Sic transit...
(Óleo sobre papel, 2011)
domingo, 22 de maio de 2011
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Hafid Gafaïti (5)
Última fonte
longe
à sombra dos camelos
para beber
o último nómada
recolhe as lágrimas das estrelas
longe
à sombra dos camelos
para beber
o último nómada
recolhe as lágrimas das estrelas
(Versão inédita de António Ladeira; poema incluído no livro La tentation du désert / The temptation of the desert, L ' Harmattan, Paris, 2008, p. 98)
terça-feira, 17 de maio de 2011
David Ignatow
Ao que chegam as coisas
Não sei qual devo lamentar. Ambos morreram para mim, a minha mulher e
o meu carro. Sinto-me muito em baixo por causa do meu carro, mas também
estou bastante afectado por causa da minha mulher. Sem o meu carro, não
posso sair de casa para evitar a solidão. A minha mulher deu-me dois
filhos, os quais, é claro,
já não viviam connosco, tal como se previa, tal como nós na nossa juventude
deixámos para trás os nossos pais. Com o meu carro, eu podia visitar os meus filhos
quando não estivessem demasiadamente ocupados.
Antes de morrer a minha mulher encorajou-me a encontrar outra mulher. É um conselho
que gostaria de seguir, mas não sem um carro. Sem um carro, não consigo
encontrar-me com outra mulher. É ao que chegam as coisas.
Não sei qual devo lamentar. Ambos morreram para mim, a minha mulher e
o meu carro. Sinto-me muito em baixo por causa do meu carro, mas também
estou bastante afectado por causa da minha mulher. Sem o meu carro, não
posso sair de casa para evitar a solidão. A minha mulher deu-me dois
filhos, os quais, é claro,
já não viviam connosco, tal como se previa, tal como nós na nossa juventude
deixámos para trás os nossos pais. Com o meu carro, eu podia visitar os meus filhos
quando não estivessem demasiadamente ocupados.
Antes de morrer a minha mulher encorajou-me a encontrar outra mulher. É um conselho
que gostaria de seguir, mas não sem um carro. Sem um carro, não consigo
encontrar-me com outra mulher. É ao que chegam as coisas.
(Versão minha; original reproduzido em Good poems for hard times, selecção e introdução de Garrison Keilor, Viking, Nova Iorque, 2005, p. 244)
domingo, 15 de maio de 2011
sábado, 14 de maio de 2011
Hafid Gafaïti (4)
A sul do sul
no deserto
o tempo é um luxo
só espinhos e cactos
rompendo a cada raio
dormi na casa da estrangeira
a que se vestia de âmbar e almíscar
recusa a luz da sua vela
o perfume da sua pele
desde a morte da cidade existe uma regra
a que até os rebeldes obedecem
não mentir à mulher
que aprisiona areia em sua casa
no deserto
o tempo é um luxo
só espinhos e cactos
rompendo a cada raio
dormi na casa da estrangeira
a que se vestia de âmbar e almíscar
recusa a luz da sua vela
o perfume da sua pele
desde a morte da cidade existe uma regra
a que até os rebeldes obedecem
não mentir à mulher
que aprisiona areia em sua casa
(Versão inédita de António Ladeira; poema do livro La tentation du désert / The temptation of the desert, L' Harmattan, Paris, 2008, p. 64).
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Mark Strand
Fui um explorador polar
Na minha juventude fui um explorador polar
e passei noites e dias incontáveis gelando
de lugar vazio em lugar vazio. Por fim,
deixei de viajar e fiquei em casa,
aí cresceu em mim um repentino excesso de desejo,
como se me tivesse atravessado um resplandecente
feixe de luz daqueles que se vêem no interior de um diamante.
Enchi páginas e páginas com as visões que havia testemunhado -
os rugidos do gelo no mar, glaciares gigantes, o branco dos icebergues
chicoteado pelo vento. Então, sem nada mais para dizer, parei
e dirigi a minha atenção para o que me estava próximo. Quase ao mesmo
[tempo,
um homem de casaco negro e chapéu de aba larga
apareceu entre as árvores em frente à minha casa.
A forma como olhou a direito e ficou quieto,
sem se mover minimamente, os braços estendidos
ao longo do corpo, fizeram-me pensar que o conhecia.
Mas quando levantei a mão para o cumprimentar,
ele deu um passo atrás, voltou-se, e começou a desaparecer
como uma ânsia desaparece até que nada sobre dela.
Na minha juventude fui um explorador polar
e passei noites e dias incontáveis gelando
de lugar vazio em lugar vazio. Por fim,
deixei de viajar e fiquei em casa,
aí cresceu em mim um repentino excesso de desejo,
como se me tivesse atravessado um resplandecente
feixe de luz daqueles que se vêem no interior de um diamante.
Enchi páginas e páginas com as visões que havia testemunhado -
os rugidos do gelo no mar, glaciares gigantes, o branco dos icebergues
chicoteado pelo vento. Então, sem nada mais para dizer, parei
e dirigi a minha atenção para o que me estava próximo. Quase ao mesmo
[tempo,
um homem de casaco negro e chapéu de aba larga
apareceu entre as árvores em frente à minha casa.
A forma como olhou a direito e ficou quieto,
sem se mover minimamente, os braços estendidos
ao longo do corpo, fizeram-me pensar que o conhecia.
Mas quando levantei a mão para o cumprimentar,
ele deu um passo atrás, voltou-se, e começou a desaparecer
como uma ânsia desaparece até que nada sobre dela.
(Versão minha a partir do original e da tradução castelhana de Dámaso López Garcia, reproduzidos em Hombre y camello - poemas, Visor Libros, Madrid, 2010, pp. 26-27)
sexta-feira, 6 de maio de 2011
terça-feira, 3 de maio de 2011
Hafid Gafaïti (3)
Areia e neve
de madrugada
enxame de pássaros
polvilhado de estrelas
à tarde
homem do sul
em terras brancas
ambos
gratos
de luz e júbilo
de madrugada
enxame de pássaros
polvilhado de estrelas
à tarde
homem do sul
em terras brancas
ambos
gratos
de luz e júbilo
(Versão inédita de António Ladeira; poema do livro La tentation du désert / The temptation of the desert, L'Harmattan, Paris, 2008, p. 106)
domingo, 1 de maio de 2011
Juan Bonilla
Uivo
Eu vi os melhores da minha geração
destruídos pela ânsia de ganhar muito dinheiro.
Poetas conformando-se com letras de canção,
pintores desenhando sapatos para o estrangeiro.
O nosso Truman Capote aprendeu a lição
e emprega o seu talento de ávido comentador
num programa estúpido de televisão.
Mas tem um chalé, dez noivas, cem admiradores.
Quem estava destinado a fazer grande arte
ganha milhões com sloganes baratos.
O vanguardista exímio escreve em toda a parte.*
E o artista rebelde que viveu numa gruta
decidiu atraiçoar-se, farto de maus tratos.
Dedica-se ao mesmo que os outros: é puta.
Eu vi os melhores da minha geração
destruídos pela ânsia de ganhar muito dinheiro.
Poetas conformando-se com letras de canção,
pintores desenhando sapatos para o estrangeiro.
O nosso Truman Capote aprendeu a lição
e emprega o seu talento de ávido comentador
num programa estúpido de televisão.
Mas tem um chalé, dez noivas, cem admiradores.
Quem estava destinado a fazer grande arte
ganha milhões com sloganes baratos.
O vanguardista exímio escreve em toda a parte.*
E o artista rebelde que viveu numa gruta
decidiu atraiçoar-se, farto de maus tratos.
Dedica-se ao mesmo que os outros: é puta.
(Versão minha; original incluído em Defensa personal (Antología poética 1992-2006), prólogo de Miguel Albero, Ranacimiento, Sevilha, 2009, p. 68)
*Variante: "Quem estava destinado a fazer a grande novela / ganha milhões com sloganes baratos. / O vanguardista exímio escreveu uma sequela."
sexta-feira, 29 de abril de 2011
terça-feira, 26 de abril de 2011
Hafid Gafaïti (2)
Nova partida
de manhã depois de pão e chá
não são necessárias palavras
armados de paciência e dúvida
desposamos a costa de novo
passamos Tamanrasset
marcha fatigada
olhares na distância
nunca termina o grito
perseguimos ecos
tendas nómadas rios secos
até turbilhões e sementes
nos perderem para sempre
de manhã depois de pão e chá
não são necessárias palavras
armados de paciência e dúvida
desposamos a costa de novo
passamos Tamanrasset
marcha fatigada
olhares na distância
nunca termina o grito
perseguimos ecos
tendas nómadas rios secos
até turbilhões e sementes
nos perderem para sempre
(Versão inédita de António Ladeira; poema do livro La tentation du désert / The temptation of the desert, L' Harmattan, Paris, 2008, p. 66).
domingo, 24 de abril de 2011
Jüri Talvet
Breve carta para Álvaro de Campos
O que é a realidade? Apenas um monte de ossos. Por isso há
que construir, só por isso há que construir com argamassa
feita de cinza e madrugada, imaginações, paredes que falem
para uma casa em que talvez um dia se aloje uma rapariga.
O que é a realidade? Apenas um monte de ossos. Por isso há
que construir, só por isso há que construir com argamassa
feita de cinza e madrugada, imaginações, paredes que falem
para uma casa em que talvez um dia se aloje uma rapariga.
(Versão minha a partir da tradução castelhana de Albert Lázaro-Tinaut e revista pelo autor incluída em Del sueño, de la nieve (Antología 2001-2009), Olifante, edição bilingue estónio-castelhana, Saragoça, 2010, p. 33).
quinta-feira, 14 de abril de 2011
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Hafid Gafaïti (1)
Da necessidade de continuar argelino
Nasci em berbere
Sinto em árabe
Penso em francês
Trabalho em inglês
Canto em espanhol
Recordo em latim
Transmito em grego
Partilho em hebraico
Questiono em sânscrito
Espero em americano
Sento-me em zen
Comunico em não-dito
Falo todas as línguas
Rio-me com todas as vozes
Sangro em silêncio
Amo em cada palavra
concebida Múltipla
Vivo em argelino
Morro em humano
Nasci em berbere
Sinto em árabe
Penso em francês
Trabalho em inglês
Canto em espanhol
Recordo em latim
Transmito em grego
Partilho em hebraico
Questiono em sânscrito
Espero em americano
Sento-me em zen
Comunico em não-dito
Falo todas as línguas
Rio-me com todas as vozes
Sangro em silêncio
Amo em cada palavra
concebida Múltipla
Vivo em argelino
Morro em humano
(Versão inédita de António Ladeira; poema do livro La gorge tranchée du soleil / The slit throat of the sun, L' Harmattan, Paris, 2006, p. 82.
Hafid Gafaïti nasceu na Argélia, onde, durante a guerra civil (anos 90), foi membro do movimento democrático de oposição quer ao regime militar, quer ao partido islamita. Foi membro fundador da secção argelina da Aministia Internacional, tal como membro activo do movimento feminista. Como intelectual e crítico que colaborava sobretudo com dissidentes políticos, escritores e poetas (todos na "lista da morte" das forças anti-democráticas), Hafid foi considerado um inimigo tanto do governo como da insurreição islâmica.
Estudou e leccionou em múltiplas universidades na Argélia, Inglaterra e Estados Unidos. Hafid Gaifaïti é actualmente professor de literaturas francófonas na Texas Tech University. Publicou numerosos livros de ensaios e de crítica literária e, desde 2006, editou três livros de poesia. O poema aqui apresentado é o primeiro de um conjunto que será publicado neste blogue. Segundo sabemos, é o primeiro poema do autor passado para português. Ao poeta, por ter autorizado a publicação do poema, e a António Ladeira pela tradução - e por tudo mais - o nosso agradecimento).
sábado, 9 de abril de 2011
Robert Bly
É tarde e conduzo até à cidade para pôr uma carta no correio
A noite está fria e neva. A rua principal está deserta.
As únicas coisas que se mexem são remoinhos de neve.
Ao levantar a tampa da caixa do correio, sinto o seu metal gelado.
Há um isolamento que eu amo nesta noite nevada.
Andando às voltas poderei demorar-me um pouco mais.
A noite está fria e neva. A rua principal está deserta.
As únicas coisas que se mexem são remoinhos de neve.
Ao levantar a tampa da caixa do correio, sinto o seu metal gelado.
Há um isolamento que eu amo nesta noite nevada.
Andando às voltas poderei demorar-me um pouco mais.
(Versão minha; o original surge em Good poems for hard times, selecção e introdução de Garrison Keillor, Viking, Nova Iorque, 2005, p. 253)
quarta-feira, 6 de abril de 2011
segunda-feira, 4 de abril de 2011
W. S. Merwin
Ar
Naturalmente é de noite.
Sob o alaúde virado com a sua
Única corda eu sigo o meu caminho
O qual tem um som estranho.
Pó aqui, pó daquele lado.
Escuto os dois lados
Mas prossigo.
Lembro-me das folhas
Paradas nas suas deliberações
E depois o inverno.
Lembro-me da chuva com o seu feixe de estradas.
A chuva conduzindo todas as suas ruas.
A lugar algum.
Jovem como eu, velha como eu.
Esqueço o amanhã, o homem cego.
Esqueço a vida entre janelas enterradas.
O olhar das cortinas.
A parede
Crescendo entre as perpétuas.
Esqueço o silêncio
O autor do sorriso.
Isto deve ser o que eu quis fazer.
Caminhar de noite entre os dois desertos,
Cantando.
(Versão inédita de António Ladeira; o original pode ser lido aqui).
Naturalmente é de noite.
Sob o alaúde virado com a sua
Única corda eu sigo o meu caminho
O qual tem um som estranho.
Pó aqui, pó daquele lado.
Escuto os dois lados
Mas prossigo.
Lembro-me das folhas
Paradas nas suas deliberações
E depois o inverno.
Lembro-me da chuva com o seu feixe de estradas.
A chuva conduzindo todas as suas ruas.
A lugar algum.
Jovem como eu, velha como eu.
Esqueço o amanhã, o homem cego.
Esqueço a vida entre janelas enterradas.
O olhar das cortinas.
A parede
Crescendo entre as perpétuas.
Esqueço o silêncio
O autor do sorriso.
Isto deve ser o que eu quis fazer.
Caminhar de noite entre os dois desertos,
Cantando.
(Versão inédita de António Ladeira; o original pode ser lido aqui).
quinta-feira, 31 de março de 2011
Jaroslav Seifert
Pequena canção da noite
As gatas irrompem das águas-furtadas
e tornam-se verdes na noite.
Eu procurava em vão uma palavra nova
para isso a que os outros chamam sonho.
Para esta quimera, coisa ou instante,
que ultrapassa os limites da tua realidade
e depois - para te submeter ao seu próprio império -
não chega quase a ter corpo.
Para isso que é um simples murmúrio
e se dilacera a cada choque,
assim como um pão de gaze ligeiro
que, rente à tua fronte, flutua no ar.
Isso que, com o sangue, chega ao rosto
e faz sonhar as jovens raparigas
logo que, confessando-se à almofada,
se escondem sob os cobertores.
Para isso que surge assim que as tuas mãos
cobrem os teus olhos; isso que quase
a tua orelha não ouve, quando há um suspiro -
muito baixo - num recolhimento solitário.
Para esses olhos e esse olhar, enfim,
com os quais uma senhora me deslumbrou.
E com os quais, desde então, eu sonho ainda,
balbuciando versos comovidos.
Velar sem prazo, pela dor:
nada me impedirá de dormir mal.
A cidade? Dorme. Lá em baixo, o dique
purifica o ouro pálido das estrelas.
Para Vladimír Holan
As gatas irrompem das águas-furtadas
e tornam-se verdes na noite.
Eu procurava em vão uma palavra nova
para isso a que os outros chamam sonho.
Para esta quimera, coisa ou instante,
que ultrapassa os limites da tua realidade
e depois - para te submeter ao seu próprio império -
não chega quase a ter corpo.
Para isso que é um simples murmúrio
e se dilacera a cada choque,
assim como um pão de gaze ligeiro
que, rente à tua fronte, flutua no ar.
Isso que, com o sangue, chega ao rosto
e faz sonhar as jovens raparigas
logo que, confessando-se à almofada,
se escondem sob os cobertores.
Para isso que surge assim que as tuas mãos
cobrem os teus olhos; isso que quase
a tua orelha não ouve, quando há um suspiro -
muito baixo - num recolhimento solitário.
Para esses olhos e esse olhar, enfim,
com os quais uma senhora me deslumbrou.
E com os quais, desde então, eu sonho ainda,
balbuciando versos comovidos.
Velar sem prazo, pela dor:
nada me impedirá de dormir mal.
A cidade? Dorme. Lá em baixo, o dique
purifica o ouro pálido das estrelas.
(Versão minha a partir da tradução francesa de Petr Král, incluída na Anthologie de la poésie tchèque contemporaine, Gallimard, Paris, 2002, pp. 26-27).
terça-feira, 29 de março de 2011
segunda-feira, 28 de março de 2011
Charles Simic
Um livro cheio de imagens
O meu pai estudava teologia por correspondência
E era a época de exames.
A minha mãe fazia renda. Eu sentava-me sossegado com um livro
Cheio de imagens. Caiu a noite.
As minhas mãos ficaram frias de tocar as caras
De reis e rainhas mortos.
Havia uma gabardine negra
[no quarto de cima
A balouçar no tecto,
Mas o que faria ali?
As grandes agulhas da mãe cruzavam-se velozmente.
Eram negras
Como o interior da minha cabeça nessa altura.
As páginas que virava faziam um som de asas.
"A alma é um pássaro", disse ele uma vez.
No meu livro cheio de imagens
Uma batalha fervilhava: lanças e espadas
Pareciam uma floresta no inverno
Com o meu coração cravado e sangrando nos ramos.
(Versão inédita de António Ladeira; o original pode ser lido aqui).
quinta-feira, 24 de março de 2011
Ellery Akers
As duas palavras que são uma prece
Uma coisa sabes quando as dizes:
por toda a terra há gente a dizê-las contigo;
uma criança proferindo-as quando a apreensão a domina,
uma mulher recitando-as sobre um berço num hospital.
E se apanhares um táxi que vá por Tenderloin:
a uma luz vermelha, um homem com um gorro,
fios de lã desenredando-se ao longo do rosto, bate no vidro;
e diz, Por favor.
No momento em que ouves o que ele diz
a luz muda, o táxi afasta-se
e tu não voltas atrás, sabendo contudo
que alguém acabou de te suplicar tal como tu suplicas.
Por favor: duas palavras tão breves
que tanto se podem perder no ar
como flutuarem - como penas que são - até chegarem a Deus,
batendo e batendo, e finalmente
caindo na terra como chuva,
como pepitas de gelo, embebendo um ramo negro,
recolhendo-se nos esgotos, infiltrando-se no solo,
e tu caminhas com este tempo todos os dias.
(Versão minha; o original pode ser lido aqui).
Uma coisa sabes quando as dizes:
por toda a terra há gente a dizê-las contigo;
uma criança proferindo-as quando a apreensão a domina,
uma mulher recitando-as sobre um berço num hospital.
E se apanhares um táxi que vá por Tenderloin:
a uma luz vermelha, um homem com um gorro,
fios de lã desenredando-se ao longo do rosto, bate no vidro;
e diz, Por favor.
No momento em que ouves o que ele diz
a luz muda, o táxi afasta-se
e tu não voltas atrás, sabendo contudo
que alguém acabou de te suplicar tal como tu suplicas.
Por favor: duas palavras tão breves
que tanto se podem perder no ar
como flutuarem - como penas que são - até chegarem a Deus,
batendo e batendo, e finalmente
caindo na terra como chuva,
como pepitas de gelo, embebendo um ramo negro,
recolhendo-se nos esgotos, infiltrando-se no solo,
e tu caminhas com este tempo todos os dias.
(Versão minha; o original pode ser lido aqui).
terça-feira, 22 de março de 2011
domingo, 20 de março de 2011
Louise Glück
Felicidade
Um homem e uma mulher sobre uma cama branca.
É de manhã. Penso
Que acordarão em breve.
Na mesa de cabeceira há uma jarra
com lírios; a luz do sol
inunda as gargantas.
Vejo-o virar-se para ela
como que para dizer o seu nome
mas em silêncio, bem fundo na boca dela -
No parapeito da janela,
uma, duas vezes,
um pássaro lança o seu pedido.
E então ela estremece; o corpo dela
enche-se do ar dele.
Abro os meus olhos; olhas para mim.
Quase sobre este quarto
o sol desliza.
Olha a tua cara, dizes,
e viras para mim o teu rosto
como um espelho.
Estás tão calmo. E a roda ardente
passa suavemente sobre nós.
(Versão inédita de António Ladeira; o original pode ser lido aqui).
Um homem e uma mulher sobre uma cama branca.
É de manhã. Penso
Que acordarão em breve.
Na mesa de cabeceira há uma jarra
com lírios; a luz do sol
inunda as gargantas.
Vejo-o virar-se para ela
como que para dizer o seu nome
mas em silêncio, bem fundo na boca dela -
No parapeito da janela,
uma, duas vezes,
um pássaro lança o seu pedido.
E então ela estremece; o corpo dela
enche-se do ar dele.
Abro os meus olhos; olhas para mim.
Quase sobre este quarto
o sol desliza.
Olha a tua cara, dizes,
e viras para mim o teu rosto
como um espelho.
Estás tão calmo. E a roda ardente
passa suavemente sobre nós.
(Versão inédita de António Ladeira; o original pode ser lido aqui).
sexta-feira, 18 de março de 2011
quarta-feira, 16 de março de 2011
Juan Bonilla
Epitáfio do apaixonado
Se alguém quiser escrever a minha biografia
não há nada mais simples.
À sua disposição tem apenas duas datas:
a do dia em que te conheci
e a daquele em que te foste.
Entre uma e outra decorreu a minha vida.
O que sucedeu antes, esqueci-o.
O que acontece agora, carece já de importância.
(Versão minha; poema incluído em Efectos secundarios - antologia poética, Anaya, Madrid, 2ª edição, 2008, p. 12).
Se alguém quiser escrever a minha biografia
não há nada mais simples.
À sua disposição tem apenas duas datas:
a do dia em que te conheci
e a daquele em que te foste.
Entre uma e outra decorreu a minha vida.
O que sucedeu antes, esqueci-o.
O que acontece agora, carece já de importância.
(Versão minha; poema incluído em Efectos secundarios - antologia poética, Anaya, Madrid, 2ª edição, 2008, p. 12).
terça-feira, 15 de março de 2011
domingo, 13 de março de 2011
W. S. Merwin
A minha mão
Repara como o passado não terminou
aqui no presente
está sempre acordado
nunca à espera
é a minha mão agora mas não o que continha
não é a minha mão mas o que continha
é o que recordo
mas nunca é bem igual
nenhum outro o lembra
uma casa há muito transformada em ar
a vibração de pneus sobre uma estrada de empedrado
luz fria num quarto que desapareceu
o cintilar do papa-figos
entre uma vida e outra
o rio que uma criança viu.
Repara como o passado não terminou
aqui no presente
está sempre acordado
nunca à espera
é a minha mão agora mas não o que continha
não é a minha mão mas o que continha
é o que recordo
mas nunca é bem igual
nenhum outro o lembra
uma casa há muito transformada em ar
a vibração de pneus sobre uma estrada de empedrado
luz fria num quarto que desapareceu
o cintilar do papa-figos
entre uma vida e outra
o rio que uma criança viu.
(Versão inédita de António Ladeira; poema do livro The shadow of Sirius, Copper Canyon Press, Port Townsend, 2009, p 74).
quinta-feira, 10 de março de 2011
Santiago Nuñez Pedregosa
Sempre odiei a subtileza
Voltaste a deixar
as minhas malas à porta
como um conselho subtil
de um bom amigo.
Sinceramente,
preferia ver voar
os jarros chineses da tua mãe.
Sempre odiei a subtileza
e tu sabe-lo.
Não sejas tonta.
No fim de contas
se eu me for
quem é que te trará insegurança.
Voltaste a deixar
as minhas malas à porta
como um conselho subtil
de um bom amigo.
Sinceramente,
preferia ver voar
os jarros chineses da tua mãe.
Sempre odiei a subtileza
e tu sabe-lo.
Não sejas tonta.
No fim de contas
se eu me for
quem é que te trará insegurança.
(Versão minha; poema incluído em Efectos secundários - antologia poética, Anaya, Madrid, 2ª edição, 2008, p. 12).
quarta-feira, 9 de março de 2011
segunda-feira, 7 de março de 2011
Charles Simic
O quarto branco
O óbvio é difícil
De provar. Muitos preferem
O que se esconde. Eu preferi-o, também.
Escutei as árvores.
Tinham um segredo
Que se preparavam
Para me revelar -
E não o fizeram.
Veio o verão. Cada árvore
Na minha rua tinha a sua própria
Scherezade. As minhas noites
Eram parte das suas loucas
Histórias. Entrávamos
Em casas escuras,
Sempre em mais casas escuras,
Caladas e abandonadas.
Havia alguém de olhos fechados
Nos andares de cima.
O medo disso, e a maravilha,
Tiravam-me o sono.
A verdade é nua e fria,
Disse a mulher
Que vestia sempre de branco.
Não saía do seu quarto.
O sol indicou uma ou duas
Coisas que tinham sobrevivido
Intactas, à longa noite.
As coisas mais simples,
Díficeis na sua evidência.
Não faziam ruído.
Era o género de dia
A que as pessoas chamavam 'perfeito'.
Deuses disfarçando-se
De ganchos negros de cabelo, um espelho pequeno,
Um pente a que faltava um dente?
Não! Não era isso.
Apenas as coisas tais como eram,
Sem pestanejarem, ali deitadas, mudas
Naquela luz branca -
E as árvores à espera da noite.
(Versão inédita de António Ladeira; o original pode ser lido aqui; há, ainda, um pequeno filme de Noush Anand sobre a primeira estrofe do poema, que se pode ver aqui).
O óbvio é difícil
De provar. Muitos preferem
O que se esconde. Eu preferi-o, também.
Escutei as árvores.
Tinham um segredo
Que se preparavam
Para me revelar -
E não o fizeram.
Veio o verão. Cada árvore
Na minha rua tinha a sua própria
Scherezade. As minhas noites
Eram parte das suas loucas
Histórias. Entrávamos
Em casas escuras,
Sempre em mais casas escuras,
Caladas e abandonadas.
Havia alguém de olhos fechados
Nos andares de cima.
O medo disso, e a maravilha,
Tiravam-me o sono.
A verdade é nua e fria,
Disse a mulher
Que vestia sempre de branco.
Não saía do seu quarto.
O sol indicou uma ou duas
Coisas que tinham sobrevivido
Intactas, à longa noite.
As coisas mais simples,
Díficeis na sua evidência.
Não faziam ruído.
Era o género de dia
A que as pessoas chamavam 'perfeito'.
Deuses disfarçando-se
De ganchos negros de cabelo, um espelho pequeno,
Um pente a que faltava um dente?
Não! Não era isso.
Apenas as coisas tais como eram,
Sem pestanejarem, ali deitadas, mudas
Naquela luz branca -
E as árvores à espera da noite.
(Versão inédita de António Ladeira; o original pode ser lido aqui; há, ainda, um pequeno filme de Noush Anand sobre a primeira estrofe do poema, que se pode ver aqui).
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