em vão)
(não me peçam que fale sobre a areia) nós
juntávamos conchas buscando o vazio
abrimos caixas
: vindos do nada e do nada
do não-barroco não-gótico
vindos do vento e do vento (cheio de papagaios e
tristeza) tivemos de escolher
de brecha em brecha (não me peçam!)
compreendes que isto é a vida - a tua?
(vê eles levam os mortos para a casa dos Judeus
percebes como um segundo te salva? mas
para onde vais) nós
bebemos o dicionário o whisky e as ressacas
foram terríveis até
nos remeterem ao silêncio
até nos separarem um do outro
(pela memória das árvores) até ao último grão de areia
suspenso na cela de vidro
domingo, 11 de julho de 2010
Sigitas Parulskis
Os teus seios, quando sais da casa
de banho - se eu fosse um verdadeiro poeta diria
quando emerges do vale lilás - os teu seios são como
dois esquilos empoleirados num ramo,
dois pequenos narizes castanhos voltados ligeiramente para o lado
perscrutando de cima as novidades que este mundo tem para oferecer
se eu fosse poeta diria que um dilúvio de desejo
jorra até ao vale da minha pélvis quando vejo
esses esquilos a olharem-
-me como se encarassem não um deus, ou um fauno,
mas um velho e aborrecido
sátiro
poderosas correntes de desejo descem
das nuvens do meu cérebro através da folhagem dos pulmões
e das pedras dos rins, murmuram por entre os baixios do fígado
e então, emergindo da gruta mais funda do vale,
um tronco fortemente enraizado cresce
subindo até às folhas, ceptro da vida, axis mundi
isto é o que eu diria se fosse poeta
em vez disso estendo simplesmente as minhas mãos para ti, e os meigos
pequenos animais comem calmamente
das minhas palmas
e eu enteso-me só um bocadinho
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Juan Luis Panero
Provoca uma certa melancolia,
uma tristeza decadente – seguramente literária—
como certas canções de entre guerras
ou páginas soltas de Drieu La Rochelle,
ver um homem só, afastado e distante,
no balcão de um bar com uma decoração cosmopolita.
Nessa idade incerta, tão incerta como a luz ambiente,
em que já não é jovem e contudo ainda não é velho
mas traz nos seus olhos a marca da sua derrota
quando com um gesto estudado acende um cigarro.
Muitos copos e muitas camas,
uma indubitável barriga mal dissimulada pela camisa,
o tremor, não muito visível, da sua mão segurando um copo,
fazem parte do naufrágio, da ressaca da vida.
Um homem que espera sabe deus o quê
e, inspirando o fumo, olha com declarada indiferença
as garrafas à sua frente, os rostos reflectidos por um espelho,
tudo com a particular irrealidade de uma fotografia.
E causa, ainda mais triste, um fundo suspiro reprimido,
ver no fundo desse copo – mágico caleidoscópio –
que esse homem és irremediavelmente tu.
Não resta então senão um sorriso céptico e distante
– aprendido muito cedo e útil anos mais tarde –,
e acabares a bebida de um só trago,
pagares a conta enquanto chamas um táxi
e dizeres-te adeus com palavras banais.
...
(Versão inédita de Ricardo Castro Ferreira; deste poema existem, pelo menos, duas outras traduções para português: de Joaquim Manuel Magalhães - em Poemas, Relógio D' Água, 2003, p. 33 - e de António Cabrita e Teresa Noronha - em Antes que chegue a noite, Fenda, 2000, p. 35 -).
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Eugenijus Alisanka
cada vez menos sou capaz de responder à questão por que escrevo
às vezes parece: para escrever
às vezes eu vejo a luz
cada vez menos por interesse na poesia (para não falar da prosa)
às vezes parece: leio para esquecer
às vezes parece: estou por detrás deste jogo involuntário de palavras
cada vez mais forço-me a estar com os poetas lituanos
às vezes os poetas são generosos e torturados como na poesia russa
às vezes bêbedos e brutos como no rap
às vezes mal se aproximam disto como eu
mais modestamente penso na poesia lituana
às vezes recordo só alguns nomes: vytautas alfonsas sigitas
às vezes digo: a poesia pode ensinar a arte não a vida
às vezes pergunto: será que a vida se preocupa com a poesia como os celans
às vezes fico em silêncio: esta ignorância há-de trazer-me problemas
sábado, 3 de julho de 2010
Daiva Cepauskaite
Tens de ter coragem
para escrever um poema,
tens de ter coragem
para não escrever um poema,
tens de dizer olá
e adeus,
tens de tomar vitaminas,
tens de respeitar todas as pessoas
e amar apenas uma,
mesmo que ela não o mereça,
tens de sofrer silenciosamente
e de permanecer pacientemente em silêncio,
tens de estar em silêncio quando alguém fala
e de falar quando toda a gente fica em silêncio,
tens de deitar o lixo fora,
de regar as flores,
de pagar o gás e a água,
os erros e os sucessos,
tens de dar o coração
por um olho e um olho
pelos dentes,
não deves pedir nada
quando desejas tudo,
e exigir tudo
quando não desejas nada,
tens de adormecer a horas
e de acordar a horas,
de encontrar dois sapatos para o pé esquerdo
porque os outros dois são do pé direito,
não esperar que alguém regresse
ou deixe de regressar
só porque alguém está à espera,
tens de olhar para o céu
porque ele jamais olhará
para ti,
tens de morrer porque é assim,
mesmo que não o
mereças,
tens de escrever um poema
nascido do medo
entre "sim" e "não",
vindo do "por quê",
com "para quê",
para ser "agradecido",
mesmo quando
não o merece.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Aidas Marcenas
Esmaguei um mosquito inchado
com o meu sangue - a sua vida jorrou
de tal forma que senti pena, porque
afinal de contas, Arjuna, nunca, nunca
nunca poderia eu criar algo
mais real do que esta
marca sangrenta, este
poema, este cadáver
sugador de sangue.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Gintaras Grajauskas
se fôssemos realmente sinceros
não estaríamos sempre a falar de sinceridade
na verdade falaríamos menos
ou ficaríamos completamente em silêncio
se fôssemos realmente sinceros
diríamos "as minhas insinceras condolências"
ou "os meus insinceros cumprimentos".
"insinceramente vosso -
em geral falaríamos muito menos
laconicamente
não estaríamos sempre a perguntar: como vai a vida, como vai isso
iríamos direitos ao assunto, como vai isso de morrer
e responderíamos sinceramente: obrigado, bem
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Primo Levi
Não sou útil nem belo,
Não tenho cores alegres nem perfumes;
As minhas raízes roem o cimento
E as minhas folhas, marginadas por espinhos,
Protegem-me, afiadas como espadas.
Sou mudo. Só falo a minha linguagem de planta,
Difícil de entender por ti, homem.
É uma linguagem insólita,
Exótica, já que venho de muito longe,
De um país cruel,
Cheio de vento, venenos e vulcões.
Esperei muitos anos antes de expressar
Esta minha flor altíssima e desesperada,
Feia, fibrosa, rígida, mas estendida para o céu.
É a nossa maneira de gritar que
Morrerei amanhã. Compreendes-me agora?