quarta-feira, 22 de junho de 2011

Thomas Lux

Como Montezuma alimentou Cortés e os seus homens



Tamales, gostam de tamales,
coisa nova para eles (milho), ensopados em mel,
ou com pimentos
servidos em pratos de louça vermelha ou preta;
e coco com mel
em cabaças pintadas: eles eram deuses, e este
foi o pequeno-almoço, às 10 da manhã. O almoço
foi ao início da tarde, no período mais quente - Montezuma
e os seus mais numerosos rapazes (muitos
milhares) comeram bolos de milho, feijões, tomates
mas Cortés e os seus 500
para além disso tiveram
carne de veado, de cão, perú, montes de perú, faisão,
perdiz, porco do mato, iguanas, toda a espécie de patos
do Lago Texcoco.
Também lhes foram apresentados
mas não gostaram - eram deuses! - cardos, ratos
com molho, salamandras, larvas de mosca
de água, girinos, formigas, vermes de piteira.
Gostaram: de ovos de salamandra (um esquivo
gosto europeu) e de pequenas porções de espuma do lago (que
sabiam a queijo Manchego).
Nas crónicas não se faz menção
a que peyote ou cogumelos tenham sido oferecidos,
talvez porque Montezuma e os seus sacerdotes
os tenham comido todos
o que ajudará
a explicar por que pensaram que Cortés era um deus.
Depois do almoço, toda a gente - e até mais tarde,
quando começaram os combates - dormiu uma sesta.
O jantar foi tardio - aí pelas 9, 10, 11, tinha arrefecido
e a comida foi mais ou menos a mesma do almoço.
Não é preciso dizer-vos nada sobre setas e pedras,
arcabuzes e espadas.
Ou sobre cavalos.
Não é preciso dizer-vos nada sobre aposentos repletos de ouro.
Eles eram deuses
e estavam esfomeados, sempre esfomeados,
e a sua chegada tinha sido profetizada,
navegando vindos do leste
sobre o dorso de grandes aves marinhas,
navegando até chegarem a um velho mundo que designaram como novo
num dia cheio de sol e de luz
na primavera de 1519.



(Versão minha; poema incluído em New and selected poems - 1975/1995, Hougton Mifflin Company, Boston/Nova Iorque, 1997, pp. 16-17).

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Mark Strand

Mãe e filho



O filho entra no quarto da mãe
e fica junto à cama onde ela está deitada.
O filho acredita que ela quer dizer-lhe
o que ele anseia ouvir - que ele é o seu menino,
será sempre o seu menino. O filho inclina-se
para beijar os lábios da mãe, mas os lábios estão frios.
Começou o enterro dos sentimentos. O filho
toca as mãos da mãe pela última vez,
depois vira-se e vê a lua cheia.
Uma luz de cinza cruza o chão.
Se a lua pudesse falar, o que diria?
Se a lua pudesse falar, não diria nada.



(Versão minha a partir do original e da tradução castelhana de Dámaso López García reproduzidos em  Hombre y camello, Visor, Madrid, 2010, pp. 58-59).

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Li Ye (?-784)

Oito superlativos



O mais próximo e o mais distante:
O oriente e o ocidente.
O mais profundo e o menos fundo:
Regato cristalino.
Os mais altos e os mais resplandecentes:
O sol e a lua.
Os que mais se amam e os que mais se desamam:
Marido e mulher.



(Versão minha a partir da tradução para castelhano de Guojian Chen (?) incluída em Antología de poetas prostitutas chinas (Siglo V - Siglo XXI), Visor, Madrid, 2010, p. 26).

terça-feira, 14 de junho de 2011

Milan Rúfus

Destino



A cabeça vendada
de Guillaume Apollinaire
inventa um poema.
Esquecidos do corpo
seguiamos-te, destino.
E o espinho na planta do pé
não o sentíamos. O calo na palma da mão
era parte dela como um sexto dedo, e sem ele
não era nossa.

Assim se enrosca o corpo,
adapta-se. Como uma ferradura
dobram-nos à medida
do inapreensível.

E nós pedimo-lo.
August Renoir
amarra-se ao pincel:
um instante mais, Senhor,
ata-nos mesmo que seja à cauda
do cavalo de Tróia.



(Versão minha a partir da tradução de Alejandro Hermida de Blas incluída em Campanas, edição bilingue eslovaco-espanhol, La Poesía, señor hidalgo, Barcelona, 2003, p. 121).

domingo, 12 de junho de 2011

Juan Bonilla

Última imagem da destruição

William Carlos Williams



Estava muito frio
no dia em que enterrámos a gata

apanhámos o caixote onde dormia
e pegámos-lhe fogo
no pátio traseiro da casa

fugindo das chamas algumas pulgas
atiraram-se ao chão
morreram congeladas



(Versão minha; poema incluído em Defensa personal - Antología poética (1992-2006), Prólogo de Miguel Albero, Renacimiento, Sevillha, 2009, p. 143).

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Karmelo C. Iribarren

Por amor



Quis fazer-te mal
muitas vezes. Golpear-te,
enfurecer-me contigo,
fazer uso da famosa
crueldade mental
até te ver chorar, rir
como uma histérica.
Desejei-te muitas vezes o pior,
o mais baixo, o mais cruel,
o mais rasteiro e sujo
que um homem pode desejar
a uma mulher. E só por amor.



(Versão minha; poema incluído em Seguro que esta historia te suena - Poesía completa (1985-2005), Renacimiento, Sevilha, 2005, p. 147).

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Ahmad Shamlú

Da morte


Nunca tive medo da morte.
As suas mãos são mais frágeis do que a vulgaridade.
De todos os modos o meu temor
é morrer numa terra
onde o salário de um coveiro
é mais elevado do que a liberdade de um homem.

Procurar,
encontrar
e de imediato
escolher livremente
e construir uma torre
da natureza de si mesmo.

Se a morte tivesse mais valor do que tudo isto
juro que jamais fugiria dela.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Nazanín Amirián, adaptada por Ferran Fernández e incluída em El viento nos llevará. Poesía persa contemporánea, Los Libros de la Frontera, 2ª edição, corrigida, Barcelona, 2006, p. 90).

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Mark Strand

Fogueira


Às vezes havia uma fogueira e eu entrava nela
e dela saía ileso e seguia o meu caminho,
e para mim era apenas outra coisa que tinha feito.
Quanto a apagar a fogueira, isso deixava para outros
que se apressavam sobre o fumo revolto com vassouras
e mantas para sufocar as chamas. Quando terminavam,
juntavam-se confusamente para falar do que tinham visto -
da sorte que tinham por terem testemunhado o fulgor do calor,
o efeito silenciador das cinzas e, ainda mais, o terem conhecido a fragrância
do papel queimado, o som das palavras a exalar o último suspiro.



(Versão minha a partir do original e da tradução castelhana de Dámaso López García reproduzidos em Hombre y camello - poemas, Visor Libros, Madrid, 2010, pp. 36-37).

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Ahmad Shamlú

Amor



O amor cria amor
o amor cria vida
a vida cria sofrimentos
os sofrimentos criam inquietações
as inquietações criam coragem
a coragem cria confiança
a confiança cria esperança
a esperança cria vida
a vida cria amor
o amor cria amor.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Nazanín Amirián, adaptada por Ferran Fernández e incluída em El viento nos llevará. Poesía persa contemporánea, Los Libros de la Frontera, 2ª edição, corrigida, Barcelona, 2006, p. 88).

domingo, 29 de maio de 2011

Juan Bonilla

uma imagem de cummings



uma imagem de cummings
não me deixa dormir

a vida é um velho que caminha
com a cabeça cheia de flores

a quem leva flores esse velho?

talvez a quem não foi capaz de ser
o primeiro da turma
ou o soldado heróico
ou o homem que jogou uma partida com o campeão do mundo de xadrez
o activista político
ou aquele que se apaixonou por Gabriela Sabatini

cruza-se com os túmulos
onde estão incritos os nomes do que não existe
deposita as flores frescas de luz e sangue
que leva à cabeça

escuta os latidos do futuro
que ficou já para trás

e segue até ao seu túmulo, o real

todo o passado sempre à sua frente



(Versão minha; poema do livro Cháchara, Renacimiento, 2010, pp. 55-56; talvez seja interessante confrontar este poema com o de cummings que explicitamente o desencadeia).

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Sons de uma noite de primavera

(The National: Campo Pequeno: Lisboa: 24 de Maio de 2011: fotos: Cristina P.)

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Forugh Farrokhzad

Oferenda


Eu falo da profundidade da noite,
da escuridão abissal.

Se vieres a minha casa, amor,
traz-me luz.
E uma janela para que eu possa ver
a felicidade daquela rua repleta.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Nazanín Amirián, adaptada por Ferran Fernández e reproduzida em El viento nos llevará. Poesía persa contemporánea, Los Libros de la Frontera, 2ª edição, corrigida, Barcelona, 2006, p. 73).

terça-feira, 24 de maio de 2011

Juan Bonilla

O viajante



Ali de onde venho ninguém me retinha.
Sei que ninguém me espera aí para onde vou.

Pela janela desfilam imóveis as paisagens.
Seria maravilhoso não chegar a sítio nenhum.

Permanecer assim:
viajando de um lugar que já não existe
para outro que nunca existirá.



(Versão minha; poema incluído em Defensa personal (Antología poética 1992-2006), prólogo de Miguel Albero, Ranacimiento, Sevilha, 2009, p. 155).

domingo, 22 de maio de 2011

Ricardo Castro Ferreira

Sic transit...



























(Óleo sobre papel, 2011)

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Hafid Gafaïti (5)

Última fonte



longe
à sombra dos camelos
para beber
o último nómada
recolhe as lágrimas das estrelas



(Versão inédita de António Ladeira; poema incluído no livro La tentation du désert / The temptation of the desert, L ' Harmattan, Paris, 2008, p. 98)

terça-feira, 17 de maio de 2011

David Ignatow

Ao que chegam as coisas



Não sei qual devo lamentar. Ambos morreram para mim, a minha mulher e
o meu carro. Sinto-me muito em baixo por causa do meu carro, mas também
estou bastante afectado por causa da minha mulher. Sem o meu carro, não
posso sair de casa para evitar a solidão. A minha mulher deu-me dois
filhos, os quais, é claro,
já não viviam connosco, tal como se previa, tal como nós na nossa juventude
deixámos para trás os nossos pais. Com o meu carro, eu podia visitar os meus filhos
quando não estivessem demasiadamente ocupados.

Antes de morrer a minha mulher encorajou-me a encontrar outra mulher. É um conselho
que gostaria de seguir, mas não sem um carro. Sem um carro, não consigo
encontrar-me com outra mulher. É ao que chegam as coisas.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems for hard times, selecção e introdução de Garrison Keilor, Viking, Nova Iorque, 2005, p. 244)

domingo, 15 de maio de 2011

Ricardo Castro Ferreira

Homenagem a Goya






















(Óleo sobre papel, 2011 - colecção particular)

sábado, 14 de maio de 2011

Hafid Gafaïti (4)

A sul do sul



no deserto
o tempo é um luxo
só espinhos e cactos
rompendo a cada raio

dormi na casa da estrangeira
a que se vestia de âmbar e almíscar
recusa a luz da sua vela
o perfume da sua pele

desde a morte da cidade existe uma regra
a que até os rebeldes obedecem
não mentir à mulher
que aprisiona areia em sua casa



(Versão inédita de António Ladeira; poema do livro La tentation du désert / The temptation of the desert, L' Harmattan, Paris, 2008, p. 64).

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Mark Strand

Fui um explorador polar



Na minha juventude fui um explorador polar
e passei noites e dias incontáveis gelando
de lugar vazio em lugar vazio. Por fim,
deixei de viajar e fiquei em casa,
aí cresceu em mim um repentino excesso de desejo,
como se me tivesse atravessado um resplandecente
feixe de luz daqueles que se vêem no interior de um diamante.
Enchi páginas e páginas com as visões que havia testemunhado -
os rugidos do gelo no mar, glaciares gigantes, o branco dos icebergues
chicoteado pelo vento. Então, sem nada mais para dizer, parei
e dirigi a minha atenção para o que me estava próximo. Quase ao mesmo
[tempo,
um homem de casaco negro e chapéu de aba larga
apareceu entre as árvores em frente à minha casa.
A forma como olhou a direito e ficou quieto,
sem se mover minimamente, os braços estendidos
ao longo do corpo, fizeram-me pensar que o conhecia.
Mas quando levantei a mão para o cumprimentar,
ele deu um passo atrás, voltou-se, e começou a desaparecer
como uma ânsia desaparece até que nada sobre dela.



(Versão minha a partir do original e da tradução castelhana de Dámaso López Garcia, reproduzidos em Hombre y camello - poemas, Visor Libros, Madrid, 2010, pp. 26-27)

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Ricardo Castro Ferreira

Melanchton









































































(Óleo sobre papel, 2011)

terça-feira, 3 de maio de 2011

Hafid Gafaïti (3)

Areia e neve



de madrugada
enxame de pássaros
polvilhado de estrelas

à tarde
homem do sul
em terras brancas

ambos
gratos
de luz e júbilo



(Versão inédita de António Ladeira; poema do livro La tentation du désert / The temptation of the desert, L'Harmattan, Paris, 2008, p. 106)

domingo, 1 de maio de 2011

Juan Bonilla

Uivo



Eu vi os melhores da minha geração
destruídos pela ânsia de ganhar muito dinheiro.
Poetas conformando-se com letras de canção,
pintores desenhando sapatos para o estrangeiro.

O nosso Truman Capote aprendeu a lição
e emprega o seu talento de ávido comentador
num programa estúpido de televisão.
Mas tem um chalé, dez noivas, cem admiradores.

Quem estava destinado a fazer grande arte
ganha milhões com sloganes baratos.
O vanguardista exímio escreve em toda a parte.*

E o artista rebelde que viveu numa gruta
decidiu atraiçoar-se, farto de maus tratos.
Dedica-se ao mesmo que os outros: é puta.



(Versão minha; original incluído em Defensa personal (Antología poética 1992-2006), prólogo de Miguel Albero, Ranacimiento, Sevilha, 2009, p. 68)

*Variante: "Quem estava destinado a fazer a grande novela / ganha milhões com sloganes baratos. / O vanguardista exímio escreveu uma sequela."

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Ricardo Castro Ferreira

O retiro pelo risco


(Acrílico sobre papel, 2011)

terça-feira, 26 de abril de 2011

Hafid Gafaïti (2)

Nova partida



de manhã depois de pão e chá
não são necessárias palavras
armados de paciência e dúvida
desposamos a costa de novo

passamos Tamanrasset
marcha fatigada
olhares na distância
nunca termina o grito

perseguimos ecos
tendas nómadas rios secos
até turbilhões e sementes
nos perderem para sempre



(Versão inédita de António Ladeira; poema do livro La tentation du désert / The temptation of the desert, L' Harmattan, Paris, 2008, p. 66).

domingo, 24 de abril de 2011

Jüri Talvet

Breve carta para Álvaro de Campos



O que é a realidade? Apenas um monte de ossos. Por isso há
que construir, só por isso há que construir com argamassa
feita de cinza e madrugada, imaginações, paredes que falem
para uma casa em que talvez um dia se aloje uma rapariga.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Albert Lázaro-Tinaut e revista pelo autor incluída em Del sueño, de la nieve (Antología 2001-2009), Olifante, edição bilingue estónio-castelhana, Saragoça, 2010, p. 33).

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Ricardo Castro Ferreira

Comunicação de ausência



























(Acrílico sobre papel, 2011)

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Hafid Gafaïti (1)

Da necessidade de continuar argelino



Nasci em berbere
Sinto em árabe
Penso em francês
Trabalho em inglês
Canto em espanhol
Recordo em latim
Transmito em grego
Partilho em hebraico
Questiono em sânscrito
Espero em americano
Sento-me em zen
Comunico em não-dito

Falo todas as línguas
Rio-me com todas as vozes
Sangro em silêncio
Amo em cada palavra

concebida Múltipla
Vivo em argelino
Morro em humano



(Versão inédita de António Ladeira; poema do livro La gorge tranchée du soleil / The slit throat of the sun, L' Harmattan, Paris, 2006, p. 82.
Hafid Gafaïti nasceu na Argélia, onde, durante a guerra civil (anos 90), foi membro do movimento democrático de oposição quer ao regime militar, quer ao partido islamita. Foi membro fundador da secção argelina da Aministia Internacional, tal como membro activo do movimento feminista. Como intelectual e crítico que colaborava sobretudo com dissidentes políticos, escritores e poetas (todos na "lista da morte" das forças anti-democráticas), Hafid foi considerado um inimigo tanto do governo como da insurreição islâmica.
Estudou e leccionou em múltiplas universidades na Argélia, Inglaterra e Estados Unidos. Hafid Gaifaïti é actualmente professor de literaturas francófonas na Texas Tech University. Publicou numerosos livros de ensaios e de crítica literária e, desde 2006, editou três livros de poesia. O poema aqui apresentado é o primeiro de um conjunto que será publicado neste blogue. Segundo sabemos, é o primeiro poema do autor passado para português. Ao poeta, por ter autorizado a publicação do poema, e a António Ladeira pela tradução - e por tudo mais - o nosso agradecimento).

sábado, 9 de abril de 2011

Robert Bly

É tarde e conduzo até à cidade para pôr uma carta no correio



A noite está fria e neva. A rua principal está deserta.
As únicas coisas que se mexem são remoinhos de neve.
Ao levantar a tampa da caixa do correio, sinto o seu metal gelado.
Há um isolamento que eu amo nesta noite nevada.
Andando às voltas poderei demorar-me um pouco mais.



(Versão minha; o original surge em Good poems for hard times, selecção e introdução de Garrison Keillor, Viking, Nova Iorque, 2005, p. 253)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Ricardo Castro Ferreira

O corpo da pintura




















(Óleo sobre papel, 2010 - colecção particular)

segunda-feira, 4 de abril de 2011

W. S. Merwin

Ar



Naturalmente é de noite.
Sob o alaúde virado com a sua
Única corda eu sigo o meu caminho
O qual tem um som estranho.

Pó aqui, pó daquele lado.
Escuto os dois lados
Mas prossigo.
Lembro-me das folhas
Paradas nas suas deliberações
E depois o inverno.

Lembro-me da chuva com o seu feixe de estradas.
A chuva conduzindo todas as suas ruas.
A lugar algum.

Jovem como eu, velha como eu.

Esqueço o amanhã, o homem cego.
Esqueço a vida entre janelas enterradas.
O olhar das cortinas.
A parede
Crescendo entre as perpétuas.
Esqueço o silêncio
O autor do sorriso.

Isto deve ser o que eu quis fazer.
Caminhar de noite entre os dois desertos,
Cantando.



(Versão inédita de António Ladeira; o original pode ser lido aqui).