Eu nunca fui capaz de rezar
Guia-me até ao porto
onde o farol jaz abandonado
e a lua range nas vigas de madeira.
Deixa-me ouvir o vento chamar por entre as árvores
e ver as estrelas irromperem, uma a uma,
como os rostos esquecidos dos mortos.
Eu nunca fui capaz de rezar,
mas deixa-me gravar o meu nome
no livro das ondas
e depois olhar intensamente a cúpula
de um céu que não tem fim
e ver a minha voz navegar pela noite dentro.
(Versão minha; o original pode ser lido aqui).
quinta-feira, 28 de junho de 2012
segunda-feira, 25 de junho de 2012
Jillena Rose
Taos
No deserto é mais fácil encontrar ossos
do que flores, por isso pinto-os:
belos e claros crânios de cavalos e vacas.
Quando me estendo sob as estrelas
na parte traseira do carro, com os coiotes a uivar
nos pinhais, é fácil sentir como estes ossos
são tão tal e qual os meus: eis a minha pélvis
tão parecida com a pélvis que encontrei hoje
polida pelo sol e pela areia. A mesma
cavidade onde o quadril deveria encaixar, a mesma
curva branca de osso debaixo da minha carne,
o mesmo berço de vida, sereno e silencioso em mim.
(Versão minha; o original pode ser lido aqui).
No deserto é mais fácil encontrar ossos
do que flores, por isso pinto-os:
belos e claros crânios de cavalos e vacas.
Quando me estendo sob as estrelas
na parte traseira do carro, com os coiotes a uivar
nos pinhais, é fácil sentir como estes ossos
são tão tal e qual os meus: eis a minha pélvis
tão parecida com a pélvis que encontrei hoje
polida pelo sol e pela areia. A mesma
cavidade onde o quadril deveria encaixar, a mesma
curva branca de osso debaixo da minha carne,
o mesmo berço de vida, sereno e silencioso em mim.
(Versão minha; o original pode ser lido aqui).
sábado, 23 de junho de 2012
Wendy Videlock
Desarmada
Eu devia ser determinada e firme,
eu sei que devia, e mostrar uma cara feia;
mais uma vez falhaste na limpeza do teu quarto.
E não é só isso, também as provas
do saque da meia noite na tua cama -
cascas de amendoins partidas e m&m's
esmigalhados no sítio onde pousaste a cabeça
e, um pouco acima, o parapeito
está sobrelotado com uma girafa verde
(que espreita através do teu telescópio),
peças de dominó e um copo meio cheio
de sumo de laranja. Minha criança esfomeada,
como posso eu sentir-me desencantada com tudo isto,
este teu mundo secreto, esta tua maravilhosa desarrumação?
Eu devia ser determinada e firme,
eu sei que devia, e mostrar uma cara feia;
mais uma vez falhaste na limpeza do teu quarto.
E não é só isso, também as provas
do saque da meia noite na tua cama -
cascas de amendoins partidas e m&m's
esmigalhados no sítio onde pousaste a cabeça
e, um pouco acima, o parapeito
está sobrelotado com uma girafa verde
(que espreita através do teu telescópio),
peças de dominó e um copo meio cheio
de sumo de laranja. Minha criança esfomeada,
como posso eu sentir-me desencantada com tudo isto,
este teu mundo secreto, esta tua maravilhosa desarrumação?
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Begoña Paz
A Branca de Neve envelhece
Nunca imaginei
cabelos brancos
no meu
púbis.
Nunca imaginei
cabelos brancos
no meu
púbis.
(Versão minha; original reproduzido em La manera de recogerse el pelo - Generación blogger; selecção de David González, prólogo de José Ángel Barrueco, Bartleby Editores, Madrid, 2010, p. 271).
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Vasyl Holoborodko
[Detestáveis sementes de erva...]
Detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva
Depois de tudo morreremos uma vez,
não somos eternos nem imortais (a matéria não desaparece
em contrapartida nós sim: eu, tu, ela, a amante, o irmão, os outros),
e qualquer semente de erva: de tomilho, sinuosa como uma áspide,
espera a nossa morte (morreremos uma vez)
para se fundir com o nosso corpo alheio exangue
(no qual fomos nós: o meu, o teu, o dele, da amante, do irmão, dos outros)
e crescerá e florescerá e dará sementes
para aguardarem então a morte dos demais (não a nossa),
porque as sementes de erva são imortais, porque são sementes de erva.
Detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva
Detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva
Depois de tudo morreremos uma vez,
não somos eternos nem imortais (a matéria não desaparece
em contrapartida nós sim: eu, tu, ela, a amante, o irmão, os outros),
e qualquer semente de erva: de tomilho, sinuosa como uma áspide,
espera a nossa morte (morreremos uma vez)
para se fundir com o nosso corpo alheio exangue
(no qual fomos nós: o meu, o teu, o dele, da amante, do irmão, dos outros)
e crescerá e florescerá e dará sementes
para aguardarem então a morte dos demais (não a nossa),
porque as sementes de erva são imortais, porque são sementes de erva.
Detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva
(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida em Poesía ucraniana del siglo XX - Una icinografia del alma; prólogo, selecção e tradução de Iury Lech, Litoral/Edições UNESCO, Torremolinos/Málaga, 1993, p. 174).
sexta-feira, 15 de junho de 2012
David Turkéltaub
O tempo corre
Que queres dizer com isso de que o tempo corre?
Corre a nosso favor ou corre
separando-nos? Os cinquenta
beijos de ontem à noite, e da noite anterior,
correm no sentido dos ponteiros
do relógio, ou no outro sentido?
Perdi a conta.
Somos dois, dizes-me, e o tempo
corre: ontem éramos um só
e caminhávamos a passo de tartaruga.
Que queres dizer com isso de que o tempo corre?
Corre a nosso favor ou corre
separando-nos? Os cinquenta
beijos de ontem à noite, e da noite anterior,
correm no sentido dos ponteiros
do relógio, ou no outro sentido?
Perdi a conta.
Somos dois, dizes-me, e o tempo
corre: ontem éramos um só
e caminhávamos a passo de tartaruga.
(Versão minha; original reproduzido em Informe para extranjeros - Antología de poesía chilena contemporánea; selecção de María Nieves Alonso, Gilberto Triviños, Juan Carlos Mestre e Mario Rodríguez; prólogo de María Nieves Alonso, Diputación de Huelva, Huelva, 2001, 1º volume, p.119).
quarta-feira, 13 de junho de 2012
Ester García Camps
Identidade
esta tarde,
enquanto a telefonista
soletra os meus dados pessoais
do outro lado
do auricular,
tenho de lhe lembrar
que ester
é ester
mas sem h.
que Camps é como Campos
mas em valenciano
e que, além disso,
esse é o meu segundo
apelido,
o primeiro é García
com acento no i.
é importante
não esquecer o meu nome
uma pessoa tem de poder dizer
quem é
mesmo que na realidade
não o saiba ainda.
esta tarde,
enquanto a telefonista
soletra os meus dados pessoais
do outro lado
do auricular,
tenho de lhe lembrar
que ester
é ester
mas sem h.
que Camps é como Campos
mas em valenciano
e que, além disso,
esse é o meu segundo
apelido,
o primeiro é García
com acento no i.
é importante
não esquecer o meu nome
uma pessoa tem de poder dizer
quem é
mesmo que na realidade
não o saiba ainda.
(Versão minha; original reproduzido em La manera de recogerse el pelo - Generacíón blogger; selecção de David González; prólogo de José Ángel Barrueco, Bartleby, Madrid, 2010, p. 58).
domingo, 10 de junho de 2012
Dave Etter
Roma Higgins
Grilo
Durante uma semana inteira
um grilo andou pela cave,
algures entre
a fornalha
e o estojo de críquete.
Eu gostaria de ter ido lá abaixo
todas as noites
para o ouvir trinar.
Ele daria pelos meus passos
e interromperia
a sua música mágica.
Logo depois começaria
de novo a cantar.
Isto seria assim
e eu falaria com ele
e seria seu amigo.
Mas esta noite
na cave
só encontrei um silêncio gelado
e uma aranha
a tecer uma mortalha
junto à janela.
Grilo
Durante uma semana inteira
um grilo andou pela cave,
algures entre
a fornalha
e o estojo de críquete.
Eu gostaria de ter ido lá abaixo
todas as noites
para o ouvir trinar.
Ele daria pelos meus passos
e interromperia
a sua música mágica.
Logo depois começaria
de novo a cantar.
Isto seria assim
e eu falaria com ele
e seria seu amigo.
Mas esta noite
na cave
só encontrei um silêncio gelado
e uma aranha
a tecer uma mortalha
junto à janela.
(Versão minha; original reproduzido em Illinois voices - an anthology of twentieth-century poetry, organização de Kevin Stein e G. E. Murray, University of Illinois Press, Urbana e Chicago, 2001, p. 98).
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Xhevahir Spahiu
Acordar tarde
Acordar tarde significa
Encontrar as flores sem orvalho, as pétalas caídas.
Acordar tarde significa
Que o amor deixou para trás uma marca indistinta.
Acordar tarde significa
Que a morte assinou longamente os teus documentos.
Mas acorda ainda assim.
Acordar tarde significa
Encontrar as flores sem orvalho, as pétalas caídas.
Acordar tarde significa
Que o amor deixou para trás uma marca indistinta.
Acordar tarde significa
Que a morte assinou longamente os teus documentos.
Mas acorda ainda assim.
(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 213).
terça-feira, 5 de junho de 2012
Karmelo C. Iribarren
A condição urbana
Para Roger Wolfe
Detesto autocarros. A boa
educação que nos obriga
a ceder os lugares sentados
a essas senhoras
que até que se sentem
pode dar-lhes
qualquer coisa fatal.
Os empurrões. Os cheiros. Que ninguém
fume e tenhamos de aguentar
todos os pormenores
do enfarte
que deu a não sei quem.
Os anúncios publicitários
nas partes laterais.
As travagens. E muitas
outras coisas que agora calo
porque desço aqui.
(Versão minha; original reproduzido em Seguro que esta historia te suena - Poesía completa (1985-2005), Renacimiento, Sevilha, 2005, p. 37).
Para Roger Wolfe
Detesto autocarros. A boa
educação que nos obriga
a ceder os lugares sentados
a essas senhoras
que até que se sentem
pode dar-lhes
qualquer coisa fatal.
Os empurrões. Os cheiros. Que ninguém
fume e tenhamos de aguentar
todos os pormenores
do enfarte
que deu a não sei quem.
Os anúncios publicitários
nas partes laterais.
As travagens. E muitas
outras coisas que agora calo
porque desço aqui.
(Versão minha; original reproduzido em Seguro que esta historia te suena - Poesía completa (1985-2005), Renacimiento, Sevilha, 2005, p. 37).
domingo, 3 de junho de 2012
David Turkéltaub
A poesia serve para tudo
A poesia serve para tudo: substitui a anestesia
no dentista e não tem efeitos secundários.
Em doses muito concentradas (p. ex. Keats + Vallejo) pode provocar calafrios
[na espinal medula,
estremecimentos, palidez
e uma sensação de caminhar no vazio.
Nesses casos recomenda-se que se deixe uma flor seca entre as folhas
assinalando o culpado até que outra alma piedosa
daqui a cem anos
arrisque a pele na aventura.
A poesia serve para tudo: substitui a anestesia
no dentista e não tem efeitos secundários.
Em doses muito concentradas (p. ex. Keats + Vallejo) pode provocar calafrios
[na espinal medula,
estremecimentos, palidez
e uma sensação de caminhar no vazio.
Nesses casos recomenda-se que se deixe uma flor seca entre as folhas
assinalando o culpado até que outra alma piedosa
daqui a cem anos
arrisque a pele na aventura.
(Versão minha a partir do original reproduzido em Informe para extranjeros - Antología de poesía chilena contemporánea; prólogo de María Nieves Alonso; selecção de María Nieves Alonso, Gilberto Triviños, Juan Carlos Mestre e Mario Rodriguez, Diputación de Huelva, 2001, p. 122)
quinta-feira, 31 de maio de 2012
Floridor Pérez
Para traduzir não é preciso saber línguas
Escreveu um lendário poeta chinês da dinastia Tang:
Abandona a tempo a tua poesia ou a tua mulher.
Um académico traduziu:
terminou o tempo da poesia amorosa.
E um psicanalista:
chega um tempo em que as pernas da mulher
deixam de ser um livro aberto.
Então vim eu
e abandonei-me o tempo todo
à minha poesia e à minha mulher.
Que era exactamente o que tinha querido dizer
o lendário poeta chinês
da dinastia de Li Po.
Escreveu um lendário poeta chinês da dinastia Tang:
Abandona a tempo a tua poesia ou a tua mulher.
Um académico traduziu:
terminou o tempo da poesia amorosa.
E um psicanalista:
chega um tempo em que as pernas da mulher
deixam de ser um livro aberto.
Então vim eu
e abandonei-me o tempo todo
à minha poesia e à minha mulher.
Que era exactamente o que tinha querido dizer
o lendário poeta chinês
da dinastia de Li Po.
(Versão minha a partir do original reproduzido em Informe para extranjeros - Antología de poesía chilena contemporánea; prólogo de María Nieves Alonso; selecção de María Nieves Alonso, Gilberto Triviños, Juan Carlos Mestre e Mario Rodríguez, Diputación de Huelva, 2001, p. 130).
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Besnik Mustafaj
Poema profético
Se, em vez de Cristo e de Maomé,
A Bíblia e o Corão
Falassem do destino trágico de Tristão e Isolda,
Amantes exemplares,
Mortais neste pequeno planeta,
Seria muito mais difícil negar
O conceito de divino.
Se, em vez de Cristo e de Maomé,
A Bíblia e o Corão
Falassem do destino trágico de Tristão e Isolda,
Amantes exemplares,
Mortais neste pequeno planeta,
Seria muito mais difícil negar
O conceito de divino.
(Versão minha a partir da tradução inglesa reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry; organização e tradução de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 241).
sábado, 26 de maio de 2012
Pak Tujin (1916-1998)
Livro de poemas
Um livro de poemas aberto na areia
branco diante do mar azul.
O vento virava-lhe as páginas,
amarrotava-as uma após outra.
As palavras ardentes desse livro gravaram no seu interior
um coração belo e triste.
E essas palavras impressas transformaram-se em pássaros, começaram a voar.
Uma, depois outra;
cem, mil palavras,
alto, mais alto, cintilando, elevando-se até ao céu,
poemas brancos de pássaros, pássaros de poemas.
Trémulas pétalas de flores caíam do céu.
E esses pássaros que recitavam poemas no céu
esqueceram-se, incapazes de dizer os versos que sabiam
transformaram-se em flores a cair sobre o mar.
Então tornaram-se estrelas no céu distante.
Esses pássaros que recitavam poemas no céu
os mais belos e tristes
poemas do mundo
- recitavam os poemas do livro de modo tão fulgurante
que agora brilham, estrelas no mundo das estrelas.
Um livro de poemas aberto na areia
branco diante do mar azul.
O vento virava-lhe as páginas,
amarrotava-as uma após outra.
As palavras ardentes desse livro gravaram no seu interior
um coração belo e triste.
E essas palavras impressas transformaram-se em pássaros, começaram a voar.
Uma, depois outra;
cem, mil palavras,
alto, mais alto, cintilando, elevando-se até ao céu,
poemas brancos de pássaros, pássaros de poemas.
Trémulas pétalas de flores caíam do céu.
E esses pássaros que recitavam poemas no céu
esqueceram-se, incapazes de dizer os versos que sabiam
transformaram-se em flores a cair sobre o mar.
Então tornaram-se estrelas no céu distante.
Esses pássaros que recitavam poemas no céu
os mais belos e tristes
poemas do mundo
- recitavam os poemas do livro de modo tão fulgurante
que agora brilham, estrelas no mundo das estrelas.
(Versão minha a partir da tradução inglesa de Edward W. Poitras reproduzida em The Columbia anthology of modern korean poetry, edição de David R. McCann, Columbia University Press, Nova Iorque, 2004, p. 126. Esta versão é dedicada a Amélia Pinto Pais).
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Vasyl Holoborodko
[És como a areia...]
És como a areia
aperto com mais força os meus dedos.
És como um pequeno pássaro
construo para ti uma gaiola.
És como a água do rio
procuro para ti um cântaro.
Mas tu já és bosque
Mas tu já és campo
Mas tu já és caminho.
És como a areia
aperto com mais força os meus dedos.
És como um pequeno pássaro
construo para ti uma gaiola.
És como a água do rio
procuro para ti um cântaro.
Mas tu já és bosque
Mas tu já és campo
Mas tu já és caminho.
(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida em Poesía ucraniana del siglo XX - Una iconografia del alma; prólogo, selecção e tradução de Iury Lech, Litoral/Edições UNESCO, Torremolinos/Málaga, 1993, p. 180).
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Dmitry Prigov
Diálogo nº 5
Estaline Não há felicidade na terra!
Prigov Não há felicidade!
Estaline O que é que há então?
Prigov O que é que há?
Estaline Há Estaline!
Prigov Há Estaline!
Estaline E o que é Estaline?
Prigov E o que é?
Estaline Estaline é a nossa glória militar!
Prigov Glória militar!
Estaline Estaline é a maior inspiração da nossa juventude!
Prigov A maior inspiração da juventude!
Estaline Cantando nas batalhas e nas vitórias!
Prigov Vitórias!
Estaline O nosso povo segue Estaline!
Prigov Segue Estaline.
Estaline E o que mais é Estaline?
Prigov E o que mais?
Estaline Os três princípios principais.
Prigov Os três princípios principais.
Estaline E o que mais é Estaline?
Prigov E o que mais?
Estaline As cinco grandes ideias!
Prigov As cinco grandes ideias!
Estaline As oito grande letras!
Prigov E como seria se deixássemos cair uma letra?
Estaline Como seria?
Prigov Seria Staline!
Estaline Staline!
Prigov E se deixássemos cair outra?
Staline Outra?
Prigov Seria Taline!
Taline Taline!
Prigov E se deixássemos cair outra?
Taline Outra?
Prigov Seria Aline.
Aline Seria Aline!
Prigov E se deixássemos cair ainda outra?
Aline Outra?
Prigov Seria Line.
Line Seria Line!
Prigov E outra?
Line Outra?
Prigov Seria Ine.
Ine Ine?
Prigov E outra?
Ine Outra?
Prigov Seria Ne!
Ne Seria Ne!
Prigov E outra?
Ne Outra?
Prigov Seria E!
E Seria E!
Prigov E outra?
Estaline Não há felicidade na terra!
Prigov Não há felicidade!
Estaline O que é que há então?
Prigov O que é que há?
Estaline Há Estaline!
Prigov Há Estaline!
Estaline E o que é Estaline?
Prigov E o que é?
Estaline Estaline é a nossa glória militar!
Prigov Glória militar!
Estaline Estaline é a maior inspiração da nossa juventude!
Prigov A maior inspiração da juventude!
Estaline Cantando nas batalhas e nas vitórias!
Prigov Vitórias!
Estaline O nosso povo segue Estaline!
Prigov Segue Estaline.
Estaline E o que mais é Estaline?
Prigov E o que mais?
Estaline Os três princípios principais.
Prigov Os três princípios principais.
Estaline E o que mais é Estaline?
Prigov E o que mais?
Estaline As cinco grandes ideias!
Prigov As cinco grandes ideias!
Estaline As oito grande letras!
Prigov E como seria se deixássemos cair uma letra?
Estaline Como seria?
Prigov Seria Staline!
Estaline Staline!
Prigov E se deixássemos cair outra?
Staline Outra?
Prigov Seria Taline!
Taline Taline!
Prigov E se deixássemos cair outra?
Taline Outra?
Prigov Seria Aline.
Aline Seria Aline!
Prigov E se deixássemos cair ainda outra?
Aline Outra?
Prigov Seria Line.
Line Seria Line!
Prigov E outra?
Line Outra?
Prigov Seria Ine.
Ine Ine?
Prigov E outra?
Ine Outra?
Prigov Seria Ne!
Ne Seria Ne!
Prigov E outra?
Ne Outra?
Prigov Seria E!
E Seria E!
Prigov E outra?
(Versão minha a partir da tradução inglesa de J. Kates reproduzida em In the grip of strange thoughts - Russian poetry en a new era, selecção e organização de J. Kates, Bloodaxe Books, Newcastle, 1999, pp. 261-263).
sábado, 19 de maio de 2012
Karel Bofill Bahamonde
(vendo desenhos animados soviéticos)
vejo de novo desenhos animados soviéticos
e escuto vozes que não posso compreender
vozes que me recordam a estranha tristeza
em que crescemos
comendo como soviéticos
vestindo como soviéticos
vendo desenhos animados soviéticos como crianças soviéticas
pensando que o mundo estava numa revista Misha(1)
sem saber que Koniec(2) era o fim
que se aproximava
vejo de novo desenhos animados soviéticos
e escuto vozes que não posso compreender
vozes que me recordam a estranha tristeza
em que crescemos
comendo como soviéticos
vestindo como soviéticos
vendo desenhos animados soviéticos como crianças soviéticas
pensando que o mundo estava numa revista Misha(1)
sem saber que Koniec(2) era o fim
que se aproximava
(Versão minha; o original aparece reproduzido em Dejar atrás el agua - Nueve nuevos poetas cubanos, selecção e prólogo de Fruela Fernández e Juan Antonio Bernier, La Bella Varsovia, Córdova, 2011, p. 87. Notas: (1) Revista infantil soviética; (2) "Fim" em polaco).
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Dritëro Agolli
Coisas simples mas úteis
Um bordão, seja macio, torto ou nodoso,
Terá sempre alguma utilidade para um cego,
É bom para o coxo, exausto pela caminhada,
E benéfico para qualquer um quando atacado pelas hordas.
Um bordão, seja macio, torto ou nodoso,
É valioso para se usar tanto fora como em casa,
Em casa para te defenderes de vizinhos coléricos,
Fora para te precaveres dos cães raivosos e vadios que erram pelos caminhos.
Um bordão pode parecer belo ou feio,
De qualquer modo será útil ainda para outras coisas,
Precisas dele para sacudires o pó das tuas malas,
Para bateres às portas quando não há campainha.
Um bordão é um recurso necessário a um polícia,
É apreciado pelo director de uma prisão cheia de humidade,
Um bordão foi usado pelo apóstolo São Pedro
E uma vez pelo cego Homero privado de uma candeia.
Um bordão, seja macio, torto ou nodoso,
Terá sempre alguma utilidade para um cego,
É bom para o coxo, exausto pela caminhada,
E benéfico para qualquer um quando atacado pelas hordas.
Um bordão, seja macio, torto ou nodoso,
É valioso para se usar tanto fora como em casa,
Em casa para te defenderes de vizinhos coléricos,
Fora para te precaveres dos cães raivosos e vadios que erram pelos caminhos.
Um bordão pode parecer belo ou feio,
De qualquer modo será útil ainda para outras coisas,
Precisas dele para sacudires o pó das tuas malas,
Para bateres às portas quando não há campainha.
Um bordão é um recurso necessário a um polícia,
É apreciado pelo director de uma prisão cheia de humidade,
Um bordão foi usado pelo apóstolo São Pedro
E uma vez pelo cego Homero privado de uma candeia.
(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 182).
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Xhevahir Spahiu
Tradução do rio
Sento-me e traduzo o rio,
É difícil reproduzir
Esta coisa líquida,
São precisas palavras raras,
Expressões firmes,
Ritmos eternos,
Uma centena de fontes em uníssono
A contar de novo um mito antigo.
Durante toda a noite traduzi o rio.
De manhã
A minha versão tinha desaparecido.
Sento-me e traduzo o rio,
É difícil reproduzir
Esta coisa líquida,
São precisas palavras raras,
Expressões firmes,
Ritmos eternos,
Uma centena de fontes em uníssono
A contar de novo um mito antigo.
Durante toda a noite traduzi o rio.
De manhã
A minha versão tinha desaparecido.
(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathier-Heck reproduzida em Lightning from the depts - An anthology of albanian poetry, Northwestwern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 213).
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Yunier Riquenes García
[Se vão continuar...]
Se vão continuar com os discursos que não seja com
palavras, que seja com a boca cosida, com as mãos
amarradas, com as pernas mutiladas, com os olhos
fechados. Se vão continuar com os discursos então
que arranquem o coração com a ponta de uma
pedra, que abram o peito. Se vão continuar com
os discursos, se por acaso os puderem continuar.
Se vão continuar com os discursos que não seja com
palavras, que seja com a boca cosida, com as mãos
amarradas, com as pernas mutiladas, com os olhos
fechados. Se vão continuar com os discursos então
que arranquem o coração com a ponta de uma
pedra, que abram o peito. Se vão continuar com
os discursos, se por acaso os puderem continuar.
(Versão minha a partir do original reproduzido em Dejar atrás el agua - Nueve nuevos poetas cubanos; selecção e prólogo de Fruela Fernández e Juan Antonio Bernier, La Bella Varsovia, Córdoba, 2011, p. 87).
terça-feira, 8 de maio de 2012
Teresa Fornaris
A porcelana partida
A porcelana partida
caiu outra vez
Recolho as partes
emendo-as
e volto a colocá-la à beira da mesa.
A porcelana partida
caiu outra vez
Recolho as partes
emendo-as
e volto a colocá-la à beira da mesa.
(Versão minha; original reproduzido em Dejar atrás el agua - Nueve nuevos poetas cubanos; edição e prólogo de Fruela Fernández e Juan Antonio Bernier, La Bella Varsovia, Córdoba, 2011, p. 33).
domingo, 6 de maio de 2012
Azem Shkreli
Anátema
Porque eu tinha saibro antigo, orvalho arcaico
Nas sobrancelhas, vinho na garganta do meu pássaro e porque
Um mais um são dois, como duas armas, duas mulheres,
Duas pedras brancas sobre a cabeça de cada homem avisado,
Porque não houve nenhuma ferida deste lado do rio,
Houve pontes, ervas medicinais e paz, e porque
Eu beijei a terra doce com os meus grossos lábios neolíticos,
Porque eu tirei do inferno a minha flauta e toquei-a
À minha maneira, assustando nuvens e corvos, porque
Semeei a minha sombra no sol, e porque
Tinha lume na minha lança, centeio no cabelo, fios de cinza
Em igrejas, em tempos, em sepulturas, porque eu tinha sangue
E a minha flauta de folhas falava, eles amaldiçoaram-me.
Porque eu tinha saibro antigo, orvalho arcaico
Nas sobrancelhas, vinho na garganta do meu pássaro e porque
Um mais um são dois, como duas armas, duas mulheres,
Duas pedras brancas sobre a cabeça de cada homem avisado,
Porque não houve nenhuma ferida deste lado do rio,
Houve pontes, ervas medicinais e paz, e porque
Eu beijei a terra doce com os meus grossos lábios neolíticos,
Porque eu tirei do inferno a minha flauta e toquei-a
À minha maneira, assustando nuvens e corvos, porque
Semeei a minha sombra no sol, e porque
Tinha lume na minha lança, centeio no cabelo, fios de cinza
Em igrejas, em tempos, em sepulturas, porque eu tinha sangue
E a minha flauta de folhas falava, eles amaldiçoaram-me.
(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 200).
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Vasyl Simonenko (1935-1963)
Dedicado aos papagaios
Vós, que lançais palavras às multidões,
Como velhos alunos da primária,
Por que vos dedicais meramente a repetir?
Onde estão os vossos próprios pensamentos?
Por acaso escondei-los por insignificantes?
Ou careceis deles por completo?
As línguas tê-los-ão murchado?
Se secaram, estais livres de responsabilidades,
É algo que se pode perdoar, no entanto...
Com as vossas línguas - é possível afiar facas
Ou varrer estábulos!
Por que razão chorais com lágrimas alheias,
E saltais sobre ideias emprestadas? -
Isso era o que queríamos saber!
Vós, que lançais palavras às multidões,
Como velhos alunos da primária,
Por que vos dedicais meramente a repetir?
Onde estão os vossos próprios pensamentos?
Por acaso escondei-los por insignificantes?
Ou careceis deles por completo?
As línguas tê-los-ão murchado?
Se secaram, estais livres de responsabilidades,
É algo que se pode perdoar, no entanto...
Com as vossas línguas - é possível afiar facas
Ou varrer estábulos!
Por que razão chorais com lágrimas alheias,
E saltais sobre ideias emprestadas? -
Isso era o que queríamos saber!
(Versão minha a partir da tradução espanhola de Iuri Lech reproduzida em Poesía ucraniana del siglo XX - Una iconografia del alma; prólogo, selecção e tradução de Iuri Lech, Litoral/Edições UNESCO, Torremolinos/Málaga, 1993, p. 92).
terça-feira, 1 de maio de 2012
Pere Rovira
A greve
Não é preciso mais nada: uma avenida
de gente que sorri ao meio-dia
diz-nos quem tem razão.
Não os encontras nunca quando sais
a ventilar o vício de dormir sempre mal,
e o sol do aposentado é como uma aspirina.
Hoje estará apagada a luz de asma
de oficinas e fábricas; a agulha
das horas não coserá ao contrário
o tempo dessa rapariga de blusa colorida,
e daquele homem velho que a olha
com a terna surpresa de regressar ao desejo;
a blusa passa ondeando pelos seus olhos
como as bandeiras vermelhas da manhã
pela montra fura-greves de uma loja.
"Que só o coração marque a fronteira
da esquerda", alguém escreveu.
O coração de quem? O coração armado,
o coração blindado dos bancos,
o coração anémico dos políticos a soldo,
ou esses corações
que defendem agora a alegria?
De noite, nas varandas, brilham os cigarros
dos homens que odeiam a manhã.
A greve terminou, mas eles prolongam-na
com o fumo da insónia. Está calor,
amanhã estará ainda mais junto às máquinas
sagradas outra vez, como a lei
que o dinheiro ditou, como o âmbito
do tempo e do amor.
Não é véspera de nada esta hora ofendida,
chega o sopro da alvorada, forte, espesso
como uma baforada de hospital,
e retorna, biliosa, às janelas
a luz de um novo dia de trabalho.
Não é preciso mais nada: uma avenida
de gente que sorri ao meio-dia
diz-nos quem tem razão.
Não os encontras nunca quando sais
a ventilar o vício de dormir sempre mal,
e o sol do aposentado é como uma aspirina.
Hoje estará apagada a luz de asma
de oficinas e fábricas; a agulha
das horas não coserá ao contrário
o tempo dessa rapariga de blusa colorida,
e daquele homem velho que a olha
com a terna surpresa de regressar ao desejo;
a blusa passa ondeando pelos seus olhos
como as bandeiras vermelhas da manhã
pela montra fura-greves de uma loja.
"Que só o coração marque a fronteira
da esquerda", alguém escreveu.
O coração de quem? O coração armado,
o coração blindado dos bancos,
o coração anémico dos políticos a soldo,
ou esses corações
que defendem agora a alegria?
De noite, nas varandas, brilham os cigarros
dos homens que odeiam a manhã.
A greve terminou, mas eles prolongam-na
com o fumo da insónia. Está calor,
amanhã estará ainda mais junto às máquinas
sagradas outra vez, como a lei
que o dinheiro ditou, como o âmbito
do tempo e do amor.
Não é véspera de nada esta hora ofendida,
chega o sopro da alvorada, forte, espesso
como uma baforada de hospital,
e retorna, biliosa, às janelas
a luz de um novo dia de trabalho.
(Versão minha a partir da tradução castelhana de Pere Ballart e Jordi Julià reproduzida em Lírica de fin del siglo - Poesía catalana y española (1980-2000), Diputación de Granada, Granada, 2005, pp. 187-188).
domingo, 29 de abril de 2012
Dritëro Agolli
Sobre o apelo da poesia
Dizes que escrevi de mais sobre vacas,
E que estraguei demasiados versos com os cereais dos campos.
E então? Tu tens manteiga e leite pela manhã,
Ao jantar há sempre esse pãozinho branco
No teu prato e, além disso, o teu clamor por carne.
Sustentas que perdemos alguma emoção poética
Quando, nos nossos versos, falamos de vacas a toda a hora,
A intensidade de um poema, dizes, não vem das pastagens,
Nasce antes sob a nossa pele - quando uma linha explode
Em palavras, insistes, vindas de alguma reserva sublime.
Escuta, no entanto: no que diz respeito a vacas, eu nunca alcancei
Tudo o que queria, sim, elas merecem muito mais,
Por isso não posso separá-las da minha caneta e das minhas folhas,
As vacas são a minha inspiração, a minha primavera, o meu outono,
E, se pudesse, ensiná-las-ia a escrever poemas.
Tenho a certeza de que fariam melhor do que a maioria dos nossos bardos!
Dizes que escrevi de mais sobre vacas,
E que estraguei demasiados versos com os cereais dos campos.
E então? Tu tens manteiga e leite pela manhã,
Ao jantar há sempre esse pãozinho branco
No teu prato e, além disso, o teu clamor por carne.
Sustentas que perdemos alguma emoção poética
Quando, nos nossos versos, falamos de vacas a toda a hora,
A intensidade de um poema, dizes, não vem das pastagens,
Nasce antes sob a nossa pele - quando uma linha explode
Em palavras, insistes, vindas de alguma reserva sublime.
Escuta, no entanto: no que diz respeito a vacas, eu nunca alcancei
Tudo o que queria, sim, elas merecem muito mais,
Por isso não posso separá-las da minha caneta e das minhas folhas,
As vacas são a minha inspiração, a minha primavera, o meu outono,
E, se pudesse, ensiná-las-ia a escrever poemas.
Tenho a certeza de que fariam melhor do que a maioria dos nossos bardos!
(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 181).
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Xhevahir Spahiu
Linguagem
Eles disseram à linguagem: agora tens liberdade.
Mas a linguagem não teve forças para responder: não preciso.
De que me serve agora
Se não falei livremente quando devia?
Fui deixada sem asas,
Fui deixada sem céu,
Sou vida sem sonho,
Sou um sonho sem uma vida.
Disseram à linguagem: és livre.
É difícil, disse a linguagem, difícil
Acreditar que se é livre.
Quando engolimos as nosssas próprias sílabas,
Quando nos golpeiam até nos reduzirem a um cepo
Até a liberdade se transforma numa prisão.
Eles disseram à linguagem: a liberdade vive.
A linguagem replicou:
Eu não sou Constantino - que se lançou em busca da morte.
Disseram à linguagem: és a liberdade.
Não é preciso muito para perceber isso.
Então a linguagem acreditou neles
E abriu a boca,
Emitindo
Em vez de sons
Sangue.
(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An Anthology of albanian poetry, Nortwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, pp. 213-214).
Eles disseram à linguagem: agora tens liberdade.
Mas a linguagem não teve forças para responder: não preciso.
De que me serve agora
Se não falei livremente quando devia?
Fui deixada sem asas,
Fui deixada sem céu,
Sou vida sem sonho,
Sou um sonho sem uma vida.
Disseram à linguagem: és livre.
É difícil, disse a linguagem, difícil
Acreditar que se é livre.
Quando engolimos as nosssas próprias sílabas,
Quando nos golpeiam até nos reduzirem a um cepo
Até a liberdade se transforma numa prisão.
Eles disseram à linguagem: a liberdade vive.
A linguagem replicou:
Eu não sou Constantino - que se lançou em busca da morte.
Disseram à linguagem: és a liberdade.
Não é preciso muito para perceber isso.
Então a linguagem acreditou neles
E abriu a boca,
Emitindo
Em vez de sons
Sangue.
(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An Anthology of albanian poetry, Nortwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, pp. 213-214).
terça-feira, 24 de abril de 2012
Dritëro Agolli
A vaca
A vaca rumina o seu alimento no estábulo cheio de forragem,
Eu encosto a cara ao seu flanco enorme
E sinto, vindo do interior das suas profundezas, o calor,
O calor do feno colhido nos campos.
Sobre os seus cornos escuros está suspensa uma lâmpada eléctrica
Que traz luz até ao balde do leite.
Não posso abandonar a vaca.
Com a cara encostada ao seu flanco, cheiro o leite coberto de espuma.
A leiteira retira o balde com cuidado
E pára por um instante, com as mãos a pingar.
Diz:
"Você é veterinário?"
Descolo a cara da vaca:
"Não, poeta."
Ela ri-se e estuda-me com os olhos azuis,
Simpática, sábia, serena.
Reflecte um pouco e compreende
Que eu não consigo escrever uma linha sem uma vaca...
A vaca rumina o seu alimento no estábulo cheio de forragem,
Eu encosto a cara ao seu flanco enorme
E sinto, vindo do interior das suas profundezas, o calor,
O calor do feno colhido nos campos.
Sobre os seus cornos escuros está suspensa uma lâmpada eléctrica
Que traz luz até ao balde do leite.
Não posso abandonar a vaca.
Com a cara encostada ao seu flanco, cheiro o leite coberto de espuma.
A leiteira retira o balde com cuidado
E pára por um instante, com as mãos a pingar.
Diz:
"Você é veterinário?"
Descolo a cara da vaca:
"Não, poeta."
Ela ri-se e estuda-me com os olhos azuis,
Simpática, sábia, serena.
Reflecte um pouco e compreende
Que eu não consigo escrever uma linha sem uma vaca...
(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestwern University Press, Evanston - Illinois, 208, p. 180).
domingo, 22 de abril de 2012
Entre a carne e o osso
Luís Filipe Parrado, Entre a carne e o osso, Língua Morta, Lisboa.
[com capa de Inês Dias,
150 exemplares, 68pp., 9€]
pedidos: edlinguamorta@gmail.com
terça-feira, 17 de abril de 2012
Cristina Morano
Fabricante de armas
(Transcrição de uma conversa real gravada com
câmara oculta para uma reportagem da BBC)
E esta outra arma que aqui tenho,
dada a sua forma alongada e de fácil
manejo, pode ser utilizada
como um eficaz objecto contundente
para dispersar multidões.
Além do mais numa das pontas
incorpora uma bateria
que, accionada por este botão,
produz uma descarga feroz
de cada vez que se golpeia;
ou, se o desejar, o artefacto
pode introduzir-se na vagina
e, a partir daí, electrocutar,
sem as velhas complicações
dos instrumentos clássicos
similares no mercado.
Não tenham
receio de perguntar o preço.
(Transcrição de uma conversa real gravada com
câmara oculta para uma reportagem da BBC)
E esta outra arma que aqui tenho,
dada a sua forma alongada e de fácil
manejo, pode ser utilizada
como um eficaz objecto contundente
para dispersar multidões.
Além do mais numa das pontas
incorpora uma bateria
que, accionada por este botão,
produz uma descarga feroz
de cada vez que se golpeia;
ou, se o desejar, o artefacto
pode introduzir-se na vagina
e, a partir daí, electrocutar,
sem as velhas complicações
dos instrumentos clássicos
similares no mercado.
Não tenham
receio de perguntar o preço.
(Versão minha; o original aparece reproduzido em La manera de recogerse el pelo - Generación blogger, selecção de David González; prólogo de José Ángel Barrueco, Bartleby, Madrid, 2010, p. 219).
domingo, 15 de abril de 2012
Raúl Gustavo Aguirre
A trincheira do Reno
Eu, Martin
Heidegger, o filósofo
que pensou o Impensável
e anunciou a perda do Ser
por causa da ciência e do olvido,
fui declarado pelos meus pares
"pessoa totalmente dispensável"
e enviado para cavar esta trincheira
ao longo do Reno.
Debaixo dos meus pés a terra venerável afunda-se.
Cai o crepúsculo azul de Georg Trakl. Tenho frio.
E no bosque vizinho soa outra vez, tenebroso,
o riso do idiota que assistia às minhas lições.
(Versão minha; o original pode ler-se aqui).
Eu, Martin
Heidegger, o filósofo
que pensou o Impensável
e anunciou a perda do Ser
por causa da ciência e do olvido,
fui declarado pelos meus pares
"pessoa totalmente dispensável"
e enviado para cavar esta trincheira
ao longo do Reno.
Debaixo dos meus pés a terra venerável afunda-se.
Cai o crepúsculo azul de Georg Trakl. Tenho frio.
E no bosque vizinho soa outra vez, tenebroso,
o riso do idiota que assistia às minhas lições.
(Versão minha; o original pode ler-se aqui).
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