segunda-feira, 21 de maio de 2012

Dmitry Prigov

Diálogo nº 5



Estaline     Não há felicidade na terra!
Prigov       Não há felicidade!
Estaline     O que é que há então?
Prigov       O que é que há?
Estaline     Há Estaline!
Prigov       Há Estaline!
Estaline     E o que é Estaline?
Prigov       E o que é?
Estaline     Estaline é a nossa glória militar!
Prigov       Glória militar!
Estaline     Estaline é a maior inspiração da nossa juventude!
Prigov       A maior inspiração da juventude!
Estaline     Cantando nas batalhas e nas vitórias!
Prigov       Vitórias!
Estaline     O nosso povo segue Estaline!
Prigov       Segue Estaline.
Estaline     E o que mais é Estaline?
Prigov       E o que mais?
Estaline     Os três princípios principais.
Prigov       Os três princípios principais.
Estaline     E o que mais é Estaline?
Prigov       E o que mais?
Estaline     As cinco grandes ideias!
Prigov       As cinco grandes ideias!
Estaline     As oito grande letras!
Prigov       E como seria se deixássemos cair uma letra?
Estaline     Como seria?
Prigov       Seria Staline!
Estaline     Staline!
Prigov        E se deixássemos cair outra?
Staline       Outra?
Prigov        Seria Taline!
Taline        Taline!
Prigov        E se deixássemos cair outra?
Taline        Outra?
Prigov       Seria Aline.
Aline         Seria Aline!
Prigov       E se deixássemos cair ainda outra?
Aline         Outra?
Prigov       Seria Line.
Line          Seria Line!
Prigov       E outra?
Line          Outra?
Prigov      Seria Ine.
Ine            Ine?
Prigov       E outra?
Ine            Outra?
Prigov       Seria Ne!
Ne             Seria Ne!
Prigov       E outra?
Ne             Outra?
Prigov       Seria E!
E               Seria E!
Prigov       E outra?



(Versão minha a partir da tradução inglesa de J. Kates reproduzida em In the grip of strange thoughts - Russian poetry en a new era, selecção e organização de J. Kates, Bloodaxe Books, Newcastle, 1999, pp. 261-263).

sábado, 19 de maio de 2012

Karel Bofill Bahamonde

(vendo desenhos animados soviéticos)



vejo de novo desenhos animados soviéticos
e escuto vozes que não posso compreender
vozes que me recordam a estranha tristeza
em que crescemos
comendo como soviéticos
vestindo como soviéticos
vendo desenhos animados soviéticos como crianças soviéticas
pensando que o mundo estava numa revista Misha(1)
sem saber que Koniec(2) era o fim
que se aproximava



(Versão minha; o original aparece reproduzido em Dejar atrás el agua - Nueve nuevos poetas cubanos, selecção e prólogo de Fruela Fernández e Juan Antonio Bernier, La Bella Varsovia, Córdova, 2011, p. 87. Notas: (1) Revista infantil soviética; (2) "Fim" em polaco).

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Dritëro Agolli

Coisas simples mas úteis



Um bordão, seja macio, torto ou nodoso,
Terá sempre alguma utilidade para um cego,
É bom para o coxo, exausto pela caminhada,
E benéfico para qualquer um quando atacado pelas hordas.

Um bordão, seja macio, torto ou nodoso,
É valioso para se usar tanto fora como em casa,
Em casa para te defenderes de vizinhos coléricos,
Fora para te precaveres dos cães raivosos e vadios que erram pelos caminhos.

Um bordão pode parecer belo ou feio,
De qualquer modo será útil ainda para outras coisas,
Precisas dele para sacudires o pó das tuas malas,
Para bateres às portas quando não há campainha.

Um bordão é um recurso necessário a um polícia,
É apreciado pelo director de uma prisão cheia de humidade,
Um bordão foi usado pelo apóstolo São Pedro
E uma vez pelo cego Homero privado de uma candeia.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 182).

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Xhevahir Spahiu

Tradução do rio



Sento-me e traduzo o rio,
É difícil reproduzir
Esta coisa líquida,
São precisas palavras raras,
Expressões firmes,
Ritmos eternos,
Uma centena de fontes em uníssono
A contar de novo um mito antigo.
Durante toda a noite traduzi o rio.
De manhã
A minha versão tinha desaparecido.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathier-Heck reproduzida em Lightning from the depts - An anthology of albanian poetry, Northwestwern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 213).

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Yunier Riquenes García

[Se vão continuar...]



Se vão continuar com os discursos que não seja com
palavras, que seja com a boca cosida, com as mãos
amarradas, com as pernas mutiladas, com os olhos
fechados. Se vão continuar com os discursos então
que arranquem o coração com a ponta de uma
pedra, que abram o peito. Se vão continuar com
os discursos, se por acaso os puderem continuar.



(Versão minha a partir do original reproduzido em Dejar atrás el agua - Nueve nuevos poetas cubanos; selecção e prólogo de Fruela Fernández e Juan Antonio Bernier, La Bella Varsovia, Córdoba, 2011, p. 87).

terça-feira, 8 de maio de 2012

Teresa Fornaris

A porcelana partida



A porcelana partida
caiu outra vez
Recolho as partes
emendo-as
e volto a colocá-la à beira da mesa.



(Versão minha; original reproduzido em Dejar atrás el agua - Nueve nuevos poetas cubanos; edição e prólogo de Fruela Fernández e Juan Antonio Bernier, La Bella Varsovia, Córdoba, 2011, p. 33).

domingo, 6 de maio de 2012

Azem Shkreli

Anátema



Porque eu tinha saibro antigo, orvalho arcaico
Nas sobrancelhas, vinho na garganta do meu pássaro e porque
Um mais um são dois, como duas armas, duas mulheres,
Duas pedras brancas sobre a cabeça de cada homem avisado,
Porque não houve nenhuma ferida deste lado do rio,
Houve pontes, ervas medicinais e paz, e porque
Eu beijei a terra doce com os meus grossos lábios neolíticos,
Porque eu tirei do inferno a minha flauta e toquei-a
À minha maneira, assustando nuvens e corvos, porque
Semeei a minha sombra no sol, e porque
Tinha lume na minha lança, centeio no cabelo, fios de cinza
Em igrejas, em tempos, em sepulturas, porque eu tinha sangue
E a minha flauta de folhas falava, eles amaldiçoaram-me.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 200).



quinta-feira, 3 de maio de 2012

Vasyl Simonenko (1935-1963)

Dedicado aos papagaios



Vós, que lançais palavras às multidões,
Como velhos alunos da primária,
Por que vos dedicais meramente a repetir?
Onde estão os vossos próprios pensamentos?
Por acaso escondei-los por insignificantes?
Ou careceis deles por completo?
As línguas tê-los-ão murchado?

Se secaram, estais livres de responsabilidades,
É algo que se pode perdoar, no entanto...
Com as vossas línguas - é possível afiar facas
Ou varrer estábulos!
Por que razão chorais com lágrimas alheias,
E saltais sobre ideias emprestadas? -
Isso era o que queríamos saber!



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Iuri Lech reproduzida em Poesía ucraniana del siglo XX - Una iconografia del alma; prólogo, selecção e tradução de Iuri Lech, Litoral/Edições UNESCO, Torremolinos/Málaga, 1993, p. 92).

terça-feira, 1 de maio de 2012

Pere Rovira

A greve



Não é preciso mais nada: uma avenida
de gente que sorri ao meio-dia
diz-nos quem tem razão.
Não os encontras nunca quando sais
a ventilar o vício de dormir sempre mal,
e o sol do aposentado é como uma aspirina.
Hoje estará apagada a luz de asma
de oficinas e fábricas; a agulha
das horas não coserá ao contrário
o tempo dessa rapariga de blusa colorida,
e daquele homem velho que a olha
com a terna surpresa de regressar ao desejo;
a blusa passa ondeando pelos seus olhos
como as bandeiras vermelhas da manhã
pela montra fura-greves de uma loja.

"Que só o coração marque a fronteira
da esquerda", alguém escreveu.
O coração de quem? O coração armado,
o coração blindado dos bancos,
o coração anémico dos políticos a soldo,
ou esses corações
que defendem agora a alegria?

De noite, nas varandas, brilham os cigarros
dos homens que odeiam a manhã.
A greve terminou, mas eles prolongam-na
com o fumo da insónia. Está calor,
amanhã estará ainda mais junto às máquinas
sagradas outra vez, como a lei
que o dinheiro ditou, como o âmbito
do tempo e do amor.
Não é véspera de nada esta hora ofendida,
chega o sopro da alvorada, forte, espesso
como uma baforada de hospital,
e retorna, biliosa, às janelas
a luz de um novo dia de trabalho.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Pere Ballart e Jordi Julià reproduzida em Lírica de fin del siglo - Poesía catalana y española (1980-2000), Diputación de Granada, Granada, 2005, pp. 187-188).

domingo, 29 de abril de 2012

Dritëro Agolli

Sobre o apelo da poesia



Dizes que escrevi de mais sobre vacas,
E que estraguei demasiados versos com os cereais dos campos.
E então? Tu tens manteiga e leite pela manhã,
Ao jantar há sempre esse pãozinho branco
No teu prato e, além disso, o teu clamor por carne.

Sustentas que perdemos alguma emoção poética
Quando, nos nossos versos, falamos de vacas a toda a hora,
A intensidade de um poema, dizes, não vem das pastagens,
Nasce antes sob a nossa pele - quando uma linha explode
Em palavras, insistes, vindas de alguma reserva sublime.

Escuta, no entanto: no que diz respeito a vacas, eu nunca alcancei
Tudo o que queria, sim, elas merecem muito mais,
Por isso não posso separá-las da minha caneta e das minhas folhas,
As vacas são a minha inspiração, a minha primavera, o meu outono,
E, se pudesse, ensiná-las-ia a escrever poemas.

Tenho a certeza de que fariam melhor do que a maioria dos nossos bardos!



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 181).

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Xhevahir Spahiu

Linguagem



Eles disseram à linguagem: agora tens liberdade.
Mas a linguagem não teve forças para responder: não preciso.
De que me serve agora
Se não falei livremente quando devia?
Fui deixada sem asas,
Fui deixada sem céu,
Sou vida sem sonho,
Sou um sonho sem uma vida.
Disseram à linguagem: és livre.
É difícil, disse a linguagem, difícil
Acreditar que se é livre.
Quando engolimos as nosssas próprias sílabas,
Quando nos golpeiam até nos reduzirem a um cepo
Até a liberdade se transforma numa prisão.
Eles disseram à linguagem: a liberdade vive.
A linguagem replicou:
Eu não sou Constantino - que se lançou em busca da morte.
Disseram à linguagem: és a liberdade.
Não é preciso muito para perceber isso.
Então a linguagem acreditou neles
E abriu a boca,
Emitindo
Em vez de sons
Sangue.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An Anthology of albanian poetry, Nortwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, pp. 213-214).

terça-feira, 24 de abril de 2012

Dritëro Agolli

A vaca



A vaca rumina o seu alimento no estábulo cheio de forragem,
Eu encosto a cara ao seu flanco enorme
E sinto, vindo do interior das suas profundezas, o calor,
O calor do feno colhido nos campos.
Sobre os seus cornos escuros está suspensa uma lâmpada eléctrica
Que traz luz até ao balde do leite.
Não posso abandonar a vaca.
Com a cara encostada ao seu flanco, cheiro o leite coberto de espuma.
A leiteira retira o balde com cuidado
E pára por um instante, com as mãos a pingar.
Diz:
     "Você é veterinário?"
Descolo a cara da vaca:
     "Não, poeta."
Ela ri-se e estuda-me com os olhos azuis,
Simpática, sábia, serena.
Reflecte um pouco e compreende
Que eu não consigo escrever uma linha sem uma vaca...



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestwern University Press, Evanston - Illinois, 208, p. 180).

domingo, 22 de abril de 2012

Entre a carne e o osso



























Luís Filipe Parrado, Entre a carne e o osso, Língua Morta, Lisboa.

[com capa de Inês Dias,
150 exemplares, 68pp., 9€]
pedidos: edlinguamorta@gmail.com

terça-feira, 17 de abril de 2012

Cristina Morano

Fabricante de armas

                                             (Transcrição de uma conversa real gravada com
                                              câmara oculta para uma reportagem da BBC)



E esta outra arma que aqui tenho,
dada a sua forma alongada e de fácil
manejo, pode ser utilizada
como um eficaz objecto contundente
para dispersar multidões.
Além do mais numa das pontas
incorpora uma bateria
que, accionada por este botão,
produz uma descarga feroz
de cada vez que se golpeia;
ou, se o desejar, o artefacto
pode introduzir-se na vagina
e, a partir daí, electrocutar,
sem as velhas complicações
dos instrumentos clássicos
similares no mercado.
                                   Não tenham
receio de perguntar o preço.



(Versão minha; o original aparece reproduzido em La manera de recogerse el pelo - Generación blogger, selecção de David González; prólogo de José Ángel Barrueco, Bartleby, Madrid, 2010, p. 219).

domingo, 15 de abril de 2012

Raúl Gustavo Aguirre

A trincheira do Reno



Eu, Martin
Heidegger, o filósofo
que pensou o Impensável
e anunciou a perda do Ser
por causa da ciência e do olvido,
fui declarado pelos meus pares
"pessoa totalmente dispensável"
e enviado para cavar esta trincheira
ao longo do Reno.

Debaixo dos meus pés a terra venerável afunda-se.
Cai o crepúsculo azul de Georg Trakl. Tenho frio.
E no bosque vizinho soa outra vez, tenebroso,
o riso do idiota que assistia às minhas lições.



(Versão minha; o original pode ler-se aqui).

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Ali Podrimja

Se



Se um povo
Não tem poetas
Nem poesia própria
Para uma Antologia Nacional
Então a traição e o ladrar
Hão-de servir.



(versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 208).

terça-feira, 10 de abril de 2012

Girolamo de Rada (1814 -1903)

Pode um beijo ser mais doce?



Era uma manhã de domingo
E o filho da nobre senhora
Foi visitar a bela donzela
Para lhe pedir uma gota de água,
Pois morria de sede.
Encontrou-a sozinha à lareira
A entrançar o cabelo.
Amavam-se, mas nenhuma palavra de amor foi trocada,
A jovem tinha um sorriso nos lábios:
"Por que tens de te ir como o vento?"
"Aguardam-me para o lançamento do disco."
"Espera só um pouco, guardei
Duas maçãs maduras para ti."
Segurando o cabelo penteado
Com uma das mãos erguida
Sobre a pele pálida das orelhas,
Ela mergulhou a outra no seu corpete
E tirou as maçãs,
Colocando-as nas mãos dele,
Ruborizando de vergonha.
Dizei-me, ó apaixonados,
Pode um beijo ser mais doce?



(Versão minha a partir da tradução inglesa reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, organização e tradução de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 71).

sábado, 7 de abril de 2012

Fabián Casas

Sem chaves e às escuras



Era um desses dias em que tudo corre bem.
Tinha limpado a casa e escrito
dois ou três poemas que me agradavam.
Não pedia mais.

Então saí para o patamar para deitar o lixo fora
e, atrás de mim, com uma corrente de ar,
a porta fechou-se.
Fiquei sem chaves e às escuras
sentindo as vozes dos meus vizinhos
através das suas portas.
É passageiro, disse para mim;
no entanto também a morte poderia ser assim:
um patamar escuro,
uma porta fechada com a chave do lado de dentro,
o lixo na mão.



(Versão minha, o original pode ser lido algures por aqui).

quinta-feira, 29 de março de 2012

Eeva-Liisa Manner

Nada



"Não se pode viver sem amar"
"Pode-se, sim", disse
e vesti-me de negro
para o último baile de máscaras.

E tinha a boca cheia de pó
como se tivesse secado de tanto chorar
(ainda que não tenha chorado em cinquenta anos).

Não quero o vosso céu, companheiros,
as falsas promessas, os amigos fingidos,
as ruas cheias de beijos,
as mentiras de espelhos fugidios.
Quero rasgar o último selo,
a lua que não dá luz,
a noite em que não brilha nada.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz reproduzida em Poesía nórdica, Ediciones de la Torre, 2ª edição, Madrid, 1999, p. 93).

segunda-feira, 26 de março de 2012

Ricardo Castro Ferreira

Vanitas (a lição de Marlene Dumas)



(Óleo sobre papel; 2012).

sexta-feira, 23 de março de 2012

Antonio Parra

A una puttana



O teu ofício não é dos melhores,
nem sequer foste a primeira.
A tua profissão e a sua origem perdem-se
para lá do velho centauro e ainda mais para trás,
nos claros pomares de todas as relações
e nos confins de todo o paraíso averiguado.
Não fazes nada de formidável,
nada que assombre os humanos,
é tão vulgar o teu trabalho
que ninguém pensou desterrar-te.
No entanto, encheste de prazer e gozo
na noite pesada criaturas feias e magoadas.
Chulos, rufias, sonâmbulos, ladrões,
trolhas e corcundas povoaram a tua cama,
e tremeram diante do teu corpo
homens do mar e soldados.
Não foste a primeira nem a única,
nem serás a última,
velha rameira da noite
nesta esquina toda mijada de Roma,
mas o teu esforço bem merece a minha saudação:
Salvé, enrugada senhora dos desgraçados!
Rainha dos prazeres terrenos,
os únicos que nos é dado possuir.



(Versão minha; original reproduzido em Poemas (1979-1997), Renacimiento, Sevilha, 1997, p. 35).

quarta-feira, 21 de março de 2012

terça-feira, 20 de março de 2012

Ricardo Castro Ferreira

Something for the weekend


(Óleo sobre papel; 2012)

domingo, 18 de março de 2012

Ana Pérez Cañamares

Meu filho



Que sou livre, dizem-me.
Porém se quisesse ter outro filho
teria de o levar ao banco da esquina
porque sua é a minha casa.
O meu menino chamaria pai ao gerente
e mãe à caixa
aprenderia a andar com uma cadeira
de rodinhas de escritório
dormiria numa gaveta dos arquivos
e eu seria apenas um parente afastado
que lhe sorriria do meu lugar na fila.
Passaria por lá de vez em quando com a desculpa de aumentar a hipoteca
só para ver como o criam
como o ar condicionado o afecta
se sabe enviar um fax
e se o gerente lhe oferece um jogo de frigideiras
pelo seu aniversário.



(vesão minha; original reproduzido em La manera de recogerse el pelo - Generación blogger, selecção de David González; prólogo de José Ángel Barrueco, Bartleby, Madrid, 2010, p. 195).

quinta-feira, 15 de março de 2012

Cristina Morano

Vergonha



O número de filhos da puta
aumenta cada dia, mas pior
é o número ainda maior dos tontos.
Eu conto-me entre os segundos,
às vezes o meu pai pergunta-me
se vou fazer alguma coisa a respeito disso;
não costumo, porém, responder-lhe,
limito-me a olhar a tv
sentada em frente da sua cara.
Deveria dizer-lhe que tem razão,
que as pessoas me dirigem o olhar
como se a uma espécie rara de animal,
como se se sentissem confortáveis
no papel do delator.
Gostaria de fazer alguma coisa para mudar,
ser mais inteligente, fumar com elegância...
esse tipo de coisas que te tornam respeitável.
Mas, no fundo, nunca seria suficiente,
os pratos continuam a cair-me das mãos.



(Versão minha; original reproduzido em La manera de recogerse el pelo - Generación blogger, selecção de David González; prólogo de José Ángel Barrueco, Bartleby, Madrid, 2010, p. 213).

terça-feira, 13 de março de 2012

Ricardo Castro Ferreira

Convite para uma decapitação


















(Óleo sobre papel; 2012)

segunda-feira, 12 de março de 2012

Maris Salejs

[aqui estamos...]



aqui estamos

a morte não nos cobriu
completamente

por isso aqui estamos



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Ieva Lesinska reproduzida em Six latvian poets, organização da tradutora, introdução de Juris Kronbergs, Arc, Todmorden, 2011, p. 133).

sábado, 10 de março de 2012

Anna Auzina

[Agora eu tenho...]



Agora eu tenho um cãozinho
chama-se Desassossego, é de uma raça amarga (mais tarde hei-de mostrar uma fotografia)
Vai comigo para o trabalho, dobrado debaixo do meu braço
segue-me tristemente até ao infantário e à noite quer sair.
Ficar por aqui ao pé da porta não serve, tem de ser para a chuva e para o vento.
Eu sei que vocês se preocupam, mas andamos só por ruas bem iluminadas
e apenas até ele ficar verdadeiramente exausto, é o melhor para todos
Assim não uiva junto à porta do quarto que lhe fechas cuidadosamente no focinho.



(Versão minha  partir da tradução inglesa de Ieva Lesinska reproduzida em Six latvian poets, selecção e organização de Juris Kronberg, Arc, Todmorden, 2011, p. 43).

quinta-feira, 8 de março de 2012

Ricardo Castro Ferreira

Um pouco da morte























(Óleo sobre papel; 2012).

terça-feira, 6 de março de 2012

Maris Salejs

[vês o que resta...]



vês o que resta dos predadores?
ossos

vês o que resta da vida?
o sol

quando tudo acaba sempre
então ainda este sol

não sei porquê
mas é



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Ieva Lesinska reproduzida em Six latvian poets, selecção e organização da tradutora; introdução de Juris Kronberg, Arc, Todmorden, 2011, p. 133).