Poema de amor
A dor serve sempre para alguma coisa.
A tua mãe faz malha.
Despacha cachecóis em todos os tons de vermelho.
Eram para o Natal, e mantinham-te quente
enquanto ela casava, uma vez e outra, levando-te
consigo. Como poderia ter dado certo
se ela escondeu o seu coração de viúva todos esses anos
como se os mortos pudessem regressar.
Não admira que sejas como és,
com medo de sangue, as tuas filhas
como paredes de tijolo, uma após outra.
(Versão inédita de António Ladeira; o original pode ser lido aqui).
quinta-feira, 3 de março de 2011
terça-feira, 1 de março de 2011
Jaroslav Seifert
Concerto de Bach
De manhã nunca dormi muito tempo;
os eléctricos acordavam-me
tal como os meus próprios versos.
Arrancando-me da cama pelos cabelos,
eles arrastavam-me até à cadeira
e obrigavam-me a escrever
assim que tinha acabado de esfregar os olhos.
Religado por uma doce saliva
aos lábios de um instante singular,
eu não pensava de maneira nenhuma
na salvação da minha alma miserável;
mais do que um eterno bem estar,
desejava um breve momento
de prazer efémero.
Levantavam-me em vão os sinos do solo;
eu aderia-lhe com os meus dentes, as minhas unhas.
Ele estava cheio de perfumes
e de segredos provocantes.
Quando, de noite, eu olhava o céu,
não era o céu que procurava.
Assustava-me muito mais com os buracos negros
escancarados algures no fundo do cosmos
e ainda mais assustadores
que o próprio inferno.
Mas eu pude escutar os sons do cravo.
Era um concerto
de Johan Sebastian Bach
para oboé, cravo e instrumentos de cordas.
De onde provinha? Ignoro-o.
Mas não era do solo.
Ainda que então não tivesse bebido vinho
eu cambaleava ligeiramente
e tive de me prender com grampos
à minha própria sombra.
De manhã nunca dormi muito tempo;
os eléctricos acordavam-me
tal como os meus próprios versos.
Arrancando-me da cama pelos cabelos,
eles arrastavam-me até à cadeira
e obrigavam-me a escrever
assim que tinha acabado de esfregar os olhos.
Religado por uma doce saliva
aos lábios de um instante singular,
eu não pensava de maneira nenhuma
na salvação da minha alma miserável;
mais do que um eterno bem estar,
desejava um breve momento
de prazer efémero.
Levantavam-me em vão os sinos do solo;
eu aderia-lhe com os meus dentes, as minhas unhas.
Ele estava cheio de perfumes
e de segredos provocantes.
Quando, de noite, eu olhava o céu,
não era o céu que procurava.
Assustava-me muito mais com os buracos negros
escancarados algures no fundo do cosmos
e ainda mais assustadores
que o próprio inferno.
Mas eu pude escutar os sons do cravo.
Era um concerto
de Johan Sebastian Bach
para oboé, cravo e instrumentos de cordas.
De onde provinha? Ignoro-o.
Mas não era do solo.
Ainda que então não tivesse bebido vinho
eu cambaleava ligeiramente
e tive de me prender com grampos
à minha própria sombra.
(Versão minha, a partir da tradução francesa de Petr Král, incluída em Anthologie de la Poésie Tchèque Contemporaine: 1945-2000, Gallimard, Paris, 2002, pp. 28-30).
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Ricardo Castro Ferreira
domingo, 27 de fevereiro de 2011
Charles Simic
Feira
Se não viste o cão de seis patas,
Não tem importância.
Nós vimos, e ele praticamente só ficava deitado a um canto.
Quanto às pernas extra
As pessoas habituavam-se rapidamente àquilo
E pensavam noutras coisas.
Como, que noite fria e escura
Para se andar na feira.
Depois o dono atirou um pau
E o cão foi apanhá-lo
Nas quatro patas, as outras duas a abanar atrás,
O que fez uma rapariga dar um guincho de riso.
Estava bêbeda tal como o homem
Que teimava em beijar-lhe o pescoço.
O cão apanhou o pau e olhou para nós.
E o espectáculo era aquilo.
Para Hayden Carruth
Se não viste o cão de seis patas,
Não tem importância.
Nós vimos, e ele praticamente só ficava deitado a um canto.
Quanto às pernas extra
As pessoas habituavam-se rapidamente àquilo
E pensavam noutras coisas.
Como, que noite fria e escura
Para se andar na feira.
Depois o dono atirou um pau
E o cão foi apanhá-lo
Nas quatro patas, as outras duas a abanar atrás,
O que fez uma rapariga dar um guincho de riso.
Estava bêbeda tal como o homem
Que teimava em beijar-lhe o pescoço.
O cão apanhou o pau e olhou para nós.
E o espectáculo era aquilo.
(Versão inédita de António Ladeira; o original pode ser lido aqui. Este poema surge na página 53 de Previsão de tempo para utopia e arredores, antologia de Charles Simic, com selecção e tradução da responsabilidade de José Alberto Oliveira, publicada pela Assírio & Alvim em 2002. Mais poemas de Simic em português podem ser lidos aqui e aqui).
sábado, 26 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Charles Wright
Natureza morta em tampa de caixa de fósforos
O coração é mais frio do que o olho.
Os vigilantes, os santos,
sabem-no, não há atalhos para o céu,
um único pêlo de cão pode fender o vento.
Se desejas a grande tranquilidade,
há que trabalhar duro e andar muito.
Não te tortures com o passado.
O mundo não tem apêndices,
nem mensagem, nem nome.
(Versão inédita de António Ladeira; o original pode ser lido aqui).
O coração é mais frio do que o olho.
Os vigilantes, os santos,
sabem-no, não há atalhos para o céu,
um único pêlo de cão pode fender o vento.
Se desejas a grande tranquilidade,
há que trabalhar duro e andar muito.
Não te tortures com o passado.
O mundo não tem apêndices,
nem mensagem, nem nome.
(Versão inédita de António Ladeira; o original pode ser lido aqui).
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Charles Simic
Hotel Insónia
Gostava do meu buraquinho,
com a janela virada para a parede de tijolo.
Na porta ao lado havia um piano.
Algumas tardes por mês
um velho aleijado vinha tocar
"My Blue Heaven."
Mas havia, normalmente, sossego.
Cada quarto com a sua aranha no seu pesado sobretudo
A apanhar a sua mosca com uma teia
De fumo de cigarro e devaneios.
Tão escuro,
que não podia ver a minha cara no espelho da barba.
Às 5 da manhã o som de pés descalços lá em cima.
O Cigano que lia a sina,
Cujo estabelecimento ficava à esquina,
A urinar depois de uma noite de amor.
Uma vez, também, o som de uma criança a chorar.
Tão próximo estava, pensei
Por um momento, que era eu quem chorava.
(Versão inédita de António Ladeira; o original pode ser lido aqui)
Gostava do meu buraquinho,
com a janela virada para a parede de tijolo.
Na porta ao lado havia um piano.
Algumas tardes por mês
um velho aleijado vinha tocar
"My Blue Heaven."
Mas havia, normalmente, sossego.
Cada quarto com a sua aranha no seu pesado sobretudo
A apanhar a sua mosca com uma teia
De fumo de cigarro e devaneios.
Tão escuro,
que não podia ver a minha cara no espelho da barba.
Às 5 da manhã o som de pés descalços lá em cima.
O Cigano que lia a sina,
Cujo estabelecimento ficava à esquina,
A urinar depois de uma noite de amor.
Uma vez, também, o som de uma criança a chorar.
Tão próximo estava, pensei
Por um momento, que era eu quem chorava.
(Versão inédita de António Ladeira; o original pode ser lido aqui)
domingo, 20 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Joseba Sarrionandia
A mente do prisioneiro
A mente do ex-prisioneiro
volta sempre à cela.
Ele vê juízes, procuradores
e advogados nas ruas, por toda a parte,
e mesmo que não o consigam identificar
os polícias olham-no
durante mais tempo do que a qualquer outro
porque a sua maneira de caminhar parece tensa
ou talvez demasiado descontraída.
No seu coração
ele carrega para sempre um homem condenado.
A mente do ex-prisioneiro
volta sempre à cela.
Ele vê juízes, procuradores
e advogados nas ruas, por toda a parte,
e mesmo que não o consigam identificar
os polícias olham-no
durante mais tempo do que a qualquer outro
porque a sua maneira de caminhar parece tensa
ou talvez demasiado descontraída.
No seu coração
ele carrega para sempre um homem condenado.
(Versão minha; original reproduzido em Six basque poets, tradução do basco para o inglês de Amaia Gabantxo, selecção e introdução de Mari Jose Olaziregi, Arc, Todmordem, 2007, p. 85).
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
domingo, 13 de fevereiro de 2011
David Ignatow
Para a minha filha em resposta a uma pergunta
Não vamos morrer,
havemos de encontrar uma solução.
Respiraremos fundo
e teremos cuidado com a comida.
A nossa mente estará concentrada em vivermos.
Nenhum dos dois desaparecerá.
Seremos os primeiros,
nunca nos riremos de nós mesmos
e os teu filhos serão os meus netos.
Nunca nada mudará
a não ser por adição.
Não haverá nunca ninguém como tu
e ninguém nunca como eu.
Nunca ninguém te confundirá
ou me confundirá com outro.
Não seremos nunca esquecidos e ultrapassados
e enterrados sob os nascimentos e as mortes por vir.
Não vamos morrer,
havemos de encontrar uma solução.
Respiraremos fundo
e teremos cuidado com a comida.
A nossa mente estará concentrada em vivermos.
Nenhum dos dois desaparecerá.
Seremos os primeiros,
nunca nos riremos de nós mesmos
e os teu filhos serão os meus netos.
Nunca nada mudará
a não ser por adição.
Não haverá nunca ninguém como tu
e ninguém nunca como eu.
Nunca ninguém te confundirá
ou me confundirá com outro.
Não seremos nunca esquecidos e ultrapassados
e enterrados sob os nascimentos e as mortes por vir.
(Versão minha; original reproduzido em Good poems for hard times, selecção e introdução de Garrison Keillor, Viking, Nova Iorque, 2005, p. 13).
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Alexandra Domínguez
O poeta é um assunto alí no invisível
Esse homem é invisível, a sua matéria de calhandra é invisível,
anda no invisível com passos que produzem ruído nas ruas invisíveis,
come coisas invisíveis, respira o invisível, paga com moedas invisíveis.
O poeta é um assunto ali no invisível, cruza rios invisíveis,
deita-se com mulheres invisíveis, fala com palavras invisíveis.
Está em Dublin e é invisível, vai pelo ceú em aviões invisíveis,
no seu coração a melancolia é invisível, pensa em coisas invisíveis,
lê Kavanagh que escrevia livros invisíveis,
por exemplo isto é invisível: My soul is an old horse
offered for sale in twenty fairs*.
A sua fúria é invisível, a sua tempestade também é invisível,
trabalha numa fábrica invisível, gasta os cotovelos em hospedarias invisíveis,
Teillier era invisível, Parra é quase invisível, ninguém viu Rojas.
Os operários brindam no fim do dia com canecas invisíveis de cerveja,
os solitários instalam-se em hotéis invisíveis, falam ao telefone
com raparigas invisíveis, esperam em esquinas invisíveis por outros invisíveis.
No verão a chuva é invisível, abrem então um guarda-chuva invisível,
partem para regiões invisíveis para lerem poemas invisíveis,
encontram-se num parque com alguém invisível, amam o invisível.
O poeta é um assunto ali no invisível, até este poema é invisível,
um espelho é invisível, a cidade em que vivo é invisível,
o imprescindível e o insignificante, isso é o invisível.
(Versão minha; original reproduzido em Latitudes extremas - doce poetas chilenas y noruegas, selecção de Gonzalo Rojas e Inger Elisabeth Hansen, Tabla Rasa, Madrid, 2003, p. 57. *A minha alma é um cavalo gasto / posto à venda numa vintena de feiras).
Esse homem é invisível, a sua matéria de calhandra é invisível,
anda no invisível com passos que produzem ruído nas ruas invisíveis,
come coisas invisíveis, respira o invisível, paga com moedas invisíveis.
O poeta é um assunto ali no invisível, cruza rios invisíveis,
deita-se com mulheres invisíveis, fala com palavras invisíveis.
Está em Dublin e é invisível, vai pelo ceú em aviões invisíveis,
no seu coração a melancolia é invisível, pensa em coisas invisíveis,
lê Kavanagh que escrevia livros invisíveis,
por exemplo isto é invisível: My soul is an old horse
offered for sale in twenty fairs*.
A sua fúria é invisível, a sua tempestade também é invisível,
trabalha numa fábrica invisível, gasta os cotovelos em hospedarias invisíveis,
Teillier era invisível, Parra é quase invisível, ninguém viu Rojas.
Os operários brindam no fim do dia com canecas invisíveis de cerveja,
os solitários instalam-se em hotéis invisíveis, falam ao telefone
com raparigas invisíveis, esperam em esquinas invisíveis por outros invisíveis.
No verão a chuva é invisível, abrem então um guarda-chuva invisível,
partem para regiões invisíveis para lerem poemas invisíveis,
encontram-se num parque com alguém invisível, amam o invisível.
O poeta é um assunto ali no invisível, até este poema é invisível,
um espelho é invisível, a cidade em que vivo é invisível,
o imprescindível e o insignificante, isso é o invisível.
(Versão minha; original reproduzido em Latitudes extremas - doce poetas chilenas y noruegas, selecção de Gonzalo Rojas e Inger Elisabeth Hansen, Tabla Rasa, Madrid, 2003, p. 57. *A minha alma é um cavalo gasto / posto à venda numa vintena de feiras).
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Forrest Hamer
Lição
Foi em 1963 ou 4, no Verão,
o meu pai guiava a família
de Forte Hood para a Carolina do Norte no nosso Buick de 56.
Tínhamos ouvido falar dos ataques do Klan, e sabíamos
que o Mississippi se tinha tornado mais perigoso do que o habitual.
A escuridão descia inclinando-se das árvores como faz o musgo
e, nessa noite, quando a luz caiu sobre as janelas,
o meu pai encostou à berma para dormirmos.
mantiveram também o meu pai acordado nessa noite
e eu permaneci em silêncio dando conta de que ele estava alerta,
aprendendo que ele poderia não ser capaz de nos proteger
de tudo e de todas as criaturas;
nem talvez da fúria subitamente ruidosa
de todo o meu corpo em relação a esta viagem do Texas
para fixarmos residência antes de ele partir
para um lugar sem lugar no mundo
a que ele chamava Vietname. Um rapaz precisa de um pai
junto de si, eu não parava de pensar, fitando o ruído
que vinha das trevas.
(Versão minha; original reproduzido aqui).
Foi em 1963 ou 4, no Verão,
o meu pai guiava a família
de Forte Hood para a Carolina do Norte no nosso Buick de 56.
Tínhamos ouvido falar dos ataques do Klan, e sabíamos
que o Mississippi se tinha tornado mais perigoso do que o habitual.
A escuridão descia inclinando-se das árvores como faz o musgo
e, nessa noite, quando a luz caiu sobre as janelas,
o meu pai encostou à berma para dormirmos.
Barulhos
que habitualmente não me deixavam adormecer, com medo de monstros,mantiveram também o meu pai acordado nessa noite
e eu permaneci em silêncio dando conta de que ele estava alerta,
aprendendo que ele poderia não ser capaz de nos proteger
de tudo e de todas as criaturas;
nem talvez da fúria subitamente ruidosa
de todo o meu corpo em relação a esta viagem do Texas
para fixarmos residência antes de ele partir
para um lugar sem lugar no mundo
a que ele chamava Vietname. Um rapaz precisa de um pai
junto de si, eu não parava de pensar, fitando o ruído
que vinha das trevas.
(Versão minha; original reproduzido aqui).
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Inger Elisabeth Hansen
Arame / rede
sobre a condição necessária para contar uma boa história
Quando o inimigo actua em grupo,
quando o inimigo se amontoa e olha fixamente, considera-se uma forma de participação
que não constitui já uma fonte legítima.
Quando o inimigo se deixa levar em grupos até habitações fechadas,
quando o inimigo actua publicamente como um utente da privação da liberdade,
o inimigo ilude aquela obrigação que o indivíduo assume
sobre a condição necessária para contar uma boa história
Quando o inimigo actua em grupo,
quando o inimigo se amontoa e olha fixamente, considera-se uma forma de participação
que não constitui já uma fonte legítima.
Quando o inimigo se deixa levar em grupos até habitações fechadas,
quando o inimigo actua publicamente como um utente da privação da liberdade,
o inimigo ilude aquela obrigação que o indivíduo assume
voluntariamente
em assembleias à porta fechada, onde os que desejam falar entre si
tomam importantes decisões porque sabem que se alguém os leva a algum lado
é para contar uma boa história.
(Versão minha a partir da tradução de Kirsti Baggethun e Espido Freire reproduzida em Latitudes extremas - doce poetas chilenas y noruegas, selecção de Gonzalo Rojas e Inger Elisabeth Hansenm Tabla Rasa, Madrid, 2003, p. 123. Com esta versão assinalam-se três anos a tombar do trapézio, sem rede).
em assembleias à porta fechada, onde os que desejam falar entre si
tomam importantes decisões porque sabem que se alguém os leva a algum lado
é para contar uma boa história.
(Versão minha a partir da tradução de Kirsti Baggethun e Espido Freire reproduzida em Latitudes extremas - doce poetas chilenas y noruegas, selecção de Gonzalo Rojas e Inger Elisabeth Hansenm Tabla Rasa, Madrid, 2003, p. 123. Com esta versão assinalam-se três anos a tombar do trapézio, sem rede).
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Manuel Arana
Naufrágios
Ontem quis ser náufrago
e adormecer assim na minha cabana de palmeiras,
fazer com dois cocos um sutiã para a minha mulher.
Quis ser náufrago
e andei pelas bibliotecas e pelas ruas,
questionei inclusivamente a experiência.
E no fim aprendi
que, para o ser,
só tinha de recordar
o que parecia não ter importância,
e varrer um pouco a praia
antes de me instalar,
não se desse o caso do último inquilino
se ter esquecido de o fazer.
Ontem quis ser náufrago
e adormecer assim na minha cabana de palmeiras,
fazer com dois cocos um sutiã para a minha mulher.
Quis ser náufrago
e andei pelas bibliotecas e pelas ruas,
questionei inclusivamente a experiência.
E no fim aprendi
que, para o ser,
só tinha de recordar
o que parecia não ter importância,
e varrer um pouco a praia
antes de me instalar,
não se desse o caso do último inquilino
se ter esquecido de o fazer.
(Versão minha; original reproduzido em Poesía por venir - Antologia de jóvenes poetas andaluces, Junta de Andalucía / Editorial Renacimiento, 2004, p. 14).
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Fleur Adcock
Para alguém com cinco anos
Um caracol sobe pelo peitoril da janela
e introduz-se no teu quarto, depois de uma noite de chuva.
Chamas-me para o ver, e eu explico-te
que seria pouco simpático deixá-lo ali:
poderia arrastar-se pelo soalho, temos de evitar
que alguém o esmague. Compreendes-me
e, com mão cuidadosa, leva-lo lá para fora
para que coma um narciso.
Vejo, depois, como uma espécie de confiança subsiste:
a tua gentileza é ainda moldada pelas palavras
que eu digo, eu - que apanhei ratos com ratoeiras e disparei contra aves selvagens,
eu - que afoguei os teus gatinhos, que traí
os teus familiares mais póximos
e distribuí as mais duras verdades por muitos outros.
Mas é assim que as coisas são: eu sou a tua mãe
e nós somos gentis com caracóis.
Um caracol sobe pelo peitoril da janela
e introduz-se no teu quarto, depois de uma noite de chuva.
Chamas-me para o ver, e eu explico-te
que seria pouco simpático deixá-lo ali:
poderia arrastar-se pelo soalho, temos de evitar
que alguém o esmague. Compreendes-me
e, com mão cuidadosa, leva-lo lá para fora
para que coma um narciso.
Vejo, depois, como uma espécie de confiança subsiste:
a tua gentileza é ainda moldada pelas palavras
que eu digo, eu - que apanhei ratos com ratoeiras e disparei contra aves selvagens,
eu - que afoguei os teus gatinhos, que traí
os teus familiares mais póximos
e distribuí as mais duras verdades por muitos outros.
Mas é assim que as coisas são: eu sou a tua mãe
e nós somos gentis com caracóis.
(Versão minha; original reproduzido em Good poems for hard times, selecção e introdução de Garrison Keillor, Viking, Nova Iorque, 2005, p. 12).
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Grace Cavalieri
Tartes de tomate, 25 cêntimos
Tartes de tomate era o que lhe chamávamos, naquele tempo,
antes das pizzas terem aparecido,
no restaurante da minha avó,
em Trenton, Nova Jersey.
O meu avô enrola almôndegas
lá atrás. Estudou para padre na Sicília mas
livrou a sua irmã Maggie de casar com um tipo bera
vindo para a América.
O tio Joey está a estender a massa e a espalhar o molho.
O tio Joey, sempre impecavelmente limpo,
sóbrio, de camisa branca e engomada, depois
dos polícias o terem deixado em casa apenas há algumas horas.
As empregadas servem-se
à grande tirando dinheiro das caixas
e fazendo apostas com o Moon Mullin
e o Shad, vindos da Broad Street. 1942,
tartes de tomate com queijo, 25 cêntimos.
Com anchovas, tamanho grande, 50 cêntimos.
Um jantar completo custa 60 cêntimos (antes das 6 da tarde).
O modo como os soldados, transportados de Fort Dix,
ficavam lá fora, ao longo de toda a Warren Street,
à espera de experimentar este novo prazer,
rapazes de uniforme,
em fila e a rir, a aprender italiano
antes de embarcarem para combaterem na última grande guerra.
(Versão minha; o original pode ser lido aqui).
Tartes de tomate era o que lhe chamávamos, naquele tempo,
antes das pizzas terem aparecido,
no restaurante da minha avó,
em Trenton, Nova Jersey.
O meu avô enrola almôndegas
lá atrás. Estudou para padre na Sicília mas
livrou a sua irmã Maggie de casar com um tipo bera
vindo para a América.
O tio Joey está a estender a massa e a espalhar o molho.
O tio Joey, sempre impecavelmente limpo,
sóbrio, de camisa branca e engomada, depois
dos polícias o terem deixado em casa apenas há algumas horas.
As empregadas servem-se
à grande tirando dinheiro das caixas
e fazendo apostas com o Moon Mullin
e o Shad, vindos da Broad Street. 1942,
tartes de tomate com queijo, 25 cêntimos.
Com anchovas, tamanho grande, 50 cêntimos.
Um jantar completo custa 60 cêntimos (antes das 6 da tarde).
O modo como os soldados, transportados de Fort Dix,
ficavam lá fora, ao longo de toda a Warren Street,
à espera de experimentar este novo prazer,
rapazes de uniforme,
em fila e a rir, a aprender italiano
antes de embarcarem para combaterem na última grande guerra.
(Versão minha; o original pode ser lido aqui).
domingo, 23 de janeiro de 2011
Manuel Arana
O filho do Colosso de Rodes visita Ankara no Dia do Orgulho Turco
Há homens
que só são capazes de andar de bicicleta
quando os seus pais os obrigam,
que sobem sempre à torre de neón
com o desânimo
de não terem recebido nunca
a sua parte da terra prometida.
Depois dizem
que só viram placas de gelo
e chamas azuis palpáveis,
que depois de seis
ou sete vezes
todas as coisas passam a ser iguais,
ainda que delas precisem.
Porque esses homens cruzam a vida
de bicicleta
e só recebem
palmadinhas nas costas.
Há homens
que só são capazes de andar de bicicleta
quando os seus pais os obrigam,
que sobem sempre à torre de neón
com o desânimo
de não terem recebido nunca
a sua parte da terra prometida.
Depois dizem
que só viram placas de gelo
e chamas azuis palpáveis,
que depois de seis
ou sete vezes
todas as coisas passam a ser iguais,
ainda que delas precisem.
Porque esses homens cruzam a vida
de bicicleta
e só recebem
palmadinhas nas costas.
(Versão minha; original reproduzido em Poesía por venir - Antología de jóvenes poetas andaluces, Renacimiento / Junta de Andalucía, 2004, pp. 13-14).
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
Muriel Rukeyser
No nosso tempo
Na nossa época dizem que há liberdade de expressão.
Dizem que não há castigo para os poetas,
não há castigo por se escrever poemas.
Isto é o que dizem. Este é o castigo.
Na nossa época dizem que há liberdade de expressão.
Dizem que não há castigo para os poetas,
não há castigo por se escrever poemas.
Isto é o que dizem. Este é o castigo.
(Versão minha a partir do original e da tradução castelhana de Jorge Ordaz, publicada algures por aqui)
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Erica Jong
Parábola da cama com dossel
Porque quer tocá-lo,
ela distancia-se.
Porque quer falar-lhe,
ela fica em silêncio.
Porque quer beijá-lo,
ela afasta-se
& beija um homem que não quer beijar.
Ele observa
pensando que ela não o quer.
Ele escuta
ouvindo o silêncio dela.
Ele afasta-se
pensando que ela é distante
& beija uma rapariga que não quer beijar.
Cada um casa com o seu -
um erro com quatro vias.
Ele vai para a cama com a sua mulher
pensando nela.
Ela vai para a cama com o seu marido
pensando nele.
- & tudo isto numa verdadeira cama com dossel, à maneira antiga.
Viveram infelizes para sempre?
Claro.
Alguma vez reparam os seus erros?
Nunca.
Quem é a vítima?
O amor é a vítima.
Quem é o vilão?
O amor que nunca morre.
Porque quer tocá-lo,
ela distancia-se.
Porque quer falar-lhe,
ela fica em silêncio.
Porque quer beijá-lo,
ela afasta-se
& beija um homem que não quer beijar.
Ele observa
pensando que ela não o quer.
Ele escuta
ouvindo o silêncio dela.
Ele afasta-se
pensando que ela é distante
& beija uma rapariga que não quer beijar.
Cada um casa com o seu -
um erro com quatro vias.
Ele vai para a cama com a sua mulher
pensando nela.
Ela vai para a cama com o seu marido
pensando nele.
- & tudo isto numa verdadeira cama com dossel, à maneira antiga.
Viveram infelizes para sempre?
Claro.
Alguma vez reparam os seus erros?
Nunca.
Quem é a vítima?
O amor é a vítima.
Quem é o vilão?
O amor que nunca morre.
(Versão minha; original reproduzido em Good poems, seleccão e introdução de Garrison Keillor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, pp. 347-348).
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Tushar Chowdhury
As palavras sem luz
A poesia ameaça o sonho envenenado, o sonho ligeiro do pub.
A pele verde das palavras oculta o fogo eterno.
A magia do corpo convoca a alma desmaiada.
Diz-lhe: levanta-te, diz-lhe: vem dançar no fogo azulado.
As palavras, como a sabedoria, serão oceânicas,
segundo alguns. Eu penso antes
que estão todas desprovidas de espírito.
As palavras devoram o vento como o acto o desejo.
As palavras são manadas de tartarugas
como o caçador que regressa a casa
depois de matar cento e um patos
e cento e um cavalos voltam ao estábulo
para comer aveia.
A poesia ameaça o sonho envenenado, o sonho ligeiro do pub.
A pele verde das palavras oculta o fogo eterno.
A magia do corpo convoca a alma desmaiada.
Diz-lhe: levanta-te, diz-lhe: vem dançar no fogo azulado.
As palavras, como a sabedoria, serão oceânicas,
segundo alguns. Eu penso antes
que estão todas desprovidas de espírito.
As palavras devoram o vento como o acto o desejo.
As palavras são manadas de tartarugas
como o caçador que regressa a casa
depois de matar cento e um patos
e cento e um cavalos voltam ao estábulo
para comer aveia.
(Versão minha a partir das traduções castelhana e francesa de Sumana Sinha, Lionel Ray e F. Torres Monreal reproduzidas em 12 poetas bengalíes - Antologia de poesía india contemporánea, Lancelot, Murcia, 2005, p. 149).
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Richard Jones
Depois do trabalho
Emergindo do metro
para a noite fria de Manhattan,
sinto mãos ásperas no meu coração -
mulheres a gritar no mercado
sobre caixas de tomates e pimentos,
velhos sentados nos degraus a jogar às cartas,
taxistas insultando-se uns aos outros de punho no ar
enquanto os sons dos sinos da igreja
deslizam pela rua
e o pai, exausto e esfomeado
depois de um longo dia de trabalho,
abraça a sua pequena filha,
beija-a,
mi vida, mi corazón,
e desvia-lhe o cabelo dos olhos
para que ela possa ver.
Emergindo do metro
para a noite fria de Manhattan,
sinto mãos ásperas no meu coração -
mulheres a gritar no mercado
sobre caixas de tomates e pimentos,
velhos sentados nos degraus a jogar às cartas,
taxistas insultando-se uns aos outros de punho no ar
enquanto os sons dos sinos da igreja
deslizam pela rua
e o pai, exausto e esfomeado
depois de um longo dia de trabalho,
abraça a sua pequena filha,
beija-a,
mi vida, mi corazón,
e desvia-lhe o cabelo dos olhos
para que ela possa ver.
(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keillor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, p. 183).
domingo, 9 de janeiro de 2011
Stephen Dunn
Do Manifesto dos Egoístas
Porque os altruístas são as pessoas
precisamos de lhes tirar tudo
este é o modo de os estimular, e porque
estaremos uma vez mais a fazer algo
sempre cheios de desejo e satisfeitos
Porque os altruístas são as pessoas
menos sexy da terra, incapazes
de dizer sem vergonha "Eu quero",precisamos de lhes tirar tudo
o que eles dão,
e pedir mais,este é o modo de os estimular, e porque
é excitante
vê-los um bocado menos excitadosestaremos uma vez mais a fazer algo
por nós,
que não temos problemas em ter prazer,sempre cheios de desejo e satisfeitos
por sermos satisfeitos, nós que acima de tudo
somos de confiança por garantirmos o equilíbrio.(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keilor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, p. 223).
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Sunil Gangopadhyay
Unicamente para a poesia
Unicamente para a poesia esta vida, unicamente
para a poesia certos jogos, para a poesia uma tarde de inverno e só
atravesso o mundo inteiro, a paz de um instante,
de um rosto imóvel;
unicamente para a poesia, tu, a mulher,
unicamente para a poesia tantos crimes,
o aguaceiro do Ganges nas nuvens,
unicamente para a poesia desejo viver por largo tempo,
viver como um homem, viver imperfeito,
unicamente para a poesia
rejeitei a eternidade.
Unicamente para a poesia esta vida, unicamente
para a poesia certos jogos, para a poesia uma tarde de inverno e só
atravesso o mundo inteiro, a paz de um instante,
de um rosto imóvel;
unicamente para a poesia, tu, a mulher,
unicamente para a poesia tantos crimes,
o aguaceiro do Ganges nas nuvens,
unicamente para a poesia desejo viver por largo tempo,
viver como um homem, viver imperfeito,
unicamente para a poesia
rejeitei a eternidade.
(Versão minha a partir das traduções castelhana e francesa reproduzidas em 12 poetas bengalíes - Antologia de poesía india contemporánea, selecção e tradução de Sumana Sinha e Lionel Ray para francês e de F. Torres Monreal para castelhano, Lancelot, Murcia, 2005, p. 87).
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Walid Khaznadar
Casa, casas
Coroei-me a mim próprio
e proclamei-te rainha
Fiz-te uma trança com erva e calcei
- espreitando-os -
os teus pequenos pés
com sapatos feitos de rosas
Com ramos verdes fiz um arco
para que passasses
Fomos assaltados por rebentos
e pelos primeiros arrepios
E enquanto nos separávamos:
- Deixei-me vê-la
- Deixei-me ser o primeiro a vê-la
o horizonte incendiava-se
os homens preparavam os seus fuzis
e as mulheres estendiam distraidamente
panos brancos
sobre cordas intermináveis
Coroei-me a mim próprio
e proclamei-te rainha
Fiz-te uma trança com erva e calcei
- espreitando-os -
os teus pequenos pés
com sapatos feitos de rosas
Com ramos verdes fiz um arco
para que passasses
Fomos assaltados por rebentos
e pelos primeiros arrepios
E enquanto nos separávamos:
- Deixei-me vê-la
- Deixei-me ser o primeiro a vê-la
o horizonte incendiava-se
os homens preparavam os seus fuzis
e as mulheres estendiam distraidamente
panos brancos
sobre cordas intermináveis
(Versão minha a partir da tradução francesa reproduzida em La poésie palestinienne contemporaine, selecção e tradução de Addellatif Laâbi, Le Temps des Cerises / Maison de la Poésie Rhône-Alpes, 2002, p. 169).
domingo, 2 de janeiro de 2011
Azeddine al-Manacirah
A cirrose de Ícaro
Entre Ícaro e mim, anos-luz
E no entanto reencontramo-nos
num só ponto do mundo
nocturnamente, sem ninguém nos ver
mesmo se a noite, por exemplo em Beirute,
não chega para esconder os segredos
É um homem estranho
O seu acto é um erro que não se repete como a dinamite
disse-nos o instrutor
Antes de realizar esse acto
ele foi atacado por uma cirrose
segredo que só os que lhe eram próximos conheciam
Ele é o filho do mar, ela a descendente do fogo
Ele é o filho do pássaro, ela descende da árvore das dissidências
E no entanto eu continuo à espera
que a História se repita
Sim, senhor, ela repete-se por vezes
Ele arderá no seu sol
eu: o exílio derreter-me-á
Ele há-de unir-se à capa da erva celeste
eu: serei corroído na terra pedregosa dos exílios
Eis o resultado da ausência de planificação, ó Ícaro!
Acreditas agora em mim, caro defunto?
Entre Ícaro e mim, anos-luz
E no entanto reencontramo-nos
num só ponto do mundo
nocturnamente, sem ninguém nos ver
mesmo se a noite, por exemplo em Beirute,
não chega para esconder os segredos
É um homem estranho
O seu acto é um erro que não se repete como a dinamite
disse-nos o instrutor
Antes de realizar esse acto
ele foi atacado por uma cirrose
segredo que só os que lhe eram próximos conheciam
Ele é o filho do mar, ela a descendente do fogo
Ele é o filho do pássaro, ela descende da árvore das dissidências
E no entanto eu continuo à espera
que a História se repita
Sim, senhor, ela repete-se por vezes
Ele arderá no seu sol
eu: o exílio derreter-me-á
Ele há-de unir-se à capa da erva celeste
eu: serei corroído na terra pedregosa dos exílios
Eis o resultado da ausência de planificação, ó Ícaro!
Acreditas agora em mim, caro defunto?
(Versão minha a partir da tradução francesa reproduzida em La poésie palestinienne contemporaine, selecção e tradução de Abdellatif Laâbi, Le Temps des Cerises / Maison de la Poésie Rhône-Alpes, 2002, pp. 74-75).
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Raymond Carver
Pelo menos
Quero levantar-me cedo uma manhã mais,
antes do nascer do sol. Antes mesmo dos pássaros.
Quero atirar água fria à minha cara
e estar à minha mesa de trabalho
quando o céu clarear e o fumo
começar a sair das chaminés
das outras casas.
Quero ver as ondas a quebrarem-se
nesta praia rochosa, não ouvi-las apenas
a bater, como fiz toda a noite durante o meu sono.
Quero ver de novo os navios
que passam pelo estreito vindos de todos
os países marítimos do mundo -
os cargueiros velhos e sujos movendo-se vagarosamente
e os novos e rápidos navios de carga
pintados, sob o sol, de todas as cores
que cortam a água à medida que avançam.
Quero manter-me de olhos bem abertos por eles.
E pelos pequenos barcos que manobram
na água entre os navios
e o porto, junto ao farol.
Quero vê-los a receberem um homem que sai do navio
e a pôr outro lá em cima, a bordo.
Quero passar o dia a ver isto a acontecer
e tirar as minhas próprias conclusões.
Detesto parecer ganancioso - e já tenho tanto
pelo qual devo ficar agradecido.
Mas quero levantar-me cedo mais uma manhã, pelo menos.
E ir para o meu lugar com algum café, e esperar.
Esperar, apenas, para ver o que irá acontecer.
Quero levantar-me cedo uma manhã mais,
antes do nascer do sol. Antes mesmo dos pássaros.
Quero atirar água fria à minha cara
e estar à minha mesa de trabalho
quando o céu clarear e o fumo
começar a sair das chaminés
das outras casas.
Quero ver as ondas a quebrarem-se
nesta praia rochosa, não ouvi-las apenas
a bater, como fiz toda a noite durante o meu sono.
Quero ver de novo os navios
que passam pelo estreito vindos de todos
os países marítimos do mundo -
os cargueiros velhos e sujos movendo-se vagarosamente
e os novos e rápidos navios de carga
pintados, sob o sol, de todas as cores
que cortam a água à medida que avançam.
Quero manter-me de olhos bem abertos por eles.
E pelos pequenos barcos que manobram
na água entre os navios
e o porto, junto ao farol.
Quero vê-los a receberem um homem que sai do navio
e a pôr outro lá em cima, a bordo.
Quero passar o dia a ver isto a acontecer
e tirar as minhas próprias conclusões.
Detesto parecer ganancioso - e já tenho tanto
pelo qual devo ficar agradecido.
Mas quero levantar-me cedo mais uma manhã, pelo menos.
E ir para o meu lugar com algum café, e esperar.
Esperar, apenas, para ver o que irá acontecer.
(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keillor, Peguin, Nova Iorque, 2002, pp. 8-9).
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Hélène Dorion
Pode-se viver muito bem...
Pode-se viver muito bem
sem nada mais do que estes privilégios quotidianos:
uma carta na caixa do correio, o barulho de uma vaga,
o azul sobre a planície, as palavras de um poema.
O universo reduzido a poucos vínculos
ao trajecto habitual
da sua própria morte.
Pode-se muito bem não ser mais
do que uma aventura de átomos e de questões insignificantes.
Pode-se viver muito bem
sem nada mais do que estes privilégios quotidianos:
uma carta na caixa do correio, o barulho de uma vaga,
o azul sobre a planície, as palavras de um poema.
O universo reduzido a poucos vínculos
ao trajecto habitual
da sua própria morte.
Pode-se muito bem não ser mais
do que uma aventura de átomos e de questões insignificantes.
(Versão minha; original reproduzido em Poèmes pour voyager - anthologie des poèmes dans le métro et le bus, selecção de Gérard Cartier e Francis Combes, Les Temps des Cerises, Pantin, 2005, p. 82).
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Cecilia Woloch
Crianças vagarosas em jogo
Todas as crianças ligeiras foram para dentro, chamadas
pelas mães - despachem-se - lavem - as - mãos - queridos
o - jantar - está - a - arrefecer, ai - quando - o - vosso - pai - chegar - a - casa -
e só as crianças vagarosas ficam nos relvados, abrindo
caminhos por entre os pirilampos, produzindo sons doces e breves com as suas bocas, óóós
que brilham e se apagam e brilham. E as suas mães vagarosas e tremeluzentes,
pálidas na penumbra, observam-nas a rodopiar no ar suave,
observam-nas
a ziguezaguear, os braços bem abertos, pensando, Estes são os meus filhos, pensando,
Onde está o jantar deles? Para onde foi o pai deles?
Todas as crianças ligeiras foram para dentro, chamadas
pelas mães - despachem-se - lavem - as - mãos - queridos
o - jantar - está - a - arrefecer, ai - quando - o - vosso - pai - chegar - a - casa -
e só as crianças vagarosas ficam nos relvados, abrindo
caminhos por entre os pirilampos, produzindo sons doces e breves com as suas bocas, óóós
que brilham e se apagam e brilham. E as suas mães vagarosas e tremeluzentes,
pálidas na penumbra, observam-nas a rodopiar no ar suave,
observam-nas
a ziguezaguear, os braços bem abertos, pensando, Estes são os meus filhos, pensando,
Onde está o jantar deles? Para onde foi o pai deles?
(Versão minha; original reproduzido em Good poems for hard times, selecção e introdução de Garrison Keilor, Viking, Nova Iorque, 2005, p. 252).
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Raymond Carver
Os nus de Bonnard
A sua mulher. Durante quarenta anos ele pintou-a.
Uma e outra vez. O nu da última pintura
igual à jovem nudez da primeira. A sua mulher.
Tal como se recordava dela enquanto jovem. Como se ela o fosse.
A sua mulher no banho. Na sua cómoda
em frente ao espelho. Nua.
A sua mulher com as mãos debaixo dos seios,
olhando o jardim.
O sol concedendo cor e calor.
Todas as coisas vivas a florescer ali.
Ela jovem e trémula e tão desejável.
Quando ela morreu, ele pintou por mais algum tempo.
Algumas paisagens. Depois morreu.
E puseram-no junto dela.
A sua jovem mulher.
A sua mulher. Durante quarenta anos ele pintou-a.
Uma e outra vez. O nu da última pintura
igual à jovem nudez da primeira. A sua mulher.
Tal como se recordava dela enquanto jovem. Como se ela o fosse.
A sua mulher no banho. Na sua cómoda
em frente ao espelho. Nua.
A sua mulher com as mãos debaixo dos seios,
olhando o jardim.
O sol concedendo cor e calor.
Todas as coisas vivas a florescer ali.
Ela jovem e trémula e tão desejável.
Quando ela morreu, ele pintou por mais algum tempo.
Algumas paisagens. Depois morreu.
E puseram-no junto dela.
A sua jovem mulher.
(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrisson Keillor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, p. 146).
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