Futebolista
Se soubesse o que sei hoje, futebolista.
Um desportivo foleiro e uma loira
ainda mais foleira à saída
dos treinos. Um brinco
na orelha esquerda e uma franja
tenaz que cai e volta a cair sobre os olhos
e que desvio - que pinta! - com esse gesto
que até os putos imitam...
Enfim, vida
da boa, anúncios, golos, entrevistas,
uma vasta mansão, autógrafos e coisa e tal...
Juro-o: futebolista. Não estes versos
ordinários e prosaicos. Não estes anos
filhos da mãe. Nem as conjecturas. Nem esperar
que nunca nada aconteça...
E não
poeta, não, não!, sobretudo nada de poeta,
antes outra coisa qualquer em vez deste tótó
que se põe a olhar para o que faz: a lamentar-se muito
de si mesmo, a exibir a roupa suja,
este striptease grotesco, que vergonha.
(Versão minha; original reproduzido em Feu de erratas, Renacimiento, Sevilha, 1997, pp. 49-50).
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Lisel Mueller
Triagem
Bertolt Brecht lamentava ter vivido numa época em que era quase um crime falar de árvores, porque isso significava ficar calado em relação a tanto mal existente. Caminhando numa zona cheia de olmos enormes, ainda saudáveis, junto ao lago de Chicago, penso no que Brecht disse. Eu quero celebrar estes olmos poupados às pragas, estes sobreviventes de uma tribo outrora florescente e comemorada por todas as Elm Streets* da América. Mas celebrá-los significa ficar em silêncio em relação às pessoas que se sentaram e dormiram debaixo deles, aos pobres sem-abrigo que foram arrastados para fora da cidade como lixo, com a diferença de que não havia sítio para os despejar. Pois falar de uma coisa implica omitir outra. Quando falo de mim própria não posso falar de ti. E tu apercebes-te disso enquanto me escutas, a desilusão estampada no rosto.
(*Rua(s) dos Olmos. Versão minha; original reproduzido em Alive together - new and selected poems, Louisiana State University Press, Baton Rouge, 1996, p. 127).
terça-feira, 25 de setembro de 2012
Kurt Marti
O pão nosso de cada dia
O pão nosso de cada dia
nos dai hoje
para que não só
por pão
tenhamos de estilhaçar o peito
para que não tenhamos
de sofrer qualquer chantagem da parte dos patrões
que nos dão o pão
para que não tenhamos
de nos tornar dóceis
com medo de perdermos o nosso pão
O pão nosso de cada dia
nos dai hoje
para que não só
por pão
tenhamos de estilhaçar o peito
para que não tenhamos
de sofrer qualquer chantagem da parte dos patrões
que nos dão o pão
para que não tenhamos
de nos tornar dóceis
com medo de perdermos o nosso pão
(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida na Antología de la poesía suiza alemana contemporànea; selecção, tradução e introdução de Hans Leopold Davi, Los Libros de la Frontera, Barcelona, s/., p. 99).
domingo, 23 de setembro de 2012
Salih Boat
O meu quinhão
toda a gente anda ocupada com alguma coisa
a avó a fiar lã
com as suas mãos secas e enrugadas como pepinos
deixados no campo
depois das sementes lhes terem sido extaídas,
está ocupada com alguma coisa;
o negociante que compra e vende terras
e o estudante que é avaliado
nas matérias que não lhe foram ensinadas
estão ocupados com alguma coisa;
o caixa do banco que se questiona sobre a relação
entre as suas mãos e o dinheiro que conta sem parar
e o adminsitrador que ontem casou a filha mais velha,
o piloto que se prepara para um novo voo
com a sua mala que já viu tantos países,
o bombeiro que passou um dia descansado
com as suas memórias de incêndios,
o trabalhador que acorda para fazer o turno da noite
e a sua raiva adormecida,
a galinha na capoeira anda ocupada com alguma coisa
preparando-se para os pintaínhos que parecem algodão-doce,
e o que sobrou para mim foi escrever poesia.
toda a gente anda ocupada com alguma coisa
a avó a fiar lã
com as suas mãos secas e enrugadas como pepinos
deixados no campo
depois das sementes lhes terem sido extaídas,
está ocupada com alguma coisa;
o negociante que compra e vende terras
e o estudante que é avaliado
nas matérias que não lhe foram ensinadas
estão ocupados com alguma coisa;
o caixa do banco que se questiona sobre a relação
entre as suas mãos e o dinheiro que conta sem parar
e o adminsitrador que ontem casou a filha mais velha,
o piloto que se prepara para um novo voo
com a sua mala que já viu tantos países,
o bombeiro que passou um dia descansado
com as suas memórias de incêndios,
o trabalhador que acorda para fazer o turno da noite
e a sua raiva adormecida,
a galinha na capoeira anda ocupada com alguma coisa
preparando-se para os pintaínhos que parecem algodão-doce,
e o que sobrou para mim foi escrever poesia.
(Versão minha a partir da tradução inglesa de Yusuf Eradam reproduzida em This same sky; selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, Nova Iorque, 1996, p. 180).
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Dahlia Ravikovitch
Orgulho
Digo-te, até as rochas se partem,
e não é por causa do tempo.
Durante anos mantém-se deitadas de costas
no calor e no frio,
durante tantos anos
isso quase parece pacífico.
Não se mexem, por isso as fendas permanecem escondidas.
É uma espécie de orgulho.
Os anos passam sobre elas, e elas aguardam.
Seja o que for que venha despedaçá-las
ainda não chegou.
E assim o musgo cresce, as algas
chicoteiam à sua volta,
o mar avança sobre elas e retrocede -
as pedras parecem imóveis.
Até uma pequena foca vem esfregar-se contra elas,
chega e vai-se embora.
E de súbito a rocha tem uma ferida aberta.
Eu disse-te, quando as rochas se quebram, isso acontece de súbito.
Tal como as pessoas.
Digo-te, até as rochas se partem,
e não é por causa do tempo.
Durante anos mantém-se deitadas de costas
no calor e no frio,
durante tantos anos
isso quase parece pacífico.
Não se mexem, por isso as fendas permanecem escondidas.
É uma espécie de orgulho.
Os anos passam sobre elas, e elas aguardam.
Seja o que for que venha despedaçá-las
ainda não chegou.
E assim o musgo cresce, as algas
chicoteiam à sua volta,
o mar avança sobre elas e retrocede -
as pedras parecem imóveis.
Até uma pequena foca vem esfregar-se contra elas,
chega e vai-se embora.
E de súbito a rocha tem uma ferida aberta.
Eu disse-te, quando as rochas se quebram, isso acontece de súbito.
Tal como as pessoas.
(Versão minha a partir da tradução inglesa de Chama Bloch e Ariel Bloch reproduzida em This same sky - a colletion of poems around the world, selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paper, Nova Iorque, 1996, p. 181).
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
Werner Bucher
Rogativa
Mörike, tu que estás
nos céus
roga por mim para que
escreva melhores poemas
do que tu
e não gire eternamente (como
tu tão maravilhosamente
giraste)
em torno do mesmo tema, sim,
Mörike,
roga por mim
para
que tenha mais sorte
no amor
do que tu
e para que não termine,
como tu,
a minha vida com o canto dos lábios descaído,
também te rogo
para que eu,
ao contrário de ti,
volte a acreditar em Deus
e que por detrás
do Papa actual
e dos milhares de movimentos de redenção
reconheça ainda o divino, roga
por mim, Mörike, para que
eu escreva
sem invejar os colegas
e as colegas mais célebres
e que todos os que
amo
cheguem aonde
querem chegar e que
os meus inimigos e adversários
não sejam atropelados
por carros, rogo-te ao mesmo tempo para que
a vida traga alegria
a todos quantos ofendi
e que o mau músico
que atropelaram
em Oberegg
ao sair do autocarro dos correios
aprenda agora
no céu de Elvis,
Bruckner e Beet-
hoven o que é boa música
e ao mesmo tempo rogo-te
que me protejas nas minhas viagens de scooter
pela região de Appenzell
e que o inesperado
se torne no esperado, também
te rogo para que preserves
o mundo dos déspotas,
feministas, políticos
e outros dirigentes, para que
suprimas a miséria
em todos os nossos mundos
arrancando os solitários
à sua solidão, os velhos
aos seus asilos
e centros de assistência,
para que cures as crianças
doentes de cancro e de sida e para
que ajas de forma a que
tu e Hölderlin, Pavese
e Alfonsina Storni, Gabriela
Mistral, Lenau e Van Gogh
se encontrem de imediato
sobre uma nuvem
na qual uma paz verdadeira
cubra as vossas almas,
sim, Mörike,
poupa-nos a Papas, arcebispos,
campos de entretenimento e a todos
esses políticos fariseus à maneira de
Helmut Kohl e Adolf Ogi,
e roga a Deus para que
ponha fim, por fim,
à ordem no mundo.
Pois então ondeará
(pelos ares) a fita azul
e todos nós saberemos
para que serve a dor, para que serve a alegria.
Roga por nós, Santo
Mörike, tal não
prejudicará a tua fama e
fará de ti um homem
que é mais do que apenas
um grande poeta.
Neste sentido, Mörike,
agora digo amén,
e louvo o Senhor.
Deus esteja contigo,
eternamente e para sempre.
Mörike, tu que estás
nos céus
roga por mim para que
escreva melhores poemas
do que tu
e não gire eternamente (como
tu tão maravilhosamente
giraste)
em torno do mesmo tema, sim,
Mörike,
roga por mim
para
que tenha mais sorte
no amor
do que tu
e para que não termine,
como tu,
a minha vida com o canto dos lábios descaído,
também te rogo
para que eu,
ao contrário de ti,
volte a acreditar em Deus
e que por detrás
do Papa actual
e dos milhares de movimentos de redenção
reconheça ainda o divino, roga
por mim, Mörike, para que
eu escreva
sem invejar os colegas
e as colegas mais célebres
e que todos os que
amo
cheguem aonde
querem chegar e que
os meus inimigos e adversários
não sejam atropelados
por carros, rogo-te ao mesmo tempo para que
a vida traga alegria
a todos quantos ofendi
e que o mau músico
que atropelaram
em Oberegg
ao sair do autocarro dos correios
aprenda agora
no céu de Elvis,
Bruckner e Beet-
hoven o que é boa música
e ao mesmo tempo rogo-te
que me protejas nas minhas viagens de scooter
pela região de Appenzell
e que o inesperado
se torne no esperado, também
te rogo para que preserves
o mundo dos déspotas,
feministas, políticos
e outros dirigentes, para que
suprimas a miséria
em todos os nossos mundos
arrancando os solitários
à sua solidão, os velhos
aos seus asilos
e centros de assistência,
para que cures as crianças
doentes de cancro e de sida e para
que ajas de forma a que
tu e Hölderlin, Pavese
e Alfonsina Storni, Gabriela
Mistral, Lenau e Van Gogh
se encontrem de imediato
sobre uma nuvem
na qual uma paz verdadeira
cubra as vossas almas,
sim, Mörike,
poupa-nos a Papas, arcebispos,
campos de entretenimento e a todos
esses políticos fariseus à maneira de
Helmut Kohl e Adolf Ogi,
e roga a Deus para que
ponha fim, por fim,
à ordem no mundo.
Pois então ondeará
(pelos ares) a fita azul
e todos nós saberemos
para que serve a dor, para que serve a alegria.
Roga por nós, Santo
Mörike, tal não
prejudicará a tua fama e
fará de ti um homem
que é mais do que apenas
um grande poeta.
Neste sentido, Mörike,
agora digo amén,
e louvo o Senhor.
Deus esteja contigo,
eternamente e para sempre.
(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida em Antología de la poesía suiza alemana contemporánea; ed. bilingue; selecção, tradução e introdução de Hans Leopold Davi; Los Libros de la Frontera, Barcelona, s/d., pp. 209-217).
terça-feira, 11 de setembro de 2012
Ewa Lipska
[Não fui salva...]
Não fui salva pela inundação
contudo mais de uma vez toquei o fundo
Não fui salva pelo incêndio
contudo ardi durante anos
Não fui salva pelas catástrofes
contudo comboios e automóveis passaram por cima de mim
Não fui salva pelos aviões
que explodiram no ar comigo a bordo
Os muros das grandes cidades
desmoronaram-se sobre mim
Não fui salva pelos cogumelos venenosos
nem pelas balas precisas dos pelotões de execução
Não fui salva pelo fim do mundo
que não teve tempo de se ocupar de mim
Nada me salvou
EU VIVO
Não fui salva pela inundação
contudo mais de uma vez toquei o fundo
Não fui salva pelo incêndio
contudo ardi durante anos
Não fui salva pelas catástrofes
contudo comboios e automóveis passaram por cima de mim
Não fui salva pelos aviões
que explodiram no ar comigo a bordo
Os muros das grandes cidades
desmoronaram-se sobre mim
Não fui salva pelos cogumelos venenosos
nem pelas balas precisas dos pelotões de execução
Não fui salva pelo fim do mundo
que não teve tempo de se ocupar de mim
Nada me salvou
EU VIVO
(Versão minha a partir da tradução francesa de Georges Lisowski reproduzida em Vingt-quatre poètes polonais, Éditions du Murmure, Neuilly-lès-Dijon, 2003, pp. 128-129).
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
Albert Ehrismann
[Ontem vi...]
Ontem vi um cavalo
a rezar.
Não me pergunte como e onde,
porque estou a mentir.
Mas eu queria sinceramente ver um cavalo
a rezar
e rezar com ele
por ti.
Porque te amo.
Ontem vi um cavalo
a rezar.
Não me pergunte como e onde,
porque estou a mentir.
Mas eu queria sinceramente ver um cavalo
a rezar
e rezar com ele
por ti.
Porque te amo.
(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida na Antología de la poesía suiza alemana contemporánea; selecção, tradução e introdução de Hans Leopold Davi; edição bilingue; Los Libros de la Frontera, Barcelona, s/d, p 29).
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Günter Kunert
Inquietações
Aquele que decidiu viver
Tem de saber porque acordou
Na noite passada, para onde
Vai hoje rua após rua,
Com que propósito caiará amanhã
De branco o seu quarto.
Terá havido um grito?
Há uma finalidade?
O lugar será seguro?
(Versão minha a partir da tradução inglesa de Christopher Middleton reproduzida em East Germany Poetry - an anthology; selecção de Michael Hamburguer, Carcanet Press, Oxford, 1972, p. 93).
Aquele que decidiu viver
Tem de saber porque acordou
Na noite passada, para onde
Vai hoje rua após rua,
Com que propósito caiará amanhã
De branco o seu quarto.
Terá havido um grito?
Há uma finalidade?
O lugar será seguro?
(Versão minha a partir da tradução inglesa de Christopher Middleton reproduzida em East Germany Poetry - an anthology; selecção de Michael Hamburguer, Carcanet Press, Oxford, 1972, p. 93).
domingo, 2 de setembro de 2012
Albert Ehrismann
Dura lição para escritores
Acredita que pode mudar o mundo?
Não.
Então por que escreve?
Porque não o posso mudar.
Acredita que pode mudar o mundo?
Não.
Então por que escreve?
Porque não o posso mudar.
(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida como texto de abertura da Antología de la poesía suiza alemana contemporánea; selecção, tradução e introdução de Hans Leopold Davi, edição bilingue alemão/castelhano, Los Libros de la Frontera, Barcelona, s/d., p. 5)
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Edip Cansever
Mesa
Transbordando de felicidade por estar vivo
Um homem põe as suas chaves sobre a mesa,
Põe flores numa jarra de cobre sobre a mesa.
Coloca os seus ovos e o leite sobre a mesa.
Coloca sobre ela a luz que entra pela janela,
O som de uma bicicleta, o som de uma roda de fiar.
A brandura do pão e do tempo é ali colocada por ele.
Sobre a mesa o homem põe
Coisas que aconteceram na sua mente.
O que deseja fazer na sua vida.
Coloca lá tudo isso.
Aqueles que amou e os que não amou,
O homem coloca-os também sobre a mesa.
Três vezes três são nove:
O homem coloca nove sobre a mesa.
Ele esteve junto à janela, próximo do céu;
Estendeu e colocou coisas sem parar na mesa.
Foram tantos os dias em que quis beber uma cerveja!
Ele coloca sobre a mesa o líquido derramado dessa cerveja.
Coloca nela o seu sono e a sua insónia;
A sua fome e a sua saciedade são nela colocadas por ele.
É a isto que eu chamo uma mesa!
Algo que nunca se queixa minimamente da sua carga.
Cambaleou uma ou duas vezes, depois manteve-se firme.
O homem continuou a acumular coisas sobre ela.
Transbordando de felicidade por estar vivo
Um homem põe as suas chaves sobre a mesa,
Põe flores numa jarra de cobre sobre a mesa.
Coloca os seus ovos e o leite sobre a mesa.
Coloca sobre ela a luz que entra pela janela,
O som de uma bicicleta, o som de uma roda de fiar.
A brandura do pão e do tempo é ali colocada por ele.
Sobre a mesa o homem põe
Coisas que aconteceram na sua mente.
O que deseja fazer na sua vida.
Coloca lá tudo isso.
Aqueles que amou e os que não amou,
O homem coloca-os também sobre a mesa.
Três vezes três são nove:
O homem coloca nove sobre a mesa.
Ele esteve junto à janela, próximo do céu;
Estendeu e colocou coisas sem parar na mesa.
Foram tantos os dias em que quis beber uma cerveja!
Ele coloca sobre a mesa o líquido derramado dessa cerveja.
Coloca nela o seu sono e a sua insónia;
A sua fome e a sua saciedade são nela colocadas por ele.
É a isto que eu chamo uma mesa!
Algo que nunca se queixa minimamente da sua carga.
Cambaleou uma ou duas vezes, depois manteve-se firme.
O homem continuou a acumular coisas sobre ela.
(Versão minha a partir da tradução inglesa de Richard Tillinghast reproduzida em The flag of childhood - poems from the middle east; selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, Nova Iorque; 2002; p. 31).
terça-feira, 21 de agosto de 2012
Fernando López de Artieta
Piscina pública
Risos
gritos
rumor
de conversas sobre a relva
jogadores de cartas
leitoras obstinadas
beijos
ainda inocentes
de frescos adolescentes
bandos de garotos à beira da piscina
meninas
flexíveis
como
juncos
jovens imigrantes
exibindo
saltinhos acrobáticos
jovenzitas
mostrando a sua nudez explícita
(ninguém lhes explicou - coitadas -
que tapadas excitariam muito mais)
vaporizadores de bronzeado
que surgem
aqui
e ali
como géiseres simpáticos
e o deus Sol que cruza lentamente o dia
dourando por igual
miúdos
gordas carecas
mamalhudas saloios
estrangeiros donas de casa condutores de domingo
mirones engatatões anoréticas culturistas
que
no final da tarde recolhem as suas coisas
cansados
esgotados
desfeitos
sorrindo
enquanto a sombra negra dos prédios
avança inexorável sobre a água...
Risos
gritos
rumor
de conversas sobre a relva
jogadores de cartas
leitoras obstinadas
beijos
ainda inocentes
de frescos adolescentes
bandos de garotos à beira da piscina
meninas
flexíveis
como
juncos
jovens imigrantes
exibindo
saltinhos acrobáticos
jovenzitas
mostrando a sua nudez explícita
(ninguém lhes explicou - coitadas -
que tapadas excitariam muito mais)
vaporizadores de bronzeado
que surgem
aqui
e ali
como géiseres simpáticos
e o deus Sol que cruza lentamente o dia
dourando por igual
miúdos
gordas carecas
mamalhudas saloios
estrangeiros donas de casa condutores de domingo
mirones engatatões anoréticas culturistas
que
no final da tarde recolhem as suas coisas
cansados
esgotados
desfeitos
sorrindo
enquanto a sombra negra dos prédios
avança inexorável sobre a água...
(Grosso modo; La Isla de Siltolá, Sevilha, 2011, pp. 67-69).
segunda-feira, 30 de julho de 2012
Ingemar Leckins
Preso
Vivi toda a minha vida dentro de um coco.
Era escuro e apertado,
especialmente de manhã quando precisava de me barbear.
Mas o que me custava mais era não ter maneira
de entrar em contacto com o mundo exterior.
Se não se desse o caso de alguém descobrir o coco,
se ninguém o partisse, então eu estaria condenado
a viver toda a minha vida dentro dele, e talvez até de morrer dentro dele.
Morri dentro do coco.
Alguns anos depois encontraram-no,
partiram-no e descobriram-me encolhido e enrugado lá dentro.
"Que desastre!"
"Se o tivéssemos descoberto só um pouco mais cedo..."
"Talvez assim o pudéssemos ter salvado."
"Talvez haja por aí mais alguns presos como ele,"
disseram, e começaram a partir em bocados cada coco
que apanhavam.
Inútil! Sem sentido! Uma perda de tempo!
Uma pessoa que escolhe viver num coco!
Uma pessoa como essa é um caso num milhão!
Mas eu tenho um cunhado que
vive numa
bolota.
Vivi toda a minha vida dentro de um coco.
Era escuro e apertado,
especialmente de manhã quando precisava de me barbear.
Mas o que me custava mais era não ter maneira
de entrar em contacto com o mundo exterior.
Se não se desse o caso de alguém descobrir o coco,
se ninguém o partisse, então eu estaria condenado
a viver toda a minha vida dentro dele, e talvez até de morrer dentro dele.
Morri dentro do coco.
Alguns anos depois encontraram-no,
partiram-no e descobriram-me encolhido e enrugado lá dentro.
"Que desastre!"
"Se o tivéssemos descoberto só um pouco mais cedo..."
"Talvez assim o pudéssemos ter salvado."
"Talvez haja por aí mais alguns presos como ele,"
disseram, e começaram a partir em bocados cada coco
que apanhavam.
Inútil! Sem sentido! Uma perda de tempo!
Uma pessoa que escolhe viver num coco!
Uma pessoa como essa é um caso num milhão!
Mas eu tenho um cunhado que
vive numa
bolota.
(Versão minha a partir da tradução inglesa de May Swenson reproduzida em This same sky, organização de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, Nova Iorque, 1996, p. 152).
sexta-feira, 27 de julho de 2012
De fio a pavio
Alexandra Lucas Coelho - A. M. Pires Cabral - Ana Cássia Rebelo - Ana Salomé - Carlos Mota de Oliveira - John Mateer - Luís Filipe Parrado - Manuel Filipe - Manuel Paes - Maria da Conceição Caleiro - Pedro S. Martins - Ricardo Álvaro - Rui Miguel Ribeiro - composição e paginação de Inês Mateus - tea for one - Lisboa - 2012 - 24 páginas - pedidos & informações: t41editores@gmail.com
quarta-feira, 25 de julho de 2012
Vasyl Holoborodko
Queria ser uma pessoa
Para não ter de dançar - amputou uma perna
(deixou até de visitar os amigos),
para não combater e gesticular indecências - arrancou os dedos
(era incapaz até de tirar a pele a uma maçã),
para não ouvir palavras obscenas - arrancou as orelhas
(deixou também de ouvir as belas),
para não lhe chamarem narigudo - torceu o nariz
(e ficou com ele achatado),
para não ver os sapos - furou os olhos
(já não pode contemplar as rosas),
para que não lhe escapasse alguma incoerência - cortou a língua
(também não teve mais palavras gentis para a amada).
Cada dia que passava
fazia uma operação plástica ao corpo
para ficar igual aos outros, a todos os outros.
Para não ter de dançar - amputou uma perna
(deixou até de visitar os amigos),
para não combater e gesticular indecências - arrancou os dedos
(era incapaz até de tirar a pele a uma maçã),
para não ouvir palavras obscenas - arrancou as orelhas
(deixou também de ouvir as belas),
para não lhe chamarem narigudo - torceu o nariz
(e ficou com ele achatado),
para não ver os sapos - furou os olhos
(já não pode contemplar as rosas),
para que não lhe escapasse alguma incoerência - cortou a língua
(também não teve mais palavras gentis para a amada).
Cada dia que passava
fazia uma operação plástica ao corpo
para ficar igual aos outros, a todos os outros.
(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida em Poesía ucraniana del siglo XX - Una iconografia del alma; prólogo, selecção e tradução de Iury Lech, Litoral/Ed. UNESCO, Torremolinos/Málaga, 1993, p. 175).
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Deitar a língua de fora
![]() |
Abel Neves - Alexandre Sarrazola - António Barahona - David Teles Pereira - Diogo Vaz Pinto - Inês Dias - Jaime Rocha - Luís Filipe Parrado - Rosa Maria Martelo - Rui Caeiro - Tiago Araújo - ilustrações de Luís Henriques - Lingua Morta - Lisboa - 2012 - 92 páginas - pedidos & informações: edlinguamorta@gmail.com
domingo, 22 de julho de 2012
Christine M. Krishnasami
[ao lado de um pedra...]
ao lado de uma pedra com três
mil anos duas
papoilas de hoje
ao lado de uma pedra com três
mil anos duas
papoilas de hoje
(Versão minha; original reproduzido em This same sky; selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, Nova Iorque, 1996, p. 100).
sexta-feira, 20 de julho de 2012
Tarapada Ray
O irmão do meu bisavô
O irmão do meu bisavô tinha um passatempo peculiar -
Costumava coleccionar penas
de diferentes pássaros
de diferentes cores, de diferentes sítios.
O seu quarto, o corredor, a escada
Estavam cheios de milhares de penas coloridas e descoloridas.
No dia da sua morte
Um pouco antes do sol nascer, de madrugada,
O irmão do meu bisavô
subiu ao telhado da sua casa
E lançou as penas para o ar da manhã.
As penas flutuaram nos raios dourados
do sol nascente.
Algumas cairam por perto.
Outras foram para longe.
Outras ainda voaram até à eternidade, pelo céu.
Não, não é possível escrever uma história
sobre este assunto
Mas algumas dessas penas continuam a voar
pelo céu.
O irmão do meu bisavô tinha um passatempo peculiar -
Costumava coleccionar penas
de diferentes pássaros
de diferentes cores, de diferentes sítios.
O seu quarto, o corredor, a escada
Estavam cheios de milhares de penas coloridas e descoloridas.
No dia da sua morte
Um pouco antes do sol nascer, de madrugada,
O irmão do meu bisavô
subiu ao telhado da sua casa
E lançou as penas para o ar da manhã.
As penas flutuaram nos raios dourados
do sol nascente.
Algumas cairam por perto.
Outras foram para longe.
Outras ainda voaram até à eternidade, pelo céu.
Não, não é possível escrever uma história
sobre este assunto
Mas algumas dessas penas continuam a voar
pelo céu.
(Versão minha a partir da tradução inglesa do autor reproduzida em This same sky, selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbaks, Nova Iorque, 1996, p.56).
terça-feira, 17 de julho de 2012
Xuan Bello
Variações sobre o meu nome
Tu,
que poderias ser João Velho
na claridade azul de Sintra.
Lá longe, distante e amigo,
pressentes o teu senhor El-Rei
dom Sebastião.
Tu,
que percorres terras remotas
e a quem chamam Jean Vieilh.
Recordas aqueles dias
tão tristes em Auvergne
enquanto escutas pela primeira vez
- imensa e rara -
a voz do deus do rio:
Mississipi.
Tu,
John Oldman,
pirata em Tortuga:
o próprio Henry Morgan
há-de dar-te um tiro.
Tu,
que serias Juan el Viejo
lá nas terras de Sória:
lavram nos campos os bois
no outono do Criador.
E tu,
que estranho,
chamar-te Xuan Bello
e estar aqui, em Oviedo,
passando visões obscuras
para o claro asturiano.
Saber que a tua pátria
fica sempre noutro sítio:
ali onde não estás.
Tu,
que poderias ser João Velho
na claridade azul de Sintra.
Lá longe, distante e amigo,
pressentes o teu senhor El-Rei
dom Sebastião.
Tu,
que percorres terras remotas
e a quem chamam Jean Vieilh.
Recordas aqueles dias
tão tristes em Auvergne
enquanto escutas pela primeira vez
- imensa e rara -
a voz do deus do rio:
Mississipi.
Tu,
John Oldman,
pirata em Tortuga:
o próprio Henry Morgan
há-de dar-te um tiro.
Tu,
que serias Juan el Viejo
lá nas terras de Sória:
lavram nos campos os bois
no outono do Criador.
E tu,
que estranho,
chamar-te Xuan Bello
e estar aqui, em Oviedo,
passando visões obscuras
para o claro asturiano.
Saber que a tua pátria
fica sempre noutro sítio:
ali onde não estás.
(Versão minha a partir do original asturiano e da tradução castelhana do autor reproduzidos em Toma de tierra - Poetas en lengua asturiana: Antología (1975-2010); organização de José Luis Argüelles, Trea, Gijón, 2010, pp. 475-477).
domingo, 15 de julho de 2012
Fatos Arapi
Esses que continuam a amar
Esses que não têm que comer,
Quando sonham com comida
Deixem-nos pensar em mim e em ti.
Esses que não têm fogo,
Quando sonham com o fogo
Deixem-nos pensar em mim e em ti.
Os insones deste mundo
Com os olhos abertos como a noite
No abismo das suas noites
Deixem-nos pensar em mim e em ti.
Esses que já morreram
E continuam a amar -
Deixem-nos pensar em mim e em ti.
Esses que não têm que comer,
Quando sonham com comida
Deixem-nos pensar em mim e em ti.
Esses que não têm fogo,
Quando sonham com o fogo
Deixem-nos pensar em mim e em ti.
Os insones deste mundo
Com os olhos abertos como a noite
No abismo das suas noites
Deixem-nos pensar em mim e em ti.
Esses que já morreram
E continuam a amar -
Deixem-nos pensar em mim e em ti.
(Versão minha a partir da tradução inglesa reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry; organização e tradução de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 178).
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Berta Piñan
À maneira de Szymborska
Chegados a este ponto
talvez tudo devesse ser mais simples,
a palavra lua não deveria nomear nada mais
do que a lua,
e os rios deveriam seguir até ao seu destino
sem serem alterados
pelas metáforas.
Talvez a palavra solidão não devesse
significar outra coisa além da ausência
de acontecimentos
e a palavra silêncio pudesse servir só
para calar os ruídos.
Com a língua talvez tudo devesse ser
mais simples, sem voltas
nem requebros, deixando-nos
com duas ou três questões
para seguir em frente:
um porquê, algum não sei.
E, depois, fechar a porta
que, neste caso,
deveria significar unicamente
fechá-la.
Chegados a este ponto
talvez tudo devesse ser mais simples,
a palavra lua não deveria nomear nada mais
do que a lua,
e os rios deveriam seguir até ao seu destino
sem serem alterados
pelas metáforas.
Talvez a palavra solidão não devesse
significar outra coisa além da ausência
de acontecimentos
e a palavra silêncio pudesse servir só
para calar os ruídos.
Com a língua talvez tudo devesse ser
mais simples, sem voltas
nem requebros, deixando-nos
com duas ou três questões
para seguir em frente:
um porquê, algum não sei.
E, depois, fechar a porta
que, neste caso,
deveria significar unicamente
fechá-la.
(Versão minha a partir do original asturiano e da tradução castelhana da autora reproduzidos em Toma de tierra - poetas en lengua asturiana: antología (1975-2010); selecção de José Luis Argüelles, Trea, Gijón, p. 445).
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Eqrem Basha
Menu Balkânico
Não ponhas a mesa, querida
Vamos jantar fora
Sair cedo
E voltar tarde
A vida aqui na Europa mudou
Vamos lá, querida, vamos sair
Beber ponche
No Admiral Bar
E um coupe royale
Na esplanada do Café Montreal
Na sala de bilhar do Benny
Tentaremos as carambolas de costas
Beberemos um cappucino
Na Cafetaria Marilyn
E um martini com azeitona no Florida Club
Não ponhas a mesa, querida
Vamos jantar fora
Na Pizzaria Miami
Comer uma pizza New Jersey
Um escaloppe viennense no Restaurante Roma
E depois iremos ao Parma's
Para uma coupe macédonienne
E quando se fizer tarde
Voltaremos para casa
Para esvaziarmos os intestinos
Numa latrina balcânica.
Não ponhas a mesa, querida
Vamos jantar fora
Sair cedo
E voltar tarde
A vida aqui na Europa mudou
Vamos lá, querida, vamos sair
Beber ponche
No Admiral Bar
E um coupe royale
Na esplanada do Café Montreal
Na sala de bilhar do Benny
Tentaremos as carambolas de costas
Beberemos um cappucino
Na Cafetaria Marilyn
E um martini com azeitona no Florida Club
Não ponhas a mesa, querida
Vamos jantar fora
Na Pizzaria Miami
Comer uma pizza New Jersey
Um escaloppe viennense no Restaurante Roma
E depois iremos ao Parma's
Para uma coupe macédonienne
E quando se fizer tarde
Voltaremos para casa
Para esvaziarmos os intestinos
Numa latrina balcânica.
(Versão minha a partir da tradução inglesa reproduzida em Lightning from the depths - an anthology of albanian poetry, organização e tradução de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 218-219).
sexta-feira, 6 de julho de 2012
Dorianne Laux
Histórias de famílias
Tive um namorado que me contava histórias da sua família,
uma vez uma discussão acabou com o pai dele
a agarrar num bolo de aniversário todo enfeitado com as duas mãos
e a atirá-lo pela janela do segundo andar. Isso,
pensei, é o que acontece numa família normal: raiva
arremessada pelo parapeito da janela, aterrando como um presente
que vai decorar o passeio lá em baixo. Na minha,
eram punhos e golpes directos contra a boca do estômago,
e nunca ninguém perdoou a ninguém. Mas, nas histórias dele, eu
acreditava que as pessoas se amavam verdadeiramente umas às outras,
mesmo quando berravam e forçavam as portas dos armários
com os pés, ou levantavam uma cadeira como se fosse uma garrafa
de espumante barato, martirizando uma parede,
os degraus explodindo nos seus espaços vazios.
Disse-lhe que isso me parecia inofensivo, a pompa e a fúria
dos apaixonados. Ele respondeu que fôra uma maldição
ter nascido italiano e católico e quando olhou
pela janela o que viu foi esse momento
barbaramente destruído. Em contrapartida, tudo o que eu pude ver
foi um maravilhoso bolo de três andares a deslizar como um navio
maltratado até ao passeio, as velas partidas, afundando-se
cada vez mais no gelo, algumas ainda a arder.
(Versão minha; o original pode ler-se aqui).
Tive um namorado que me contava histórias da sua família,
uma vez uma discussão acabou com o pai dele
a agarrar num bolo de aniversário todo enfeitado com as duas mãos
e a atirá-lo pela janela do segundo andar. Isso,
pensei, é o que acontece numa família normal: raiva
arremessada pelo parapeito da janela, aterrando como um presente
que vai decorar o passeio lá em baixo. Na minha,
eram punhos e golpes directos contra a boca do estômago,
e nunca ninguém perdoou a ninguém. Mas, nas histórias dele, eu
acreditava que as pessoas se amavam verdadeiramente umas às outras,
mesmo quando berravam e forçavam as portas dos armários
com os pés, ou levantavam uma cadeira como se fosse uma garrafa
de espumante barato, martirizando uma parede,
os degraus explodindo nos seus espaços vazios.
Disse-lhe que isso me parecia inofensivo, a pompa e a fúria
dos apaixonados. Ele respondeu que fôra uma maldição
ter nascido italiano e católico e quando olhou
pela janela o que viu foi esse momento
barbaramente destruído. Em contrapartida, tudo o que eu pude ver
foi um maravilhoso bolo de três andares a deslizar como um navio
maltratado até ao passeio, as velas partidas, afundando-se
cada vez mais no gelo, algumas ainda a arder.
(Versão minha; o original pode ler-se aqui).
terça-feira, 3 de julho de 2012
Nel Amaro
Declaração de princípios
Um homem fala em inglês
(esse homem é meu irmão).
Outro homem fala em asturiano
(é meu inimigo).
O primeiro homem é um mineiro
(norte-americano).
O segundo homem é um patrão
(asturiano).
Nem sempre a língua nos
faz irmãos.
(Versão minha a partir do original em asturiano e da tradução castelhana do autor reproduzidos em Toma de tierra - poetas en lengua asturiana: antología (1975-2010); selecção de José Luis Argüelles, Trea, Gijón, 2010, p. 71).
Para Oski S.
Um homem fala em inglês
(esse homem é meu irmão).
Outro homem fala em asturiano
(é meu inimigo).
O primeiro homem é um mineiro
(norte-americano).
O segundo homem é um patrão
(asturiano).
Nem sempre a língua nos
faz irmãos.
(Versão minha a partir do original em asturiano e da tradução castelhana do autor reproduzidos em Toma de tierra - poetas en lengua asturiana: antología (1975-2010); selecção de José Luis Argüelles, Trea, Gijón, 2010, p. 71).
segunda-feira, 2 de julho de 2012
Vasyl Holoborodko
Labirinto
O autocarro vermelho há-de deter-se
e eu encontrar-me-ei no labirinto:
levarei muito tempo a descer os degraus,
gastando a sola dos sapatos,
pelo que irei à procura de um sapateiro,
entrarei com os pés descalços
pisando a pedra fria
e a desorientação será ainda maior.
Desesperado hei-de sentar-me nas escadas,
abrirei o jornal e começarei a ler
para encontrar a saída deste labirinto.
Então descobrirei um sinal:
talhado à mão indica a direcção que devo tomar;
penso, com uma alegria indizível, que eu sou o guia
e novamente hei-de pôr-me a caminho
perdendo cada vez mais a orientação.
O autocarro vermelho há-de deter-se
e eu encontrar-me-ei no labirinto:
levarei muito tempo a descer os degraus,
gastando a sola dos sapatos,
pelo que irei à procura de um sapateiro,
entrarei com os pés descalços
pisando a pedra fria
e a desorientação será ainda maior.
Desesperado hei-de sentar-me nas escadas,
abrirei o jornal e começarei a ler
para encontrar a saída deste labirinto.
Então descobrirei um sinal:
talhado à mão indica a direcção que devo tomar;
penso, com uma alegria indizível, que eu sou o guia
e novamente hei-de pôr-me a caminho
perdendo cada vez mais a orientação.
(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida em Poesía ucraniana del siglo XX - una iconografia del alma; prólogo, selecção e tradução de Iury Lech, Litoral/Ed. UNESCO, Torremolinos/Málaga, 1993, p. 178).
quinta-feira, 28 de junho de 2012
Edward Hirsch
Eu nunca fui capaz de rezar
Guia-me até ao porto
onde o farol jaz abandonado
e a lua range nas vigas de madeira.
Deixa-me ouvir o vento chamar por entre as árvores
e ver as estrelas irromperem, uma a uma,
como os rostos esquecidos dos mortos.
Eu nunca fui capaz de rezar,
mas deixa-me gravar o meu nome
no livro das ondas
e depois olhar intensamente a cúpula
de um céu que não tem fim
e ver a minha voz navegar pela noite dentro.
(Versão minha; o original pode ser lido aqui).
Guia-me até ao porto
onde o farol jaz abandonado
e a lua range nas vigas de madeira.
Deixa-me ouvir o vento chamar por entre as árvores
e ver as estrelas irromperem, uma a uma,
como os rostos esquecidos dos mortos.
Eu nunca fui capaz de rezar,
mas deixa-me gravar o meu nome
no livro das ondas
e depois olhar intensamente a cúpula
de um céu que não tem fim
e ver a minha voz navegar pela noite dentro.
(Versão minha; o original pode ser lido aqui).
segunda-feira, 25 de junho de 2012
Jillena Rose
Taos
No deserto é mais fácil encontrar ossos
do que flores, por isso pinto-os:
belos e claros crânios de cavalos e vacas.
Quando me estendo sob as estrelas
na parte traseira do carro, com os coiotes a uivar
nos pinhais, é fácil sentir como estes ossos
são tão tal e qual os meus: eis a minha pélvis
tão parecida com a pélvis que encontrei hoje
polida pelo sol e pela areia. A mesma
cavidade onde o quadril deveria encaixar, a mesma
curva branca de osso debaixo da minha carne,
o mesmo berço de vida, sereno e silencioso em mim.
(Versão minha; o original pode ser lido aqui).
No deserto é mais fácil encontrar ossos
do que flores, por isso pinto-os:
belos e claros crânios de cavalos e vacas.
Quando me estendo sob as estrelas
na parte traseira do carro, com os coiotes a uivar
nos pinhais, é fácil sentir como estes ossos
são tão tal e qual os meus: eis a minha pélvis
tão parecida com a pélvis que encontrei hoje
polida pelo sol e pela areia. A mesma
cavidade onde o quadril deveria encaixar, a mesma
curva branca de osso debaixo da minha carne,
o mesmo berço de vida, sereno e silencioso em mim.
(Versão minha; o original pode ser lido aqui).
sábado, 23 de junho de 2012
Wendy Videlock
Desarmada
Eu devia ser determinada e firme,
eu sei que devia, e mostrar uma cara feia;
mais uma vez falhaste na limpeza do teu quarto.
E não é só isso, também as provas
do saque da meia noite na tua cama -
cascas de amendoins partidas e m&m's
esmigalhados no sítio onde pousaste a cabeça
e, um pouco acima, o parapeito
está sobrelotado com uma girafa verde
(que espreita através do teu telescópio),
peças de dominó e um copo meio cheio
de sumo de laranja. Minha criança esfomeada,
como posso eu sentir-me desencantada com tudo isto,
este teu mundo secreto, esta tua maravilhosa desarrumação?
Eu devia ser determinada e firme,
eu sei que devia, e mostrar uma cara feia;
mais uma vez falhaste na limpeza do teu quarto.
E não é só isso, também as provas
do saque da meia noite na tua cama -
cascas de amendoins partidas e m&m's
esmigalhados no sítio onde pousaste a cabeça
e, um pouco acima, o parapeito
está sobrelotado com uma girafa verde
(que espreita através do teu telescópio),
peças de dominó e um copo meio cheio
de sumo de laranja. Minha criança esfomeada,
como posso eu sentir-me desencantada com tudo isto,
este teu mundo secreto, esta tua maravilhosa desarrumação?
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Begoña Paz
A Branca de Neve envelhece
Nunca imaginei
cabelos brancos
no meu
púbis.
Nunca imaginei
cabelos brancos
no meu
púbis.
(Versão minha; original reproduzido em La manera de recogerse el pelo - Generación blogger; selecção de David González, prólogo de José Ángel Barrueco, Bartleby Editores, Madrid, 2010, p. 271).
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Vasyl Holoborodko
[Detestáveis sementes de erva...]
Detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva
Depois de tudo morreremos uma vez,
não somos eternos nem imortais (a matéria não desaparece
em contrapartida nós sim: eu, tu, ela, a amante, o irmão, os outros),
e qualquer semente de erva: de tomilho, sinuosa como uma áspide,
espera a nossa morte (morreremos uma vez)
para se fundir com o nosso corpo alheio exangue
(no qual fomos nós: o meu, o teu, o dele, da amante, do irmão, dos outros)
e crescerá e florescerá e dará sementes
para aguardarem então a morte dos demais (não a nossa),
porque as sementes de erva são imortais, porque são sementes de erva.
Detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva
Detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva
Depois de tudo morreremos uma vez,
não somos eternos nem imortais (a matéria não desaparece
em contrapartida nós sim: eu, tu, ela, a amante, o irmão, os outros),
e qualquer semente de erva: de tomilho, sinuosa como uma áspide,
espera a nossa morte (morreremos uma vez)
para se fundir com o nosso corpo alheio exangue
(no qual fomos nós: o meu, o teu, o dele, da amante, do irmão, dos outros)
e crescerá e florescerá e dará sementes
para aguardarem então a morte dos demais (não a nossa),
porque as sementes de erva são imortais, porque são sementes de erva.
Detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva
(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida em Poesía ucraniana del siglo XX - Una icinografia del alma; prólogo, selecção e tradução de Iury Lech, Litoral/Edições UNESCO, Torremolinos/Málaga, 1993, p. 174).
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