quinta-feira, 12 de abril de 2012

Ali Podrimja

Se



Se um povo
Não tem poetas
Nem poesia própria
Para uma Antologia Nacional
Então a traição e o ladrar
Hão-de servir.



(versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 208).

terça-feira, 10 de abril de 2012

Girolamo de Rada (1814 -1903)

Pode um beijo ser mais doce?



Era uma manhã de domingo
E o filho da nobre senhora
Foi visitar a bela donzela
Para lhe pedir uma gota de água,
Pois morria de sede.
Encontrou-a sozinha à lareira
A entrançar o cabelo.
Amavam-se, mas nenhuma palavra de amor foi trocada,
A jovem tinha um sorriso nos lábios:
"Por que tens de te ir como o vento?"
"Aguardam-me para o lançamento do disco."
"Espera só um pouco, guardei
Duas maçãs maduras para ti."
Segurando o cabelo penteado
Com uma das mãos erguida
Sobre a pele pálida das orelhas,
Ela mergulhou a outra no seu corpete
E tirou as maçãs,
Colocando-as nas mãos dele,
Ruborizando de vergonha.
Dizei-me, ó apaixonados,
Pode um beijo ser mais doce?



(Versão minha a partir da tradução inglesa reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, organização e tradução de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 71).

sábado, 7 de abril de 2012

Fabián Casas

Sem chaves e às escuras



Era um desses dias em que tudo corre bem.
Tinha limpado a casa e escrito
dois ou três poemas que me agradavam.
Não pedia mais.

Então saí para o patamar para deitar o lixo fora
e, atrás de mim, com uma corrente de ar,
a porta fechou-se.
Fiquei sem chaves e às escuras
sentindo as vozes dos meus vizinhos
através das suas portas.
É passageiro, disse para mim;
no entanto também a morte poderia ser assim:
um patamar escuro,
uma porta fechada com a chave do lado de dentro,
o lixo na mão.



(Versão minha, o original pode ser lido algures por aqui).

quinta-feira, 29 de março de 2012

Eeva-Liisa Manner

Nada



"Não se pode viver sem amar"
"Pode-se, sim", disse
e vesti-me de negro
para o último baile de máscaras.

E tinha a boca cheia de pó
como se tivesse secado de tanto chorar
(ainda que não tenha chorado em cinquenta anos).

Não quero o vosso céu, companheiros,
as falsas promessas, os amigos fingidos,
as ruas cheias de beijos,
as mentiras de espelhos fugidios.
Quero rasgar o último selo,
a lua que não dá luz,
a noite em que não brilha nada.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz reproduzida em Poesía nórdica, Ediciones de la Torre, 2ª edição, Madrid, 1999, p. 93).

segunda-feira, 26 de março de 2012

Ricardo Castro Ferreira

Vanitas (a lição de Marlene Dumas)



(Óleo sobre papel; 2012).

sexta-feira, 23 de março de 2012

Antonio Parra

A una puttana



O teu ofício não é dos melhores,
nem sequer foste a primeira.
A tua profissão e a sua origem perdem-se
para lá do velho centauro e ainda mais para trás,
nos claros pomares de todas as relações
e nos confins de todo o paraíso averiguado.
Não fazes nada de formidável,
nada que assombre os humanos,
é tão vulgar o teu trabalho
que ninguém pensou desterrar-te.
No entanto, encheste de prazer e gozo
na noite pesada criaturas feias e magoadas.
Chulos, rufias, sonâmbulos, ladrões,
trolhas e corcundas povoaram a tua cama,
e tremeram diante do teu corpo
homens do mar e soldados.
Não foste a primeira nem a única,
nem serás a última,
velha rameira da noite
nesta esquina toda mijada de Roma,
mas o teu esforço bem merece a minha saudação:
Salvé, enrugada senhora dos desgraçados!
Rainha dos prazeres terrenos,
os únicos que nos é dado possuir.



(Versão minha; original reproduzido em Poemas (1979-1997), Renacimiento, Sevilha, 1997, p. 35).

quarta-feira, 21 de março de 2012

terça-feira, 20 de março de 2012

Ricardo Castro Ferreira

Something for the weekend


(Óleo sobre papel; 2012)

domingo, 18 de março de 2012

Ana Pérez Cañamares

Meu filho



Que sou livre, dizem-me.
Porém se quisesse ter outro filho
teria de o levar ao banco da esquina
porque sua é a minha casa.
O meu menino chamaria pai ao gerente
e mãe à caixa
aprenderia a andar com uma cadeira
de rodinhas de escritório
dormiria numa gaveta dos arquivos
e eu seria apenas um parente afastado
que lhe sorriria do meu lugar na fila.
Passaria por lá de vez em quando com a desculpa de aumentar a hipoteca
só para ver como o criam
como o ar condicionado o afecta
se sabe enviar um fax
e se o gerente lhe oferece um jogo de frigideiras
pelo seu aniversário.



(vesão minha; original reproduzido em La manera de recogerse el pelo - Generación blogger, selecção de David González; prólogo de José Ángel Barrueco, Bartleby, Madrid, 2010, p. 195).

quinta-feira, 15 de março de 2012

Cristina Morano

Vergonha



O número de filhos da puta
aumenta cada dia, mas pior
é o número ainda maior dos tontos.
Eu conto-me entre os segundos,
às vezes o meu pai pergunta-me
se vou fazer alguma coisa a respeito disso;
não costumo, porém, responder-lhe,
limito-me a olhar a tv
sentada em frente da sua cara.
Deveria dizer-lhe que tem razão,
que as pessoas me dirigem o olhar
como se a uma espécie rara de animal,
como se se sentissem confortáveis
no papel do delator.
Gostaria de fazer alguma coisa para mudar,
ser mais inteligente, fumar com elegância...
esse tipo de coisas que te tornam respeitável.
Mas, no fundo, nunca seria suficiente,
os pratos continuam a cair-me das mãos.



(Versão minha; original reproduzido em La manera de recogerse el pelo - Generación blogger, selecção de David González; prólogo de José Ángel Barrueco, Bartleby, Madrid, 2010, p. 213).

terça-feira, 13 de março de 2012

Ricardo Castro Ferreira

Convite para uma decapitação


















(Óleo sobre papel; 2012)

segunda-feira, 12 de março de 2012

Maris Salejs

[aqui estamos...]



aqui estamos

a morte não nos cobriu
completamente

por isso aqui estamos



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Ieva Lesinska reproduzida em Six latvian poets, organização da tradutora, introdução de Juris Kronbergs, Arc, Todmorden, 2011, p. 133).

sábado, 10 de março de 2012

Anna Auzina

[Agora eu tenho...]



Agora eu tenho um cãozinho
chama-se Desassossego, é de uma raça amarga (mais tarde hei-de mostrar uma fotografia)
Vai comigo para o trabalho, dobrado debaixo do meu braço
segue-me tristemente até ao infantário e à noite quer sair.
Ficar por aqui ao pé da porta não serve, tem de ser para a chuva e para o vento.
Eu sei que vocês se preocupam, mas andamos só por ruas bem iluminadas
e apenas até ele ficar verdadeiramente exausto, é o melhor para todos
Assim não uiva junto à porta do quarto que lhe fechas cuidadosamente no focinho.



(Versão minha  partir da tradução inglesa de Ieva Lesinska reproduzida em Six latvian poets, selecção e organização de Juris Kronberg, Arc, Todmorden, 2011, p. 43).

quinta-feira, 8 de março de 2012

Ricardo Castro Ferreira

Um pouco da morte























(Óleo sobre papel; 2012).

terça-feira, 6 de março de 2012

Maris Salejs

[vês o que resta...]



vês o que resta dos predadores?
ossos

vês o que resta da vida?
o sol

quando tudo acaba sempre
então ainda este sol

não sei porquê
mas é



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Ieva Lesinska reproduzida em Six latvian poets, selecção e organização da tradutora; introdução de Juris Kronberg, Arc, Todmorden, 2011, p. 133).

domingo, 4 de março de 2012

Anna Auzina

Pequeno-almoço nas nuvens



às vezes é tão bom
até podíamos ter mais filhos
cães gatos hamsters
peixes tropicais bisavós passadas da cabeça
duas ou três tendas
esquis um computador
vários monitores
basta carregar tudo isso e seguir

um pequeno-almoço na erva
melhor ainda nas nuvens
é preciso comprar equipamento de piquenique

e bons ganchos
para que a corda nos possa içar
de modo seguro até ao céu
nas nuvens grelharemos salsichas
como fazemos habitualmente
e depois fotografar-me-ás
nua no céu

quando já estiverem todos a dormir nas nuvens
filhos
cães gatos hamsters
peixes tropicais bisavós malucas de todo



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Ieva Lesinska reproduzida em Six latvian poets, organização e tradução de Ieva Lesinska, introdução de Juris Kronbergs, Arc, Todmorden, 2011, p. 35).

sexta-feira, 2 de março de 2012

Ricardo Castro Ferreira

Perto do coração selvagem





















(Óleo sobre papel, 33x24; 2012).

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Juan de Lapala

Vincent



Cegam-me os teus sóis
e os teus lúcidos amarelos.
Sossegam-me a alma
as aspas "deste ninguém".
Toco por baixo da ligadura
dos teus óleos
esses ausentes recessos
que fizeste símbolo da tua dor.
Pesou demasiado a tua cruz, homem,
e sei que caíste três vezes
antes de te amputares por inteiro.
Ainda te observamos cabisbaixos,
eu e os teus tristes girassóis.



(Versão de Ricardo Castro Ferreira; o original - do livro El torturador, de 2005 - pode ser lido aqui).

Cristina Morano

La herencia

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Cristina Morano

A herança


A Tomasa Meco, in memorian



A minha mãe ensinou-me a bordar:
o dedal no dedo médio,
usar o fio em pequenas meadas,
ensinou-me a fazer o ponto de bainha dupla
e a dispor a loiça de porcelana:
primeiro as bandejas,
depois os pratos e os copos.
A minha avó ensinou-me a engomar:
o lenço de criança dobrava-se
num triângulo, como o de solteira,
só o de cavalheiro se dobrava
em forma de rectângulo.

- Então és filha de boas famílias.
- Não, sou a filha das criadas.



(Versão minha; original reproduzido em La manera de recogerse el pelo - Generación blogger, selecção de David González; prólogo de José Ángel Barrueco, Bartleby, Madrid, 2010, p. 211).

sábado, 25 de fevereiro de 2012

José Carlos Cataño

Le crocodile et Mallarmé



Eugène Mallarmé, ilustre professor do Colégio de França, publica em 1899 a sua monumental Histoire Naturelle du Crocodile Africain. Um ano mais tarde tem a oportunidade de pisar o continente negro.

Agora encontra-se em Rwonga, frente ao seu primeiro exemplar vivo da espécie. O sangue gela-lhe, de imediato, o crocodilo avança e Eugène Mallarmé sobe a uma bananeira. Erguido sobre as patas traseiras, o monstro arrasta-se e trepa.

As últimas palavras do sábio, segundo as desconsoladas testemunhas, foram:

- Mais non! Mais non! Les crocodiles ne montent pas aux arbres!



(Versão minha; original reproduzido em Campo abierto - Antología del poema en prosa en España (1990-2005), selecção e organização de Marta Agudo e Carlos Jiménez Arribas, DVD, 2005, Barcelona, p. 95).

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Ricardo Castro Ferreira

Sol avesso




















(Óleo sobre papel, 33x24; 2012).

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Jaimee Kuperman

O novo dentista



Conduzo em direcção ao consultório do novo dentista
a lenta condução por um sítio desconhecido
com um McDonalds aonde não vou
à esquerda e o centro comercial duas milhas mais à frente.
O tribunal e o antigo tribunal
sinais de trânsito que dividem a estrada, uma espécie de garfo
que não se parece nada com um garfo ou uma colher, na verdade, na melhor das hipóteses
talvez só com uma faca encurvada que se inclina para um lado
na máquina de lavar loiça. E sei que o dentista
fará perguntas sobre a minha última consulta e quererá saber
há quantos meses foi e eu não poderei dizer apenas que há algum tempo
e sei que me perguntará se uso o fio dental
e responder-lhe quando estou pr'aí virado não será
a resposta mais apropriada.
Depois fará a chamada das minhas cavidades
como se elas fossem os nomes de uma turma.
Escovo os dentes antes de entrar.
É como fazer a limpeza antes da chegada da mulher-a-dias,
mas não quero que ele saiba que costumo ter uma boca
desleixada. Que sou o tipo de pessoa que amontoa coisas
no armário antes de chegarem os convidados.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui)

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Laura Casielles

descentralizações (i)



Enquanto uma mulher na Provença
abotoava o corpete,
cinco mulheres preparavam as suas tigelas de henna*
num harém não muito longe de Tânger.
Enquanto se escrevia sobre o Cid,
escrevia-se também o Rubaiyat.
Emquanto se travava uma guerra entre a Prússia e a Áustria,
milhares de tártaros eram expulsos da Crimeia.
Ao mesmo tempo que Carlos Magno,
Kaya-Magan.
No dia em que Gravilo Princip
assassinou o príncipe Francisco Fernando
cumpriu-se o segundo aniversário
do dia em que se autorizou a compra do Canal do Panamá.
E no ano em que morreu Winston Churchill,
Mehdi Ben Barka desapareceu em Paris em estranhas circunstâncias
e a Índia independente tornou oficial uma das suas mais de trinta línguas.
Enquanto Bolívar montava o seu cavalo,
os ingleses instalavam-se na Tasmânia.
Os fuzilamentos do 2 de Maio
não são o mesmo que o 2 de Maio de 1812,
quando os colonos desistiram do sítio de Cuautla.

Se são curiosidades, todas são curiosidades.
Se são feitos importantes, todos são feitos importantes.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui, na página 73. *Corante muito usado no norte de África e na Índia para colorir ou tatuar as mãos e o corpo das mulheres).

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Jane Kenyon

Agasalhos



Vi-o a sair do hospital
com um casaco de senhora no braço.
Claramente ela não iria precisar de tal coisa.
Os óculos de sol que ele usava não conseguiam
esconder-lhe o rosto molhado, o seu desnorte.

E como uma piada de mau gosto o dia estava limpo
e o ar demasiado suave para dezembro. Mesmo assim
ele correu o fecho do blusão e atou
o capuz debaixo do queixo, preparando-se
para um frio irremediável.



(Versão minha a partir do original e da tradução espanhola de Hilario Barrero reproduzidos em De otra manera, Pre-Textos, Valência, 2007, pp. 106-107).

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Berta Piñan

Lição de gramática



Como se diz em ouolof a palavra fronteira, a palavra
pátria? E em soniké, como designareis o desamparo?
Se quiserdes dizer em berbere, por exemplo, "eu tive uma casa
num arrabalde de Rabat", poreis a frase nesta ordem? Como
se conjugam em bambara os verbos que conduzem ao norte,
que adjectivos se devem acrescentar à palavra mar, à palavra morte?
Se tiverdes de partir, a palavra adeus será um substantivo?
Como se pronuncia em diakhanké a palavra exílio? Há que
juntar os lábios? Doem? Que pronomes usais para aquele que espera
na praia, para o que regressa sem nada? Quando apontais para além, no sentido
de casa, que advérbio escolheis? Como se diz na vossa, na nossa língua
a palavra futuro?



(Versão minha; o original pode ser lido algures por aqui, na p. 14. Notas: 1) A versão que apresento parte do original asturiano e fez-se sem recurso a dicionário; a proximidade do asturiano com o castelhano e com o próprio português permitiu-me correr o risco calculado de tentar a transposição para o português. 2) Ouolof (um leitor atento sugere-me que a maneira correcta de grafar esta palavra será uólofe ou uolofe; no entanto, admitindo a possibilidade de estar a errar, decido manter a forma de ressonâncias herbertianas: Ouolof é o título de um dos volumes de "poemas mudados para português" pelo autor de Ofício cantante), soniké, berbere, bambara e diakhanké são línguas faladas por diferentes populações ou grupos étnicos de várias regiões do continente africano (do Norte, do Centro ou da África Ocidental - por exemplo, em países como o Mali ou o Senegal...). 3) Por último, com esta versão deste poema extraordinário, desejo agradecer esta tradução de um outro poema extraordinário. E, se possível, retribuir.)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Igor Estankona

O adivinho



Um ramo oscilou levemente
mas o pássaro que o mundo esperava não está,
as nuvens vieram
mas não trouxeram a chuva que a terra desejava,
uma mosca caiu
mas o peixe que o lago esconde não veio à superfície.

Assim te espero eu
fazendo cáculos e mais cálculos.

Ouve-se a música
mas não há nenhum bailarino nesta sala vazia,
um perfume expande-se
mas as macieiras não estão ainda em flor,
deitei-me com mulheres
mas não se desfez a imagem do coração.

Assim te espero eu
procurando-te em qualquer sinal.



(Versão minha a partir da tradução para espanhol de Jon Kortazar reproduzida em Un puente de palabras - 5 jóvenes poetas vascos, selecção e organização de Jon Kortazar, Centro de Lingüística Aplicada Atenea, edição bilingue euskera/espanhol, Madrid, 2005, p.121).

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Jorge Luis Borges

(Acerca da tradução: fotografia de José Manuel Teixeira da Silva)


Xadrez (II)



O rei subtil, o bispo oblíquo, a feroz
rainha, torre frontal, peão ladino
sobre o preto e branco deste caminho
tomam e deixam armas da batalha.

Não conhecem a mão predestinada
do jogador governando o destino,
não conhecem o imenso rigor
que sujeita liberdade e viagem.

Também o jogador é prisioneiro
(disse-o Omar) de outro tabuleiro
pleno de noites negras, dias claros.

Deus move o jogador e este a peça.
Que deus atrás de Deus começa a trama
feita de pó e tempo e sonho e mortes?



(Versão de José Manuel Teixeira da Silva, a partir do original em castelhano incluído em Nueva Antología Personal, 2ª ed., Bruguera, Barcelo, 1983, p. 17. Com esta tradução e com a fotografia que, segundo nota do autor, "poderia chamar-se (parece-me) "acerca da tradução"", José Manuel Teixeira da Silva associa-se à comemoração dos quatro anos deste blogue, o que registo com grande satisfação e gratidão).

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Marlene Dumas

Contra o muro



O primeiro gesto é o pior.
Desenhar uma linha divide o papel em dois.
Desenhar mapas e fronteiras faz dos vizinhos estrangeiros.
Nas culturas bélicas todas as gerações de crianças foram educadas
a pensar exclusivamente em imagens-inimigo.

A arte é uma forma de dormir com o inimigo.

Tenho imenso respeito pelos jornalistas que arriscam
as suas vidas para nos mostrarem aquilo que está a acontecer aqui e agora. Não estou a [tentar
melhorar o seu trabalho. Não sou uma repórter local. Sou uma artista de estúdio.
Viajo através da minha imaginação, ou assim deveria fazer - vivo na minha imaginação.

Não quero que destruam Israel.
Quero que se acabe com a ocupação da Palestina.
Quero que acabemos a Segunda Guerra Mundial,
Para que possamos acabar a Terceira Guerra Mundial.
Mas isso não pode ser pintado. Só os muros podem ser pintados.

Nunca encarei a pintura como uma janela ou como um espelho do mundo.
Talvez a veja mais como uma porta com o aviso Não Entrar
ou uma carta com a informação "Devolver ao remetente - Desconhecido neste paradeiro".
Ou uma fronteira.



(Versão de Ricardo Castro Ferreira. Com esta colaboração do Ricardo - um retorno aos textos-poemas de Marlene Dumas - fica concluída a série dedicada aos quatro anos deste blogue. Agora é seguir em frente. Muito obrigado a todos).

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Lisel Mueller

Pombos



Como qualquer outro reino
o reino dos pássaros
também tem a sua multidão de pobres,
esses pobres públicos e urbanos
cujos excrementos branqueiam
telhas e calçadas,

que picam e picam
(mas raramente escolhem)
o que os seus bicos encontram:
os detritos diários
das ricas cidades italianas
ou aqui, em redor do edifício da Câmara -
sempre pelos passeios
ofendendo as pessoas enojadas
que se dirigem a um qualquer lugar.

Ninguém se lembra de como é que isto aconteceu,
o seu declínio, o voo
quase abandonado,
esses murmúrios queixosos,
as colheitas nos baldes dos lixos.
Em tempos foram elegantes e despreocupados;
chamavam uns pelos outros com as suas vozes ricas e profundas
e nós tratávamo-los como aves nobres e delicadas
e acolhíamo-los nos nossos jardins.



(Versão minha; original reproduzido em Alive together - new and selected poems, Louisiana State University Press, Baton Rouge, 1996, p. 23. Com esta versão assinalo os quatro anos de existência deste blogue, que hoje se comemoram).