quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Thomas Lux

Cadáveres haitianos



Harvard, Yale, não têm problemas em arranjar corpos,
tal como outras prestigiadas faculdades de medicina, mas escolas
menos afortunadas por vezes têm uma evidente falta de cadáveres

para desenvolverem o seu trabalho vital e sombrio: não se pode
usar um mais do que uma vez. Quanto aos cadáveres haitianos,
são os melhores naquilo que os cadáveres fazem melhor:

ficam sossegados na mesa anatómica para que os futuros
cirurgiões os possam dissecar. Uma vez resolvidos
os problemas de importação (os práticos: câmaras frigoríficas

de navios de pesca fora de serviço; os legais: poucos
antecedentes), o negócio é bom,
é mesmo visionário: 50.000 dólares americanos por peça,

o abastecimento é garantido, nunca escasseia, e a mais valia
que torna tudo tão suave - um verdadeiro
e inultrapassável sonho - é o estado em que se encontram

os corpos: tão magros, todos tão magros
que os órgãos estão mesmo rente à pele, esses órgãos
feitos para a lâmina com assombrosa tranquilidade.



(Versão minha; original reproduzido em New and selected poems (1975-1995), Mariner Books, Boston / Nova Iorque, 1997, p. 111).

domingo, 14 de outubro de 2012

Lisel Mueller

A história



Contas uma história:
Como o Fogo faz da Água a sua mulher

É sempre assim, dizes tu,
os opostos atraem-se

Desejam penetrar um no outro,
ser um,
assim ele queima-a com todas as forças
e ela procura afogá-lo

É o chamado amor à primeira vista
e não dói

mas passado algum tempo ela chora
e diz que ele está a destruí-la,
ele grita que não consegue respirar
debaixo de água -

Agora criem vós o vosso próprio
fim, dizes tu às crianças,
e elas assim farão, assim farão



(Versão minha a partir do original reproduzido em Alive together - new and selected poems, Louisiana State University Press, Baton Rouge, 1996, p. 145).

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Ricardo Castro Ferreira


Retrato do artista enquanto jovem


domingo, 7 de outubro de 2012

Jaan Kaplinski

[Uma vez recebi...]



Uma vez recebi um postal das Ilhas Fidji
com uma fotografia da colheita da cana de açúcar. Percebi então
que nada é exótico por si mesmo.
Não há diferença nenhuma entre apanhar batatas no nosso jardim de Mutiku
e canas de açúcar em Viti Levu.
Tudo o que existe é realmente vulgar
ou, melhor dizendo, nem vulgar nem estranho.
Terras distantes e povos estrangeiros são um sonho,
uma divagação de olhos abertos
de que alguém não vai acordar.
É o que se passa com a poesia - vista à distância
parece qualquer coisa de especial, misteriosa, festiva.
Não, a poesia é ainda menos
especial do que uma plantação de cana de açúcar ou um campo de batatas.
A poesia é como a serradura produzida por uma serra
ou como o rasto fofo e amarelo de um avião.
A poesia é lavar as mãos à noite
ou esse lenço - limpo - que a minha tia (agora morta)
nunca se esquecia de pôr no meu bolso.



(Versão minha a partir da tradução inglesa do próprio autor, de Riina Tamn e Sam Hamill reproduzida em The same sky - a collection of poems around the world, selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, Nova Iorque, 1996, p. 9).

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Miron Bialoszewski (1922-1983)

Auto-retrato com alegria




Não pensem que sou infeliz.
Alegro-me por pensar.
Pensem que sou alegre.

A consciência é uma dança alegre.
A minha consciência dança
          diante da candeia da chuva
          diante das ruínas do muro
          diante do armazém de comida repleto de cabeças de couve
          diante das bocas dos meus amigos que falam
          diante da minha própria mão inesperada
          diante da escultura inacabada da realidade -
Na sumptuosidade do mais belo jogo
e da elevação do sacrifício religioso
idissoluvelmente
a minha consciência dança.

E quando a dança se interromper
como todos os flocos
irei para o céu -
onde nada se sente,
onde estava no princípio, antes de nascer,
onde estarei até ao fim, quando já não existir mais,
ali - que alegria indescritível.

...
É tudo.



(Versão minha a partir da tradução francesa reproduzida em Vingt-quatre poètes polonais; tradução de Georges Lisowski, Éditions dum Murmure, Neully-lès-Dijon, 2003, pp. 74-75).


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Abel Feu

Futebolista



Se soubesse o que sei hoje, futebolista.

Um desportivo foleiro e uma loira
ainda mais foleira à saída
dos treinos. Um brinco
na orelha esquerda e uma franja
tenaz que cai e volta a cair sobre os olhos
e que desvio - que pinta! - com esse gesto
que até os putos imitam...
                                         Enfim, vida
da boa, anúncios, golos, entrevistas,
uma vasta mansão, autógrafos e coisa e tal...

Juro-o: futebolista. Não estes versos
ordinários e prosaicos. Não estes anos
filhos da mãe. Nem as conjecturas. Nem esperar
que nunca nada aconteça...
                                           E não
poeta, não, não!, sobretudo nada de poeta,
antes outra coisa qualquer em vez deste tótó
que se põe a olhar para o que faz: a lamentar-se muito
de si mesmo, a exibir a roupa suja,
este striptease grotesco, que vergonha.



(Versão minha; original reproduzido em Feu de erratas, Renacimiento, Sevilha, 1997, pp. 49-50).

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Lisel Mueller

Triagem



Bertolt Brecht lamentava ter vivido numa época em que era quase um crime falar de árvores, porque isso significava ficar calado em relação a tanto mal existente. Caminhando numa zona cheia de olmos enormes, ainda saudáveis, junto ao lago de Chicago, penso no que Brecht disse. Eu quero celebrar estes olmos poupados às pragas, estes sobreviventes de uma tribo outrora florescente e comemorada por todas as Elm Streets* da América. Mas celebrá-los significa ficar em silêncio em relação às pessoas que se sentaram e dormiram debaixo deles, aos pobres sem-abrigo que foram arrastados para fora da cidade como lixo, com a diferença de que não havia sítio para os despejar. Pois falar de uma coisa implica omitir outra. Quando falo de mim própria não posso falar de ti. E tu apercebes-te disso enquanto me escutas, a desilusão estampada no rosto.
 
 
 
(*Rua(s) dos Olmos. Versão minha; original reproduzido em Alive together - new and selected poems, Louisiana State University Press, Baton Rouge, 1996, p. 127).

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Kurt Marti

O pão nosso de cada dia



O pão nosso de cada dia
nos dai hoje
para que não só
por pão
tenhamos de estilhaçar o peito
para que não tenhamos
de sofrer qualquer chantagem da parte dos patrões
que nos dão o pão
para que não tenhamos
de nos tornar dóceis
com medo de perdermos o nosso pão



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida na Antología de la poesía suiza alemana contemporànea; selecção, tradução e introdução de Hans Leopold Davi, Los Libros de la Frontera, Barcelona, s/., p. 99).

domingo, 23 de setembro de 2012

Salih Boat

O meu quinhão



toda a gente anda ocupada com alguma coisa
a avó a fiar lã
com as suas mãos secas e enrugadas como pepinos
deixados no campo
depois das sementes lhes terem sido extaídas,
está ocupada com alguma coisa;
o negociante que compra e vende terras
e o estudante que é avaliado
nas matérias que não lhe foram ensinadas
estão ocupados com alguma coisa;
o caixa do banco que se questiona sobre a relação
entre as suas mãos e o dinheiro que conta sem parar
e o adminsitrador que ontem casou a filha mais velha,
o piloto que se prepara para um novo voo
com a sua mala que já viu tantos países,
o bombeiro que passou um dia descansado
com as suas memórias de incêndios,
o trabalhador que acorda para fazer o turno da noite
e a sua raiva adormecida,
a galinha na capoeira anda ocupada com alguma coisa
preparando-se para os pintaínhos que parecem algodão-doce,

e o que sobrou para mim foi escrever poesia.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Yusuf Eradam reproduzida em This same sky; selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, Nova Iorque, 1996, p. 180).

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Dahlia Ravikovitch

Orgulho



Digo-te, até as rochas se partem,
e não é por causa do tempo.
Durante anos mantém-se deitadas de costas
no calor e no frio,
durante tantos anos
isso quase parece pacífico.
Não se mexem, por isso as fendas permanecem escondidas.
É uma espécie de orgulho.
Os anos passam sobre elas, e elas aguardam.
Seja o que for que venha despedaçá-las
ainda não chegou.
E assim o musgo cresce, as algas
chicoteiam à sua volta,
o mar avança sobre elas e retrocede -
as pedras parecem imóveis.
Até uma pequena foca vem esfregar-se contra elas,
chega e vai-se embora.
E de súbito a rocha tem uma ferida aberta.
Eu disse-te, quando as rochas se quebram, isso acontece de súbito.
Tal como as pessoas.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Chama Bloch e Ariel Bloch reproduzida em This same sky - a colletion of poems around the world, selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paper, Nova Iorque, 1996, p. 181).

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Werner Bucher

Rogativa



Mörike, tu que estás
nos céus
roga por mim para que
escreva melhores poemas
do que tu
e não gire eternamente (como
tu tão maravilhosamente
giraste)
em torno do mesmo tema, sim,
Mörike,
roga por mim
para
que tenha mais sorte
no amor
do que tu
e para que não termine,
como tu,
a minha vida com o canto dos lábios descaído,
também te rogo
para que eu,
ao contrário de ti,
volte a acreditar em Deus
e que por detrás
do Papa actual
e dos milhares de movimentos de redenção
reconheça ainda o divino, roga
por mim, Mörike, para que
eu escreva
sem invejar os colegas
e as colegas mais célebres
e que todos os que
amo
cheguem aonde
querem chegar e que
os meus inimigos e adversários
não sejam atropelados
por carros, rogo-te ao mesmo tempo para que
a vida traga alegria
a todos quantos ofendi
e que o mau músico
que atropelaram
em Oberegg
ao sair do autocarro dos correios
aprenda agora
no céu de Elvis,
Bruckner e Beet-
hoven o que é boa música
e ao mesmo tempo rogo-te
que me protejas nas minhas viagens de scooter
pela região de Appenzell
e que o inesperado
se torne no esperado, também
te rogo para que preserves
o mundo dos déspotas,
feministas, políticos
e outros dirigentes, para que
suprimas a miséria
em todos os nossos mundos
arrancando os solitários
à sua solidão, os velhos
aos seus asilos
e centros de assistência,
para que cures as crianças
doentes de cancro e de sida e para
que ajas de forma a que
tu e Hölderlin, Pavese
e Alfonsina Storni, Gabriela
Mistral, Lenau e Van Gogh
se encontrem de imediato
sobre uma nuvem
na qual uma paz verdadeira
cubra as vossas almas,
sim, Mörike,
poupa-nos a Papas, arcebispos,
campos de entretenimento e a todos
esses políticos fariseus à maneira de
Helmut Kohl e Adolf Ogi,
e roga a Deus para que
ponha fim, por fim,
à ordem no mundo.
Pois então ondeará
(pelos ares) a fita azul
e todos nós saberemos
para que serve a dor, para que serve a alegria.
Roga por nós, Santo
Mörike, tal não
prejudicará a tua fama e
fará de ti um homem
que é mais do que apenas
um grande poeta.
Neste sentido, Mörike,
agora digo amén,
e louvo o Senhor.
Deus esteja contigo,
eternamente e para sempre.



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida em Antología de la poesía suiza alemana contemporánea; ed. bilingue; selecção, tradução e introdução de Hans Leopold Davi; Los Libros de la Frontera, Barcelona, s/d., pp. 209-217).
 
 
 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Ewa Lipska

[Não fui salva...]



Não fui salva pela inundação
contudo mais de uma vez toquei o fundo

Não fui salva pelo incêndio
contudo ardi durante anos

Não fui salva pelas catástrofes
contudo comboios e automóveis passaram por cima de mim

Não fui salva pelos aviões
que explodiram no ar comigo a bordo

Os muros das grandes cidades
desmoronaram-se sobre mim

Não fui salva pelos cogumelos venenosos
nem pelas balas precisas dos pelotões de execução

Não fui salva pelo fim do mundo
que não teve tempo de se ocupar de mim

Nada me salvou

EU VIVO



(Versão minha a partir da tradução francesa de Georges Lisowski reproduzida em Vingt-quatre poètes polonais, Éditions du Murmure, Neuilly-lès-Dijon, 2003, pp. 128-129).

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Albert Ehrismann

[Ontem vi...]



Ontem vi um cavalo
a rezar.
Não me pergunte como e onde,
porque estou a mentir.
Mas eu queria sinceramente ver um cavalo
a rezar
e rezar com ele
por ti.
Porque te amo.



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida na Antología de la poesía suiza alemana contemporánea; selecção, tradução e introdução de Hans Leopold Davi; edição bilingue; Los Libros de la Frontera, Barcelona, s/d, p 29).

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Günter Kunert

Inquietações



Aquele que decidiu viver
Tem de saber porque acordou
Na noite passada, para onde
Vai hoje rua após rua,
Com que propósito caiará amanhã
De branco o seu quarto.

Terá havido um grito?
Há uma finalidade?
O lugar será seguro?



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Christopher Middleton reproduzida em East Germany Poetry - an anthology; selecção de Michael Hamburguer, Carcanet Press, Oxford, 1972, p. 93).

domingo, 2 de setembro de 2012

Albert Ehrismann

Dura lição para escritores



Acredita que pode mudar o mundo?
Não.
Então por que escreve?
Porque não o posso mudar.



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida como texto de abertura da Antología de la poesía suiza alemana contemporánea; selecção, tradução e introdução de Hans Leopold Davi, edição bilingue alemão/castelhano, Los Libros de la Frontera, Barcelona, s/d., p. 5)

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Edip Cansever

Mesa



Transbordando de felicidade por estar vivo
Um homem põe as suas chaves sobre a mesa,
Põe flores numa jarra de cobre sobre a mesa.
Coloca os seus ovos e o leite sobre a mesa.
Coloca sobre ela a luz que entra pela janela,
O som de uma bicicleta, o som de uma roda de fiar.
A brandura do pão e do tempo é ali colocada por ele.
Sobre a mesa o homem põe
Coisas que aconteceram na sua mente.
O que deseja fazer na sua vida.
Coloca lá tudo isso.
Aqueles que amou e os que não amou,
O homem coloca-os também sobre a mesa.
Três vezes três são nove:
O homem coloca nove sobre a mesa.
Ele esteve junto à janela, próximo do céu;
Estendeu e colocou coisas sem parar na mesa.
Foram tantos os dias em que quis beber uma cerveja!
Ele coloca sobre a mesa o líquido derramado dessa cerveja.
Coloca nela o seu sono e a sua insónia;
A sua fome e a sua saciedade são nela colocadas por ele.

É a isto que eu chamo uma mesa!
Algo que nunca se queixa minimamente da sua carga.
Cambaleou uma ou duas vezes, depois manteve-se firme.
O homem continuou a acumular coisas sobre ela.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Richard Tillinghast reproduzida em The flag of childhood - poems from the middle east; selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, Nova Iorque; 2002; p. 31).

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Fernando López de Artieta

Piscina pública



Risos
        gritos
                rumor
de conversas sobre a relva
                jogadores de cartas
leitoras obstinadas
beijos
         ainda inocentes
de frescos adolescentes
bandos de garotos à beira da piscina
meninas
            flexíveis
                        como
juncos
jovens imigrantes
                          exibindo
                                        saltinhos acrobáticos
jovenzitas
mostrando a sua nudez explícita
(ninguém lhes explicou - coitadas -
que tapadas excitariam muito mais)
vaporizadores de bronzeado
que surgem
                 aqui
e ali
      como géiseres simpáticos

e o deus Sol que cruza lentamente o dia
dourando por igual
miúdos
gordas carecas
mamalhudas saloios
estrangeiros donas de casa condutores de domingo
mirones engatatões anoréticas culturistas
que
no final da tarde recolhem as suas coisas

                cansados
                                      esgotados
                                                              desfeitos
sorrindo

enquanto a sombra negra dos prédios
avança inexorável sobre a água...



(Grosso modo; La Isla de Siltolá, Sevilha, 2011, pp. 67-69).

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Ingemar Leckins

Preso



Vivi toda a minha vida dentro de um coco.
Era escuro e apertado,
especialmente de manhã quando precisava de me barbear.
Mas o que me custava mais era não ter maneira
de entrar em contacto com o mundo exterior.
Se não se desse o caso de alguém descobrir o coco,
se ninguém o partisse, então eu estaria condenado
a viver toda a minha vida dentro dele, e talvez até de morrer dentro dele.
          Morri dentro do coco.
Alguns anos depois encontraram-no,
partiram-no e descobriram-me encolhido e enrugado lá dentro.
          "Que desastre!"
          "Se o tivéssemos descoberto só um pouco mais cedo..."
          "Talvez assim o pudéssemos ter salvado."
          "Talvez haja por aí mais alguns presos como ele,"
disseram, e começaram a partir em bocados cada coco
que apanhavam.
           Inútil! Sem sentido! Uma perda de tempo!
Uma pessoa que escolhe viver num coco!
Uma pessoa como essa é um caso num milhão!
                    Mas eu tenho um cunhado que
          vive numa
          bolota.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de May Swenson reproduzida em This same sky, organização de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, Nova Iorque, 1996, p. 152).

sexta-feira, 27 de julho de 2012

De fio a pavio



Alexandra Lucas Coelho - A. M. Pires Cabral - Ana Cássia Rebelo - Ana Salomé - Carlos Mota de Oliveira - John Mateer - Luís Filipe Parrado - Manuel Filipe - Manuel Paes - Maria da Conceição Caleiro - Pedro S. Martins - Ricardo Álvaro - Rui Miguel Ribeiro - composição e paginação de Inês Mateus - tea for one - Lisboa - 2012 - 24 páginas - pedidos & informações: t41editores@gmail.com

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Vasyl Holoborodko

Queria ser uma pessoa



Para não ter de dançar - amputou uma perna
(deixou até de visitar os amigos),

para não combater e gesticular indecências - arrancou os dedos
(era incapaz até de tirar a pele a uma maçã),

para não ouvir palavras obscenas - arrancou as orelhas
(deixou também de ouvir as belas),

para não lhe chamarem narigudo - torceu o nariz
(e ficou com ele achatado),

para não ver os sapos - furou os olhos
(já não pode contemplar as rosas),

para que não lhe escapasse alguma incoerência - cortou a língua
(também não teve mais palavras gentis para a amada).

Cada dia que passava
fazia uma operação plástica ao corpo
para ficar igual aos outros, a todos os outros.



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida em Poesía ucraniana del siglo XX - Una iconografia del alma; prólogo, selecção e tradução de Iury Lech, Litoral/Ed. UNESCO, Torremolinos/Málaga, 1993, p. 175).

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Deitar a língua de fora




Abel Neves - Alexandre Sarrazola - António Barahona - David Teles Pereira - Diogo Vaz Pinto - Inês Dias - Jaime Rocha - Luís Filipe Parrado - Rosa Maria Martelo - Rui Caeiro - Tiago Araújo - ilustrações de Luís Henriques  - Lingua Morta - Lisboa - 2012 - 92 páginas - pedidos & informações: edlinguamorta@gmail.com

domingo, 22 de julho de 2012

Christine M. Krishnasami

[ao lado de um pedra...]



ao lado de uma pedra com três
mil anos duas
papoilas de hoje



(Versão minha; original reproduzido em This same sky; selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, Nova Iorque, 1996, p. 100).

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Tarapada Ray

O irmão do meu bisavô



O irmão do meu bisavô tinha um passatempo peculiar -
Costumava coleccionar penas
          de diferentes pássaros
          de diferentes cores, de diferentes sítios.
O seu quarto, o corredor, a escada
Estavam cheios de milhares de penas coloridas e descoloridas.

No dia da sua morte
Um pouco antes do sol nascer, de madrugada,
O irmão do meu bisavô
          subiu ao telhado da sua casa
E lançou as penas para o ar da manhã.
As penas flutuaram nos raios dourados
          do sol nascente.
Algumas cairam por perto.
Outras foram para longe.
Outras ainda voaram até à eternidade, pelo céu.

Não, não é possível escrever uma história
          sobre este assunto
Mas algumas dessas penas continuam a voar
          pelo céu.



(Versão minha a partir da tradução inglesa do autor reproduzida em This same sky, selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbaks, Nova Iorque, 1996, p.56).

terça-feira, 17 de julho de 2012

Xuan Bello

Variações sobre o meu nome



Tu,
que poderias ser João Velho
na claridade azul de Sintra.
Lá longe, distante e amigo,
pressentes o teu senhor El-Rei
dom Sebastião.

Tu,
que percorres terras remotas
e a quem chamam Jean Vieilh.
Recordas aqueles dias
tão tristes em Auvergne
enquanto escutas pela primeira vez
- imensa e rara -
a voz do deus do rio:
Mississipi.

Tu,
John Oldman,
pirata em Tortuga:
o próprio Henry Morgan
há-de dar-te um tiro.

Tu,
que serias Juan el Viejo
lá nas terras de Sória:
lavram nos campos os bois
no outono do Criador.

E tu,
que estranho,
chamar-te Xuan Bello
e estar aqui, em Oviedo,
passando visões obscuras
para o claro asturiano.
Saber que a tua pátria
fica sempre noutro sítio:
ali onde não estás.



(Versão minha a partir do original asturiano e da tradução castelhana do autor reproduzidos em Toma de tierra - Poetas en lengua asturiana: Antología (1975-2010); organização de José Luis Argüelles, Trea, Gijón, 2010, pp. 475-477).

domingo, 15 de julho de 2012

Fatos Arapi

Esses que continuam a amar



Esses que não têm que comer,
Quando sonham com comida
Deixem-nos pensar em mim e em ti.
Esses que não têm fogo,
Quando sonham com o fogo
Deixem-nos pensar em mim e em ti.
Os insones deste mundo
Com os olhos abertos como a noite
No abismo das suas noites
Deixem-nos pensar em mim e em ti.
Esses que já morreram
E continuam a amar -
Deixem-nos pensar em mim e em ti.



(Versão minha a partir da tradução inglesa reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry; organização e tradução de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 178).

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Berta Piñan

À maneira de Szymborska



Chegados a este ponto
talvez tudo devesse ser mais simples,
a palavra lua não deveria nomear nada mais
do que a lua,
e os rios deveriam seguir até ao seu destino
sem serem alterados
pelas metáforas.
Talvez a palavra solidão não devesse
significar outra coisa além da ausência
de acontecimentos
e a palavra silêncio pudesse servir só
para calar os ruídos.

Com a língua talvez tudo devesse ser
mais simples, sem voltas
nem requebros, deixando-nos
com duas ou três questões
para seguir em frente:
um porquê, algum não sei.
E, depois, fechar a porta
que, neste caso,
deveria significar unicamente
fechá-la.



(Versão minha a partir do original asturiano e da tradução castelhana da autora reproduzidos em Toma de tierra - poetas en lengua asturiana: antología (1975-2010); selecção de José Luis Argüelles, Trea, Gijón, p. 445).

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Eqrem Basha

Menu Balkânico



Não ponhas a mesa, querida
Vamos jantar fora
Sair cedo
E voltar tarde
A vida aqui na Europa mudou
Vamos lá, querida, vamos sair
Beber ponche
No Admiral Bar
E um coupe royale
Na esplanada do Café Montreal
Na sala de bilhar do Benny
Tentaremos as carambolas de costas
Beberemos um cappucino
Na Cafetaria Marilyn
E um martini com azeitona no Florida Club
Não ponhas a mesa, querida
Vamos jantar fora
Na Pizzaria Miami
Comer uma pizza New Jersey
Um escaloppe viennense no Restaurante Roma
E depois iremos ao Parma's
Para uma coupe macédonienne
E quando se fizer tarde
Voltaremos para casa
Para esvaziarmos os intestinos
Numa latrina balcânica.



(Versão minha a partir da tradução inglesa reproduzida em Lightning from the depths - an anthology of albanian poetry, organização e tradução de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 218-219).

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Dorianne Laux

Histórias de famílias



Tive um namorado que me contava histórias da sua família,
uma vez uma discussão acabou com o pai dele
a agarrar num bolo de aniversário todo enfeitado com as duas mãos
e a atirá-lo pela janela do segundo andar. Isso,
pensei, é o que acontece numa família normal: raiva
arremessada pelo parapeito da janela, aterrando como um presente
que vai decorar o passeio lá em baixo. Na minha,
eram punhos e golpes directos contra a boca do estômago,
e nunca ninguém perdoou a ninguém. Mas, nas histórias dele, eu
acreditava que as pessoas se amavam verdadeiramente umas às outras,
mesmo quando berravam e forçavam as portas dos armários
com os pés, ou levantavam uma cadeira como se fosse uma garrafa
de espumante barato, martirizando uma parede,
os degraus explodindo nos seus espaços vazios.
Disse-lhe que isso me parecia inofensivo, a pompa e a fúria
dos apaixonados. Ele respondeu que fôra uma maldição
ter nascido italiano e católico e quando olhou
pela janela o que viu foi esse momento
barbaramente destruído. Em contrapartida, tudo o que eu pude ver
foi um maravilhoso bolo de três andares a deslizar como um navio
maltratado até ao passeio, as velas partidas, afundando-se
cada vez mais no gelo, algumas ainda a arder.



(Versão minha; o original pode ler-se aqui).

terça-feira, 3 de julho de 2012

Nel Amaro

Declaração de princípios


Para Oski S.



Um homem fala em inglês
(esse homem é meu irmão).

Outro homem fala em asturiano
(é meu inimigo).

O primeiro homem é um mineiro
(norte-americano).

O segundo homem é um patrão
(asturiano).

Nem sempre a língua nos
faz irmãos.



(Versão minha a partir do original em asturiano e da tradução castelhana do autor reproduzidos em Toma de tierra - poetas en lengua asturiana: antología (1975-2010); selecção de José Luis Argüelles, Trea, Gijón, 2010, p. 71).

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Vasyl Holoborodko

Labirinto



O autocarro vermelho há-de deter-se
e eu encontrar-me-ei no labirinto:
levarei muito tempo a descer os degraus,
gastando a sola dos sapatos,
pelo que irei à procura de um sapateiro,
entrarei com os pés descalços
pisando a pedra fria
e a desorientação será ainda maior.

Desesperado hei-de sentar-me nas escadas,
abrirei o jornal e começarei a ler
para encontrar a saída deste labirinto.
Então descobrirei um sinal:
talhado à mão indica a direcção que devo tomar;
penso, com uma alegria indizível, que eu sou o guia
e novamente hei-de pôr-me a caminho
perdendo cada vez mais a orientação.



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida em Poesía ucraniana del siglo XX - una iconografia del alma; prólogo, selecção e tradução de Iury Lech, Litoral/Ed. UNESCO, Torremolinos/Málaga, 1993, p. 178).