Linguagem
Eles disseram à linguagem: agora tens liberdade.
Mas a linguagem não teve forças para responder: não preciso.
De que me serve agora
Se não falei livremente quando devia?
Fui deixada sem asas,
Fui deixada sem céu,
Sou vida sem sonho,
Sou um sonho sem uma vida.
Disseram à linguagem: és livre.
É difícil, disse a linguagem, difícil
Acreditar que se é livre.
Quando engolimos as nosssas próprias sílabas,
Quando nos golpeiam até nos reduzirem a um cepo
Até a liberdade se transforma numa prisão.
Eles disseram à linguagem: a liberdade vive.
A linguagem replicou:
Eu não sou Constantino - que se lançou em busca da morte.
Disseram à linguagem: és a liberdade.
Não é preciso muito para perceber isso.
Então a linguagem acreditou neles
E abriu a boca,
Emitindo
Em vez de sons
Sangue.
(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An Anthology of albanian poetry, Nortwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, pp. 213-214).
quinta-feira, 26 de abril de 2012
terça-feira, 24 de abril de 2012
Dritëro Agolli
A vaca
A vaca rumina o seu alimento no estábulo cheio de forragem,
Eu encosto a cara ao seu flanco enorme
E sinto, vindo do interior das suas profundezas, o calor,
O calor do feno colhido nos campos.
Sobre os seus cornos escuros está suspensa uma lâmpada eléctrica
Que traz luz até ao balde do leite.
Não posso abandonar a vaca.
Com a cara encostada ao seu flanco, cheiro o leite coberto de espuma.
A leiteira retira o balde com cuidado
E pára por um instante, com as mãos a pingar.
Diz:
"Você é veterinário?"
Descolo a cara da vaca:
"Não, poeta."
Ela ri-se e estuda-me com os olhos azuis,
Simpática, sábia, serena.
Reflecte um pouco e compreende
Que eu não consigo escrever uma linha sem uma vaca...
A vaca rumina o seu alimento no estábulo cheio de forragem,
Eu encosto a cara ao seu flanco enorme
E sinto, vindo do interior das suas profundezas, o calor,
O calor do feno colhido nos campos.
Sobre os seus cornos escuros está suspensa uma lâmpada eléctrica
Que traz luz até ao balde do leite.
Não posso abandonar a vaca.
Com a cara encostada ao seu flanco, cheiro o leite coberto de espuma.
A leiteira retira o balde com cuidado
E pára por um instante, com as mãos a pingar.
Diz:
"Você é veterinário?"
Descolo a cara da vaca:
"Não, poeta."
Ela ri-se e estuda-me com os olhos azuis,
Simpática, sábia, serena.
Reflecte um pouco e compreende
Que eu não consigo escrever uma linha sem uma vaca...
(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestwern University Press, Evanston - Illinois, 208, p. 180).
domingo, 22 de abril de 2012
Entre a carne e o osso
Luís Filipe Parrado, Entre a carne e o osso, Língua Morta, Lisboa.
[com capa de Inês Dias,
150 exemplares, 68pp., 9€]
pedidos: edlinguamorta@gmail.com
terça-feira, 17 de abril de 2012
Cristina Morano
Fabricante de armas
(Transcrição de uma conversa real gravada com
câmara oculta para uma reportagem da BBC)
E esta outra arma que aqui tenho,
dada a sua forma alongada e de fácil
manejo, pode ser utilizada
como um eficaz objecto contundente
para dispersar multidões.
Além do mais numa das pontas
incorpora uma bateria
que, accionada por este botão,
produz uma descarga feroz
de cada vez que se golpeia;
ou, se o desejar, o artefacto
pode introduzir-se na vagina
e, a partir daí, electrocutar,
sem as velhas complicações
dos instrumentos clássicos
similares no mercado.
Não tenham
receio de perguntar o preço.
(Transcrição de uma conversa real gravada com
câmara oculta para uma reportagem da BBC)
E esta outra arma que aqui tenho,
dada a sua forma alongada e de fácil
manejo, pode ser utilizada
como um eficaz objecto contundente
para dispersar multidões.
Além do mais numa das pontas
incorpora uma bateria
que, accionada por este botão,
produz uma descarga feroz
de cada vez que se golpeia;
ou, se o desejar, o artefacto
pode introduzir-se na vagina
e, a partir daí, electrocutar,
sem as velhas complicações
dos instrumentos clássicos
similares no mercado.
Não tenham
receio de perguntar o preço.
(Versão minha; o original aparece reproduzido em La manera de recogerse el pelo - Generación blogger, selecção de David González; prólogo de José Ángel Barrueco, Bartleby, Madrid, 2010, p. 219).
domingo, 15 de abril de 2012
Raúl Gustavo Aguirre
A trincheira do Reno
Eu, Martin
Heidegger, o filósofo
que pensou o Impensável
e anunciou a perda do Ser
por causa da ciência e do olvido,
fui declarado pelos meus pares
"pessoa totalmente dispensável"
e enviado para cavar esta trincheira
ao longo do Reno.
Debaixo dos meus pés a terra venerável afunda-se.
Cai o crepúsculo azul de Georg Trakl. Tenho frio.
E no bosque vizinho soa outra vez, tenebroso,
o riso do idiota que assistia às minhas lições.
(Versão minha; o original pode ler-se aqui).
Eu, Martin
Heidegger, o filósofo
que pensou o Impensável
e anunciou a perda do Ser
por causa da ciência e do olvido,
fui declarado pelos meus pares
"pessoa totalmente dispensável"
e enviado para cavar esta trincheira
ao longo do Reno.
Debaixo dos meus pés a terra venerável afunda-se.
Cai o crepúsculo azul de Georg Trakl. Tenho frio.
E no bosque vizinho soa outra vez, tenebroso,
o riso do idiota que assistia às minhas lições.
(Versão minha; o original pode ler-se aqui).
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Ali Podrimja
Se
Se um povo
Não tem poetas
Nem poesia própria
Para uma Antologia Nacional
Então a traição e o ladrar
Hão-de servir.
Se um povo
Não tem poetas
Nem poesia própria
Para uma Antologia Nacional
Então a traição e o ladrar
Hão-de servir.
(versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 208).
terça-feira, 10 de abril de 2012
Girolamo de Rada (1814 -1903)
Pode um beijo ser mais doce?
Era uma manhã de domingo
E o filho da nobre senhora
Foi visitar a bela donzela
Para lhe pedir uma gota de água,
Pois morria de sede.
Encontrou-a sozinha à lareira
A entrançar o cabelo.
Amavam-se, mas nenhuma palavra de amor foi trocada,
A jovem tinha um sorriso nos lábios:
"Por que tens de te ir como o vento?"
"Aguardam-me para o lançamento do disco."
"Espera só um pouco, guardei
Duas maçãs maduras para ti."
Segurando o cabelo penteado
Com uma das mãos erguida
Sobre a pele pálida das orelhas,
Ela mergulhou a outra no seu corpete
E tirou as maçãs,
Colocando-as nas mãos dele,
Ruborizando de vergonha.
Dizei-me, ó apaixonados,
Pode um beijo ser mais doce?
Era uma manhã de domingo
E o filho da nobre senhora
Foi visitar a bela donzela
Para lhe pedir uma gota de água,
Pois morria de sede.
Encontrou-a sozinha à lareira
A entrançar o cabelo.
Amavam-se, mas nenhuma palavra de amor foi trocada,
A jovem tinha um sorriso nos lábios:
"Por que tens de te ir como o vento?"
"Aguardam-me para o lançamento do disco."
"Espera só um pouco, guardei
Duas maçãs maduras para ti."
Segurando o cabelo penteado
Com uma das mãos erguida
Sobre a pele pálida das orelhas,
Ela mergulhou a outra no seu corpete
E tirou as maçãs,
Colocando-as nas mãos dele,
Ruborizando de vergonha.
Dizei-me, ó apaixonados,
Pode um beijo ser mais doce?
(Versão minha a partir da tradução inglesa reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, organização e tradução de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 71).
sábado, 7 de abril de 2012
Fabián Casas
Sem chaves e às escuras
Era um desses dias em que tudo corre bem.
Tinha limpado a casa e escrito
dois ou três poemas que me agradavam.
Não pedia mais.
Então saí para o patamar para deitar o lixo fora
e, atrás de mim, com uma corrente de ar,
a porta fechou-se.
Fiquei sem chaves e às escuras
sentindo as vozes dos meus vizinhos
através das suas portas.
É passageiro, disse para mim;
no entanto também a morte poderia ser assim:
um patamar escuro,
uma porta fechada com a chave do lado de dentro,
o lixo na mão.
(Versão minha, o original pode ser lido algures por aqui).
Era um desses dias em que tudo corre bem.
Tinha limpado a casa e escrito
dois ou três poemas que me agradavam.
Não pedia mais.
Então saí para o patamar para deitar o lixo fora
e, atrás de mim, com uma corrente de ar,
a porta fechou-se.
Fiquei sem chaves e às escuras
sentindo as vozes dos meus vizinhos
através das suas portas.
É passageiro, disse para mim;
no entanto também a morte poderia ser assim:
um patamar escuro,
uma porta fechada com a chave do lado de dentro,
o lixo na mão.
(Versão minha, o original pode ser lido algures por aqui).
quinta-feira, 29 de março de 2012
Eeva-Liisa Manner
Nada
"Não se pode viver sem amar"
"Pode-se, sim", disse
e vesti-me de negro
para o último baile de máscaras.
E tinha a boca cheia de pó
como se tivesse secado de tanto chorar
(ainda que não tenha chorado em cinquenta anos).
Não quero o vosso céu, companheiros,
as falsas promessas, os amigos fingidos,
as ruas cheias de beijos,
as mentiras de espelhos fugidios.
Quero rasgar o último selo,
a lua que não dá luz,
a noite em que não brilha nada.
"Não se pode viver sem amar"
"Pode-se, sim", disse
e vesti-me de negro
para o último baile de máscaras.
E tinha a boca cheia de pó
como se tivesse secado de tanto chorar
(ainda que não tenha chorado em cinquenta anos).
Não quero o vosso céu, companheiros,
as falsas promessas, os amigos fingidos,
as ruas cheias de beijos,
as mentiras de espelhos fugidios.
Quero rasgar o último selo,
a lua que não dá luz,
a noite em que não brilha nada.
(Versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz reproduzida em Poesía nórdica, Ediciones de la Torre, 2ª edição, Madrid, 1999, p. 93).
segunda-feira, 26 de março de 2012
sexta-feira, 23 de março de 2012
Antonio Parra
A una puttana
O teu ofício não é dos melhores,
nem sequer foste a primeira.
A tua profissão e a sua origem perdem-se
para lá do velho centauro e ainda mais para trás,
nos claros pomares de todas as relações
e nos confins de todo o paraíso averiguado.
Não fazes nada de formidável,
nada que assombre os humanos,
é tão vulgar o teu trabalho
que ninguém pensou desterrar-te.
No entanto, encheste de prazer e gozo
na noite pesada criaturas feias e magoadas.
Chulos, rufias, sonâmbulos, ladrões,
trolhas e corcundas povoaram a tua cama,
e tremeram diante do teu corpo
homens do mar e soldados.
Não foste a primeira nem a única,
nem serás a última,
velha rameira da noite
nesta esquina toda mijada de Roma,
mas o teu esforço bem merece a minha saudação:
Salvé, enrugada senhora dos desgraçados!
Rainha dos prazeres terrenos,
os únicos que nos é dado possuir.
O teu ofício não é dos melhores,
nem sequer foste a primeira.
A tua profissão e a sua origem perdem-se
para lá do velho centauro e ainda mais para trás,
nos claros pomares de todas as relações
e nos confins de todo o paraíso averiguado.
Não fazes nada de formidável,
nada que assombre os humanos,
é tão vulgar o teu trabalho
que ninguém pensou desterrar-te.
No entanto, encheste de prazer e gozo
na noite pesada criaturas feias e magoadas.
Chulos, rufias, sonâmbulos, ladrões,
trolhas e corcundas povoaram a tua cama,
e tremeram diante do teu corpo
homens do mar e soldados.
Não foste a primeira nem a única,
nem serás a última,
velha rameira da noite
nesta esquina toda mijada de Roma,
mas o teu esforço bem merece a minha saudação:
Salvé, enrugada senhora dos desgraçados!
Rainha dos prazeres terrenos,
os únicos que nos é dado possuir.
(Versão minha; original reproduzido em Poemas (1979-1997), Renacimiento, Sevilha, 1997, p. 35).
quarta-feira, 21 de março de 2012
terça-feira, 20 de março de 2012
domingo, 18 de março de 2012
Ana Pérez Cañamares
Meu filho
Que sou livre, dizem-me.
Porém se quisesse ter outro filho
teria de o levar ao banco da esquina
porque sua é a minha casa.
O meu menino chamaria pai ao gerente
e mãe à caixa
aprenderia a andar com uma cadeira
de rodinhas de escritório
dormiria numa gaveta dos arquivos
e eu seria apenas um parente afastado
que lhe sorriria do meu lugar na fila.
Passaria por lá de vez em quando com a desculpa de aumentar a hipoteca
só para ver como o criam
como o ar condicionado o afecta
se sabe enviar um fax
e se o gerente lhe oferece um jogo de frigideiras
pelo seu aniversário.
(vesão minha; original reproduzido em La manera de recogerse el pelo - Generación blogger, selecção de David González; prólogo de José Ángel Barrueco, Bartleby, Madrid, 2010, p. 195).
Que sou livre, dizem-me.
Porém se quisesse ter outro filho
teria de o levar ao banco da esquina
porque sua é a minha casa.
O meu menino chamaria pai ao gerente
e mãe à caixa
aprenderia a andar com uma cadeira
de rodinhas de escritório
dormiria numa gaveta dos arquivos
e eu seria apenas um parente afastado
que lhe sorriria do meu lugar na fila.
Passaria por lá de vez em quando com a desculpa de aumentar a hipoteca
só para ver como o criam
como o ar condicionado o afecta
se sabe enviar um fax
e se o gerente lhe oferece um jogo de frigideiras
pelo seu aniversário.
(vesão minha; original reproduzido em La manera de recogerse el pelo - Generación blogger, selecção de David González; prólogo de José Ángel Barrueco, Bartleby, Madrid, 2010, p. 195).
quinta-feira, 15 de março de 2012
Cristina Morano
Vergonha
O número de filhos da puta
aumenta cada dia, mas pior
é o número ainda maior dos tontos.
Eu conto-me entre os segundos,
às vezes o meu pai pergunta-me
se vou fazer alguma coisa a respeito disso;
não costumo, porém, responder-lhe,
limito-me a olhar a tv
sentada em frente da sua cara.
Deveria dizer-lhe que tem razão,
que as pessoas me dirigem o olhar
como se a uma espécie rara de animal,
como se se sentissem confortáveis
no papel do delator.
Gostaria de fazer alguma coisa para mudar,
ser mais inteligente, fumar com elegância...
esse tipo de coisas que te tornam respeitável.
Mas, no fundo, nunca seria suficiente,
os pratos continuam a cair-me das mãos.
O número de filhos da puta
aumenta cada dia, mas pior
é o número ainda maior dos tontos.
Eu conto-me entre os segundos,
às vezes o meu pai pergunta-me
se vou fazer alguma coisa a respeito disso;
não costumo, porém, responder-lhe,
limito-me a olhar a tv
sentada em frente da sua cara.
Deveria dizer-lhe que tem razão,
que as pessoas me dirigem o olhar
como se a uma espécie rara de animal,
como se se sentissem confortáveis
no papel do delator.
Gostaria de fazer alguma coisa para mudar,
ser mais inteligente, fumar com elegância...
esse tipo de coisas que te tornam respeitável.
Mas, no fundo, nunca seria suficiente,
os pratos continuam a cair-me das mãos.
(Versão minha; original reproduzido em La manera de recogerse el pelo - Generación blogger, selecção de David González; prólogo de José Ángel Barrueco, Bartleby, Madrid, 2010, p. 213).
terça-feira, 13 de março de 2012
segunda-feira, 12 de março de 2012
Maris Salejs
[aqui estamos...]
aqui estamos
a morte não nos cobriu
completamente
por isso aqui estamos
aqui estamos
a morte não nos cobriu
completamente
por isso aqui estamos
(Versão minha a partir da tradução inglesa de Ieva Lesinska reproduzida em Six latvian poets, organização da tradutora, introdução de Juris Kronbergs, Arc, Todmorden, 2011, p. 133).
sábado, 10 de março de 2012
Anna Auzina
[Agora eu tenho...]
Agora eu tenho um cãozinho
chama-se Desassossego, é de uma raça amarga (mais tarde hei-de mostrar uma fotografia)
Vai comigo para o trabalho, dobrado debaixo do meu braço
segue-me tristemente até ao infantário e à noite quer sair.
Ficar por aqui ao pé da porta não serve, tem de ser para a chuva e para o vento.
Eu sei que vocês se preocupam, mas andamos só por ruas bem iluminadas
e apenas até ele ficar verdadeiramente exausto, é o melhor para todos
Assim não uiva junto à porta do quarto que lhe fechas cuidadosamente no focinho.
Agora eu tenho um cãozinho
chama-se Desassossego, é de uma raça amarga (mais tarde hei-de mostrar uma fotografia)
Vai comigo para o trabalho, dobrado debaixo do meu braço
segue-me tristemente até ao infantário e à noite quer sair.
Ficar por aqui ao pé da porta não serve, tem de ser para a chuva e para o vento.
Eu sei que vocês se preocupam, mas andamos só por ruas bem iluminadas
e apenas até ele ficar verdadeiramente exausto, é o melhor para todos
Assim não uiva junto à porta do quarto que lhe fechas cuidadosamente no focinho.
(Versão minha partir da tradução inglesa de Ieva Lesinska reproduzida em Six latvian poets, selecção e organização de Juris Kronberg, Arc, Todmorden, 2011, p. 43).
quinta-feira, 8 de março de 2012
terça-feira, 6 de março de 2012
Maris Salejs
[vês o que resta...]
vês o que resta dos predadores?
ossos
vês o que resta da vida?
o sol
quando tudo acaba sempre
então ainda este sol
não sei porquê
mas é
vês o que resta dos predadores?
ossos
vês o que resta da vida?
o sol
quando tudo acaba sempre
então ainda este sol
não sei porquê
mas é
(Versão minha a partir da tradução inglesa de Ieva Lesinska reproduzida em Six latvian poets, selecção e organização da tradutora; introdução de Juris Kronberg, Arc, Todmorden, 2011, p. 133).
domingo, 4 de março de 2012
Anna Auzina
Pequeno-almoço nas nuvens
às vezes é tão bom
até podíamos ter mais filhos
cães gatos hamsters
peixes tropicais bisavós passadas da cabeça
duas ou três tendas
esquis um computador
vários monitores
basta carregar tudo isso e seguir
um pequeno-almoço na erva
melhor ainda nas nuvens
é preciso comprar equipamento de piquenique
e bons ganchos
para que a corda nos possa içar
de modo seguro até ao céu
nas nuvens grelharemos salsichas
como fazemos habitualmente
e depois fotografar-me-ás
nua no céu
quando já estiverem todos a dormir nas nuvens
filhos
cães gatos hamsters
peixes tropicais bisavós malucas de todo
(Versão minha a partir da tradução inglesa de Ieva Lesinska reproduzida em Six latvian poets, organização e tradução de Ieva Lesinska, introdução de Juris Kronbergs, Arc, Todmorden, 2011, p. 35).
às vezes é tão bom
até podíamos ter mais filhos
cães gatos hamsters
peixes tropicais bisavós passadas da cabeça
duas ou três tendas
esquis um computador
vários monitores
basta carregar tudo isso e seguir
um pequeno-almoço na erva
melhor ainda nas nuvens
é preciso comprar equipamento de piquenique
e bons ganchos
para que a corda nos possa içar
de modo seguro até ao céu
nas nuvens grelharemos salsichas
como fazemos habitualmente
e depois fotografar-me-ás
nua no céu
quando já estiverem todos a dormir nas nuvens
filhos
cães gatos hamsters
peixes tropicais bisavós malucas de todo
(Versão minha a partir da tradução inglesa de Ieva Lesinska reproduzida em Six latvian poets, organização e tradução de Ieva Lesinska, introdução de Juris Kronbergs, Arc, Todmorden, 2011, p. 35).
sexta-feira, 2 de março de 2012
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Juan de Lapala
Vincent
Cegam-me os teus sóis
e os teus lúcidos amarelos.
Sossegam-me a alma
as aspas "deste ninguém".
Toco por baixo da ligadura
dos teus óleos
esses ausentes recessos
que fizeste símbolo da tua dor.
Pesou demasiado a tua cruz, homem,
e sei que caíste três vezes
antes de te amputares por inteiro.
Ainda te observamos cabisbaixos,
eu e os teus tristes girassóis.
Cegam-me os teus sóis
e os teus lúcidos amarelos.
Sossegam-me a alma
as aspas "deste ninguém".
Toco por baixo da ligadura
dos teus óleos
esses ausentes recessos
que fizeste símbolo da tua dor.
Pesou demasiado a tua cruz, homem,
e sei que caíste três vezes
antes de te amputares por inteiro.
Ainda te observamos cabisbaixos,
eu e os teus tristes girassóis.
(Versão de Ricardo Castro Ferreira; o original - do livro El torturador, de 2005 - pode ser lido aqui).
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Cristina Morano
A herança
A minha mãe ensinou-me a bordar:
o dedal no dedo médio,
usar o fio em pequenas meadas,
ensinou-me a fazer o ponto de bainha dupla
e a dispor a loiça de porcelana:
primeiro as bandejas,
depois os pratos e os copos.
A minha avó ensinou-me a engomar:
o lenço de criança dobrava-se
num triângulo, como o de solteira,
só o de cavalheiro se dobrava
em forma de rectângulo.
- Então és filha de boas famílias.
- Não, sou a filha das criadas.
A Tomasa Meco, in memorian
A minha mãe ensinou-me a bordar:
o dedal no dedo médio,
usar o fio em pequenas meadas,
ensinou-me a fazer o ponto de bainha dupla
e a dispor a loiça de porcelana:
primeiro as bandejas,
depois os pratos e os copos.
A minha avó ensinou-me a engomar:
o lenço de criança dobrava-se
num triângulo, como o de solteira,
só o de cavalheiro se dobrava
em forma de rectângulo.
- Então és filha de boas famílias.
- Não, sou a filha das criadas.
(Versão minha; original reproduzido em La manera de recogerse el pelo - Generación blogger, selecção de David González; prólogo de José Ángel Barrueco, Bartleby, Madrid, 2010, p. 211).
sábado, 25 de fevereiro de 2012
José Carlos Cataño
Le crocodile et Mallarmé
Eugène Mallarmé, ilustre professor do Colégio de França, publica em 1899 a sua monumental Histoire Naturelle du Crocodile Africain. Um ano mais tarde tem a oportunidade de pisar o continente negro.
Agora encontra-se em Rwonga, frente ao seu primeiro exemplar vivo da espécie. O sangue gela-lhe, de imediato, o crocodilo avança e Eugène Mallarmé sobe a uma bananeira. Erguido sobre as patas traseiras, o monstro arrasta-se e trepa.
As últimas palavras do sábio, segundo as desconsoladas testemunhas, foram:
- Mais non! Mais non! Les crocodiles ne montent pas aux arbres!
(Versão minha; original reproduzido em Campo abierto - Antología del poema en prosa en España (1990-2005), selecção e organização de Marta Agudo e Carlos Jiménez Arribas, DVD, 2005, Barcelona, p. 95).
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Jaimee Kuperman
O novo dentista
Conduzo em direcção ao consultório do novo dentista
a lenta condução por um sítio desconhecido
com um McDonalds aonde não vou
à esquerda e o centro comercial duas milhas mais à frente.
O tribunal e o antigo tribunal
sinais de trânsito que dividem a estrada, uma espécie de garfo
que não se parece nada com um garfo ou uma colher, na verdade, na melhor das hipóteses
talvez só com uma faca encurvada que se inclina para um lado
na máquina de lavar loiça. E sei que o dentista
fará perguntas sobre a minha última consulta e quererá saber
há quantos meses foi e eu não poderei dizer apenas que há algum tempo
e sei que me perguntará se uso o fio dental
e responder-lhe quando estou pr'aí virado não será
a resposta mais apropriada.
Depois fará a chamada das minhas cavidades
como se elas fossem os nomes de uma turma.
Escovo os dentes antes de entrar.
É como fazer a limpeza antes da chegada da mulher-a-dias,
mas não quero que ele saiba que costumo ter uma boca
desleixada. Que sou o tipo de pessoa que amontoa coisas
no armário antes de chegarem os convidados.
(Versão minha; o original pode ser lido aqui)
Conduzo em direcção ao consultório do novo dentista
a lenta condução por um sítio desconhecido
com um McDonalds aonde não vou
à esquerda e o centro comercial duas milhas mais à frente.
O tribunal e o antigo tribunal
sinais de trânsito que dividem a estrada, uma espécie de garfo
que não se parece nada com um garfo ou uma colher, na verdade, na melhor das hipóteses
talvez só com uma faca encurvada que se inclina para um lado
na máquina de lavar loiça. E sei que o dentista
fará perguntas sobre a minha última consulta e quererá saber
há quantos meses foi e eu não poderei dizer apenas que há algum tempo
e sei que me perguntará se uso o fio dental
e responder-lhe quando estou pr'aí virado não será
a resposta mais apropriada.
Depois fará a chamada das minhas cavidades
como se elas fossem os nomes de uma turma.
Escovo os dentes antes de entrar.
É como fazer a limpeza antes da chegada da mulher-a-dias,
mas não quero que ele saiba que costumo ter uma boca
desleixada. Que sou o tipo de pessoa que amontoa coisas
no armário antes de chegarem os convidados.
(Versão minha; o original pode ser lido aqui)
domingo, 19 de fevereiro de 2012
Laura Casielles
descentralizações (i)
Enquanto uma mulher na Provença
abotoava o corpete,
cinco mulheres preparavam as suas tigelas de henna*
num harém não muito longe de Tânger.
Enquanto se escrevia sobre o Cid,
escrevia-se também o Rubaiyat.
Emquanto se travava uma guerra entre a Prússia e a Áustria,
milhares de tártaros eram expulsos da Crimeia.
Ao mesmo tempo que Carlos Magno,
Kaya-Magan.
No dia em que Gravilo Princip
assassinou o príncipe Francisco Fernando
cumpriu-se o segundo aniversário
do dia em que se autorizou a compra do Canal do Panamá.
E no ano em que morreu Winston Churchill,
Mehdi Ben Barka desapareceu em Paris em estranhas circunstâncias
e a Índia independente tornou oficial uma das suas mais de trinta línguas.
Enquanto Bolívar montava o seu cavalo,
os ingleses instalavam-se na Tasmânia.
Os fuzilamentos do 2 de Maio
não são o mesmo que o 2 de Maio de 1812,
quando os colonos desistiram do sítio de Cuautla.
Se são curiosidades, todas são curiosidades.
Se são feitos importantes, todos são feitos importantes.
Enquanto uma mulher na Provença
abotoava o corpete,
cinco mulheres preparavam as suas tigelas de henna*
num harém não muito longe de Tânger.
Enquanto se escrevia sobre o Cid,
escrevia-se também o Rubaiyat.
Emquanto se travava uma guerra entre a Prússia e a Áustria,
milhares de tártaros eram expulsos da Crimeia.
Ao mesmo tempo que Carlos Magno,
Kaya-Magan.
No dia em que Gravilo Princip
assassinou o príncipe Francisco Fernando
cumpriu-se o segundo aniversário
do dia em que se autorizou a compra do Canal do Panamá.
E no ano em que morreu Winston Churchill,
Mehdi Ben Barka desapareceu em Paris em estranhas circunstâncias
e a Índia independente tornou oficial uma das suas mais de trinta línguas.
Enquanto Bolívar montava o seu cavalo,
os ingleses instalavam-se na Tasmânia.
Os fuzilamentos do 2 de Maio
não são o mesmo que o 2 de Maio de 1812,
quando os colonos desistiram do sítio de Cuautla.
Se são curiosidades, todas são curiosidades.
Se são feitos importantes, todos são feitos importantes.
(Versão minha; o original pode ser lido aqui, na página 73. *Corante muito usado no norte de África e na Índia para colorir ou tatuar as mãos e o corpo das mulheres).
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Jane Kenyon
Agasalhos
Vi-o a sair do hospital
com um casaco de senhora no braço.
Claramente ela não iria precisar de tal coisa.
Os óculos de sol que ele usava não conseguiam
esconder-lhe o rosto molhado, o seu desnorte.
E como uma piada de mau gosto o dia estava limpo
e o ar demasiado suave para dezembro. Mesmo assim
ele correu o fecho do blusão e atou
o capuz debaixo do queixo, preparando-se
para um frio irremediável.
Vi-o a sair do hospital
com um casaco de senhora no braço.
Claramente ela não iria precisar de tal coisa.
Os óculos de sol que ele usava não conseguiam
esconder-lhe o rosto molhado, o seu desnorte.
E como uma piada de mau gosto o dia estava limpo
e o ar demasiado suave para dezembro. Mesmo assim
ele correu o fecho do blusão e atou
o capuz debaixo do queixo, preparando-se
para um frio irremediável.
(Versão minha a partir do original e da tradução espanhola de Hilario Barrero reproduzidos em De otra manera, Pre-Textos, Valência, 2007, pp. 106-107).
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