domingo, 22 de julho de 2012

Christine M. Krishnasami

[ao lado de um pedra...]



ao lado de uma pedra com três
mil anos duas
papoilas de hoje



(Versão minha; original reproduzido em This same sky; selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, Nova Iorque, 1996, p. 100).

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Tarapada Ray

O irmão do meu bisavô



O irmão do meu bisavô tinha um passatempo peculiar -
Costumava coleccionar penas
          de diferentes pássaros
          de diferentes cores, de diferentes sítios.
O seu quarto, o corredor, a escada
Estavam cheios de milhares de penas coloridas e descoloridas.

No dia da sua morte
Um pouco antes do sol nascer, de madrugada,
O irmão do meu bisavô
          subiu ao telhado da sua casa
E lançou as penas para o ar da manhã.
As penas flutuaram nos raios dourados
          do sol nascente.
Algumas cairam por perto.
Outras foram para longe.
Outras ainda voaram até à eternidade, pelo céu.

Não, não é possível escrever uma história
          sobre este assunto
Mas algumas dessas penas continuam a voar
          pelo céu.



(Versão minha a partir da tradução inglesa do autor reproduzida em This same sky, selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbaks, Nova Iorque, 1996, p.56).

terça-feira, 17 de julho de 2012

Xuan Bello

Variações sobre o meu nome



Tu,
que poderias ser João Velho
na claridade azul de Sintra.
Lá longe, distante e amigo,
pressentes o teu senhor El-Rei
dom Sebastião.

Tu,
que percorres terras remotas
e a quem chamam Jean Vieilh.
Recordas aqueles dias
tão tristes em Auvergne
enquanto escutas pela primeira vez
- imensa e rara -
a voz do deus do rio:
Mississipi.

Tu,
John Oldman,
pirata em Tortuga:
o próprio Henry Morgan
há-de dar-te um tiro.

Tu,
que serias Juan el Viejo
lá nas terras de Sória:
lavram nos campos os bois
no outono do Criador.

E tu,
que estranho,
chamar-te Xuan Bello
e estar aqui, em Oviedo,
passando visões obscuras
para o claro asturiano.
Saber que a tua pátria
fica sempre noutro sítio:
ali onde não estás.



(Versão minha a partir do original asturiano e da tradução castelhana do autor reproduzidos em Toma de tierra - Poetas en lengua asturiana: Antología (1975-2010); organização de José Luis Argüelles, Trea, Gijón, 2010, pp. 475-477).

domingo, 15 de julho de 2012

Fatos Arapi

Esses que continuam a amar



Esses que não têm que comer,
Quando sonham com comida
Deixem-nos pensar em mim e em ti.
Esses que não têm fogo,
Quando sonham com o fogo
Deixem-nos pensar em mim e em ti.
Os insones deste mundo
Com os olhos abertos como a noite
No abismo das suas noites
Deixem-nos pensar em mim e em ti.
Esses que já morreram
E continuam a amar -
Deixem-nos pensar em mim e em ti.



(Versão minha a partir da tradução inglesa reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry; organização e tradução de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 178).

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Berta Piñan

À maneira de Szymborska



Chegados a este ponto
talvez tudo devesse ser mais simples,
a palavra lua não deveria nomear nada mais
do que a lua,
e os rios deveriam seguir até ao seu destino
sem serem alterados
pelas metáforas.
Talvez a palavra solidão não devesse
significar outra coisa além da ausência
de acontecimentos
e a palavra silêncio pudesse servir só
para calar os ruídos.

Com a língua talvez tudo devesse ser
mais simples, sem voltas
nem requebros, deixando-nos
com duas ou três questões
para seguir em frente:
um porquê, algum não sei.
E, depois, fechar a porta
que, neste caso,
deveria significar unicamente
fechá-la.



(Versão minha a partir do original asturiano e da tradução castelhana da autora reproduzidos em Toma de tierra - poetas en lengua asturiana: antología (1975-2010); selecção de José Luis Argüelles, Trea, Gijón, p. 445).

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Eqrem Basha

Menu Balkânico



Não ponhas a mesa, querida
Vamos jantar fora
Sair cedo
E voltar tarde
A vida aqui na Europa mudou
Vamos lá, querida, vamos sair
Beber ponche
No Admiral Bar
E um coupe royale
Na esplanada do Café Montreal
Na sala de bilhar do Benny
Tentaremos as carambolas de costas
Beberemos um cappucino
Na Cafetaria Marilyn
E um martini com azeitona no Florida Club
Não ponhas a mesa, querida
Vamos jantar fora
Na Pizzaria Miami
Comer uma pizza New Jersey
Um escaloppe viennense no Restaurante Roma
E depois iremos ao Parma's
Para uma coupe macédonienne
E quando se fizer tarde
Voltaremos para casa
Para esvaziarmos os intestinos
Numa latrina balcânica.



(Versão minha a partir da tradução inglesa reproduzida em Lightning from the depths - an anthology of albanian poetry, organização e tradução de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 218-219).

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Dorianne Laux

Histórias de famílias



Tive um namorado que me contava histórias da sua família,
uma vez uma discussão acabou com o pai dele
a agarrar num bolo de aniversário todo enfeitado com as duas mãos
e a atirá-lo pela janela do segundo andar. Isso,
pensei, é o que acontece numa família normal: raiva
arremessada pelo parapeito da janela, aterrando como um presente
que vai decorar o passeio lá em baixo. Na minha,
eram punhos e golpes directos contra a boca do estômago,
e nunca ninguém perdoou a ninguém. Mas, nas histórias dele, eu
acreditava que as pessoas se amavam verdadeiramente umas às outras,
mesmo quando berravam e forçavam as portas dos armários
com os pés, ou levantavam uma cadeira como se fosse uma garrafa
de espumante barato, martirizando uma parede,
os degraus explodindo nos seus espaços vazios.
Disse-lhe que isso me parecia inofensivo, a pompa e a fúria
dos apaixonados. Ele respondeu que fôra uma maldição
ter nascido italiano e católico e quando olhou
pela janela o que viu foi esse momento
barbaramente destruído. Em contrapartida, tudo o que eu pude ver
foi um maravilhoso bolo de três andares a deslizar como um navio
maltratado até ao passeio, as velas partidas, afundando-se
cada vez mais no gelo, algumas ainda a arder.



(Versão minha; o original pode ler-se aqui).

terça-feira, 3 de julho de 2012

Nel Amaro

Declaração de princípios


Para Oski S.



Um homem fala em inglês
(esse homem é meu irmão).

Outro homem fala em asturiano
(é meu inimigo).

O primeiro homem é um mineiro
(norte-americano).

O segundo homem é um patrão
(asturiano).

Nem sempre a língua nos
faz irmãos.



(Versão minha a partir do original em asturiano e da tradução castelhana do autor reproduzidos em Toma de tierra - poetas en lengua asturiana: antología (1975-2010); selecção de José Luis Argüelles, Trea, Gijón, 2010, p. 71).

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Vasyl Holoborodko

Labirinto



O autocarro vermelho há-de deter-se
e eu encontrar-me-ei no labirinto:
levarei muito tempo a descer os degraus,
gastando a sola dos sapatos,
pelo que irei à procura de um sapateiro,
entrarei com os pés descalços
pisando a pedra fria
e a desorientação será ainda maior.

Desesperado hei-de sentar-me nas escadas,
abrirei o jornal e começarei a ler
para encontrar a saída deste labirinto.
Então descobrirei um sinal:
talhado à mão indica a direcção que devo tomar;
penso, com uma alegria indizível, que eu sou o guia
e novamente hei-de pôr-me a caminho
perdendo cada vez mais a orientação.



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida em Poesía ucraniana del siglo XX - una iconografia del alma; prólogo, selecção e tradução de Iury Lech, Litoral/Ed. UNESCO, Torremolinos/Málaga, 1993, p. 178).

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Edward Hirsch

Eu nunca fui capaz de rezar



Guia-me até ao porto
onde o farol jaz abandonado
e a lua range nas vigas de madeira.

Deixa-me ouvir o vento chamar por entre as árvores
e ver as estrelas irromperem, uma a uma,
como os rostos esquecidos dos mortos.

Eu nunca fui capaz de rezar,
mas deixa-me gravar o meu nome
no livro das ondas

e depois olhar intensamente a cúpula
de um céu que não tem fim
e ver a minha voz navegar pela noite dentro.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Jillena Rose

Taos



No deserto é mais fácil encontrar ossos
do que flores, por isso pinto-os:
belos e claros crânios de cavalos e vacas.

Quando me estendo sob as estrelas
na parte traseira do carro, com os coiotes a uivar
nos pinhais, é fácil sentir como estes ossos
são tão tal e qual os meus: eis a minha pélvis
tão parecida com a pélvis que encontrei hoje
polida pelo sol e pela areia. A mesma
cavidade onde o quadril deveria encaixar, a mesma

curva branca de osso debaixo da minha carne,
o mesmo berço de vida, sereno e silencioso em mim.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

sábado, 23 de junho de 2012

Wendy Videlock

Desarmada



Eu devia ser determinada e firme,
eu sei que devia, e mostrar uma cara feia;
mais uma vez falhaste na limpeza do teu quarto.
E não é só isso, também as provas
do saque da meia noite na tua cama -
cascas de amendoins partidas e m&m's
esmigalhados no sítio onde pousaste a cabeça
e, um pouco acima, o parapeito
está sobrelotado com uma girafa verde
(que espreita através do teu telescópio),
peças de dominó e um copo meio cheio
de sumo de laranja. Minha criança esfomeada,

como posso eu sentir-me desencantada com tudo isto,
este teu mundo secreto, esta tua maravilhosa desarrumação?



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Begoña Paz

A Branca de Neve envelhece



Nunca imaginei
cabelos brancos
no meu
púbis.



(Versão minha; original reproduzido em La manera de recogerse el pelo - Generación blogger; selecção de David González, prólogo de José Ángel Barrueco, Bartleby Editores, Madrid, 2010, p. 271).

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Vasyl Holoborodko

[Detestáveis sementes de erva...]



Detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva

Depois de tudo morreremos uma vez,
não somos eternos nem imortais (a matéria não desaparece
em contrapartida nós sim: eu, tu, ela, a amante, o irmão, os outros),
e qualquer semente de erva: de tomilho, sinuosa como uma áspide,
espera a nossa morte (morreremos uma vez)
para se fundir com o nosso corpo alheio exangue
(no qual fomos nós: o meu, o teu, o dele, da amante, do irmão, dos outros)
e crescerá e florescerá e dará sementes
para aguardarem então a morte dos demais (não a nossa),
porque as sementes de erva são imortais, porque são sementes de erva.

Detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida em Poesía ucraniana del siglo XX - Una icinografia del alma; prólogo, selecção e tradução de Iury Lech, Litoral/Edições UNESCO, Torremolinos/Málaga, 1993, p. 174).

sexta-feira, 15 de junho de 2012

David Turkéltaub

O tempo corre



Que queres dizer com isso de que o tempo corre?
Corre a nosso favor ou corre
separando-nos? Os cinquenta
beijos de ontem à noite, e da noite anterior,
correm no sentido dos ponteiros
do relógio, ou no outro sentido?
Perdi a conta.
Somos dois, dizes-me, e o tempo
corre: ontem éramos um só
e caminhávamos a passo de tartaruga.



(Versão minha; original reproduzido em Informe para extranjeros - Antología de poesía chilena contemporánea; selecção de María Nieves Alonso, Gilberto Triviños, Juan Carlos Mestre e Mario Rodríguez; prólogo de María Nieves Alonso, Diputación de Huelva, Huelva, 2001, 1º volume, p.119).

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Ester García Camps

Identidade



esta tarde,
enquanto a telefonista
soletra os meus dados pessoais
do outro lado
do auricular,
tenho de lhe lembrar
que ester
é ester

mas sem h.

que Camps é como Campos
mas em valenciano
e que, além disso,
esse é o meu segundo
apelido,
o primeiro é García

com acento no i.

é importante
não esquecer o meu nome

uma pessoa tem de poder dizer
quem é
mesmo que na realidade

não o saiba ainda.



(Versão minha; original reproduzido em La manera de recogerse el pelo - Generacíón blogger; selecção de David González; prólogo de José Ángel Barrueco, Bartleby, Madrid, 2010, p. 58).

domingo, 10 de junho de 2012

Dave Etter

Roma Higgins

Grilo



Durante uma semana inteira
um grilo andou pela cave,
algures entre
a fornalha
e o estojo de críquete.
Eu gostaria de ter ido lá abaixo
todas as noites
para o ouvir trinar.
Ele daria pelos meus passos
e interromperia
a sua música mágica.
Logo depois começaria
de novo a cantar.
Isto seria assim
e eu falaria com ele
e seria seu amigo.
Mas esta noite
na cave
só encontrei um silêncio gelado
e uma aranha
a tecer uma mortalha
junto à janela.



(Versão minha; original reproduzido em Illinois voices - an anthology of twentieth-century poetry, organização de Kevin Stein e G. E. Murray, University of Illinois Press, Urbana e Chicago, 2001, p. 98).

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Xhevahir Spahiu

Acordar tarde



Acordar tarde significa
Encontrar as flores sem orvalho, as pétalas caídas.
Acordar tarde significa
Que o amor deixou para trás uma marca indistinta.
Acordar tarde significa
Que a morte assinou longamente os teus documentos.

Mas acorda ainda assim.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 213).

terça-feira, 5 de junho de 2012

Karmelo C. Iribarren

A condição urbana


                                           Para Roger Wolfe



Detesto autocarros. A boa
educação que nos obriga
a ceder os lugares sentados
a essas senhoras
que até que se sentem
pode dar-lhes
qualquer coisa fatal.
Os empurrões. Os cheiros. Que ninguém
fume e tenhamos de aguentar
todos os pormenores
do enfarte
que deu a não sei quem.
Os anúncios publicitários
nas partes laterais.
As travagens. E muitas
outras coisas que agora calo
porque desço aqui.



(Versão minha; original reproduzido em Seguro que esta historia te suena - Poesía completa (1985-2005), Renacimiento, Sevilha, 2005, p. 37).

domingo, 3 de junho de 2012

David Turkéltaub

A poesia serve para tudo




A poesia serve para tudo: substitui a anestesia
no dentista e não tem efeitos secundários.
Em doses muito concentradas (p. ex. Keats + Vallejo) pode provocar calafrios
[na espinal medula,
estremecimentos, palidez
e uma sensação de caminhar no vazio.
Nesses casos recomenda-se que se deixe uma flor seca entre as folhas
assinalando o culpado até que outra alma piedosa
daqui a cem anos
arrisque a pele na aventura.



(Versão minha a partir do original reproduzido em Informe para extranjeros - Antología de poesía chilena contemporánea; prólogo de María Nieves Alonso; selecção de María Nieves Alonso, Gilberto Triviños, Juan Carlos Mestre e Mario Rodriguez, Diputación de Huelva, 2001, p. 122)

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Floridor Pérez

Para traduzir não é preciso saber línguas



Escreveu um lendário poeta chinês da dinastia Tang:
Abandona a tempo a tua poesia ou a tua mulher.

Um académico traduziu:
terminou o tempo da poesia amorosa.

E um psicanalista:
chega um tempo em que as pernas da mulher
deixam de ser um livro aberto.

Então vim eu
e abandonei-me o tempo todo
à minha poesia e à minha mulher.

Que era exactamente o que tinha querido dizer
o lendário poeta chinês
da dinastia de Li Po.



(Versão minha a partir do original reproduzido em Informe para extranjeros - Antología de poesía chilena contemporánea; prólogo de María Nieves Alonso; selecção de María Nieves Alonso, Gilberto Triviños, Juan Carlos Mestre e Mario Rodríguez, Diputación de Huelva, 2001, p. 130).

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Besnik Mustafaj

Poema profético



Se, em vez de Cristo e de Maomé,
A Bíblia e o Corão
Falassem do destino trágico de Tristão e Isolda,
Amantes exemplares,
Mortais neste pequeno planeta,
Seria muito mais difícil negar
O conceito de divino.



(Versão minha a partir da tradução inglesa reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry; organização e tradução de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 241).

sábado, 26 de maio de 2012

Pak Tujin (1916-1998)

Livro de poemas



Um livro de poemas aberto na areia
branco diante do mar azul.
O vento virava-lhe as páginas,
amarrotava-as uma após outra.
As palavras ardentes desse livro gravaram no seu interior
um coração belo e triste.
E essas palavras impressas transformaram-se em pássaros, começaram a voar.
Uma, depois outra;
cem, mil palavras,
alto, mais alto, cintilando, elevando-se até ao céu,
poemas brancos de pássaros, pássaros de poemas.
Trémulas pétalas de flores caíam do céu.
E esses pássaros que recitavam poemas no céu
esqueceram-se, incapazes de dizer os versos que sabiam
transformaram-se em flores a cair sobre o mar.
Então tornaram-se estrelas no céu distante.
Esses pássaros que recitavam poemas no céu
os mais belos e tristes
poemas do mundo
- recitavam os poemas do livro de modo tão fulgurante
que agora brilham, estrelas no mundo das estrelas.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Edward W. Poitras reproduzida em The Columbia anthology of modern korean poetry, edição de David R. McCann, Columbia University Press, Nova Iorque, 2004, p. 126. Esta versão é dedicada a Amélia Pinto Pais).

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Vasyl Holoborodko

[És como a areia...]



És como a areia
aperto com mais força os meus dedos.

És como um pequeno pássaro
construo para ti uma gaiola.

És como a água do rio
procuro para ti um cântaro.

Mas tu já és bosque
Mas tu já és campo
Mas tu já és caminho.



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida em Poesía ucraniana del siglo XX - Una iconografia del alma; prólogo, selecção e tradução de Iury Lech, Litoral/Edições UNESCO, Torremolinos/Málaga, 1993, p. 180).

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Dmitry Prigov

Diálogo nº 5



Estaline     Não há felicidade na terra!
Prigov       Não há felicidade!
Estaline     O que é que há então?
Prigov       O que é que há?
Estaline     Há Estaline!
Prigov       Há Estaline!
Estaline     E o que é Estaline?
Prigov       E o que é?
Estaline     Estaline é a nossa glória militar!
Prigov       Glória militar!
Estaline     Estaline é a maior inspiração da nossa juventude!
Prigov       A maior inspiração da juventude!
Estaline     Cantando nas batalhas e nas vitórias!
Prigov       Vitórias!
Estaline     O nosso povo segue Estaline!
Prigov       Segue Estaline.
Estaline     E o que mais é Estaline?
Prigov       E o que mais?
Estaline     Os três princípios principais.
Prigov       Os três princípios principais.
Estaline     E o que mais é Estaline?
Prigov       E o que mais?
Estaline     As cinco grandes ideias!
Prigov       As cinco grandes ideias!
Estaline     As oito grande letras!
Prigov       E como seria se deixássemos cair uma letra?
Estaline     Como seria?
Prigov       Seria Staline!
Estaline     Staline!
Prigov        E se deixássemos cair outra?
Staline       Outra?
Prigov        Seria Taline!
Taline        Taline!
Prigov        E se deixássemos cair outra?
Taline        Outra?
Prigov       Seria Aline.
Aline         Seria Aline!
Prigov       E se deixássemos cair ainda outra?
Aline         Outra?
Prigov       Seria Line.
Line          Seria Line!
Prigov       E outra?
Line          Outra?
Prigov      Seria Ine.
Ine            Ine?
Prigov       E outra?
Ine            Outra?
Prigov       Seria Ne!
Ne             Seria Ne!
Prigov       E outra?
Ne             Outra?
Prigov       Seria E!
E               Seria E!
Prigov       E outra?



(Versão minha a partir da tradução inglesa de J. Kates reproduzida em In the grip of strange thoughts - Russian poetry en a new era, selecção e organização de J. Kates, Bloodaxe Books, Newcastle, 1999, pp. 261-263).

sábado, 19 de maio de 2012

Karel Bofill Bahamonde

(vendo desenhos animados soviéticos)



vejo de novo desenhos animados soviéticos
e escuto vozes que não posso compreender
vozes que me recordam a estranha tristeza
em que crescemos
comendo como soviéticos
vestindo como soviéticos
vendo desenhos animados soviéticos como crianças soviéticas
pensando que o mundo estava numa revista Misha(1)
sem saber que Koniec(2) era o fim
que se aproximava



(Versão minha; o original aparece reproduzido em Dejar atrás el agua - Nueve nuevos poetas cubanos, selecção e prólogo de Fruela Fernández e Juan Antonio Bernier, La Bella Varsovia, Córdova, 2011, p. 87. Notas: (1) Revista infantil soviética; (2) "Fim" em polaco).

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Dritëro Agolli

Coisas simples mas úteis



Um bordão, seja macio, torto ou nodoso,
Terá sempre alguma utilidade para um cego,
É bom para o coxo, exausto pela caminhada,
E benéfico para qualquer um quando atacado pelas hordas.

Um bordão, seja macio, torto ou nodoso,
É valioso para se usar tanto fora como em casa,
Em casa para te defenderes de vizinhos coléricos,
Fora para te precaveres dos cães raivosos e vadios que erram pelos caminhos.

Um bordão pode parecer belo ou feio,
De qualquer modo será útil ainda para outras coisas,
Precisas dele para sacudires o pó das tuas malas,
Para bateres às portas quando não há campainha.

Um bordão é um recurso necessário a um polícia,
É apreciado pelo director de uma prisão cheia de humidade,
Um bordão foi usado pelo apóstolo São Pedro
E uma vez pelo cego Homero privado de uma candeia.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 182).

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Xhevahir Spahiu

Tradução do rio



Sento-me e traduzo o rio,
É difícil reproduzir
Esta coisa líquida,
São precisas palavras raras,
Expressões firmes,
Ritmos eternos,
Uma centena de fontes em uníssono
A contar de novo um mito antigo.
Durante toda a noite traduzi o rio.
De manhã
A minha versão tinha desaparecido.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathier-Heck reproduzida em Lightning from the depts - An anthology of albanian poetry, Northwestwern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 213).

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Yunier Riquenes García

[Se vão continuar...]



Se vão continuar com os discursos que não seja com
palavras, que seja com a boca cosida, com as mãos
amarradas, com as pernas mutiladas, com os olhos
fechados. Se vão continuar com os discursos então
que arranquem o coração com a ponta de uma
pedra, que abram o peito. Se vão continuar com
os discursos, se por acaso os puderem continuar.



(Versão minha a partir do original reproduzido em Dejar atrás el agua - Nueve nuevos poetas cubanos; selecção e prólogo de Fruela Fernández e Juan Antonio Bernier, La Bella Varsovia, Córdoba, 2011, p. 87).

terça-feira, 8 de maio de 2012

Teresa Fornaris

A porcelana partida



A porcelana partida
caiu outra vez
Recolho as partes
emendo-as
e volto a colocá-la à beira da mesa.



(Versão minha; original reproduzido em Dejar atrás el agua - Nueve nuevos poetas cubanos; edição e prólogo de Fruela Fernández e Juan Antonio Bernier, La Bella Varsovia, Córdoba, 2011, p. 33).