domingo, 25 de setembro de 2011

Amal Al-Jaburi

Protesto



Por que o censuras
e o mandas embora?
E porque o amaldiçoas?
Ajoelhar-se não é digno de Adão.

Adão, tu que arruinaste a minha vida...
Escuta: um dia, em sinal de arrependimento, o Senhor
vai revogar
a Sua decisão.
Como é que Ele pôde conceber-te como o guardião
o profeta
o assassino
o chefe
o senhor e o escravo
o pai e o filho?
E tu,
tu não és mais
do que um par de botas estragadas.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Salih J. Altoma reproduzida em The poetry of arab women - A contemporary anthology, organização de Nathalie Handal, Interlink Books, Nova Iorque/Northampton, 2001, p. 135).

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Etel Adnan

A primavera floresce à sua maneira



Uma borboleta vem morrer
entre duas pedras
aos pés da montanha
a montanha derrama sombras
sobre ela
para esconder o segredo da
morte.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Addelwahab M. Elmessiri reproduzida em The poetry of arab women - A contemporary anhthology, organização de Nathalie Handal, Interlink Books, Nova Iorque/Northampton, 2001, p. 75).

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Lamea Abbas Amara

Os mandamentos



Segundo a lei todos os nãos transformam-se em sins.
Não mintas.
Mente!
Mas insiste nisso
regista-o
dá-lhe corpo e olhos.
Não roubes.
Rouba, mas sê inteligente
e generoso
com os pobres.
Não cometas adultério.
Casa-te, divorcia-te, casa-te, etc.
Tem cuidado com os males da sociedade.
Atribui as culpas ao diabo e às tuas fraquezas.
Não mates.
Mata, mas quando não houver testemunhas.
Ou começa uma guerra,
pois o assassínio no glorioso campo de batalha é eterno.
Não levantes falsos testemunhos.
Fá-lo.
Não roubes.
Rouba, saqueia, assassina
enquanto houver juristas.
Desculpa-me.
Isto é injusto.
Nós defendemos a justiça através da aplicação da lei.
Justiça?!!
Onde está a justiça
quando cada caso tem dois advogados?
E cada moeda duas faces
tal como a justiça,
tal como a liberdade.




(Versão minha a partir da tradução inglesa de Mike Maggio reproduzida em The poetry of arab women - A contemporary anthology, organização de Nathalie Handal, Interlink Books, Nova Iorque/Northampton, 2001, pp. 80-81).

sábado, 17 de setembro de 2011

Elena Fanailova

O álbum de Frida Kahlo



(Pálida) Frida senta-se com uma touca, senta-se junto à tela,
Uma saia rendada, avental, brincos, tranças em espiral,
A morte na sua mão esquerda, Diego decapitado na direita,
Um cordão umbilical liga-os, as veias, os filamentos que parecem cabos eléctricos,
Uma bola de cristal suspensa por um fio mais atrás
Mostrando céus, aposentos, pessoas, um oceano,
O seu coração pára, pulsa na garganta,
A erva cobriu-lhe a cama,
Frida senta-se nela como um ídolo de pedra.
No ar paira uma Mãe de Deus, uma Frida crucificada jaz num berço,
Uma Frida crucificada estende-se ali
Diego está com Paulette Goddard
Frida senta-se como uma rainha, xailes, pregadeiras, flores no cabelo,
Reparem nas suas lágrimas, nas medalhas, pulseiras, contas, bordados, fitas, pendentes, franjas,
Bonecas mortas deitadas ao seu lado, imagens (retratos) de líderes
penduradas na cabeceira da cama,
Frida senta-se ali sustentada por aduelas, coberta de crostas,
A erva cobre-lhe a cama
A erva emerge da sua cabeça
Diego está com María Felix
Frida está vestida como um rapazinho, vejam os cigarros,
as pedras, os cristais, pedacinhos de mica,
O seu macaco abraça-a, os seus papagaios, mulheres afogando-se no ar,
Estrelas nas suas orelhas, espelhos no jardim, laços,
Cadáveres, corças, estranhas raças de cães,
O falecido Príncipe Dimas
Anjos ceifados pelo coração,
perfurados através do peito dela
Frida está com Lucienne Bloch
Frida está com Eva Frederick
Frida está em casa com a sua mulher Lupe Marín
Frida está num berço, Diego está de luto,
reparem nas cartas, casamento,
casa-que-mente,
Há duas Fridas, Fridas duas há



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Stephanie Sandler reproduzida em An anthology of contemporary russian women poets, selecção de Valentina Polukhina e Daniel Weissbort, University of Iowa, Iowa City, 2005, pp.37-38).


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Marina Boroditskaya

Carta musical



Olá, Senhor!
Escreve-te
um poeta menor,
uma voz do coro,
um pequeno pinheiro do pinhal,
um clarinete na orquestra da escola.

Achas que é assim tão
fácil, Senhor,
ser uma voz no coro,
um peixe na água,
não perturbar a Tua ordem?
Pior, porém, é o destino gelado
desses que foram feitos para serem
o primeiro violino
ou o pico mais alto da montanha.

A nós não nos custa nada afundar,
ano sim ano sim, dia após dia,
as nossas raízes no mais fundo
e praticar as nossas escalas
esperando que o maestro,
posicionado no seu lugar,
aponte a sua batuta -
então um solo sublime começa a soar
levando às lágrimas as próprias montanhas.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Ruth Fainlight reproduzida em An anthology of contemporary russian women poets, selecção de Valentina Polukhina e Daniel Weissbort, University of Iowa Press, Iowa Press, 2005, pp. 19-20).

domingo, 11 de setembro de 2011

Inna Kabish

Fazer compota em julho



Uma mulher a fazer compota em julho
revela-se resignada a viver com o marido.
Não vai fugir às escondidas com o amante.
Se assim não fosse, de que serviria cozer fruta com açúcar?
E vejam como ela o faz de boa vontade,
como um trabalho feito com amor,
mesmo que o espaço tenha um valor excessivo
e não haja sítio para armazenar os boiões.

Uma mulher a fazer compota em julho
está a preparar-se para ficar por aqui durante uns tempos.
Pretende aquartelar-se e hibernar
para atravessar os desconfortos do inverno.
Se assim não fosse, por que razão - e, notem,
sem que haja nisso qualquer dever -
gastaria ela o verão tão breve
a limpar restos de compota.

Uma mulher a fazer compota em julho
no meio do caos de uma cozinha cheia de vapor
não se está a preparar para fugir para o Ocidente
ou para comprar um bilhete para os EUA.
Essa mulher há-de escapar aos desmoronamentos da neve
salva pelo sabor da fruta.
Na Rússia quem faz compotas
sabe que não há saída.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Fay Marshall e Alex Marshall reproduzida em An anthology of contemporary russian womem poets, selecção de Valentina Polukhina e Daniel Weissbort, University of Iowa Press, Iowa City, 2005, p. 69).

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Olga Ivanova

Encontro-me comigo todos e cada dia...



Encontro-me comigo todos e cada dia
Nunca me deixo só a mim mesma
Não fico nem um segundo longe da minha vista
Por isso não consigo simplesmente entender
O que pode ter acontecido
A este rosto
Que me responde olhando-me fixamente
De velhas fotografias



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Jenefer Coates reproduzida em An anthology of contemporary russian women poets, selecção de Valentina Polukhina e Daniel Weissbort, University of Iowa, Iowa City, 2005, p. 66).

domingo, 4 de setembro de 2011

Gali-Dana Zinger

Lamentação do guarda-fronteiriço



Eu não quero ser um guarda-fronteiriço, disse o guarda-fronteiriço.
Não quero ser um guarda-costas.
Não quero ser um anjo-da-guarda.
Não quero ser um guia.
Não quero ser um gravador.
Não quero ser uma granada.
Não quero ser uma garantia.
Não quero ser um galão de enfeitar.
Mas a minha própria má consciência guarda-me e agarra-me
e aqui estou, de guarda, no meu jardim octogonal.

Eu não quero ser vigia, respondeu o vigia.
Não quero ser um guarda.
Não quero ser um guarda dos guardas.
Mas a minha própria má consciência vigia-me e prende-me
e aqui estou, só, vagando ao vento.

Eu sou aquele que guarda a porta, observou o porteiro.
Mas ninguém me perguntou
qual era a minha vontade.



(Versão minha a partir da tradução inglesa da autora e revista por Ashraf Noor reproduzida em An anthology of contemporary russian women poets, selecção de Valentina Polukhina e Daniel Weissbort, University of Iowa Press, Iowa City, 2005, pp. 199-200)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Jane Kenyon

Biscoito



O cão limpou a tigela
e a sua recompensa é um biscoito,
que ponho na sua boca
como um padre oferece a hóstia.

Não consigo suportar esta expressão confiante!
Ele pede pão, espera
pão e eu, com o meu poder,
poderia ter-lhe dado uma pedra.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Marina Boroditskaya

[Tanta gentileza vinda de homens desconhecidos...]



Tanta gentileza vinda de homens desconhecidos
por nenhuma razão especial.
Uma vez em Paris um empregado de mesa virou-se para mim: "Chérie!
Não se esqueça dos cigarros."

E num mercado de Londres, quando
quis comprar um disco dos Beatles,
o vendedor suspirou: "Que posso eu fazer, love,
se o preço voltar a subir?"

No aeroporto de Nova Iorque um negro velho
guiou-me até à porta certa dizendo:
"Nada de pânicos, baby, vem comigo!"
E eu segui atrás dele.

Tanta amabilidade vinda de homens desconhecidos!
Por que raio havia eu de precisar de mais?
Descansa em paz na tua ostra, pérola.
Sossega, Lua, lá nos céus.



(Versão minha a partir da tradução de Ruth Fainlight reproduzida em An anthology of contemporary russian women poets, selecção de Valentina Polukhina e Daniel Weissbort, University of Iowa Press, Iowa City, 2005, pp. 19-20).

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Juan Antonio González Iglesias

Arte de traduzir



Devemos celebrar as traduções felizes.
Como o Précis de décomposition
de Cioran, convertido
em Breviário de apodrecimento.
Em momentos de máxima insegurança cultural
a arte de traduzir ergue-se
como última forma de conhecimento.
Agora que a torre da história
sofre assédios que podem ser os definitivos
temos de recorrer aos especialistas
e aos que traduzem
sem precipitação e com audácia
intuindo o sentido final dos escritos.
Para compreender tudo
o que se passa nestes anos,
basta este livro
de Arnaldo Momigliano
que trata de uma outra época:
The Alien Wisdom, que alguém traduziu
de forma tão bela por A sabedoria
dos bárbaros.



(Versão minha; poema incluído em Del lado del amor - Poesía reunida (1994-2009), prólogo de Guillermo Carnero, Visor, Madrid, 2010, p. 309).

domingo, 24 de julho de 2011

Karin Gottshall

Terramoto



Quando te digo que desperdicei a minha infância
no mar deves ter bem presente
que eu posso ser uma narradora pouco fiável.

Quando afirmo que passei um ano
na academia militar, disfarçada de rapaz,
não acredites - ainda que seja verdade.

Todas as manhãs puxávamos o brilho às botas
- até ficarem esplendorosamente lustrosas - e corríamos pelos bosques
de abetos carregando espingardas vazias. Quando te digo

que adoro vinho branco é a mais pura das verdades.
Tal como o facto da minha mãe
ter sido pintora e o meu pai violoncelista -

ou físico. Confundo os dois.
E também fico confusa com o peso
relativo da minha solidão: parece tão pesada,

mas onde está ela? Sabes que sobrevivi
a um naufrágio? Que fiquei só
e vivi muito tempo numa ilha? Isto

explica certamente esta cicatriz em forma de anzol,
meu amor de sal. Não pedi ajuda
para suportar tais fardos. O terramoto agitou,

abalou os alicerces do edifício
e as varas da cama balançaram como
mastros. Largámos amarras. Todas as minhas mentiras

são tal e qual: viajam para tão longe
que vão além do horizonte e depois, por fim,
regressam: meu ente querido, enjoado do mar, há muito perdido.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Liu Chaichun (Século IX)

Esperando o regresso do meu marido
- Segundo a melodia "Luohongqu" - V



O dia de hoje substitui o de ontem
e o presente ano o que já é passado.
O rio Amarelo, que dizem ser sempre turvo,
um dia será claro.
Mas nunca voltarão a ser negros
os meus cabelos já brancos.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Guojian Chen reproduzida na Antología de poetas prostitutas chinas (Siglo V - Siglo XXI), Visor, Madrid, 2010, p. 74).

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Diego Ropero-Regidor

Confesso que não vivi



O vento solta o perfume ressequido
das rosas. Cheira a terra.
O assobio das raízes contrai
as últimas gotas de orvalho.
Vivo no meio de uma lagoa.
Sinto saudades da lentidão do caracol.
Confesso que consegui evitar a aridez
que o desamor me impôs.



(Versão minha e de Ricardo Castro Ferreira; poema publicado em Isla de Siltolá - Revista de Poesía, nº 4, Ediciones de La Isla de Siltolá, Sevilha, 2011, p. 17).

sábado, 16 de julho de 2011

Roger McGough

Cinco truques para te ajudar a atravessar uma floresta negra em segurança noite dentro



1. Assobia uma melodia que o teu pai tenha assobiado quando eras criança

2. Cruza os dois primeiros dedos da tua mão esquerda

3. Se perderes de vista a lua guarda-a na retina da tua mente

4. Imagina as cores que te cercam quando esperas o primeiro beijo da manhã

5. Traz uma Kalashnikov no porta-luvas.




(Versão minha; poema incluído em The state of poetry, Londres, Peguin, 2005, p. 11).

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Juan Antonio González Iglesias

Ai dos que propõem a vida como uma operação incessante de conhecimento



Ai dos que propõem a vida como uma operação incessante de conhecimento.
Os que pretendem impor-nos o seu excesso e a sua tristeza.
Os que não se detêm.
Não há assunto incessante que não se chame vida
ou simplesmente amor.
Nijinski disse algo muito parecido com isto:
As pessoas que pensam demasiado
acabam a escrever
coisas absurdas sobre a beleza.



(Versão minha; poema incluído em Del lado del amor - Poesía reunida (1994-2009); prólogo de Guillermo Carnero, Visor, Madrid, 2010, p. 172).

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Liu Chaichun (Século IX)

Esperando o regresso do meu marido
- Segundo a melodia "Luohongqu"



Naquele ano, quando nos despedimos,
disseste-me que ias a Tong Lu.
Mas lá ninguém te encontra.
Hoje recebi uma carta
que me enviaste de Cantão,
cidade muito mais distante.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Guojian Chen reproduzida na Antología de poetas prostitutas chinas (Siglo V - Siglo XXI), Visor, Madrid, 2010, p. 70).

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Xue Tao (768 - 862)

Contemplação primaveril



Lamento que, quando se abrem as flores,
não as possamos contemplar juntos.
Quando caem, partilhamos as penas,
mas em lugares diferentes.
Alguém pergunta-me:
- Que tempo te provoca
mais sofrimentos de amor?
Eis a minha resposta:
os dias em que se abrem as flores
e também aqueles em que tombam por terra.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Guojian Chen reproduzida em Antología de poetas prostitutas chinas (Siglo V - Siglo XXI), Visor, Madrid, 2010, p. 34).

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Jack Agüeros

O New York Times realizou um pequeno filme sobre Jack Agüeros, poeta nova-iorquino que sofre da doença de Alzheimer e que perdeu a capacidade de ler, escrever e lembrar:

terça-feira, 5 de julho de 2011

Mark Strand

Dois cavalos



Numa noite quente de junho
fui ao lago, pus-me de quatro,
e bebi como um animal. Dois cavalos
aproximaram-se e, ao meu lado, beberam também.
Isto é incrível, pensei, mas quem irá acreditar?
Os cavalos olhavam-me de quando em quando, resfolgando
e saudando com a cabeça. Senti necessidade de responder, por isso também
[eu resfolguei,
mas titubeando, como se não quisesse ser verdadeiramente ouvido.
Os cavalos devem ter sentido que eu me retraía.
Afastaram-se um pouco. Então pensei que talvez me tivessem conhecido
numa outra vida - aquela em que fui poeta.
Podem inclusivamente ter lido os meus poemas, pois, então,
naquele tempo sombrio em que a nossa avidez não conhecia limites,
mudávamos de estilo quase tantas vezes como há dias no ano.



(Versão minha a partir do original e da tradução de Dámaso López García reproduzidos em Hombre y camello - poemas, Visor, Madrid, 2010, pp. 28-29).

sábado, 2 de julho de 2011

Karin Gottshall

Mais mentiras



Às vezes digo que me vou encontrar com a minha irmã no café -
mesmo não tendo qualquer irmã - só porque é uma coisa
linda de se dizer. Tenho pensado nisto desde que

li um romance no qual duas irmãs estavam sempre a encontrar-se
em cafés. Hoje, por exemplo, caminhei sozinha
pelo passeio, com as minhas botas para a chuva, esperando

que alguém me perguntasse para onde me dirigia. Comprei
um bloco de notas e uma pilha para o relógio, as montras da loja
estavam embaciadas. Chuva em Abril é uma espécie de promessa, e

gratuita. Levei um saco com livros para o café e pedi
chá. Gosto de sítios iluminados por lâmpadas. Gosto de sítios
onde se pode ouvir as pessoas a falarem de coisas sem imporância,

como a diferença entre o azul-celeste e o azul-cerúleo,
ou o preço das tulipas. Que está a descer. Reparei
em alguém que podia ser minha irmã a entrar, e a sacudir a chuva

dos cabelos. Pensei, mesmo agora as floristas estão a encher
as estantes frigoríficas com tulipas, a cinco dólares o molho. Por toda
a cidade há irmãs.Qualquer uma delas poderia ser a minha.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Bernardo Atxaga

O ouriço



O ouriço desperta por fim no seu ninho de folhas secas,
e vêm-lhe à memória todas as palavras da sua língua,
que, contados os verbos, são pouco mais ou menos vinte sete.

Então pensa: O inverno terminou,
Sou um ouriço, Duas águias voam sobre mim;
Rã, Caracol, Aranha, Verme, Insecto,
Em que parte da montanha vos escondeis?
Aí está o rio, É o meu território, Tenho fome.

E volta a pensar: É o meu território, Tenho fome,
Rã, Caracol, Aranha, Verme, Insecto,
Em que parte da montanha vos escondeis?

No entanto, permanece quieto, como mais uma folha seca,
porque ainda é meio-dia e uma lei antiga
proíbe-lhe as águias, o sol e os céus azuis.

Anoitece porém, desaparecem as águias, e o ouriço,
Rã, Caracol, Aranha, Verme, Insecto,
Rejeita o rio e vai pelo sopé da montanha,
tão seguro dos seus espinhos como o pode estar
um guerreiro com o seu escudo, em Esparta ou em Corinto.

E de súbito atravessa o limite, a linha
que separa a terra e a erva da nova estrada,
num só instante entra no teu tempo e no meu;
E como o seu dicionário universal
não foi corrigido nem aumentado
nestes últimos sete mil anos,
não reconhece as luzes do nosso automóvel
e nem sequer se dá conta de que vai morrer.



(Versão minha a partir da versão castelhana do autor reproduzida em Poemas & híbridos, Visor, Madrid, 5ª edição, 2003, pp. 7-9).

terça-feira, 28 de junho de 2011

Inger Elisabeth Hansen

Cavalo, dirigido ao céu
sai precipitado de si mesmo como um efeito sem mundo



Os cavalos têm de permanecer inteiros
Os cavalos têm de permanecer inteiros no bosque
Os cavalos têm de permanecer no bosque à espera
Com os beiços cheios e descidos os cavalos têm de permanecer ali
Os cavalos têm de esperar ali onde se está sob as árvores
Ali onde a fonte se enche a si mesma têm de permanecer os cavalos
Os cavalos desenvolveram um instinto comum para conseguirem chegar aqui
Para cavalos que permanecem inteiros há um bosque por ali
Para cavalos que estão inteiros há grandes árvores
Há abrigos para cavalos que captaram tudo
Cavalos que trouxeram os beiços cheios para baixar
Cavalos que trouxeram o olhar até ali onde existe uma fonte
Há abrigo para os cavalos que souberam salvar a pele
Para os cavalos que têm uma pele que está cheia de cavalo
Ali os cavalos podem esperar repletos de cavalo
Virados para a terra, com os cascos descidos, com a cabeça descida
Com a cabeça feita para a terra que lhes dá de comer, que os deixa beber
Que os deixa encherem-se de cavalos minuciosamente delimitados
Salva a sua pele, os cavalos hão-de permanecer inteiros



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Kirsti Baggethun e Espido Freire reproduzida em Latitudes extremas - Doce poetas chilenas y noruegas, selecção de Gonzalo Rojas e Inger Elisabeth Hansen, Tabla Rasa, Madrid, 2003, p. 122)

domingo, 26 de junho de 2011

Cristina Peri Rossi

A vida sexual das palavras

a Julián Ríos



Sax e sexo: jazz
cio e céu: paraíso
Trieste e Dostoievsky: jogador
voz ma-terna: mimo
a tuba turba
a loba ao lupanar
e o cadáver à cova
a musa é a suma
fazê-lo fóssil metamorfose
por amor se escolhe o amo
chamo a mão que amo
o texto atesta
porém a palavra
abracadabra
abre as casas
as coisas
sem as quais
ousar falar
é de poetas.



(Versão minha; poema do livro Habitación de hotel, Plaza & Janes, Barcelona, 2007, p. 20)

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Liu Chaichun (Século IX)

Esperando o regresso do meu marido
- Segundo a melodia "Luohongqu" -

III



Não te cases com um mercador:
terás de vender as tuas jóias
para pagar a adivinhos.
No rio, todas as manhãs,
olhas os barcos que chegam.
Crês ver o teu marido uma e outra vez.
Mas uma e outra vez acabas decepcionada.



(Versão minha a partir da tradução castelhana (?) de Guojian Chen reproduzida em Antología de poetas prostitutas chinas (Siglo V - Siglo XXI), Visor, Madrid, 2010, p. 70).

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Thomas Lux

Como Montezuma alimentou Cortés e os seus homens



Tamales, gostam de tamales,
coisa nova para eles (milho), ensopados em mel,
ou com pimentos
servidos em pratos de louça vermelha ou preta;
e coco com mel
em cabaças pintadas: eles eram deuses, e este
foi o pequeno-almoço, às 10 da manhã. O almoço
foi ao início da tarde, no período mais quente - Montezuma
e os seus mais numerosos rapazes (muitos
milhares) comeram bolos de milho, feijões, tomates
mas Cortés e os seus 500
para além disso tiveram
carne de veado, de cão, perú, montes de perú, faisão,
perdiz, porco do mato, iguanas, toda a espécie de patos
do Lago Texcoco.
Também lhes foram apresentados
mas não gostaram - eram deuses! - cardos, ratos
com molho, salamandras, larvas de mosca
de água, girinos, formigas, vermes de piteira.
Gostaram: de ovos de salamandra (um esquivo
gosto europeu) e de pequenas porções de espuma do lago (que
sabiam a queijo Manchego).
Nas crónicas não se faz menção
a que peyote ou cogumelos tenham sido oferecidos,
talvez porque Montezuma e os seus sacerdotes
os tenham comido todos
o que ajudará
a explicar por que pensaram que Cortés era um deus.
Depois do almoço, toda a gente - e até mais tarde,
quando começaram os combates - dormiu uma sesta.
O jantar foi tardio - aí pelas 9, 10, 11, tinha arrefecido
e a comida foi mais ou menos a mesma do almoço.
Não é preciso dizer-vos nada sobre setas e pedras,
arcabuzes e espadas.
Ou sobre cavalos.
Não é preciso dizer-vos nada sobre aposentos repletos de ouro.
Eles eram deuses
e estavam esfomeados, sempre esfomeados,
e a sua chegada tinha sido profetizada,
navegando vindos do leste
sobre o dorso de grandes aves marinhas,
navegando até chegarem a um velho mundo que designaram como novo
num dia cheio de sol e de luz
na primavera de 1519.



(Versão minha; poema incluído em New and selected poems - 1975/1995, Hougton Mifflin Company, Boston/Nova Iorque, 1997, pp. 16-17).

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Mark Strand

Mãe e filho



O filho entra no quarto da mãe
e fica junto à cama onde ela está deitada.
O filho acredita que ela quer dizer-lhe
o que ele anseia ouvir - que ele é o seu menino,
será sempre o seu menino. O filho inclina-se
para beijar os lábios da mãe, mas os lábios estão frios.
Começou o enterro dos sentimentos. O filho
toca as mãos da mãe pela última vez,
depois vira-se e vê a lua cheia.
Uma luz de cinza cruza o chão.
Se a lua pudesse falar, o que diria?
Se a lua pudesse falar, não diria nada.



(Versão minha a partir do original e da tradução castelhana de Dámaso López García reproduzidos em  Hombre y camello, Visor, Madrid, 2010, pp. 58-59).

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Li Ye (?-784)

Oito superlativos



O mais próximo e o mais distante:
O oriente e o ocidente.
O mais profundo e o menos fundo:
Regato cristalino.
Os mais altos e os mais resplandecentes:
O sol e a lua.
Os que mais se amam e os que mais se desamam:
Marido e mulher.



(Versão minha a partir da tradução para castelhano de Guojian Chen (?) incluída em Antología de poetas prostitutas chinas (Siglo V - Siglo XXI), Visor, Madrid, 2010, p. 26).

terça-feira, 14 de junho de 2011

Milan Rúfus

Destino



A cabeça vendada
de Guillaume Apollinaire
inventa um poema.
Esquecidos do corpo
seguiamos-te, destino.
E o espinho na planta do pé
não o sentíamos. O calo na palma da mão
era parte dela como um sexto dedo, e sem ele
não era nossa.

Assim se enrosca o corpo,
adapta-se. Como uma ferradura
dobram-nos à medida
do inapreensível.

E nós pedimo-lo.
August Renoir
amarra-se ao pincel:
um instante mais, Senhor,
ata-nos mesmo que seja à cauda
do cavalo de Tróia.



(Versão minha a partir da tradução de Alejandro Hermida de Blas incluída em Campanas, edição bilingue eslovaco-espanhol, La Poesía, señor hidalgo, Barcelona, 2003, p. 121).

domingo, 12 de junho de 2011

Juan Bonilla

Última imagem da destruição

William Carlos Williams



Estava muito frio
no dia em que enterrámos a gata

apanhámos o caixote onde dormia
e pegámos-lhe fogo
no pátio traseiro da casa

fugindo das chamas algumas pulgas
atiraram-se ao chão
morreram congeladas



(Versão minha; poema incluído em Defensa personal - Antología poética (1992-2006), Prólogo de Miguel Albero, Renacimiento, Sevillha, 2009, p. 143).