domingo, 23 de janeiro de 2011

Manuel Arana

O filho do Colosso de Rodes visita Ankara no Dia do Orgulho Turco



Há homens
que só são capazes de andar de bicicleta
quando os seus pais os obrigam,
que sobem sempre à torre de neón
com o desânimo
de não terem recebido nunca
a sua parte da terra prometida.

Depois dizem
que só viram placas de gelo
e chamas azuis palpáveis,
que depois de seis
ou sete vezes
todas as coisas passam a ser iguais,
ainda que delas precisem.

Porque esses homens cruzam a vida
de bicicleta
e só recebem
palmadinhas nas costas.



(Versão minha; original reproduzido em Poesía por venir - Antología de jóvenes poetas andaluces, Renacimiento / Junta de Andalucía, 2004, pp. 13-14).

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Muriel Rukeyser

No nosso tempo



Na nossa época dizem que há liberdade de expressão.
Dizem que não há castigo para os poetas,
não há castigo por se escrever poemas.
Isto é o que dizem. Este é o castigo.




(Versão minha a partir do original e da tradução castelhana de Jorge Ordaz, publicada algures por aqui)

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Erica Jong

Parábola da cama com dossel



Porque quer tocá-lo,
ela distancia-se.
Porque quer falar-lhe,
ela fica em silêncio.
Porque quer beijá-lo,
ela afasta-se
& beija um homem que não quer beijar.


Ele observa
pensando que ela não o quer.
Ele escuta
ouvindo o silêncio dela.
Ele afasta-se
pensando que ela é distante
& beija uma rapariga que não quer beijar.

Cada um casa com o seu -
um erro com quatro vias.
Ele vai para a cama com a sua mulher
pensando nela.
Ela vai para a cama com o seu marido
pensando nele.
- & tudo isto numa verdadeira cama com dossel, à maneira antiga.

Viveram infelizes para sempre?
Claro.
Alguma vez reparam os seus erros?
Nunca.
Quem é a vítima?
O amor é a vítima.
Quem é o vilão?
O amor que nunca morre.


(Versão minha; original reproduzido em Good poems, seleccão e introdução de Garrison Keillor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, pp. 347-348).

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Tushar Chowdhury

As palavras sem luz



A poesia ameaça o sonho envenenado, o sonho ligeiro do pub.
A pele verde das palavras oculta o fogo eterno.
A magia do corpo convoca a alma desmaiada.
Diz-lhe: levanta-te, diz-lhe: vem dançar no fogo azulado.

As palavras, como a sabedoria, serão oceânicas,
segundo alguns. Eu penso antes
que estão todas desprovidas de espírito.
As palavras devoram o vento como o acto o desejo.
As palavras são manadas de tartarugas
como o caçador que regressa a casa
depois de matar cento e um patos
e cento e um cavalos voltam ao estábulo
para comer aveia.



(Versão minha a partir das traduções castelhana e francesa de Sumana Sinha, Lionel Ray e F. Torres Monreal reproduzidas em 12 poetas bengalíes - Antologia de poesía india contemporánea, Lancelot, Murcia, 2005, p. 149).

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Richard Jones

Depois do trabalho



Emergindo do metro
para a noite fria de Manhattan,
sinto mãos ásperas no meu coração -
mulheres a gritar no mercado
sobre caixas de tomates e pimentos,
velhos sentados nos degraus a jogar às cartas,
taxistas insultando-se uns aos outros de punho no ar
enquanto os sons dos sinos da igreja
deslizam pela rua
e o pai, exausto e esfomeado
depois de um longo dia de trabalho,
abraça a sua pequena filha,
beija-a,
mi vida, mi corazón,
e desvia-lhe o cabelo dos olhos
para que ela possa ver.




(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keillor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, p. 183).

domingo, 9 de janeiro de 2011

Stephen Dunn

Do Manifesto dos Egoístas



Porque os altruístas são as pessoas
menos sexy da terra, incapazes
de dizer sem vergonha "Eu quero",

precisamos de lhes tirar tudo
o que eles dão,
e pedir mais,

este é o modo de os estimular, e porque
é excitante
vê-los um bocado menos excitados

estaremos uma vez mais a fazer algo
por nós,
que não temos problemas em ter prazer,

sempre cheios de desejo e satisfeitos
por sermos satisfeitos, nós que acima de tudo
somos de confiança por garantirmos o equilíbrio.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keilor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, p. 223).

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Sunil Gangopadhyay

Unicamente para a poesia



Unicamente para a poesia esta vida, unicamente
para a poesia certos jogos, para a poesia uma tarde de inverno e só
atravesso o mundo inteiro, a paz de um instante,
de um rosto imóvel;
unicamente para a poesia, tu, a mulher,
unicamente para a poesia tantos crimes,
o aguaceiro do Ganges nas nuvens,
unicamente para a poesia desejo viver por largo tempo,
viver como um homem, viver imperfeito,
unicamente para a poesia
rejeitei a eternidade.



(Versão minha a partir das traduções castelhana e francesa reproduzidas em 12 poetas bengalíes - Antologia de poesía india contemporánea, selecção e tradução de Sumana Sinha e Lionel Ray para francês e de F. Torres Monreal para castelhano, Lancelot, Murcia, 2005, p. 87).

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Walid Khaznadar

Casa, casas



Coroei-me a mim próprio
e proclamei-te rainha
Fiz-te uma trança com erva e calcei
- espreitando-os -
os teus pequenos pés
com sapatos feitos de rosas
Com ramos verdes fiz um arco
para que passasses
Fomos assaltados por rebentos
e pelos primeiros arrepios
E enquanto nos separávamos:
- Deixei-me vê-la
- Deixei-me ser o primeiro a vê-la
o horizonte incendiava-se
os homens preparavam os seus fuzis
e as mulheres estendiam distraidamente
panos brancos
sobre cordas intermináveis



(Versão minha a partir da tradução francesa reproduzida em La poésie palestinienne contemporaine, selecção e tradução de Addellatif Laâbi, Le Temps des Cerises / Maison de la Poésie Rhône-Alpes, 2002, p. 169).

domingo, 2 de janeiro de 2011

Azeddine al-Manacirah

A cirrose de Ícaro



Entre Ícaro e mim, anos-luz
E no entanto reencontramo-nos
num só ponto do mundo
nocturnamente, sem ninguém nos ver
mesmo se a noite, por exemplo em Beirute,
não chega para esconder os segredos
É um homem estranho
O seu acto é um erro que não se repete como a dinamite
disse-nos o instrutor
Antes de realizar esse acto
ele foi atacado por uma cirrose
segredo que só os que lhe eram próximos conheciam
Ele é o filho do mar, ela a descendente do fogo
Ele é o filho do pássaro, ela descende da árvore das dissidências
E no entanto eu continuo à espera
que a História se repita
Sim, senhor, ela repete-se por vezes
Ele arderá no seu sol
eu: o exílio derreter-me-á
Ele há-de unir-se à capa da erva celeste
eu: serei corroído na terra pedregosa dos exílios
Eis o resultado da ausência de planificação, ó Ícaro!
Acreditas agora em mim, caro defunto?



(Versão minha a partir da tradução francesa reproduzida em La poésie palestinienne contemporaine, selecção e tradução de Abdellatif Laâbi, Le Temps des Cerises / Maison de la Poésie Rhône-Alpes, 2002, pp. 74-75).

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Raymond Carver

Pelo menos



Quero levantar-me cedo uma manhã mais,
antes do nascer do sol. Antes mesmo dos pássaros.
Quero atirar água fria à minha cara
e estar à minha mesa de trabalho
quando o céu clarear e o fumo
começar a sair das chaminés
das outras casas.
Quero ver as ondas a quebrarem-se
nesta praia rochosa, não ouvi-las apenas
a bater, como fiz toda a noite durante o meu sono.
Quero ver de novo os navios
que passam pelo estreito vindos de todos
os países marítimos do mundo -
os cargueiros velhos e sujos movendo-se vagarosamente
e os novos e rápidos navios de carga
pintados, sob o sol, de todas as cores
que cortam a água à medida que avançam.
Quero manter-me de olhos bem abertos por eles.
E pelos pequenos barcos que manobram
na água entre os navios
e o porto, junto ao farol.
Quero vê-los a receberem um homem que sai do navio
e a pôr outro lá em cima, a bordo.
Quero passar o dia a ver isto a acontecer
e tirar as minhas próprias conclusões.
Detesto parecer ganancioso - e já tenho tanto
pelo qual devo ficar agradecido.
Mas quero levantar-me cedo mais uma manhã, pelo menos.
E ir para o meu lugar com algum café, e esperar.
Esperar, apenas, para ver o que irá acontecer.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keillor, Peguin, Nova Iorque, 2002, pp. 8-9).

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Hélène Dorion

Pode-se viver muito bem...



Pode-se viver muito bem
sem nada mais do que estes privilégios quotidianos:
uma carta na caixa do correio, o barulho de uma vaga,
o azul sobre a planície, as palavras de um poema.
O universo reduzido a poucos vínculos
ao trajecto habitual
da sua própria morte.

Pode-se muito bem não ser mais
do que uma aventura de átomos e de questões insignificantes.



(Versão minha; original reproduzido em Poèmes pour voyager - anthologie des poèmes dans le métro et le bus, selecção de Gérard Cartier e Francis Combes, Les Temps des Cerises, Pantin, 2005, p. 82).

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Cecilia Woloch

Crianças vagarosas em jogo



Todas as crianças ligeiras foram para dentro, chamadas
pelas mães - despachem-se - lavem - as - mãos - queridos
o - jantar - está - a - arrefecer, ai - quando - o - vosso - pai - chegar - a - casa -
e só as crianças vagarosas ficam nos relvados, abrindo
caminhos por entre os pirilampos, produzindo sons doces e breves com as suas bocas, óóós
que brilham e se apagam e brilham. E as suas mães vagarosas e tremeluzentes,
pálidas na penumbra, observam-nas a rodopiar no ar suave,
observam-nas
a ziguezaguear, os braços bem abertos, pensando, Estes são os meus filhos, pensando,
Onde está o jantar deles? Para onde foi o pai deles?




(Versão minha; original reproduzido em Good poems for hard times, selecção e introdução de Garrison Keilor, Viking, Nova Iorque, 2005, p. 252).

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Raymond Carver

Os nus de Bonnard



A sua mulher. Durante quarenta anos ele pintou-a.
Uma e outra vez. O nu da última pintura
igual à jovem nudez da primeira. A sua mulher.

Tal como se recordava dela enquanto jovem. Como se ela o fosse.
A sua mulher no banho. Na sua cómoda
em frente ao espelho. Nua.

A sua mulher com as mãos debaixo dos seios,
olhando o jardim.
O sol concedendo cor e calor.

Todas as coisas vivas a florescer ali.
Ela jovem e trémula e tão desejável.
Quando ela morreu, ele pintou por mais algum tempo.

Algumas paisagens. Depois morreu.
E puseram-no junto dela.
A sua jovem mulher.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrisson Keillor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, p. 146).

domingo, 19 de dezembro de 2010

Sara Teadsdale

Aquelas que amam



Aquelas que mais amam
Não falam do seu amor,
Francesca, Guinevère,
Deirdre, Isolda, Heloísa,
Nos jardins perfumados do paraíso
Ficam em silêncio, ou falam
De coisas frágeis e inconsequentes.

E uma mulher que eu costumava encontrar
E que amou um homem desde a juventude,
Lutando com orgulho sombrio
Contra a força do destino,
Nunca falou deste assunto,
Mas se por acaso ouvisse o nome dele
Uma luz havia de sobrevoar o seu rosto.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keillor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, p. 137).

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Gerard Locklin

Onde estamos



(para edward field)



tenho inveja daqueles
que vivem em dois sítios:
nova iorque, digamos, e londres;
país de gales ou espanha;
l.a. e paris;
hawai e suíça.

há sempre a antevisão
da mudança, a possibilidade de que aquilo que está mal
resulta do sítio onde estamos. sempre
adorei não só a frescura
da chegada como o alívio da partida. com
duas casas qualquer movimento seria um regresso.
nem me estou a referir ao clima, quente
ou frio, seco ou húmido: falo de esperança.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keillor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, p. 286).

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Leo Dangel

Depois de quarenta anos de casamento, ela experimenta uma nova receita de hambúrguer como prato quente



"O que é que achaste?", perguntou ela.

"Tudo bem", disse ele.

"Esta é a terceira vez que o faço
desta maneira. Porque é que
nunca dizes que gostas de alguma coisa?"

"Bem, se não tivesse gostado
não teria comido", disse ele.

"Nunca consegues dizer que uma coisa
feita por mim te sabe bem."

"Não sei porque é que pensas
que tenho de estar sempre a dizer que é bom.
Comi, não foi?"

"Não penso nada que tenhas de estar
sempre a dizer que é bom, mas de vez
em quando podias dizer
que gostas."

"Tudo bem", disse ele.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keillor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, p. 136).

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

David Budbill

Os três objectivos



O primeiro objectivo é ver a coisa em si,
nela e por ela,vê-la simples e claramente
pelo que ela é.
Nenhum simbolismo, por favor.

O segundo objectivo é ver cada coisa em particular
como una, uma só, entre todas as outras
dez mil coisas.
Deste ponto de vista, algum vinho ajuda imenso.

O terceiro objectivo é vincular o primeiro e o segundo objectivos,
ver o universal e o particular
em simultâneo.
Quanto a este, chama-me quando o alcançares.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keillor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, p. 225)

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Wendy Cope

A laranja



À hora de almoço comprei uma laranja enorme -
O seu tamanho pôs-nos todos a rir.
Descasquei-a e dividi-a com o Robert e o Dave -
Cada um deles ficou com um quarto e eu com metade.

Fez-me tão feliz essa laranja -
Como me tem acontecido ultimamente
Com as coisas vulgares. As compras. Um passeio no parque.
Esta paz e satisfação. É uma novidade.

O resto do dia foi muito leve.
Cumpri com prazer todas as tarefas da minha lista
E ainda me sobrou tempo.
Amo-te. É maravilhoso viver.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keillor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, p. 133).

domingo, 5 de dezembro de 2010

Yves Martin

Eu não quero cantar o povo...



Eu não quero cantar o povo
Porque não conheço o seu estreito sofrimento
Nem o seu lento amor, nem as suas guerras
Legítimas e ilegítimas.
Eu não quero cantar as mulheres
Porque não as conheço
A não ser como criaturas esplêndidas
Que não me amaram,
Que eu não soube amar.
Eu quero ser um homem
Nem demasiado seguro, nem demasiado amargo
E morrer devagar, docemente
E por vezes viver
Porque nada mais é possível.



(Versão minha; original reproduzido em Poèmes pour voyager - anthologie des poèmes dans le métro et le bus, selecção de Gérard Cartier e Francis Combes, Le Temps des Cerises, Pantin, 2005, p. 167).

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Mou'in Bsissou

A Rimbaud



Assim que Rimbaud se tornou negreiro
e começou a lançar as redes
sobre a Abissínia
a caçar o leão negro
e o pelicano negro
abandonou a poesia
Como era leal, esse rapaz
Mais numerosos são esses que permaneceram poetas
e se tornaram negreiros
usurários
sem ainda assim abandonarem a poesia
Tornaram-se representantes de agências de publicidade
vendedores de quadros falsos
sem ainda assim abandonarem a poesia
Nos palácios dos déspotas os seus poemas transformaram-se
em portas e janelas
mesas e tapetes
mas eles não abandonaram a poesia
Dispuseram-se ao louvor
e receberam medalhas e honrarias de todos os potentados do mundo
a taça de ouro, de prata e de pedra
mas não abandonaram a poesia
A chancela dos polícias
as marcas das solas desses polícias cobrem-lhes os poemas
mas eles não abandonaram a poesia
Que nobreza, a de Rimbaud
como era leal, esse rapaz



(Versão minha a partir da tradução francesa reproduzida em La poésie palestinienne contemporaine, selecção e tradução de Abdelattif Laâbi, Le Temps des Cerises / Maison de la Poésie Rhône-Alpes, 2002, pp. 74-75).

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Erica-Lynn Gambino

É só para dizer

(para William Carlos Williams)



Só te
pedi que
saísses do meu
apartamento

mesmo que tu
nunca
tenhas pensado
que o faria

Perdoa-me
estavas
a pôr-me
doida



(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keillor, Peguin, Nova Iorque, 2002, p. 110).

domingo, 28 de novembro de 2010

Federico Gallego Ripoll

São os pássaros que levantam o dia para o cego



São os pássaros que levantam o dia para o cego.
Ouve-se a luz pendurada das árvores
e uma transfusão de sangue acelerado que acumula nos tímpanos
os latidos roubados à noite.

Amanhece.

Tíbias gotas de azul salpicam de manhã
os párabrisas dos carros.
Alguém, equivocado,
abriu o guarda-chuva pensando que chove.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vázquez Montalbán, Bartleby, Madrid, 20023, p. 49).

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Jane Kenyon

De outro modo



Usei a força das minhas duas pernas
para me levantar da cama.
Poderia ter sido
de outro modo. Comi
cereais - com leite
e doce - e um pêssego
perfeito e maduro. Poderia
ter sido de outro modo.
Subi a encosta com o cão
até ao bosque dos vidoeiros.
Durante toda a manhã
fiz o trabalho que adoro.

Ao meio-dia deitei-me
com o meu companheiro. Poderia
ter sido de outro modo.
Jantámos juntos
numa mesa com castiçais
de prata. Poderia
ter sido de outro modo.
Dormi numa cama
num quarto com quadros
nas paredes, e
planeei um novo dia
igual ao de hoje.
Mas um dia, eu sei,
será de outro modo.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

David Allan Evans

Rapariga andando a cavalo num campo de girassóis



Postura perfeitamente direita,
satisfeita e pensativa,
ela prende numa mão,
não segura, as rédeas do Verão:

o verde das árvores e dos arbustos;
o azul da água do lago;
o vermelho da jaqueta
e do colarinho aberto; o castanho
do seu cabelo, preso ao alto,
e do cavalo, bem no meio
do amarelo dos girassóis.

Quando ela pára para descansar,
o Verão descansa.
Quando ela decide partir,
assim se vai o Verão
para além do horizonte.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

sábado, 20 de novembro de 2010

Roberto D. Malatesta

Exame de inglês



Líamos Dylan Thomas para o teu exame de inglês,
mas não estava ali o teu exame, a severidade de uma aula,
a lição decisiva que era preciso temer.
Estava, sim, a colina dos fetos
com o seu sol tombando em rios de ouro palpável,
estava o sol sobre os declives
na sua sagrada fascinação de beijar
as crianças que acabavam de começar a andar.
Estavam as eiras de feno a partir das quais
segui o trilho das ervas altas
que me levou aos caminhos da minha infância.
Não havia ali nenhum mundo maciço,
antes uma substância núbil cobrindo o ar
na qual as minhas palavras se lançavam felizes
pelo seu som, pela sua cadência e cor.
Em voz alta Dylan Thomas para o teu exame de inglês,
juntos aprovámos esse regaço de luz verbal
comovida entre as folhas frescas dos fetos.



(Versão minha a partir do original e da tradução francesa de Nicole e Émile Martel, reproduzidos em Voix d'Argentine / voces argentinas, selecção de Claudia Schvartz e Gerardo Manfredi, Leviatán (Buenos Aires), Écrits des Forges (trois-Rivières - Québec) e Le Temps des Creises (Pantin), 2009, pp. 118-119).

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Jean L' Anselme

Versos sem brilho
(Arte poética)



Vinte vezes metido no trabalho
de tirar brilho à obra,
um verso demasiado polido
não deve permanecer na rede

Desconfiem dos versos esplendorosos.



(Versão minha; original reproduzido em Poèmes pour voyager - anthologie des poèmes dans le métro et le bus, selecção de Gérard Cartier e Francis Combes, Le Temps des Cerises, Pantin, 2005, p. 144).

domingo, 14 de novembro de 2010

Danijel Dragojevic

Os dias



Eu deveria ler a Bíblia.
Grande, negra, ela olha-me de uma estante.
Eu deveria lê-la, mas tenho medo
de tantas palavras, pensamentos, nomes, histórias,
de tantos avisos, saberes, intenções,
de uma voz remota de uma gravidade cinzenta.
Eu deveria ler, tenho medo de não ler,
tenho medo deste medo.
Eu deveria ler, mas não faço mais do que voltar
a cabeça e abrir a janela.
Que faria o homem se não tivesse uma janela?



(Versão minha a partir da tradução francesa de Brankica Radic reproduzida em Voix croisées: Croatie-France, Autre Sud, Hors-série, nº 6, Dez. 2009, Gémenos, p. 22)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Sergio Rigazio

Sapos



quase na linha que limita a pobreza
molho os lábios com o que me é dado

algo me diz que tudo é uma benção
que até no mais perfeito caos há uma certa ordem

em redor da minha casa
por exemplo

penso nestas coisas
enquanto destapo o esgoto da cozinha

meto trinta e seis sapos num saco de supermercado
e penso que nos assemelhamos em alguma coisa

não fazem ideia para onde irão
mas ainda assim cantam



(Versão minha a partir do original e da tradução francesa de Nicole e Émile Martel reproduzidos em Voix d' Argentine / voces argentinas, selecção de Claudia Schvartz e Gerardo Manfredi, Leviatán (Buenos Aires), Écrits des Forges (Trois-Rivières - Québec) e Le Temps des Cerises (Pantin), 2009, pp. 144-145).

domingo, 7 de novembro de 2010

Roberto D. Malatesta

Árvores



Algumas árvores que já não tenho
regressam-me em sonhos:
o salgueiro-chorão da minha infância,
a linha escura das sebes de ligustros,
as casuarianas e o seu modo de uivar,
um limoeiro que chega ao tecto,
uma figueira que viu a minha mãe crescer
e ao sol, à hora da sesta, me ouviu
conversar com a minha avó,
as folhas pesadas da árvore-da-borracha que oiço cair.
São tão nítidas
como se as tocasse depois de andar por um atalho
que envergonhasse o tempo.
Às vezes creio que alguma coisa delas
cresceu em mim,
que eu sou uma das minhas árvores.



(Versão minha a partir do original e da tradução francesa de Nicole e Émile Martel reproduzidos em Voix d' Argentine / voces argentinas, selecção de Claudia Schvartz e Gerardo Manfredi, Leviatán (Buenos Aires), Écrits des Forges (Trois-Rivières - Québec) e Les Temps des Cerises (Pantin), 2009, pp. 120-121).

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Gerardo Pico Manfredi

Alegria e fibras...



Alegria e fibras
são a base da nossa alimentação.
Beijo-te e regresso à cozinha.
Pico com paciência e rigor
cebola, pimento, alho francês.
Junto tudo às favas,
mais sal, pimentão, gengibre.
Deixo cozer em lume brando durante alguns minutos,
apago o fogo, junto salsa.
Farei também uma salada
de três cores: vermelho, laranja e verde.

Depois de comer hei-de ler-te este poema.



(Versão minha a partir do original e da tradução francesa de Nicole e Émile Martel reproduzidos em Voix d' Argentine / voces argentinas, selecção de Claudia Schvartz e Gerardo Manfredi, Leviatán (Buenos Aires), Écrits des Forges (Trois-Rivières - Québec) e Le Temps des Cerises (Pantin), 2009, pp. 126-127).