terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Reiner Kunze

O fim das fábulas



Era uma vez uma raposa...
o galo começou
a compor uma fábula

Mas percebeu
que não o podia fazer
se a raposa a ouvisse
viria ter com ele e apanhá-lo-ia

Era uma vez um lavrador...
o galo começou
a compor uma fábula

Mas percebeu
que não o podia fazer
se o lavrador a ouvisse
viria torcer-lhe o pescoço

Era uma vez...

Procurem-nas por aqui procurem-nas por ali
Descobrirão que não há fábulas em lado nenhum



(Versão minha minha a partir da tradução inglesa de Michael Hamburguer reproduzida em East Germany Poetry - an anthology; selecção do tradutor; Carcanet Press, Oxford, 1972, p. 123).

sábado, 26 de janeiro de 2013

Kurt Marti

Depois do desaparecimento da cidade de Berna



onde tranquilamente
a erva daninha
pode brotar

labirintos
de pedestais de cotos
sobre línguas rochosas
cheias de fetos e selva virgem

ainda assim às vezes
turistas procedentes de
áfrica ou da ásia
tropeçam nos lugares em ruínas

a guia revela-lhes
que em tempos aqui
existiu uma cidade
- BÖRN ou coisa parecida -

e a gente de cor inclina a cabeça
olha rapidamente em redor
tira também algumas fotos dos destroços
e mordisca biscoitos feitos em nairobi



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Hans Leopold Davi reproduzida na Antología de la poesía suiza alemana contemporánea; selecção e introdução do tradutor, Los Libros de la Frontera, s/d., pp. 97-99).

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Antoine Douaihy

Um átomo de vazio



Estou repleto de ti desde um extremo ao outro extremo do meu corpo, e o teu corpo afoga-se em mim sem deixar um só átomo para a razão, a memória, o sentimento consciente, a alma visionária. É possível que te tenha tragado? Ergue a tua mão para mim para que eu saiba que estás viva.
 
 
 
(Versão minha a partir da tradução castelhana de Joumana Haddad reproduzida em Allí donde el río se incendia - Antología de la poesía libanesa moderna, Norteysur, Málaga, 2005, p. 35).

sábado, 19 de janeiro de 2013

Lisel Muller

Literatura americana



Poetas e escritores
movem-se para o interior do vazio
que Edward Hopper lhes deixou.
Instalam-se em espaços desprovidos
onde a luz foi purgada e descolorida até se tornar
numa espécie de branco-crânio, onde nada
cresce senão a ausência. Onde falta alguma coisa,
o homem pelo qual espera uma mulher,
ou a mobília num quarto
nu como uma cama de hospital
depois do doente ter morrido.
Estes interiores desolados
são aquilo que eles têm procurado,
os escritores, chegando aqui com a sua bagagem
feita de varas de vedores, os seus livros com badanas,
as suas difíceis fotografias de família,
as suas camas granulosas e a sua inclinação
para começar fogos em quartos vazios.



(Versão minha; original reproduzido em Alive together - new and selected poems, Louisiana State University Press, Baton Rouge, 1996, p. 31).

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Jon Benito

[Pela terceira vez...]



Pela terceira vez
saio à tua procura.

Procuro-te
nos sítios onde te encontrei até ontem:
nos bares do costume, nos terraços, dando um passeio de bicicleta.

Hoje é dia de festa,
chove pela primeira vez no verão.

Não encontro abrigo para a minha solidão.
Queria encontrar-te debaixo de todos os guarda-chuvas.
Queria abraçar-te debaixo das arcadas.

Tenho vertigens só de pensar que
estás em algum sítio onde não estou.



(Versão minha a partir da tradução castelhana do autor reproduzida em Un puente de palabras - 5 jóvenes poetas vascos; edição bilingue: basco/castelhano; selecção/organização de Jon Kortazar, Centro de Lingüística Aplicada Atenea, Madrid, 2005, p. 147).

domingo, 13 de janeiro de 2013

Marts Pujats

[Não é difícil...]



Não é difícil chegar a um qualquer lugar do mundo,
Avança até à água - olha, olha fixamente, depois nada.

Naquele tempo sentado numa rocha ardente eu disse-te:
A água é um músculo.

A água contrai-se sempre que tu dás as tuas braçadas.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Ieva Lesinska reproduzida em Six latvian poets; organização da tradutora, introdução de Juris Krombergs, Arca, Todmordem, 2011, p. 119).

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Matei Visniec

Uma manhã no parque



Durante as manhãs silenciosas impecáveis
costumo passear com o trompete debaixo do braço
pelo parque municipal

ponho-me de pé em cima de um dos bancos molhados
e sonhador começo a tocar
um homem e uma mulher detêm-se à minha frente
escutam perturbados, abraçam-se logo de seguida
e ele diz-lhe emocionado a partir de amanhã,
sim, a partir de amanhã, mudaremos o nosso modo de vida
trataremos de ser felizes iremos ao
cinema discutiremos arte
coleccionaremos postais pensaremos nas grandes verdades
dia após dia ao entardecer
apertaremos as mãos olhar-nos-emos olhos nos olhos
e a cada vinte e quatro horas
faremos uma boa acção
e no verão
oh, no verão
visitaremos de autocarro a Bulgária



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Angelica Lambru reproduzida em El muro del silencio - Antología de poesía rumana contemporánea, selecção e organização da tradutora, Huerga & Fierro, 2007, p. 162).

domingo, 6 de janeiro de 2013

Dorin Popa

Confissão em dezembro



pedi sempre ao outro, com dureza,
que olhasse as coisas de frente,
mas eu não as olhei

todas as minhas condenações
conservaram-se durante anos à minha frente
mas eu não soube segui-las
não soube segui-las
não soube compreendê-las
não pude decifrá-las
até ao fim

nunca
soube levar nada
até ao fim

só a juventude passa,
só a alegria passa,
só a vida passa,
só ela, a minha culpa inteira, perdura

nunca
soube levar nada
até ao fim

sempre pedi com dureza ao outro
que olhasse as coisas de frente,
mas eu voltei o rosto

e agora que nada espero
a minha esperança
é mais forte do que nunca



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Angelica Lambru reproduzida em El muro del silencio - Antología de poesía rumana contemporánea; selecção e organização da tradutora; Huerga & Fierro, 2007, pp. 150-151).

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Liviu Antonesei

Romance


                                                              Recordação de E. A. Poe



A flor da sua carne não voltarei a ver,
não voltarei a ver, não voltarei a ver
nunca mais
e ela a minha boca não quebrantará
não quebrantará, não quebrantará,
como tantas vezes,
inteira.

Os seus seios nus sobre a minha pele não voltarão,
não voltarão, não voltarão
jamais
e o meu coração para sempre errará
para sempre errará, para sempre errará
no deserto de pedra
áspero.

Na sua gruta não penetrarei mais,
não penetrarei mais, não penetrarei
jamais
e a minha carne morta será, morta será,
morta será,
despedaçada.

A flor da sua carne não voltarei a ver,
não voltarei a ver, não voltarei a ver
recostada
e o botão de rosa não me sorrirá,
não me sorrirá, não me sorrirá
nunca mais.

Nunca mais.
Nunca mais.
Assim grasnou o corvo feroz.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Angelica Lambru reproduzida em El muro del silencio - Antología de poesía rumana comtemporánea; selecção e organização da tradutora; Huerga & Fierro, 2007, pp. 35-36).

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Dieter Fringeli

Hoje



nada
nada mais
ainda nada mais
só tu
só eu
e nada no meio



(Versão minha a partir da tradução de Hans Leopold Davi reproduzida na Antología de la poesía suiza contemporánea, Los libros de la frontera, Barcelona, s/d., p. 245).

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Abu - L - Qasim al - Shabbi

A estranha narrativa



Nós: rimo-nos do passado.
Amanhã o futuro rir-se-á
de nós.
Assim é o mundo, uma história urdida
por algum grande feiticeiro.
Os vivos desempenham o seu maravilhoso papel
como se já estivessem mortos.
O palco é triste
com a sua cortina de nevoeiro.
E por detrás do pano
os espectadores do futuro observam-nos, rindo.
Não se dão conta de que o argumento
vai tombando sobre as suas próprias mãos.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Lena Jayyuri e Naomi Shihab Nye reproduzida em The flag of childhood - peoms from the middle east; selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, 2002, p. 32).

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Merry Little Christmas

 

Alexandre Sarrazola - Emanuel Jorge Botelho - Inês Dias - Luís Filipe Parrado - Manuel de Freitas - Miguel Martins - Renata correia Botelho - Vítor Nogueira - fotografia da sobrecapa de Bert Hardy - composição e paginação de Inês Mateus - Averno - Lisboa - 2012 - 23 páginas

sábado, 22 de dezembro de 2012

Silja Walter

O meu pequeno cão branco e eu



O meu pequeno cão branco e eu -
entrámos e saímos em todas as portas.
Procuramos-te a ti. Procuramo-nos a mim.
Choramos e passamos frio.

A chuva dá grandes voltas no largo.
Faz círculos em crescendo.
Não sei aonde vou nem onde estou
com o meu pequeno cão.

O mundo é grande. E tu és grande.
Onde terminam o caminho e a viagem?
Escuto o aguaceiro,
o meu pequeno cão ladra docemente.

Não te encontro. Não me encontro.
Contigo me perdi.
O meu cão olha entristecido
e aperto a minha cara contra as suas orelhas.



(Versão minha a partir da tradução de Hans Leopold Davi reproduzida em Antología de la poesía suiza alemana contemporánea; selecção e introdução do tradutor, Los Libros de la Frontera, Barcelona, s/d., p. p.71).

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Nós, os desconhecidos




A.M. Pires Cabral - A. Maria de Jesus - Alexandre Sarrazola - David Teles Pereira - Diogo Vaz Pinto - Emanuel Jorge Botelho - Inês Dias - João Almeida - José Carlos Soares - Luís Filipe Parrado - Luis Manuel Gaspar - Manuel de Freitas - Marta Chaves - Miguel Martins - Renata Correia Botelho - Ricardo Álvaro - Rosa Maria Martelo - Rui Caeiro - Rui Miguel Ribeiro - Rui Pires Cabral - Vítor Nogueira - organização de Daniela Gomes e Rui Pires Cabral - capa de Luís Manuel Gaspar - composição e paginação de Inês Mateus - Averno - Lisboa - 2012 - 97 páginas.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Óscar Cruz

Síndrome de Kafka




cinco meses depois da morte
do meu pai ainda encontramos
quem chore por ele. o meu pai,
porém, teria preferido ser
esquecido. creio que foi por isso
que o esquecemos.



(Versão minha; original reproduzido em Dejar atrás el agua. Nueve nuevos poetas cubanos; edição e prólogo de Fruela Fernández e Juan Antonio Bernier, La Bella Varsovia, Córdoba, 2011, p. 78).

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Marina Aoiz Monreal

Nós


Os nós
albergam segredos perigosos.
No seu interior
escondem-se punhais invisíveis
dardos envenenados
que trespassam a luz
em lentíssimas sequências
quando alguém escreve a palavra mão
ou a palavra vida. Os nós
não oferecem consolo. Não possuem
o brilho de um anel de casamento
nem a brancura
do primeiro dente debaixo da almofada.
Os nós
dobram as suas asas de morcego
sobre si mesmos
e escondem-se nos lentos resquícios
da geada nocturna.
Para os enfrentar
há que beber
os raios do sol da meia noite,
beijo a beijo,
e despojar-se de tudo o que se aprendeu.
Só às apalpadelas
se pode rasgar um nó
nos tenebrosos aposentos.
Só a sós,
entre o frio e o nada.



(Versão minha; original reproduzido em Nueva poesía en el viejo reyno. Ocho poetas navarros; selecção e textos introdutórios de Consuelo Allué; apresentação de Jesus Munárriz; Hiperión, Madrid, 2012, pp. 50-51).

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Joseba Sarrionandia

Quarenta nomes para fazer um soneto



William Faulkner. Alice Liddell. Buster Keaton.
James Joyce. Marilyn Monroe. Stephen Crane.
Ambroise Bierce. Marcel Duchamp. Júlio Verne.
Franz Kafka. Herman Melville. André Breton.

Humphrey Bogart. Paul Klee. François Villon.
Jacques Brel. Ezra Pound. Louis Ferdinand Céline.
Nicholas Ray. Dante Alighieri. John Wayne.
Samuel Beckett. Jonathan Swift. John Huston.

Nazim Hikmet. Juliette Greco. Boris Vian.
Edgar Allan Poe. Vladímir Nabokov.
Hieronimus Bosch. Bram Stocker. Paul Celan.

Johan Huizinga. Jean Genet. Marcel Schwob.
Edgar Spencer Dogson. Vladímir Holan.
Edward Lear. Joseph Conrad. Vincent Van Gogh.



(Versão minha a partir do original e da tradução castelhana reproduzida em El otro medio siglo - Antología incompleta de poesía iberoamericana; organização de Antonio Domínguez Rey e outros, Espiral Maior, A Coruña, 2009, p.p. 539-540. Nota: na versão que aqui utilizo (e única que conheço) como fonte da transposição para português dos nomes citados pelo poeta alguns destes surgem grafados erradamente - por exemplo, "Marcel Sohwob" ou "Vincent Vang Gogh". Presumo que se trate de um conjunto de gralhas, alheias à vontade do autor; optei, assim, por corrigir esses "erros". De resto, o próprio nome do poeta aparece escrito, nesta obra, de forma ligeiramente diferente daquela que já conhecia: "Sarrionaindia" em vez de "Sarrionandia"; mantenho esta última).

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Kwang-kiu Kim

O nascimento de uma pedra



Nessas fundas ravinas das montanhas
- pergunto-me -
existirão pedras
que nunca ninguém visitou?
Subi à montanha
em busca de uma pedra que ninguém tivesse visto
desde os tempos mais remotos.

Debaixo dos antigos pinheiros
em encostas íngremes e intransitáveis
havia uma pedra
há quanto tempo
- pergunto-me -
há quanto tempo
esta pedra coberta de musgo
está aqui?

Dois mil anos? Dois milhões? Dois biliões?
Não
De modo nenhum
Se até agora nunca ninguém viu realmente
esta pedra
ela apenas existe
aqui
a partir deste momento
Esta pedra
nasceu só
no momento em que a vi pela primeira vez



(Versão minha a partir da tradução inglesa reproduzida em This Same Sky - a collection of poems around the world, selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, Nova Iorque, 1996, p.111).

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Fernando Luis Chivite

Apontamentos para um manifesto futuro, 9



Sabemos demasiadas coisas.

Sabemos tantas coisas que estamos presos
pelas coisas que sabemos.

Há armas que angustiam
quem as possui. A razão tem cárceres.

Sai daí, sê diurno. Não interrompas
a luz. Apaga a tua marca.



(Versão minha; original reproduzido em Nueva poesía en el viejo reyno. Ocho poetas navarros. Selecção e textos introdutórios de Consuelo Allué; apresentação de Jesús Munárriz; Hiperión, Madrid, 2012, p. 98).

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Fernando Luís Chivite

Epitáfio sarcástico para si mesmo



Na verdade, ainda estava vivo
quando me enterraram.

Sempre consegui enganá-los
com certa facilidade.

No entanto nunca
me serviu de nada.



(Versão minha; original reproduzido em Nueva poesía en el viejo reyno. Ocho poetas navarros; selecção e textos introdutórios de Consuelo Allué; apresentação de Jesús Munárriz, Hiperión, Madrid, 2012, p. 100).

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Leopoldo María Panero

III. O homem que matou Leopoldo María Panero
(The man who shot Leopoldo María Panero)



        O meu querido amigo Javier Barquín pensará sempre que foi ele que matou Leopoldo María Panero. Porém isso não corresponde à verdade. Ninguém tinha então valor para o fazer. O sujeito aterrorizava toda a cidade. Raptara várias mulheres e amaeaçava torturá-las. De tal maneira que me decidi nessa tarde, fui à loja de armas do Jim e comprei um revólver de calibre 45. No momento em que Leopoldo María Panero estava a tentar extorquir mais uma vez Javier Barquín, disparei à distância. Como Javier também tinha sacado uma pequena pistola, supôs ter sido ele que fizera justiça. Toda a vida acreditará que foi ele quem matou Leopoldo María Panero. Mas não foi esse o caso. Eu sou o homem que matou Leopoldo María Panero.



(Versão minha; original reproduzido em Poesía completa (1979-2000); edição Túa Blesa, Visor, 4ª ed., Madrid, 2010, p. 269).

sábado, 24 de novembro de 2012

Leopoldo María Panero

II. O homem que acreditava ser Leopoldo María Panero



      Chovia e voltava a chover sobre a casa de De Kooning, célebre pelas suas aparições. Aí, o filho mais novo de De Kooning levantou-se, nervoso, da cama, vestiu um roupão e foi até ao quarto do pai para lhe dizer que era Leopoldo María Panero. Enquanto se demorava a enfatizar o seu desgosto relativamente a O Desencanto, o filme de Chávarri, não houve outro remédio senão o de se chamar um psiquiatra. Já no manicómio, persistia no seu delírio, imaginava cenas da infância, ruas em Astorga, badaladas, cacetadas do meu pai. Depois de um rápido electrochoque, passou a acreditar que era Eduardo Haro, uma ligeira variação da primeira figura. De seguida, pôs-se a coxear e a tossir e afirmou ser Vicente Aleixandre. Entretanto, em casa de De Kooning, entre barulhos de correntes, continuaram a multiplicar-se as aparições.
 


(Versão minha; original reproduzido em Poesía completa (1970-2000), edição de Túa Blesa, Visor, 4ª edição, Madrid, p. 268).

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Leopoldo María Panero

I. A chegada do impostor que se fingia Leopoldo María Panero



       Ao amanhecer, quando as mulheres comiam morangos frescos, alguém bateu à minha porta dizendo ser e chamar-se Leopoldo María Panero. No entanto, a sua falta de firmeza na representação do papel, os seus abundantes silêncios, os seus enganos ao recordar frases célebres, o seu embaraço quando o obriguei a recitar Pound e, finalmente, o pouco encanto dos seus encantos, convenceram-me de que se tratava de um impostor. Imediatamente fiz vir os soldados: ao amanhecer do dia seguinte, quando os homens comiam peixe congelado, na presença de todo o regimento, foram-lhe arrancados os galões, os fechos de correr, e arrojado ao lixo o seu baton, para ser fuzilado pouco depois. Assim teve o seu fim o homem que se fingia Leopoldo María Panero.
 
 
 
(Versão minha; original reproduzido em Poesía completa (1970-2000); edição de Túa Blesa, Visor, Madrid, 4ª ed., p.267).

domingo, 18 de novembro de 2012

Cheryl Savageau

Por que é que eles fazem isso



O tio Jack bebe porque é índio.
A tia Rita
porque casou com um alemão.
O tio Raymond
porque as pequenas discussões passaram de moda.
O tio  Bébé
porque a Jeannie o encoraja a fazê-lo.
A tia Jeannie porque o tio Bébé o faz.
O Russel porque anda na faculdade.
O tio Jack
porque é um perfeccionista.
O Dave porque está desempregado.
A tia Rita
porque é música.
O Bert porque é casado com a tia Rita.
O Renny
porque gosta de se divertir.
O Gil porque sempre bebeu.
O Raymond
porque a Marie é demasiado esperta.
O Jack porque a Florence não o fará.
A Lucille e o Bob não bebem
porque todos os outros o fazem.
O Raymond por causa de todas as mulheres
que nunca terá.
E o Dick só porque quer esvaziar a pipa.



(Versão minha; original reproduzido em Poetry like bread; selecção de Martín Espada, Curbstone Press, 5ª ed. (ampliada), Willimantic, 2000, p. 229).

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Kurt Marti

Contra a corrente



não existiu
                        já um
que andava sobre as águas?
mais ninguém
conseguiu fazer o mesmo

mas
                       que tu
uma não-nadadora
nades contra a corrente
não é um milagre menos significativo



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Hans Leopold Davi reproduzida em Antología de la poesía suiza alemana contemporánea, Los Libros de la Frontera, Barcelona, 1998, p.101).

sábado, 10 de novembro de 2012

Mohammed El Abdallah

Esta



Esta cabeça sem dúvida vai matar-me.
Não pára de pensar.
Expliquei-lhe mil vezes a inutilidade dos pensamentos,
demonstrei-lhe as razões para desesperar,
mas ela não pára de pensar.
Digo-lhe: está bem,
pensaremos até que o pensamento se esgote.
Então ela adormece por fim apesar de si mesma,
e acorda manhã cedo,
acende um cigarro, toma o café antes de mim
e recorda as histórias de ontem e os pensamentos de ontem.
Lavo-a, e continua a pensar.
Penteio-a, e continua a pensar.
Envio-a ao barbeiro, e continua a pensar.
Mas quando quero pensar num problema que me extenua
ou em alguma coisa que me interessa,
ela geme de dor como se lhe estivesse a bater com um machado.
Esta cabeça vai matar-me.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Joumana Haddad reproduzida em Allí donde el río de incendia - Antología libanesa moderna, Norteysur, Málaga, 2005, pp. 39-40).

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Joanna Pollakówna

Canícula



Porquê esta tão longa prova de dor?
Primeiro assaltou-me a dúvida,
depois recuperei a confiança,
revoltei-me
e remeti-me ao silêncio da humildade.
Continuas a testar-me.
E a prova final parece sempre tão distante,
as complicações de sentido indecifráveis.

Na fogueira azul da canícula eterna
o teu amor nunca se inclina para a frieza;
não há refúgio nem meio de fugir.
Não há resposta
porque não há pergunta.



(Versão minha a partir da tradução francesa de Georges Lisowki reproduzida em Vingt-quatre poètes polonais, Éditions du Murmure, Neuilly-lès-Dijon, 2003, p. 125).

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Din Mehmeti

Tenho um pedido a fazer



Eu tenho um pedido a fazer
Que vai transformar uma pedra numa maçã,
Uma maçã num pássaro,
Quando a estrela souber o seu nome
Desvanecer-se-á num sopro de fumo.

Um pedido que envolve lágrimas
E vai transformar o pássaro numa bala,
A bala numa flor,
Túmulo após túmulo
Até que brote toda uma encosta.

É o suspiro da alma
Que arde na música
E nasce na sua própria morte.

Vamos empilhar os ossos, diz ela,
E erguer uma torre de amor
Pois o futuro solicitará de nós
Um farol para enfrentar a tempestade.



(Versão minha a partir dda tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry; Northwestern University Press, Evanston - Illinois, 2008, p. 184).

sábado, 3 de novembro de 2012

Rainer Brambach

Vida quotidiana



Ir aonde tenha de ir
Plantar uma  árvore nova
Regar o jardim ainda que chova sem cessar
Engraxar os pneus
e testar os travões
Ler o jornal sem o desejo
de emigrar
Receber os amigos
Poder esquecer
Rosas ou galinhas?
Escrever poemas
e não fazer caso da música dos contrabaixos
do céu
que está azul ou encoberto.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Hans Leopold Davi reproduzida em Antología de la poesía suiza alemana contemporànea, Libros de la frontera, Barcelona, s/d., p 53.)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Fouad Rifka

Profissão



- Qual é a tua profissão?
- Pescador.
- E que pescas tu?
- Baleias.
- E onde estão as baleias?
- Nos mares onde as ondas são vulcões.
- Aí não há cordas nem rochas, só remos destroçados,
   e os faróis são mais profundos do que o silêncio.
- Eu sei.
- E apesar disso abandonas as praias?
- O país do poeta está no perigo.
- Ou na loucura.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Joumana Haddad reproduzida em Allí donde el río se incendia - Antología de la poesía libanesa moderna, Norteysur, Málaga, 2005, p. 16).