domingo, 11 de dezembro de 2011

Claes Andersson

[Roubai-nos e chamai-lhe...]



Roubai-nos e chamai-lhe economia nacional.
Tirai-nos as nossas casas e chamai-lhe planificação regional.
Humilhai-nos e chamai-lhe assistência social.
Tornai-nos loucos e chamai-lhe higiene mental.
Envenenai-nos e chamai-lhe conservação do meio ambiente.
Adormecei-nos e chamai-lhe ideologia de consumo.
Deixai-nos no desemprego e chamai-lhe reconversão.
Confundi-nos e chamai-lhe publicidade.
Vendei os nossos corpos e chamai-lhe liberdade sexual.
Enganai-nos e chamai-lhe política de rendimentos.
Coisificai-nos e chamai-lhe nível de vida.
Escarnecei do nosso trabalho e chamai-lhe jubilação antecipada.
Menti-nos e chamai-lhe liberdade de expressão.
Tiranizai-nos e chamai-lhe democracia.

(1974)


(Versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz reproduzida em Poesía nórdica, organização de F. J. Uriz, Ediciones de la Torre, 2ª edição, Madrid, 1999, p. 180).

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Karmelo C. Iribarren

O resto é conversa

Para os Legorburu Arzamendi



A minha mulher e a minha filha,
estas paredes e estes livros,
um punhado de amigos
que me querem bem
- e dos quais gosto de verdade -,
as ondas do cantábrico
em setembro,
três bares, quatro
contando com o clandestino da praia.
Ainda que saiba que deixo
algumas coisas, posso dizer
que, a ser algo, será esta a minha pátria.
O resto é conversa.



(Versão minha; poema reproduzido em Seguro que esta historia te suena - Poesía completa (1985-2005), Renacimiento, Sevilla, 2005, p. 185).

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Ágnes Nemos Nagy

[Eu carreguei estátuas...]



Eu carreguei estátuas para dentro do navio,
as suas faces enormes e anónimas.
Eu carreguei estátuas para dentro do navio
que seguia para a ilha, para as colocar no seu lugar.
Entre a orelha e o nariz
havia um ângulo de noventa graus,
no resto as suas faces eram vazias.
Eu carreguei estátuas para dentro do navio e
assim fui ao fundo.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Bruce Berlind reproduzida em The poetry of survival - post-war poets of central and eastern europe, organização de Daniel Weissbort, Peguin Books, 2ª edição, Londres, 1993, p 209).

domingo, 4 de dezembro de 2011

Li Yanniam (? - 87 a. C.)

A minha canção


No norte há uma jovem muito bela,
uma beleza sem igual.
Um olhar seu é suficiente
para conquistar a cidade.
Um outro olhar basta
para dominar um reino.
Eu preferia tê-la
a subjugar uma capital
ou todo um império.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Guojian Chen reproduzida em Lo mejor de la poesía amorosa china, Calambur, Madrid, 2007, p. 36).

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Esclarecimento & agradecimento aos leitores que escrevem comentários neste blogue

Caríssimos leitores,

Por motivos alheios à minha vontade, não tenho conseguido responder, nos últimos tempos, aos diversos comentários que têm deixado na caixa de comentários. Não sei porquê, mas o blogger não mo tem permitido. Espero que o problema se resolva em breve, desejando, também, que possam continuar a ler e a comentar os poemas que aqui vão sendo passados para português. Agradeço - a todos - as palavras de simpatia e incentivo que me têm dirigido.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Ágnes Nemes Nagy

Pássaro



Tenho um pássaro empoleirado no ombro,
um pássaro-gémeo, um pássaro que nasceu comigo.
Cresceu tanto, ficou tão pesado,
cada passo que dou é uma tortura.

Um peso morto, um peso morto, um peso morto sobre mim.
Devia deitá-lo ao chão - é tenaz,
as suas garras cravam-se no meu ombro
como as raízes de um carvalho.

A um palmo do meu ouvido: o som
do seu horrível coração de pássaro a palpitar.
Se um dia levantar voo
cairei logo por terra.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Bruce Berlind reproduzida em The poetry of survival - post-war poets of central and eastern europe, organização de Daniel Weissbort, Peguin Books, 2ª edição, Londres, 1993, pp. 211-212).

domingo, 27 de novembro de 2011

Yehuda Amichai

Instruções para uma criada de mesa



Não levantes os copos e os pratos
da mesa. Não esfregues
a nódoa da toalha. É bom sabê-lo:
antes de mim houve aqui gente.

Compro sapatos que andaram nos pés de outro.
(O meu amigo tem as suas próprias ideias.)
O meu amor é a mulher de outro homem.
A minha noite é tomada pelos sonhos.
As gotas de chuva são pintadas na minha janela,
nas margens do meus livros há anotações de outros.
No projecto da casa em que quero viver
o arquitecto desenhou estranhos junto à porta de entrada.
Na minha cama há uma almofada
com o espaço vazio de uma cabeça que já se foi.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Harold Schimmel reproduzida em The poetry of survival - post-war poets of central and eastern europe, organização de Daniel Weissbort, Peguin Books, 2ª edição, Londres, 1993, p. 79).

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Natan Zach

Contra a decisão de partir



O meu alfaiate é contra a decisão de partir.
É por isso, disse
ele, que não se vai embora;
não quer separar-se
da sua única filha. É definitivamente
contra a ideia de partir.

Uma vez partiu - afastou-se da mulher
e depois disso
nunca mais a viu (Auschwitz).
Partiu - afastou-se
das suas três irmãs e
nunca mais tomou
conta delas (Buchenwald).
Partiu uma outra vez - e afastou-se da mãe (o pai
morreu de velho). Agora
é contra a decisão de partir.

Ele era o companheiro
mais chegado do meu pai em Berlim.
Viveram
bons tempos
nessa Berlim. O tempo passou. Agora
nunca mais se vai embora. É
o mais definitivamente possível
(o meu pai morreu entretanto)
contra a ideia de partir.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Peter Everwine e Shulamit Yasny-Starkman reproduzida em The poetry of survival - post-war poets of central and eastern europe, organização de Daniel Weissbort, Peguin Books, 2ª edição, Londres, 1993, pp. 295-296).

domingo, 20 de novembro de 2011

Tai Fu Ku (século XIII)

[Tantos são os que...]



Tantos são os que correm atrás da riqueza sem descanso.
Toda a noite fazem contas, durante o dia galopam.
Passam a vida num frenesim constante, cheio de fadigas.
Não sabem que sobre o tecto das suas casas o céu é azul.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Rafael Alberti e María Teresa León reproduzida em Poesía china, Visor, Madrid, 2003 - 1ª edição: 1960 -, p. 70).

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Cristina Peri Rossi

XI



Nunca nenhuma palavra
nenhum discurso
- nem Freud, nem Martí -
serviu para deter a mão
a máquina
do torturador.
Mas quando uma palavra escrita
na margem na página na parede
serve de alívio à dor de um torturado,
a literatura faz sentido.



(Versão minha; poema reproduzido em Poesía reunida, Lumen, 2ª edição, Barcelona, 2009, p. 300).

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Sheikh Ayaz

Escreve



"Já alguma vez estiveste numa guerra? Viste
corpos a cairem na poeira?"

"Sim."

"Então escreve sobre isso."

"Já tiveste os lábios de uma noiva a tocar
como uma flauta os teus lábios?"

"Sim."

"Então escreve sobre isso."

"Já alguma vez, depois de te embriagares, fechaste os olhos
e sentiste o rio vacilar e vibrar
e deslizaste sobre ele como um cisne?"

"Sim."

"Então escreve sobre isso."

"Já alguma vez estiveste quase a alcançar o que querias
e, de repente, tudo te fugiu,
silenciando-te o coração como um tambor?"

"Sim."

"Então escreve sobre isso. Não escrevas só
sobre o que ouviste. Não escrevas
só a partir do que os outros escreveram."



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Asif Farrukhi e Shah Mohammed Pirzada reproduzida em Modern poetry of Pakistan, organização de Iftikhar Asif e revisão das traduções de Waqas Khwaja, Dalkey Archive Press, Champaign/Londres, 2010, pp. 116-117).

sábado, 12 de novembro de 2011

Chu Lanfang (século XIV)

Um casal perfeito

(Segundo a melodia Shikuayu)



Eu sou muito tolo, tão tolo,
em todos os assuntos.
Ela é feia, tão feia,
não importa que olhos a vejam.
O tolo e a feia,
estamos bem um para o outro,
eu gosto e ela também.
Entregou-me
o seu formoso coração
e levou o meu.
Fomos os dois feitos
um para o outro.
Um casal perfeito
sem par no mundo.



(Versão minha a partir da tradução de Guojian Chen reproduzida em Lo mejor de la poesía amorosa china, Calambur, Madrid, 2007, p. 146).

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Po Chu Yi (772-846)

Os nobres e os seus cavalos enfartados



O seu ar altaneiro enche o caminho,
as suas montadas e corceis reluzem por entre o pó.
- Quem são estas gentes? - pergunto.
- São os nobres da Corte.
Cinturões vermelhos para os ministros,
barretes de franjas de cor púrpura para os generais.
Vão para o festim do exército
e os seus cavalos correm como as nuvens.
Nove qualidades de vinho transbordam das suas taças,
oito manjares requintados - colhidos à terra e ao mar - serão servidos.
Descascam-se as laranjas do Lago Tung T'ing,
cozinha-se o pescado do Lago Celeste.
Cheios, estão contentes;
ébrios, o seu orgulho aumenta.
Neste mesmo ano a seca varre o sul do rio.
Em Ch'u Chon homens comem outros homens.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Rafael Alberti e María Teresa León reproduzida em Poesía china, Visor, Madrid, 2003 (1ª ed.: 1960), p. 127).

terça-feira, 8 de novembro de 2011

W. S. Merwin

Exercício



Primeiro esquece que horas são
por uma hora
faz isto regularmente todos os dias

depois esquece em que dia da semana estás
faz isto regularmente por uma semana
depois esquece em que país estás
e pratica esta acção acompanhado
por uma semana
depois faz as duas coisas juntas
por uma semana
com tão poucas interrupções quanto possível

em seguida esquece como se adiciona
ou como se subtrai
tanto faz
podes substituir uma acção por outra
passada uma semana
ambas te ajudarão
mais tarde
a esquecer como contar

esquece como contar
a começar pela tua própria idade
a começar por como se conta para trás
a começar pelos números pares
a começar pelos números romanos

a começar pelas fracções de números romanos
a começar pelo antigo calendário
seguido do velho alfabeto
seguido do alfabeto
até ser tudo contínuo outra vez

passa então ao esquecimento dos elementos
a começar pela água
logo depois a terra
a crescer em fogo

esquece o fogo



(Versão de António Ladeira; poema de Migration: New & Selected poems, Copper Canyon P. Washington, 2005, p. 204).

sábado, 5 de novembro de 2011

Milan Rúfus

Fenos



Tosquiam uma ovelha.
O esponjoso, o brando
vai caindo, e nuvenzinhas leves,
que uma criança levantaria com os dedos,
aterram ali.

A ovelha permanece tranquila.
Tem as patas atadas com o cordel do caminho
e sabe que tem de ser.

Céu sobre nós,
sê paciente e alumia um pouco.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Alejandro Hermida de Blas reproduzida em Campanas, La Poesía, señor hidalgo, edição bilingue eslovaco-espanhol, Barcelona, 2003, p, 27).

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

W. S. Merwin

Conto



Muitos invernos depois o musgo
encontra o pó da madeira cascas esmagadas de árvore
e diz velho amigo
velho amigo



(Versão de António Ladeira; poema do livro Migration: New & Selected Poems, Copper Canyon P, Washington, 2005, p. 175).

domingo, 30 de outubro de 2011

Edward Kocbek

Dialéctica



O construtor arrasa casas,
o médico promove a morte
e o comandante dos bombeiros
é o chefe secreto dos pirómanos,
eis o que nos mostra a dialéctica inteligente -
e a bíblia diz-nos algo de parecido:
quanto mais se sobe maior é a queda
e o último será o primeiro.

O vizinho tem uma espingarda carregada em casa,
um microfone debaixo da cama
e a filha é uma informadora.
Com um ataque o vizinho vai-se abaixo,
a ligação do microfone falha,
a filha acaba por confessar.
Toda a gente se disfarça de cordeiro
quando se esgueira da caverna do ciclope.

Vinda da tenda do circo
ouço na noite música desafinada,
os sonâmbulos caminham no arame
oscilando com os seus braços indecisos,
cá de baixo os amigos gritam-lhes
para os libertarem do sono,
pois aquele que sobe deve cair
e aquele que dorme - deixem-no dormir mais profundamente.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Michael Scammell e Veno Taufer reproduzida em The poetry of survival - Post-war poets of central and eastern europe, organização de Daniel Weissbort, Peguin Books, 2ª edição, Londres, 1993, pp. 49-50).

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

W. S. Merwin

Queda de neve


para a minha mãe



A certa altura a altas horas
eu podia ser uma centelha subindo
a rua negra
com a minha morte a ajudar-me a subir
um eu branco a ajudar-me a subir
como um irmão
que cresce
mas esta manhã
reparo que os familiares silenciosos que amei em criança
chegaram todos juntos de noite
do país antigo
de que se lembravam
e de que todas as coisas se lembram
tomo alimento das mãos
do que durante anos foram zimbros
o sabor não mudou
estou a começar
outra vez
mas um sino toca em alguma aldeia que não conheço
nem posso ouvir
e à luz do sol solta-se a neve dos ramos
deixando o seu nome no ar
e uma única pegada

irmão



(Versão de António Ladeira; poema de Migration: New & selected poems, Copper Canyon P, Washington, 2005, pp. 174-175).

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Bernardo Atxaga

Um poema de Bernardo Atxaga destacado no blogue da revista Modo de usar & co. Obrigado, Ricardo.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Ahmad Shamlú

O horizonte claro



Um dia reencontraremos as nossas pombas
e o amor e a beleza serão colhidos à mão.

O dia
em que o mínimo canto será um beijo
e cada pessoa um irmão para a outra.

O dia em que ninguém feche a sua porta,
o cadeado se converta em relíquia
e o coração seja suficiente para viver.

O dia em que o sentido de cada palavra seja desejar,
para que não procures a última palavra.

O dia em que a melodia de cada letra seja vida
para que eu não persiga a rima do meu último poema.

O dia em que cada lábio seja canção
para que o mínimo canto seja um beijo.

O dia em que chegues e fiques para sempre
e o amor se identifique com a beleza.

O dia em que voltaremos a atirar miolo de pão às nossas pombas.

Espero esse dia,
mesmo que cá não esteja.



(Versão minha a partir da tradução de Nazanín Amirián e de Ferran Fernández reproduzida em El viento nos llevará. Poesía persa contemporánea, Los libros de la frontera, Barcelona, 2ª edição corrigida, 2006, pp. 77-78).

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Ingeborg Bachmann

Vai, pensamento



Vai, pensamento, pois ampla como uma palavra capaz de voar
é a tua asa, ergue-te e vai
onde os metais leves oscilam,
onde o ar é penetrante
com uma nova compreensão,
onde as armas falam
de um modo único.
Defende-nos aí!

A onda ergueu um tronco à deriva e agora afunda.
A febre dominou-te, deixa-te cair agora.
Não moveu a fé mais do que uma montanha.

Deixa ficar o que fica, vai, pensamento!

Superior a tudo excepto à nossa dor.
Sê tudo o que somos!



(Versão de António Ladeira a partir da tradução inglesa de Peter Filkins reproduzida em Darkness spoken, Brookline, Zephyr Press, 2006, p. 321).

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Su Tong-Po (1036-1101)

Um desejo para o meu filho



Todos desejamos ter um filho inteligente;
no entanto, a inteligência fez-me falhar a vida.
Agora quero um menino ignorante e estúpido:
sem dificuldades chegará a ministro.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Rafael Alberti e María Teresa León reproduzida em Poesía china, Visor, Madrid, 2003 (1ª edição: 1960), p. 158).

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Jüri Talvet

Surpresas climatéricas




Esperando uma justa recompensa vamos entrando nos anos.
Mais valia apascentarmos ovelhas
e, se chovesse, abrigarmo-nos debaixo de uma árvore frondosa
para escutarmos, como bons cordeiros, em paz e sossego,
as reprimendas de Deus.
Ou ir ao bosque abater árvores de modo a que
o nosso corpo laborioso se adaptasse, a pouco e pouco,
como um machado,
ao ritmo dos golpes no tronco.
Abrir um buraco, pelo menos, na solidão.
Já ninguém escreve ao coronel.
Um farsante sobe à cena e faz girar os olhos
e a poeira é removida. Louvado seja até aos céus.
Mas ao cair da noite todas as partículas dessa poeira
hão-de voltar a cobrir, imóveis, o solo.
Assim, quando de súbito começarem a soprar
ventos mais quentes
apanhar-nos-ão desprevenidos e não saberemos recordar
em que ângulo exacto deveríamos desfraldar
as velas das nossas camisas.




(Versão minha a partir da "versão em língua espanhola do autor e de Albert Lázaro Tinaut" reproduzida em Elegía estonia y otros poemas, Palmart Capitelum, Valência, 2002, p. 33).

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Ingeborg Bachmann

Estrelas de Março



É ainda muito cedo para semear. Os campos
emergem à chuva, vejo as estrelas de Março.
Como um devaneio, o universo submete-se
a equações familiares, tal como a luz
que cai e deixa a neve intacta.

Sob a neve haverá também terra
e, o que se não desintegra, o futuro alimento
do pó. Ó vento, que aumentas.
O arado rasga uma vez mais a escuridão.
Cada nova dia quererá ser maior.

É nos dias longos que somos semeados,
sem que nos peçam, nessas filas direitas ou tortas,
enquanto as estrelas, lá em cima, mergulham longe. Nos campos
vingamos ou apodrecemos, sem escolha,
à mercê da chuva e também por fim a luz.



(Versão de António Ladeira a partir da tradução inglesa de Peter Filkins reproduzida em Darkness spoken, Brookline, Zephir Press, 2006, p. 23. Deste poema existia já uma tradução de Judite Berkemeier e João Barrento reproduzida em O tempo aprazado, Assírio & Alvim, 1992, pp. 42-43).

domingo, 9 de outubro de 2011

Dan Pagis

A história



Uma vez li uma história
sobre um gafanhoto com um dia de vida,
um aventureiro verde que foi engolido
no escuro por um morcego.

Logo a seguir a isto o velho e sábio mocho
apresentou um breve discurso de consolação:
também os morcegos têm direito à vida,
e continuam a andar por aí muitos gafanhotos.

Logo a seguir a isto veio
o fim: uma página em branco.

Passaram entretanto quarenta anos.
Debruçado ainda sobre essa página em branco
não me sinto com forças
para fechar o livro.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Stephen Mitchell reproduzida em The poetry of survival - Post-war poets of central and eastern europe, organização de Daniel Weissbort, Peguin Books, 2ª edição, Londres, 1993, p. 224).

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Ingeborg Bachmann

Depois desta cheia



Depois desta cheia
gostava de ver a pomba,
e nada além da pomba,
ser salva uma vez mais.

Afogar-me-ia nesse mar!
se ela não escapasse,
se ela não trouxesse,
no último momento, o ramo.



(Versão de António Ladeira a partir da tradução inglesa de Peter Filkins reproduzida em Darkness spoken, Brookline, Zephyr Press, 2006, p. 315)

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Juan Antonio González Iglesias

Autorretrato como asceta inconsciente


Hoje beberei contigo num copo curto
o vinho humilde que guardei para ti faz um ano.

Horácio, traduzido
por Luis Javier Moreno



Desconheço as marcas dos vinhos mais caros.
Ungaretti é a única denominação
de origem que respeito.
Estou treinado para respirar ar.
Dormi no chão, comi no chão.
Com um trago de água mineral
honro Píndaro. Exponho
o meu corpo inteiro
às diferentes temperaturas
das quatro estações.
Retiro o meu vocabulário do atletismo.
Não me enamoro do meu próprio zeppelin.
Pedi muitas vezes esmola
às estátuas: estou acostumado
ao fracasso, ainda que saiba
que Juan Ramón Jiménez
não teve mais substância do que a que tenho eu.
Sejamos claros: tenho
uma ideia radical de liberdade.
Tal como um poeta arcaico,
amaldiçoo o dinheiro, as moedas, uma a uma.
Tal como um poeta arcaico, no entanto,
celebro a riqueza e a pobreza
porque são dons. Para ler Horácio
um livro de bolso. Isso basta-me.
Bibliofilia e tesouros, para os outros.
Os meus luxos alcançam-se com dois euros.
O universo está pintado à mão,
assegura um rapper. Subscrevo-o.
Não sou romancista. Não invento.
Não posso permitir-me mentir
nesta relação. Dou a minha palavra.
Serenidade: um litro nas minhas artérias.
Há algo
de revolucionário
na felicidade do silencioso.
Movo-me nos extremos invisíveis.
Em alguns dias, para regressar a casa, tomo
o caminho mais longo.
Noutros dias escolho diagonais.
Fora disto não consigo
explicar-me. Para além de torpe, sou
um asceta inconsciente.



(Versão minha; original reproduzido em Del lado del amor - Poesía reunida (1994-2009), Prólogo de Guillermo Carnero, Visor, Madrid, 2010, p. 188-1899).

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Jane Kenyon

A camisa



A camisa toca o seu pescoço
e alisa-se ao longo das suas costas;
desliza-lhe pelos flancos
e desce mesmo para além do seu cinto -
para dentro das suas calças.
Afortunada camisa.



(Versão minha a partir do original e da tradução espanhola de Hilario Barrero reproduzidos em De otra manera, Pre-Textos, Valencia, 2007, pp. 46-47).

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Daniel Nyikos

Sopa de batata



Instalo o computador e a webcâmara na cozinha
para pedir ajuda à minha mãe e à minha tia
enquanto faço sopa sozinho pela primeira vez.
A minha mãe está no Utah. A minha tia na Hungria.
Com a câmara mostro as cebolas à minha mãe.
"Corta-as em pedaços mais pequenos", aconselha-me ela.
"Só precisas de dar um bocadinho de gosto."
Corto as batatas enquanto as cebolas ficam a refogar na panela.
Quando menciono que não tenho paprika para juntar ao caldo,
elas argumentam que assim é duvidoso que lhe possamos chamar sopa de batata.
A minha mãe diz que será uma sopa branca de batata,
a minha tia diz que a sopa de batata tem de ser vermelha.
Ao acrescentar os pimentos em fatias
pergunto várias vezes se devo juntar água,
mas dizem-me ambas que espere até juntar as batatas.
Adiciono salsichas polacas porque não arranjei húngaras,
e cozo-as durante tanto tempo que as batatas se desfazem.
"Fizeste um guisado", diz a minha mãe
quando mostro o conteúdo da panela através da câmara.
Elas riem-se e dizem que tenho de casar rapidamente.
Eu desligo o computador e como sozinho.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

domingo, 25 de setembro de 2011

Amal Al-Jaburi

Protesto



Por que o censuras
e o mandas embora?
E porque o amaldiçoas?
Ajoelhar-se não é digno de Adão.

Adão, tu que arruinaste a minha vida...
Escuta: um dia, em sinal de arrependimento, o Senhor
vai revogar
a Sua decisão.
Como é que Ele pôde conceber-te como o guardião
o profeta
o assassino
o chefe
o senhor e o escravo
o pai e o filho?
E tu,
tu não és mais
do que um par de botas estragadas.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Salih J. Altoma reproduzida em The poetry of arab women - A contemporary anthology, organização de Nathalie Handal, Interlink Books, Nova Iorque/Northampton, 2001, p. 135).