quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Jane Kenyon

Agasalhos



Vi-o a sair do hospital
com um casaco de senhora no braço.
Claramente ela não iria precisar de tal coisa.
Os óculos de sol que ele usava não conseguiam
esconder-lhe o rosto molhado, o seu desnorte.

E como uma piada de mau gosto o dia estava limpo
e o ar demasiado suave para dezembro. Mesmo assim
ele correu o fecho do blusão e atou
o capuz debaixo do queixo, preparando-se
para um frio irremediável.



(Versão minha a partir do original e da tradução espanhola de Hilario Barrero reproduzidos em De otra manera, Pre-Textos, Valência, 2007, pp. 106-107).

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Berta Piñan

Lição de gramática



Como se diz em ouolof a palavra fronteira, a palavra
pátria? E em soniké, como designareis o desamparo?
Se quiserdes dizer em berbere, por exemplo, "eu tive uma casa
num arrabalde de Rabat", poreis a frase nesta ordem? Como
se conjugam em bambara os verbos que conduzem ao norte,
que adjectivos se devem acrescentar à palavra mar, à palavra morte?
Se tiverdes de partir, a palavra adeus será um substantivo?
Como se pronuncia em diakhanké a palavra exílio? Há que
juntar os lábios? Doem? Que pronomes usais para aquele que espera
na praia, para o que regressa sem nada? Quando apontais para além, no sentido
de casa, que advérbio escolheis? Como se diz na vossa, na nossa língua
a palavra futuro?



(Versão minha; o original pode ser lido algures por aqui, na p. 14. Notas: 1) A versão que apresento parte do original asturiano e fez-se sem recurso a dicionário; a proximidade do asturiano com o castelhano e com o próprio português permitiu-me correr o risco calculado de tentar a transposição para o português. 2) Ouolof (um leitor atento sugere-me que a maneira correcta de grafar esta palavra será uólofe ou uolofe; no entanto, admitindo a possibilidade de estar a errar, decido manter a forma de ressonâncias herbertianas: Ouolof é o título de um dos volumes de "poemas mudados para português" pelo autor de Ofício cantante), soniké, berbere, bambara e diakhanké são línguas faladas por diferentes populações ou grupos étnicos de várias regiões do continente africano (do Norte, do Centro ou da África Ocidental - por exemplo, em países como o Mali ou o Senegal...). 3) Por último, com esta versão deste poema extraordinário, desejo agradecer esta tradução de um outro poema extraordinário. E, se possível, retribuir.)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Igor Estankona

O adivinho



Um ramo oscilou levemente
mas o pássaro que o mundo esperava não está,
as nuvens vieram
mas não trouxeram a chuva que a terra desejava,
uma mosca caiu
mas o peixe que o lago esconde não veio à superfície.

Assim te espero eu
fazendo cáculos e mais cálculos.

Ouve-se a música
mas não há nenhum bailarino nesta sala vazia,
um perfume expande-se
mas as macieiras não estão ainda em flor,
deitei-me com mulheres
mas não se desfez a imagem do coração.

Assim te espero eu
procurando-te em qualquer sinal.



(Versão minha a partir da tradução para espanhol de Jon Kortazar reproduzida em Un puente de palabras - 5 jóvenes poetas vascos, selecção e organização de Jon Kortazar, Centro de Lingüística Aplicada Atenea, edição bilingue euskera/espanhol, Madrid, 2005, p.121).

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Jorge Luis Borges

(Acerca da tradução: fotografia de José Manuel Teixeira da Silva)


Xadrez (II)



O rei subtil, o bispo oblíquo, a feroz
rainha, torre frontal, peão ladino
sobre o preto e branco deste caminho
tomam e deixam armas da batalha.

Não conhecem a mão predestinada
do jogador governando o destino,
não conhecem o imenso rigor
que sujeita liberdade e viagem.

Também o jogador é prisioneiro
(disse-o Omar) de outro tabuleiro
pleno de noites negras, dias claros.

Deus move o jogador e este a peça.
Que deus atrás de Deus começa a trama
feita de pó e tempo e sonho e mortes?



(Versão de José Manuel Teixeira da Silva, a partir do original em castelhano incluído em Nueva Antología Personal, 2ª ed., Bruguera, Barcelo, 1983, p. 17. Com esta tradução e com a fotografia que, segundo nota do autor, "poderia chamar-se (parece-me) "acerca da tradução"", José Manuel Teixeira da Silva associa-se à comemoração dos quatro anos deste blogue, o que registo com grande satisfação e gratidão).

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Marlene Dumas

Contra o muro



O primeiro gesto é o pior.
Desenhar uma linha divide o papel em dois.
Desenhar mapas e fronteiras faz dos vizinhos estrangeiros.
Nas culturas bélicas todas as gerações de crianças foram educadas
a pensar exclusivamente em imagens-inimigo.

A arte é uma forma de dormir com o inimigo.

Tenho imenso respeito pelos jornalistas que arriscam
as suas vidas para nos mostrarem aquilo que está a acontecer aqui e agora. Não estou a [tentar
melhorar o seu trabalho. Não sou uma repórter local. Sou uma artista de estúdio.
Viajo através da minha imaginação, ou assim deveria fazer - vivo na minha imaginação.

Não quero que destruam Israel.
Quero que se acabe com a ocupação da Palestina.
Quero que acabemos a Segunda Guerra Mundial,
Para que possamos acabar a Terceira Guerra Mundial.
Mas isso não pode ser pintado. Só os muros podem ser pintados.

Nunca encarei a pintura como uma janela ou como um espelho do mundo.
Talvez a veja mais como uma porta com o aviso Não Entrar
ou uma carta com a informação "Devolver ao remetente - Desconhecido neste paradeiro".
Ou uma fronteira.



(Versão de Ricardo Castro Ferreira. Com esta colaboração do Ricardo - um retorno aos textos-poemas de Marlene Dumas - fica concluída a série dedicada aos quatro anos deste blogue. Agora é seguir em frente. Muito obrigado a todos).

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Lisel Mueller

Pombos



Como qualquer outro reino
o reino dos pássaros
também tem a sua multidão de pobres,
esses pobres públicos e urbanos
cujos excrementos branqueiam
telhas e calçadas,

que picam e picam
(mas raramente escolhem)
o que os seus bicos encontram:
os detritos diários
das ricas cidades italianas
ou aqui, em redor do edifício da Câmara -
sempre pelos passeios
ofendendo as pessoas enojadas
que se dirigem a um qualquer lugar.

Ninguém se lembra de como é que isto aconteceu,
o seu declínio, o voo
quase abandonado,
esses murmúrios queixosos,
as colheitas nos baldes dos lixos.
Em tempos foram elegantes e despreocupados;
chamavam uns pelos outros com as suas vozes ricas e profundas
e nós tratávamo-los como aves nobres e delicadas
e acolhíamo-los nos nossos jardins.



(Versão minha; original reproduzido em Alive together - new and selected poems, Louisiana State University Press, Baton Rouge, 1996, p. 23. Com esta versão assinalo os quatro anos de existência deste blogue, que hoje se comemoram).

4 anos a tombar do trapézio (4)

E mais uma mensagem de uma leitora (muito obrigado):

{anita}:
"Muitos parabéns! O Trapézio é um dos meus blogues favoritos, uma dádiva para quem gosta de ler boa poesia. Continuação de bom trabalho:)"

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

4 anos a tombar do trapézio (3)

Mensagens, comentários & um desafio de leitores (muito, muito obrigado):


Vasco Barbedo Nabais:
"Olá e parabéns pelos 4 anos.
Cada vez gosto mais de poesia à medida que vou lendo o seu blog (diariamente). É o único blog que conheço deste género, que tem um programa e que se comprometeu até ao fim (4 anos é muito). Vou descobrindo novos nomes e fico surpreendido: há tanta gente, de tantos países, que vive a poesia e o mundo, e eu nem sabia. Um dos poemas mais bonitos que conheço li-o aqui, de Jerzy Ficowski, que acaba lindamente: "mesmo que eu chegue atrasado / eu quero chegar a tempo." Só podia assim ser pela tradução que é. Parabéns!"

josé luís:
"parabéns!
leio sempre - e aqui descobri muitas palavras outras.
obrigado.

este é para si:
(e um desafio em tradução)


1(a

le
af
fa
ll

s)
one
l

iness


{e.e. cummings}"

Inteligência, coragem, amor, liberdade, ternura, delicadeza...

Wislawa Szymborska em português (europeu, e que eu conheça):

1) Paisagem com grão de areia, tradução de Júlio Sousa Gomes, Relógio D'Água, Lisboa, 1988.

2) Alguns gostam de poesia. Antologia, (poemas de Wislawa Szymborska e de Czeslaw Milosz), selecção, introdução e tradução de Elzbieta Milewska e de Sérgio das Neves, Cavalo de Ferro, Lisboa, 2004.

3) Instante, tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio Neves, Relógio D'Água, Lisboa, 2006.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

4 anos a tombar do trapézio (2)

Parte de uma mensagem e uma tradução de José Carlos Barros:

"(...)
Sou amigo de um poeta cubano (Edel Morales) cuja poesia muito particularmente admiro. O Edel, já há uns tempos, pediu-me que lhe traduzisse um poema. É o que te envio em resposta ao teu desafio: o original e a tradução de "Viendo los autos pasar hacia occidente".
(...)"



Vendo os automóveis a passar em direcção do Ocidente



As ruas das pequenas cidades do centro de Cuba,
habitualmente buliçosas e doces,
ficam vazias nos meses de inverno.
Eu vivi essa pesada quietude.
Os estudantes tinham partido à descoberta do mundo
e uma paz, uma estranha e larga ausência,
atravessa as paredes e entra nos edifícios.
Os clubes, as casas de cultura, os campos desportivos
assemelham-se a uma cena, cuidadosamente preparada,
que espera o regresso dos actores para a continuação das filmagens.
Nas pequenas cidades do centro de Cuba
tudo é espera e ausência nos meses de inverno.
Eu vivi essa pesada quietude.
Noites de fevereiro na esquina deserta de Libertad e Paseo
vendo os automóveis a passar na direcção do Ocidente.
Como quem vê uma rapariga de pele muito limpa e cabelos negros
passar, abrindo o desejo, na direcção de outro homem.



*****


Viendo los autos pasar hacia occidente



En las pequeñas ciudades del centro de Cuba
las calles, habitualmente bulliciosas y dulces,
se quedan vacías en los meses de invierno.
Yo he vivdo esa pesada quietud.
Los esudiantes se han marchado a descubrir el mundo
y una paz, una extraña y larga ausencia,
llega hasta las paredes y penetra al interior de los edificios.
Los clubes, las casas de cultura, los campos deportivos,
semejan un set, cuidadosamente preparado,
que espera el regreso de los actores para continuar la filmación.
En las pequeñas ciudades del centro de Cuba
todo es ausencia y espera en los meses de invierno.
Yo he vivido esa pesada quietud.
Noches de febrero en la esquina vacía de Libertad y Paseo,
viendo los autor pasar hacia Occidente.
Como quien ve a una muchacha de piel muy limpia y cabellos negros
pasar gustosa hacia otro hombre.



Poema de Edel Morales; tradução de José Carlos Barros.


(Muito obrigado).

4 anos a tombar do trapézio (1)

Comentários e mensagens de leitores (muito obrigado a todos):

Amélia:
"Bastará dizer-lhe que o seu blogue é um dos meus preferidos que leio diariamente? Gosto das suas traduções, ainda que tantas vezes não possa confrontá-las com os originais. E gosto de tantos poetas que desconhecia e me tem dado a conhecer. Obrigada."

Neusa:
"Tantos poemas que li, imagens que vi, revelações, com os quais me identifiquei. Obrigada."

Carla Diacov:
"Parabéns e muitos posts de vida!!!"

Daniel Ferreira:
"Parabéns pelos quatro anos de vida e pela lufada de ar fresco que, no que toca à tradução, trouxeste à poesia portuguesa na internet. Muito pessoalmente e para não fechar a questão ao universo virtual, pela machadada no classicismo e na seriedade sisuda divulgada pelo universo literário português até então. Ou seja, obrigado por acabares com o autismo e pela variedade enquanto causa da consequente qualidade, pela possibilidade de poder conhecer outros autores e outro tipo de registos, abriste sem dúvida novos horizontes. Por tudo isso, muito mais e por o que está para vir: continuação e bons tombos. ;)
O mais sincero dos abraços."

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

4 anos a tombar do trapézio

Caríssimos leitores,

Este blogue faz 4 anos no próximo dia 4 de fevereiro. Gostava de comemorar a data convosco e, por isso, convido-vos a enviarem-me comentários sobre a tradução de poesia ou sobre este blogue, listas de poemas e de poetas preferidos, sugestões de leitura, críticas, traduções, desenhos, fotografias, em suma, o que entenderem que faz sentido publicar num blogue com as características deste. Tenciono publicar o que me enviarem para a caixa do correio ao longo da presente e da próxima semana.

Obrigado.

E um abraço para todos,

LP.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Angel Erro

LXXV



Chegará um dia
em que todos admirarão
a tua obra, com maíúsculas,
A Tua Obra, que hoje desprezam
- ou que ousam até ignorar -,
e se arrependerão
por te terem conhecido tarde demais.

Assim suportas a vida.
Ou suportas assim a morte?



(versão minha a partir da tradução para espanhol do autor reproduzida em Un puente de palabras - 5 jovénes poetas vascos, selecção e organização de Jon Kortazar, Centro de Lingüística Aplicada Atenea,  edição bilingue euskera/espanhol, Madrid, 2005, p. 131).

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Claes Andersson

Não se preocupam com os meios



Tem cuidado com aquele que diz representar
a voz de muitos.
Talvez seja verdade.

Tem cuidado com aquele que diz que fala
apenas em seu nome.
Talvez seja verdade.

Tem cuidado com aquele que se limita a consentir
com a cabeça.
Amanhã o consentimento pode afectar-te a ti.

Tem cuidado com aqueles que só querem viver
a sua vida em paz.
Não se preocupam com os meios.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Francisco J. Uriz reproduzida em Poesía nórdica, Ediciones de la Torre, 2ª edição, Madrid, 1999, p. 180).

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Eila Kivikkaho

Ocultar o mais íntimo



Como um insecto
imóvel no ramo
quero semear
algo que ninguém
procure, veja, persiga.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Francisco J. Uriz reproduzida em Poesía nórdica, Ediciones de la Torre, 2ª edição, Madrid, 1999, p. 97).

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Lisel Mueller

Às vezes, quando a luz



Às vezes, quando a luz cria ângulos inesperados
e te empurra de novo para a infância

e tu passas perto de uma mansão decadente
escondida por completo por salgueiros centenários

ou junto de um convento abandonado e guardado por abetos
e uma linha de pinheiros gigantes alinhados

percebes mais uma vez que por trás desse muro,
debaixo da crespa cabeleira dos salgueiros,

continua a existir um segredo
tão maravilhoso e perigoso

que se rastejares e o descobrires
podes morrer, ou então ser feliz para todo o sempre.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Angel Erro

X



Tudo está dito, desde há muito.
Que tudo está dito já está dito.
Tudo está dito, pois, sem emenda.
Tudo está dito, mas não por mim.



(Versão minha da tradução para espanhol do autor reproduzida em Un puente de palabras - 5 jóvenes poetas vascos, selecção de Jon Kortazar, Centro de Lingüística Aplicada Atenea, edição bilingue euskera/espanhol, Madrid, 2005, p. 125).

domingo, 15 de janeiro de 2012

Castillo Suarez

Um romance tem demasiadas palavras



Um romance tem demasiadas palavras. Por isso escrevo poemas. Como se fazer poemas não fosse suficiente, perguntam-me por que o faço. Escrevo porque minto. Porque sou mentirosa e porque exagero as coisas. Se não exagerasse as coisas, ninguém acreditaria em mim.

Os poemas perdem-se sem trégua, perdem-se dia após dia porque ninguém os guarda, porque ninguém os escreve. Eu sou uma caçadora de poemas; não sou uma escritora.



(Versão minha a partir da tradução para espanhol da autora reproduzida em Un puente de palabras - 5 jóvenes poetas vascos, selecção de Jon Kortazar, Centro de Lingüistica Aplicada Atenea, edição bilingue euskera/espanhol, Madrid, 2005, p. 89).

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Igor Estankona

A serpente



É por isso que cheguei a casa antes do previsto
e por isso subi as escadas
sigiloso
e é por isso que abri a porta
com a cópia da chave
que julgavas que eu não tinha
é por isso que viraste as costas
e me escapaste dos braços
com a destreza das trutas
é por isso que te passei uma rasteira
e caímos
os dois
ao chão
é por isso
que não fiz caso
quando entre risos me insultaste
é por isso que te desabotoei
os botões das calças
é por isso
que rocei os teus lábios
e tu abriste a boca
como se vão abrindo enquanto ardem
as rosas ou as bolas de papel
é por isso que apaguei a luz
é por isso que fiz tudo tão depressa:
para que não tivesses tempo
de preparar a tua defesa.



(Versão minha a partir da tradução para espanhol de Jon Kortazar reproduzida em Un puente de palabras - 5 jóvenes poetas vascos, selecção de Jon Kortazar, Centro de Lingüística Aplicada Atenea, edição bilingue euskera/espanhol, Madrid, 2005, p.p. 97-99).

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Castillo Suarez

Toda a dor do mundo



As coisas que não fazem parte da tua experiência são quase invisíveis. Mais ainda, quando algo de novo se incorpora na tua realidade é como se não houvesse mais nada em redor. Mas é impossível tentar compreender toda a dor do mundo. É impossível; tanto como amar duas vezes a mesma pessoa.



(Versão minha a partir da tradução para espanhol da autora reproduzida em Un puente de palabras - 5 jóvenes poetas vascos, selecção de Jon Kortazar, Centro de Lingüistica Aplicada Atenea, edição bilingue euskera/espanhol, Madrid, 2005, p. 93).

domingo, 8 de janeiro de 2012

Artur Miedzyrzecki

O que é que os politólogos sabem?



O que é que os politólogos sabem?
Os politólogos sabem quais são as últimas tendências
Qual o estado actual da economia
A história das doutrinas

O que é que os politólogos não sabem?
Os politólogos não sabem nada de desespero
Não conhecem o jogo que consiste
Em ficar fora de jogo

Não lhes ocorre
Que ninguém sabe quando
É que as mudanças irrevogáveis podem acontecer
Por exemplo um banco de gelo que se parte de repente

E sabe-se como os recursos naturais
Incluem o conhecimento das leis veneráveis
A capacidade de surpreender
O sentido de humor



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Stanilslaw Baranczak e Clara Cavanagh reproduzida em The poetry of survival - Post-war poets of central and eastern europe, organzação de Daniel Weissbort, Peguin, 2ª edição, Londres, 1993, p. 194).

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Karmelo C. Iribarren

Ainda ontem



Parece que foi
ontem
que ainda sonhávamos
com a revolução,

e hoje estamos assim:
                                  balofos,
meio carecas, cínicos,
e com problemas
de colestrol.



(Versão minha; original reproduzido em Seguro que esta historia te suena - Poesía completa (1985-2005), Renacimiento, Sevilha, 2005, p. 215).

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Eila Kivikkaho

Na noite



Oiço - como poderia não o ouvir -:
o pássaro, o pássaro dos pássaros.
A árvore e a erva querem dormir.
Acende-se uma estrela, desperta o coração
e canta o pássaro dos pássaros.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Francisco J. Uriz reproduzida em Poesía nórdica, Ediciones de la Torre, 2ª edição, Madrid, 1999, p. 96).

sábado, 31 de dezembro de 2011

Robert Duncan (1919-1988)

Entre os meus amigos



Entre os meus amigos o amor é uma grande tristeza.
Tornou-se um fardo diário, um festim,
uma guloseima para loucos, uma fome para o coração.
Visitamo-nos uns aos outros perguntando, dizendo uns aos outros.
Não ardemos intensamente, questionamos o fogo.
Não caímos para a frente com os nossos rostos vivos
e ardentes a olhar para dentro do fogo.
Fixamente olhamos para dentro dos nossos próprios rostos.
Tornámo-nos as nossas próprias realidades.
Procuramos esgotar a nossa absoluta incapacidade de amor.

Entre os meus amigos o amor é uma questão dolorosa.
Procuramos entre os rostos que passam
a face da esfinge que apresentará o enigma.
Entre os meus amigos o amor é uma resposta a uma questão
que não chegou a ser colocada.
Por isso coloquemo-la.

Entre os meus amigos o amor é um pagamento.
É uma dívida antiga cujo valor foi gasto de uma forma idiota.
E continuamos a pedir emprestado uns aos outros.
Entre os meus amigos o amor é um salário
que qualquer um pode receber para ter uma vida honesta.



(Versão minha, recuperada, feita com a colaboração de C. e de C., e dedicada a J., a P.B. e a todos os leitores deste blogue; original reproduzido em City Lights Pocket Poets Anthology, organização de Lawrence Ferlinghetti, City Lights Books, São Francisco, 3ª edição, 1997, p. 44).

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Semyon Kirsanov (1906-1972)

O novo coração



Ando ocupado!
Ando a construir
um modelo de um coração
inteiramente
novo!

Um coração
para o futuro: com o qual sinta
e ame. Um coração
com o qual compreenda os homens:

E que me diga também quem
devo livremente
cumprimentar com a minha mão -

e a quem
nunca deverei
estendê-la.



(Versão minha, recuperada, feita a partir da tradução inglesa de Anselm Hollo reproduzida em City Lights Pocket Poets Anthology, organização de Lawrence Ferlinghetti, City Lights Books, São Francisco, 3ª edição, 1997, p. 81).

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Feng Menglong (1574-1646)

O amor


Segundo a melodia Guazhier



Quando estás irritada comigo,
parece que te ris para mim.
Quando me chegas a roupa ao pelo,
aguento e aprecio o teu ar de coquete.
Quando armas confusão por minha causa,
oiço-te a chamares-me querido.
Gosto tanto da tua voz quando me gritas,
e tanto dos teus braços quando me agarras.
Pareces-me linda quando estás contente,
mas ficas ainda mais bela
quando te mostras furiosa ou ressentida.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Guojian Chen reproduzida em Lo mejor de la poesía amorosa china, Calambur, Madrid, 2007, p. 152).

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Eeva Kilpi

["Quando alguém já não tem forças..."]



Quando alguém já não tem forças para escrever, tem de recordar.
Quando já não tem forças para fotografar,
tem de ver com os olhos da alma.
Quando já não tem forças para ler,
tem de estar repleto de histórias.
Quando já não tem forças para falar,
tem de ecoar.

Quando alguém já não tem forças para andar, tem de voar.

E quando chega a hora,
tem de se desprender das recordações
e dos olhos da alma e deixar de ressoar,
calar-se e dobrar as asas.

Mas aconteça o que acontecer a história continua, continua.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Francisco J. Uriz reproduzida em Poesía nórdica, Ediciones de la Torre, 2ª edição, Madrid, 1999, p. 128).

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Jerzy Ficowski

["nada fiz para salvar..."]



nada fiz para salvar
uma só vida

nada fiz para impedir
uma bala que fosse

e ando por cemitérios
que não existem
procuro palavras
que não existem
corro

para ajudar em sítios onde ninguém chamou
para salvar depois das coisas acontecerem

mesmo que esteja atrasado
eu quero chegar a tempo



(Versão minha a paritr da tradução inglesa de Keith Bosley e Krystyna Wandycs reproduzida em The poetry of survival - post-war poets of central and eastern europe, organização de Daniel Weissbort, Peguin Books, 2ª edição, Londres, 1993, pp. 131-132).

domingo, 18 de dezembro de 2011

Ghani Khan

Pergunta ou resposta



Responde, mullah, responde!
A vida é uma pergunta ou uma resposta?
É uma consumação do amor ou uma obsessão doentia?
Repouso ou agitação?
A vida é um imã ou uma amante?
O púlpito ou a sala do trono?
Ou, num mundo voluntarioso,
a ilusão de um sonho encantado?
Um momento para arrebatar a luz
a partir da escuridão do universo?
A vida é uma pergunta ou uma resposta?
Responde, mullah, responde!
A vida é o Faraó e a ousadia -
ou a sua loucura e euforia?
É o trono de ouro de Nimrod,
ou a sinistra morte de Mansur?
Adorável, cheia de sorrisos,
ou Yazid, inchado de orgulho?
É a primavera, ou a rosa,
meio escondida do olhar?
A vida é uma pergunta ou uma resposta?
Responde, mullah, responde!
Um copo de vinho intoxicante,
ou a tigela partida de um mendigo?
O rosto aturdido de Khyyana,
ou o sagaz semblante do tolo Bahlol?
Uma rosa de jardim salpicada de cores,
ou a garantia de espinhos acutilantes?
É uma fuga ou um voo?
Um voo a partir de si próprio?
É uma pergunta ou uma resposta?
Responde, mullah, responde!
A vida é beleza que se propaga -
ou beleza que se extingue?
Música que lamenta o seu próprio fracasso,
ou uma chama ardente?
Há ainda um lugar de repouso no caminho,
ou apenas respiração em busca de outra respiração?
A vida é os baldes de uma nora de tirar água,
uns vazios, outros cheios?
Ou luz que se expande eternamente,
inconsciente da sua glória?
A vida é uma pergunta ou uma resposta?
Responde, mullah, responde!



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Sher Zaman Taizi e de Revez Sheikh reproduzida em Modern poetry of Pakistan, organização de Iftikhar Arif; revisão das traduções de Waqas Khwaja, Dalkey Archive Press, Champaign e Londres, 2010, pp. 96-97)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Cristina Peri Rossi

Projectos



Poderíamos ter um filho
e levá-lo ao jardim zoológico aos domingos.
Poderíamos esperá-lo
à saída do colégio.
Ele iria descobrindo
na procissão das nuvens
toda a pré-história.
Poderíamos com ele fazer anos.

Mas não gostaria que ao chegar à puberdade
um fascista de merda lhe desse um tiro.



(Versão minha; poema incluído em Poesía reunida, Lumen, Barcelona, 2ª edição, 2009, p. 221).